<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Helium Integers ]]></title><description><![CDATA[ensaios informados pela teoria econômica sobre assuntos diversos]]></description><link>https://www.heliumintegers.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!sXAW!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Ff4c1f658-2418-4769-b2bf-e7433cd136cb_1024x1024.png</url><title>Helium Integers </title><link>https://www.heliumintegers.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Wed, 06 May 2026 11:21:32 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://www.heliumintegers.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Guilherme Stein]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[heliumintegers@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[heliumintegers@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Guilherme Stein]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Guilherme Stein]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[heliumintegers@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[heliumintegers@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Guilherme Stein]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[O Guerreiro e o Sacerdote em Sangue Negro]]></title><description><![CDATA[Conan, o B&#225;rbaro, Kickers na Premier League, Nietzsche e o que o modelo de Roy revela sobre valores morais.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-guerreiro-e-o-sacerdote-em-sangue</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-guerreiro-e-o-sacerdote-em-sangue</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Thu, 26 Feb 2026 09:30:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/270472d0-230b-4db9-93ba-436697340a0b_1600x1067.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><code>ELI: Eu tive uma vis&#227;o do Esp&#237;rito Santo de que precisar&#237;amos de mais espa&#231;o na Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o. Ele me explicou que eu deveria derrubar esta parede, pois Suas visitas seriam frequentes.</code></p><p><code>(PAUSA. Daniel observa a igreja.)</code></p><p><code>DANIEL: Eu devo confessar que s&#243; conhe&#231;o duas revela&#231;&#245;es... h&#225; uma no Antigo Testamento e outra no Novo Testamento... &#233; isso mesmo?</code></p><p><code>ELI: Isso mesmo, Daniel.</code></p><p><code>DANIEL: Qual &#233; a terceira?</code></p><p><code>ELI: Eu... eu sou a Terceira Revela&#231;&#227;o.</code></p></blockquote><p>Pode um grande homem ser julgado por um homem comum? Pode a castidade de um homem famoso ser julgada por um ilustre desconhecido, ou a prud&#234;ncia f&#237;sica de um lutador profissional ser julgada por um fracote? Afinal, o desconhecido nunca ser&#225; tentado por mulher alguma e o fracote, incapaz de machucar quem quer que seja, nunca precisar&#225; exercer a prud&#234;ncia.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a> Em outras palavras, um homem para o qual as restri&#231;&#245;es morais sequer chegam a ser testadas poderia opinar sobre o comportamento alheio? Mais ainda: se h&#225; algum elemento democr&#225;tico na determina&#231;&#227;o das regras morais em uma comunidade, n&#227;o ser&#227;o os grandes limitados em suas capacidades pelos med&#237;ocres, uma vez que estes, por defini&#231;&#227;o, excedem em n&#250;mero aqueles? Nesse caso, os valores morais e o que &#233; considerado bom s&#227;o verdadeiramente bons, ou a moralidade &#233; apenas um instrumento de controle dos fracos sobre os fortes?</p><p>Em &#8220;Sangue Negro&#8221; o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson aborda essas quest&#245;es com grande for&#231;a. A hist&#243;ria do filme se passa no in&#237;cio do s&#233;culo XX, quando a ind&#250;stria do petr&#243;leo ainda se consolidava. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) &#233; um empres&#225;rio que atua no setor de extra&#231;&#227;o de petr&#243;leo. Ele vai at&#233; uma propriedade rural em Little Boston, no estado da Calif&#243;rnia, ap&#243;s receber uma dica sobre a exist&#234;ncia de uma grande reserva de combust&#237;vel f&#243;ssil naquela localidade. &#201; naquela propriedade que ele conhece Eli Sunday, um jovem pastor de uma igreja local e membro da fam&#237;lia dona das terras cobi&#231;adas por Daniel. A trama do filme retrata a disputa entre os dois personagens: Daniel e Eli. O conflito &#233; uma bela representa&#231;&#227;o do &#8220;modelo&#8221; <em>Guerreiro vs. Sacerdote</em> desenvolvido por Friedrich Nietzsche.</p><h4><strong>***</strong></h4><p>A B&#237;blia (com &#234;nfase em sua empolgante conclus&#227;o &#8212; o Novo Testamento) e a Il&#237;ada fazem parte da espinha dorsal do &#8220;Ocidente&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Embora sejam pilares de uma mesma civiliza&#231;&#227;o, as obras oferecem vis&#245;es distintas do que significa ser &#8220;excelente&#8221;. A gl&#243;ria de Aquiles estava na guerra de Tr&#243;ia e no triunfo sobre os troianos. J&#225; a gl&#243;ria de Cristo estava em ajudar os pobres e os doentes, perdoar os inimigos e morrer pelo pr&#243;ximo. At&#233; o advento do cristianismo, o forte, o belo e o bravo eram os que estavam associados ao &#8220;bom&#8221;. Depois de Cristo, no entanto, a r&#233;gua &#233; modificada. No Serm&#227;o da Montanha, somos ensinados que os bons s&#227;o os humildes, os pacificadores e os que choram. Essa mudan&#231;a alterou drasticamente as concep&#231;&#245;es de virtude do mundo antigo e, com elas, diversas pr&#225;ticas foram abandonadas. Como explicar essa mudan&#231;a?</p><p>Das poss&#237;veis explica&#231;&#245;es para esse mist&#233;rio, aquela oferecida por Friedrich Nietzsche tornou-se muito influente no s&#233;culo XX. O fil&#243;sofo dir&#225; que a ruptura dr&#225;stica entre o mundo antigo e o crist&#227;o n&#227;o foi deflagrada pela real encarna&#231;&#227;o do Verbo Divino, mas, sim, pelo florescimento de uma nova moralidade baseada no ressentimento. Segundo Max Scheler, Nietzsche &#8220;caracteriza a ideia do amor crist&#227;o como a mais delicada flor do ressentimento&#8221;. Essa flor teria surgido em meio &#224; religi&#227;o judaica, que, segundo o fil&#243;sofo alem&#227;o, professava a exist&#234;ncia de um Deus vingativo. A exalta&#231;&#227;o do fraco, do humilde e a valoriza&#231;&#227;o do amor dirigido a ele seriam artif&#237;cios psicol&#243;gicos de um povo acostumado a ser oprimido. Seria o resultado da impot&#234;ncia, da incapacidade de a&#231;&#227;o diante de algu&#233;m mais forte.</p><p>Para explicar como se deu essa ruptura na hist&#243;ria, o fil&#243;sofo prop&#245;e um modelo no qual o sistema de valores dominante resulta de uma luta entre castas da mesma aristocracia: a casta do Sacerdote e a casta do Guerreiro. Segundo Nietzsche, as duas castas operam sob moralidades distintas. Enquanto o Guerreiro age guiado por um sistema de valores que considera boas a conquista, a for&#231;a e a excel&#234;ncia nas qualidades f&#237;sicas, o Sacerdote promove um regime de abnega&#231;&#227;o, pacifismo e fraqueza. Ainda segundo Nietzsche, enquanto os guerreiros perseguem os valores que seriam &#8220;naturais&#8221; (o mais forte deve ser o melhor), os sacerdotes operam em um sistema lastreado no ressentimento, por n&#227;o possu&#237;rem as qualidades dos guerreiros.</p><h4>Daniel, o Guerreiro Americano</h4><p>Guerreiros s&#227;o forjados no calor da batalha. A primeira batalha do guerreiro Daniel Plainview (retratada na primeira cena do filme, como filmes sobre guerreiros costumam fazer) &#233; contra uma rocha. Daniel est&#225; em um buraco na terra procurando ouro ou prata encrustados na pedra. A pedra era sua inimiga. Ela tinha a posse dos metais cobi&#231;ados, que, do ponto de vista de Daniel, pertenciam a ele, pois ele e a sua dinamite eram mais fortes do que a pedra. Ap&#243;s uma luta dura, em que Daniel quase morre, vemos nosso guerreiro ferido, segurando um peda&#231;o da rocha brilhante, prateada. A rocha foi derrotada e Daniel obrigou-a a entregar seus tesouros. </p><p>A segunda cena do filme tamb&#233;m &#233; uma batalha. Daniel usou os esp&#243;lios de guerra para adquirir novas m&#225;quinas de guerra. O inimigo era o mesmo, a rocha, mas o objetivo era diferente. O Plainview queria o petr&#243;leo. Novamente, ap&#243;s uma feroz batalha, Daniel e seus p&#250;gilos irm&#227;os triunfam sobre a rocha. No entanto, um dos homens acaba morrendo no processo, deixando o filho &#243;rf&#227;o, que &#233; adotado por Daniel.</p><p>A Signal Hill Petroleum prospera e se torna um neg&#243;cio familiar, pois o empres&#225;rio &#233; acompanhado por H.W. Plainview, a crian&#231;a que ele adotara. Ap&#243;s comprarem informa&#231;&#245;es fornecidas por um sujeito misterioso sobre a exist&#234;ncia de grandes reservas de petr&#243;leo num vilarejo da Calif&#243;rnia, Daniel e seu filho partem para l&#225;. Novamente, assim como guerreiros, eles chegam &#224;s terras da fam&#237;lia Sunday como se fossem batedores ou espi&#245;es que coletam informa&#231;&#245;es sobre um ex&#233;rcito inimigo. Sob o pretexto de ca&#231;ar codornas, a dupla pede permiss&#227;o para acampar nas terras da fam&#237;lia. Explorando o local enquanto ca&#231;avam, eles confirmaram que a propriedade de fato possu&#237;a petr&#243;leo.</p><blockquote><p><code>H. W.: Pai! Pai, olha meu sapato.</code></p><p><code>DANIEL: Isso &#233; &#243;leo de terremoto. Solto.</code></p><p><code>(...)</code></p><p><code>DANIEL: Ent&#227;o, ent&#227;o. Se houver alguma coisa aqui, a gente leva at&#233; o mar. O que fazemos &#233; construir um oleoduto at&#233; Port Hueneme ou Santa Paula, d&#225; umas 100 milhas, e fechamos um acordo com a Union Oil. &#201; isso que fazemos. A&#237; n&#227;o precisamos mais das ferrovias e dos custos de transporte deles. Est&#225; vendo?</code></p><p><code>H. W.: Sim.</code></p><p><code>DANIEL: Est&#225; vendo isso?</code></p><p><code>H. W.: Sim.</code></p><p><code>DANIEL: A&#237; &#233; que estamos ganhando dinheiro. Estamos ganhando o dinheiro de verdade. O que dever&#237;amos estar ganhando. N&#227;o apenas&#8230; n&#227;o apenas jogando fora com custos de transporte. Caso contr&#225;rio, &#233; s&#243; lama.</code></p></blockquote><p>A furtividade de Daniel era justificada por dois motivos: o primeiro era &#243;bvio, afinal, era poss&#237;vel que a fam&#237;lia Sunday n&#227;o soubesse da exist&#234;ncia de petr&#243;leo em suas terras e, portanto, desconhecesse o valor real delas. Obviamente, o empres&#225;rio e seu filho gostariam que continuassem n&#227;o sabendo. O segundo motivo tem rela&#231;&#227;o com a pr&#243;pria natureza da ind&#250;stria de petr&#243;leo no come&#231;o do s&#233;culo XX. Mesmo que Plainview e seu filho confirmassem a exist&#234;ncia de uma reserva nas terras daquela fam&#237;lia e fizessem um contrato de leasing, a vit&#243;ria n&#227;o estaria garantida. Nos EUA, naquela &#233;poca, a explora&#231;&#227;o de minerais era regida pela &#8220;regra de captura&#8221; (rule of capture). Ela dizia que o conte&#250;do do subsolo pertencia ao propriet&#225;rio da terra. No entanto, era muito comum que propriedades de diferentes donos compartilhassem um mesmo reservat&#243;rio de petr&#243;leo. Isso significava na pr&#225;tica que, embora a superf&#237;cie fosse privatizada (cada propriet&#225;rio tivesse direito exclusivo sobre ela), a reserva do subsolo poderia muito bem ser uma propriedade comum e, portanto, ser sujeita &#224; trag&#233;dia dos comuns. A trag&#233;dia dos comuns, nesse caso, acontece da seguinte forma: A not&#237;cia de que um vizinho come&#231;ar&#225; a extrair petr&#243;leo em sua propriedade deflaga uma corrida pela extra&#231;&#227;o de petr&#243;leo entre os demais vizinhos. Isso era particularmente comum, pois os custos de entrada no mercado de extra&#231;&#227;o e de armazenamento eram relativamente baixos na &#233;poca.</p><p> (<em>De fato, nessa &#233;poca, o maior problema para um empres&#225;rio do petr&#243;leo era o custo de transporte para levar o petr&#243;leo at&#233; a refinaria e ao mercado consumidor. Resolver essa quest&#227;o foi o que fez Rockefeller se tornar um magnata do petr&#243;leo. Ao garantir um pre&#231;o de frete mais baixo para seu produto junto &#224;s ferrovias, o empres&#225;rio conseguia refinar e entregar o produto a um pre&#231;o mais baixo do que o dos concorrentes. Sua condi&#231;&#227;o de monopolista come&#231;ou a ser quebrada com o desenvolvimento dos oleodutos, aos quais o filme faz refer&#234;ncia no di&#225;logo acima.</em>)</p><p>A corrida para n&#227;o deixar as reservas de suas propriedades serem drenadas pelos vizinhos gera uma extra&#231;&#227;o excessiva. Esta, por sua vez, aumenta significativamente a chance de ocorrer um fen&#244;meno chamado <em>trapping</em>, em que o petr&#243;leo da reserva fica preso debaixo de bols&#245;es de g&#225;s e &#225;gua, inviabilizando prematuramente a extra&#231;&#227;o de petr&#243;leo naquela localidade. Para garantir a hegemonia da reserva, portanto, um empres&#225;rio astuto precisa adquirir primeiro n&#227;o s&#243; as terras onde o petr&#243;leo foi encontrado, mas tamb&#233;m todas as terras vizinhas. Foi justamente isso que Daniel tentou fazer. Antes, no entanto, ele precisava fazer uma proposta aos propriet&#225;rios da terra onde ele e seu filho estavam. Novamente, o esp&#237;rito marcial fica evidente quando H. W. pergunta:</p><blockquote><p><code>H. W.: Quanto vamos pagar a eles?</code></p><p><code>DANIEL: A quem?</code></p><p><code>H. W.: &#192; fam&#237;lia Sunday.</code></p><p><code>DANIEL: N&#227;o vou pagar a eles pre&#231;o de petr&#243;leo. Vou pagar pre&#231;o de codorna.</code></p></blockquote><p>Na cena seguinte, Daniel e seu filho come&#231;am a fazer a proposta de compra da propriedade da fam&#237;lia Sunday. Sentado &#224; mesa, ele se dirige a Abel Sunday, o chefe da casa, e oferece pre&#231;o de codorna pelas terras do humilde colono. Abel estava em vias de aceitar, quando &#233; interrompido pelo quarto integrante da mesa, Eli Sunday, seu filho mais velho:</p><blockquote><p><code>ELI: E o nosso petr&#243;leo?</code></p><p><code>DANIEL: O que tem ele?</code></p><p><code>ELI: Temos petr&#243;leo aqui. Isso vale alguma coisa.</code></p><p><code>DANIEL: Voc&#234; tem algu&#233;m que possa perfurar? Voc&#234; acha que tem petr&#243;leo aqui?</code></p><p><code>ELI: Eu sei que tem.</code></p><p><code>DANIEL: &#201; muito caro perfurar. Tirar o petr&#243;leo do fundo da terra. Voc&#234; j&#225; tentou fazer isso antes?</code></p><p><code>ELI: Quanto custa?</code></p><p><code>DANIEL: &#201; caro.</code></p><p><code>ELI: Bem, o nosso petr&#243;leo est&#225; bem na superf&#237;cie.</code></p><p><code>DANIEL: Acredito que isso se chama exsuda&#231;&#227;o. N&#227;o significa necessariamente que haja algo embaixo.</code></p><p><code>ELI: Quanto voc&#234; nos daria por isso?</code></p><p><code>DANIEL: N&#227;o sei.</code></p><p><code>ELI: Algo que voc&#234; n&#227;o sabe.</code></p><p><code>DANIEL: Isso mesmo. O que voc&#234; quer, Eli?</code></p><p><code>ELI: Dez mil d&#243;lares.</code></p><p><code>DANIEL: Por qu&#234;?</code></p><p><code>ELI: Para a minha igreja.</code></p></blockquote><h4>Eli, o Pastor</h4><p>N&#227;o s&#227;o necess&#225;rios grandes esfor&#231;os de abstra&#231;&#227;o para identificar Eli como o representante da casta sacerdotal, afinal, ele &#233; literalmente um pastor de uma pequena congrega&#231;&#227;o chamada &#8220;A Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o&#8221;. Ao contr&#225;rio de Daniel, que ilustra sua casta de forma ativa, enfrentando a natureza e seus concorrentes, a caracteriza&#231;&#227;o do sacerdote Eli &#233; mais sutil, pois grande parte do que o define se passa dentro dele. O ressentimento que caracteriza a classe &#233; resultado de sentimentos como &#243;dio, mal&#237;cia e inveja, misturados &#224; impot&#234;ncia. Desse jogo mental nascem os valores da casta e, a partir deles, suas atitudes. Por exemplo, a bondade para com o inimigo e o perd&#227;o v&#234;m da impot&#234;ncia de derrotar algu&#233;m mais forte; j&#225; a humildade, mansid&#227;o e paci&#234;ncia t&#234;m origem na covardia perante um inimigo formid&#225;vel, etc. </p><p>A exterioridade calma e a interioridade agitada da personagem tornam dif&#237;cil selecionar uma cena que caracterize Eli Sunday como o sacerdote nietzschiano. Talvez a maneira mais f&#225;cil de enxerg&#225;-lo como sacerdote seja contrast&#225;-lo com seu antagonista, Daniel Plainview. A primeira diferen&#231;a que salta aos olhos &#233; f&#237;sica. Eli &#233; jovem, sem barba nem bigode; tem tra&#231;os suaves e aparenta ser fraco fisicamente; j&#225; Daniel &#233; mais velho e mais alto; seu rosto &#233; bruto e ele &#233; visivelmente mais forte. Ou seja, ambos apresentam tra&#231;os f&#237;sicos condizentes com suas castas. Al&#233;m disso, ao contr&#225;rio de Daniel, que veste trajes prop&#237;cios ao trabalho no campo, o sacerdote usa uma roupa pr&#243;pria de pastor, preta, s&#243;bria e limpa, que simboliza os valores de sua casta (austeridade, limpeza, mod&#233;stia). A segunda diferen&#231;a diz respeito ao comportamento. Como um bom guerreiro, o empres&#225;rio &#233; franco e direto (como evoca o seu nome: &#8220;Plainview&#8221;, que pode ser traduzido como &#8220;vista clara&#8221;). Em contrapartida, seu antagonista &#233; elusivo, dissimulado e manipulador. A performance de Paul Dano (o ator que interpreta Eli Sunday) &#233; muito precisa nesse ponto: seu jeito modesto de caminhar, suas express&#245;es faciais aparentemente amistosas e sua fala mansa s&#227;o caracter&#237;sticas exteriores que se esperam de um bom pastor. No entanto, Eli deixa escapar, em seu olhar, justamente o conflito interno entre mal&#237;cia e impot&#234;ncia, como se fosse um lobo, n&#227;o usando, mas preso em uma pele de cordeiro.</p><h4>***</h4><p>Ap&#243;s fazer neg&#243;cio com a fam&#237;lia Sunday (com a promessa de patrocinar a congrega&#231;&#227;o de Eli), Daniel tratou de assegurar a propriedade das terras vizinhas ao rancho de Abel e de Eli. Com as terras garantidas, o guerreiro enfrentaria agora os velhos advers&#225;rios de sempre: a natureza (tirar petr&#243;leo do ch&#227;o &#233; sempre arriscado); os concorrentes que come&#231;avam a prestar mais aten&#231;&#227;o &#224;quela regi&#227;o da Calif&#243;rnia; e a Standard Oil, que dominava o transporte de petr&#243;leo pela malha ferrovi&#225;ria e queria for&#231;&#225;-lo a vender suas terras. Todos os tr&#234;s advers&#225;rios falavam a mesma l&#237;ngua dele. A l&#237;ngua da for&#231;a, da vitalidade, do mais forte. Ocorre que, al&#233;m desses advers&#225;rios, havia Eli. </p><p>Diferentemente dos demais advers&#225;rios, o jovem pastor n&#227;o era forte. Inicialmente, Daniel decidiu ignor&#225;-lo, como se fosse apenas um jovem tolo. Por exemplo, quando Eli pediu para que ele pudesse aben&#231;oar o po&#231;o que seria inaugurado, Daniel concordou, mas, quando chegou a hora, o empres&#225;rio decidiu n&#227;o cham&#225;-lo para subir no po&#231;o. Em vez de protestar, Eli simplesmente fica calado. Ap&#243;s a inaugura&#231;&#227;o do po&#231;o, tudo parecia funcionar bem at&#233; que, um dia, um acidente vitimou um dos trabalhadores. Daniel vai falar com Eli sobre o ocorrido e o jovem pastor usa o acidente para tentar manipular o empres&#225;rio, acusando-o de ter deixado seus homens beberem e de ter recusado a b&#234;n&#231;&#227;o do po&#231;o. (O sentimento de culpa e o contraste entre &#8220;pureza&#8221; e &#8220;impureza&#8221; s&#227;o caracter&#237;sticos da casta sacerdotal, segundo Nietzsche.) O di&#225;logo termina com Daniel impass&#237;vel. Uma segunda trag&#233;dia ocorre em um dos po&#231;os da propriedade da fam&#237;lia Sunday. Dessa vez, o filho de Daniel &#233; a v&#237;tima. O garoto sobrevive, mas perde a audi&#231;&#227;o e Daniel acaba mandando-o para outra cidade. Novamente, Eli aproveita a situa&#231;&#227;o para manipular Daniel. Novamente, o guerreiro decide resolver o problema nos seus termos e d&#225; uma surra em Eli.</p><p>Note, leitor, que, aos olhos da comunidade, ambos s&#227;o membros da aristocracia. Daniel &#233; o guerreiro, o homem que traz, mesmo que por autointeresse, empregos, escolas e estradas para a regi&#227;o. Eli, por outro lado, &#233; quem traz, mesmo que inautenticamente, o consolo aos que sofrem, o esp&#237;rito comunit&#225;rio e a esperan&#231;a. Daniel Plainview despreza Eli, pois n&#227;o enxerga nada de excelente ou de valor no que o pastor oferece, e Eli ressente Daniel, pois n&#227;o tem o que precisa para ser como ele. </p><p>Daniel &#233; implac&#225;vel. Nem a morte de um de seus funcion&#225;rios, nem o grave acidente de seu filho adotivo (do qual ele realmente parece gostar) o distraem de seu objetivo, tampouco o fazem reconhecer Eli como l&#237;der espiritual. O problema &#233; que, como j&#225; foi mencionado, Daniel precisa de um oleoduto caso n&#227;o queira depender da Standard Oil. Para construir esse oleoduto, ele precisa de todas as terras que o levam at&#233; o destino final. Daniel tinha todas as terras, exceto a do Sr. Bandy, um membro devoto da Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o. E ele n&#227;o queria dinheiro:</p><blockquote><p><code>MR. BANDY: Agora, eu sei que o senhor gostaria de construir um oleoduto atrav&#233;s da minha propriedade. &#201; isso mesmo que eu ouvi?</code></p><p><code>DANIEL: Est&#225; absolutamente certo. E, bem&#8230; Um cano de oito polegadas. Ele poderia ser enterrado com o seu consentimento. Eu lhe garanto absolutamente nenhuma interrup&#231;&#227;o&#8230;</code></p><p><code>MR. BANDY: Deus. Deus me disse o que o senhor deve fazer.</code></p><p><code>DANIEL: E o que &#233; isso?</code></p><p><code>MR. BANDY: O senhor deve ser lavado no sangue de Jesus Cristo.</code></p><p><code>DANIEL: Mas eu j&#225; fui. Eu j&#225; fui lavado, Sr. Bandy. Eu j&#225; fui.</code></p><p><code>MR. BANDY: &#201; o seu &#250;nico caminho para a salva&#231;&#227;o. E o seu &#250;nico caminho para conseguir o que quer. O senhor pode fazer isso na Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o.</code></p></blockquote><p>Agora n&#227;o havia escapat&#243;ria para Daniel. Toda a sua for&#231;a f&#237;sica, sua sagacidade, sua vitalidade e, sobretudo, o seu dinheiro n&#227;o servem de nada ao Sr. Bandy. Ali, os valores dos guerreiros pouco importavam. Eram os sacerdotes que mandavam. Sendo assim, Daniel acaba tendo que aceitar a oferta e se submeter ao &#8220;batismo&#8221; ministrado por ningu&#233;m menos do que Eli. </p><p>A cena seguinte &#233; certamente um dos grandes momentos do cinema. Paul Thomas Anderson nos coloca novamente na Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o. Eli est&#225; pregando fervorosamente e tem a aten&#231;&#227;o total da congrega&#231;&#227;o. Daniel est&#225; sentado ao lado de Bandy. Ap&#243;s concluir seu discurso, ele pergunta: &#8220;Agora, temos um pecador em busca de salva&#231;&#227;o? Um novo membro?&#8221;. A c&#226;mera corta para Daniel, que est&#225; visivelmente incomodado, mas acaba se levantando e vai at&#233; Eli para ser batizado. Apenas a transcri&#231;&#227;o do di&#225;logo da cena do batismo n&#227;o faz jus &#224;s performances de Daniel Day-Lewis e Paul Dano (eu convido o leitor a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=O-xjW_ig1KI">assistir</a>), mas vale a pena transcrev&#234;-lo, pois ele &#233; pedag&#243;gico:</p><blockquote><p><code>ELI: Temos aqui um pecador que deseja a salva&#231;&#227;o! Daniel, voc&#234; &#233; um pecador?</code></p><p><code>DANIEL: Sim.</code></p><p><code>ELI: O Senhor n&#227;o pode ouvi-lo, Daniel. Diga isso a Ele. V&#225; em frente, fale com Ele. Est&#225; tudo bem.</code></p><p><code>DANIEL: Sim.</code></p><p><code>ELI: Ajoelhe-se. Ore a Ele.</code></p><p><code>(DANIEL PIGARREIA)</code></p><p><code>ELI: Olhe para o c&#233;u e diga.</code></p><p><code>DANIEL: O que voc&#234; quer que eu diga?</code></p><p><code>Eli: Daniel, voc&#234; veio aqui e trouxe bens e riqueza, mas tamb&#233;m trouxe seus maus h&#225;bitos de ap&#243;stata. Voc&#234; cobi&#231;ou mulheres e abandonou seu filho. Seu filho, que voc&#234; criou, voc&#234; o abandonou s&#243; porque ele estava doente, e voc&#234; pecou. Ent&#227;o diga agora: eu sou um pecador.</code></p><p><code>DANIEL: Eu sou um pecador.</code></p><p><code>ELI: Diga mais alto. &#8216;Eu sou um pecador.&#8217;</code></p><p><code>DANIEL: Eu sou um pecador.</code></p><p><code>ELI: Mais alto, Daniel! &#8216;Eu sou um pecador!&#8217;</code></p><p><code>DANIEL: Eu sou um pecador.</code></p><p><code>ELI: &#8216;Eu sinto muito, Senhor.&#8217;</code></p><p><code>DANIEL: Eu sinto muito, Senhor.</code></p><p><code>ELI: &#8216;Eu quero o sangue.&#8217;</code></p><p><code>DANIEL: Eu quero o sangue.</code></p><p><code>ELI: Voc&#234; abandonou seu filho.</code></p><p><code>DANIEL: Eu abandonei meu filho.</code></p><p><code>ELI: Eu nunca mais vou me desviar.</code></p><p><code>DANIEL: Eu nunca mais vou me desviar.</code></p><p><code>ELI: &#8216;Eu estava perdido, mas agora fui encontrado.&#8217;</code></p><p><code>DANIEL: Eu estava perdido, mas agora fui encontrado.</code></p><p><code>ELI: &#8216;Eu abandonei meu filho.&#8217; Diga. Diga.</code></p><p><code>DANIEL: Eu abandonei meu filho.</code></p><p><code>ELI: Diga mais alto. Mais alto!</code></p><p><code>DANIEL (EMOCIONADO): Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu menino!</code></p><p><code>(ELI GRITANDO E GESTICULANDO COM FERVOR RELIGIOSO)</code></p><p><code>ELI: Agora implore pelo sangue!</code></p><p><code>DANIEL: Apenas me d&#234; o sangue, Eli. Deixe-me sair daqui. D&#234;-me o sangue, Senhor, e deixe-me ir embora!</code></p><p><code>ELI: Voc&#234; aceita Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador?</code></p><p><code>DANIEL: Sim, aceito. </code></p><p><code>ELI: Saia daqui, diabo! Fora, diabo! Fora, pecado!</code></p><p><code>(ELI ESBOFETEIA DANIEL REPETIDAMENTE)</code></p><p><code>DANIEL: Deixe-me sentir o poder do Senhor, Eli.</code></p><p><code>ELI: Voc&#234; aceita a Igreja da Terceira Revela&#231;&#227;o como sua guia espiritual? </code></p><p><code>ELI: Saia daqui, esp&#237;rito!</code></p><p><code>DANIEL: Onde est&#225; o seu Senhor, Eli?</code></p><p><code>ELI: Saia! Volte para onde voc&#234; pertence!</code></p><p><code>DANIEL: Onde ele est&#225;? L&#225; est&#225; ele!</code></p><p><code>ELI: Voc&#234; aceita Jesus Cristo como seu Salvador?</code></p><p><code>DANIEL: Sim, aceito.</code></p></blockquote><p>A cena do batismo de Daniel ilustra com perfei&#231;&#227;o o que Nietzsche descreve em sua obra: a submiss&#227;o do guerreiro ao sacerdote e a consequente invers&#227;o de valores. Nela, vemos o guerreiro com toda a sua for&#231;a, vitalidade e riqueza de joelhos ao sacerdote, fisicamente fraco, d&#233;bil e emotivo. Como Eli mesmo afirma, Daniel havia trazido prosperidade &#224; regi&#227;o, tornando-a um local agitado e cheio de vida, mas esses valores n&#227;o s&#227;o os apreciados pela classe sacerdotal. Com o progresso, Daniel havia trazido tamb&#233;m &#8216;o pecado&#8217; e os excessos. Eli acusa o empres&#225;rio de pecados e, em particular, de um pecado que o pr&#243;prio Daniel aparentemente reconhece como leg&#237;timo (Daniel mandou embora seu filho adotivo para que pudesse continuar com seu plano). A acusa&#231;&#227;o, no entanto, pouco tem a ver com fazer Daniel buscar o arrependimento ou a reden&#231;&#227;o. N&#227;o. Eli quer apenas se vingar de Daniel. Com o guerreiro de joelhos, o sacerdote arrisca at&#233; bater nele, algo que seria imposs&#237;vel em outro contexto. O ressentimento aparece claramente e se manifesta como vingan&#231;a, como explica Max Scheler: </p><blockquote><p><em>Ressentimento &#233; um autoenvenenamento da mente que possui causas e consequ&#234;ncias bastante definidas. Trata-se de uma atitude mental duradoura, causada pela repress&#227;o sistem&#225;tica de certas emo&#231;&#245;es e afetos que, enquanto tais, s&#227;o componentes normais da natureza humana. Sua repress&#227;o leva a uma tend&#234;ncia constante a se entregar a determinados tipos de ilus&#245;es de valor e aos correspondentes ju&#237;zos de valor. As emo&#231;&#245;es e afetos principalmente envolvidos s&#227;o a vingan&#231;a, o &#243;dio, a mal&#237;cia, a inveja, o impulso de depreciar e o despeito. A sede de vingan&#231;a &#233; a fonte mais importante do ressentimento.</em></p><p>Max Scheler. Ressentiment (pp. 7&#8211;8). Edi&#231;&#227;o do Kindle.</p></blockquote><p>No fim, Daniel aceita a humilha&#231;&#227;o imposta por Eli. Como diria Nietzsche, a casta sacerdotal vence a casta guerreira. Os valores &#8220;naturais&#8221; s&#227;o subvertidos por valores dos ressentidos, daqueles sobre quem os guerreiros s&#227;o superiores.</p><p></p><h4>Isso tudo &#233; muito impressionante, mas &#233; verdade?</h4><p>At&#233; um economista consegue admitir que Nietzsche &#233; um &#243;timo escritor, capaz de transmitir ideias de forma impactante. No entanto, mesmo sob o impacto de suas palavras, ainda &#233; necess&#225;rio perguntar: o que o fil&#243;sofo alem&#227;o diz &#233; verdade? &#201; verdade que a origem dos valores morais crist&#227;os est&#225; no ressentimento? Evidentemente, essa pergunta j&#225; foi feita. Por exemplo, o fil&#243;sofo <a href="https://a.co/d/8rWfp9I">Max Scheler</a>, em sua obra &#8220;Ressentimento&#8221;, mostra que o Nietzsche falha ao compreender as origens dos valores crist&#227;os. Ele come&#231;a explicando que o elemento mais central do cristianismo &#233; o amor. N&#227;o um amor como era compreendido pelos gregos, que sempre partia do ser inferior para o superior, daquele que ama algo que o amado possui. O amor no cristianismo partia justamente da dire&#231;&#227;o oposta: Deus, mesmo absolutamente perfeito, ama suas criaturas, n&#227;o porque deseja ou precisa de algo delas, mas sim, diz Scheler, como uma express&#227;o de abund&#226;ncia de for&#231;a e nobreza. Ou seja, na origem do cristianismo, o amor ao pr&#243;ximo est&#225; na ideia de que o nobre, aquele que &#233; mais completo acaba transbordando sua vitalidade para os menos completos. <em>(O que &#233; algo bem &#243;bvio se formos parar para pensar que nada, nem mesmo o guerreiro mais forte, ou mesmo o pr&#243;prio universo &#233; causa de si mesmo e, portanto, apenas existem por um motivo inexplic&#225;vel e misterioso. Algo ou algu&#233;m absolutamente necess&#225;rio sustenta a exist&#234;ncia de coisas n&#227;o necess&#225;rias. Ou seja, a ideia do amor crist&#227;o tem correspond&#234;ncia com a realidade.) </em>Aqui &#233; talvez o ponto central da cr&#237;tica ao modelo nietzschiano: o amor ao pr&#243;ximo &#233; um valor n&#227;o s&#243; para aqueles que s&#227;o mais fortes do que eu (o que encaixaria na tese de Nietzsche), mas, sobretudo, uma exig&#234;ncia que recai sobre mim tamb&#233;m. Eu tamb&#233;m devo amar aqueles que, em alguma medida, n&#227;o t&#234;m algo que eu possuo. O insight crist&#227;o, portanto, parte de uma posi&#231;&#227;o de for&#231;a e vitalidade, e n&#227;o do contr&#225;rio<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. </p><p>De qualquer forma, mesmo que a tese completa sobre as origens dos valores crist&#227;os seja problem&#225;tica, a verdade &#233; que nem todos os que se dizem crist&#227;os o s&#227;o sinceramente. Em outras palavras, mesmo que a moral crist&#227; n&#227;o tenha se originado do ressentimento dos fracos, n&#227;o &#233; absurdo pensar que os &#8220;fracos&#8221; possam adot&#225;-la estrategicamente. Nesse caso, a teoria (modificada) de Nietzsche, portanto, vira um problema de &#8220;autosele&#231;&#227;o&#8221;, o que torna essa uma &#243;tima oportunidade para aprender um pouco sobre uma das maravilhas da ci&#234;ncia econ&#244;mica: <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Roy_model">o modelo de Roy</a>.</p><h4><strong>O Modelo de Roy ou: Os melhores Kickers n&#227;o jogam futebol americano</strong></h4><p>De acordo com a intelig&#234;ncia artificial do Google, o sal&#225;rio m&#233;dio anual de um jogador da NBA &#233; 11,9 milh&#245;es de d&#243;lares, aproximadamente 2,7 vezes maior do que o sal&#225;rio de um jogador de futebol que joga na Premiere League<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>. Essa informa&#231;&#227;o &#233; curiosa e pode indicar uma por&#231;&#227;o de coisas, mas uma delas <strong>n&#227;o &#233;</strong> <strong>a de que</strong> <em>se um jogador decidir sair da NBA para jogar na Premiere League, ele ter&#225; um aumento de sal&#225;rio</em>. Afinal, os sal&#225;rios das duas ligas n&#227;o s&#227;o distribu&#237;dos aleatoriamente. N&#227;o. A distribui&#231;&#227;o de sal&#225;rios da NBA e da Premiere League que observamos foi resultado das escolhas dos pr&#243;prios indiv&#237;duos. Enquanto um jogador m&#233;dio da NBA est&#225; acostumado a jogar com as m&#227;os (uma das 13 regras originais do jogo de basquete) de uma forma muito diferente dos goleiros de futebol, um atleta de futebol da Premiere League &#233; bom em usar os p&#233;s e a cabe&#231;a para trocar passes e chutar na dire&#231;&#227;o do gol advers&#225;rio. As habilidades necess&#225;rias nos dois esportes s&#227;o quase opostas. Isso significa que, partindo do pressuposto de que um excelente jogador de futebol consiga de algum jeito entrar em um time da NBA, ele provavelmente vai ter grandes dificuldades de sequer tocar na bola e, por esse motivo, ele certamente estaria entre os atletas mais mal pagos do basquete americano. Isso tamb&#233;m significa que, dado que essas habilidades s&#227;o provavelmente negativamente correlacionadas (bons jogadores de basquete s&#227;o jogadores de futebol ruins), <em>os melhores jogadores de basquete v&#227;o jogar basquete e os melhores jogadores de futebol v&#227;o jogar futebol.</em> </p><p>Mas as coisas n&#227;o precisavam ser necessariamente assim. </p><p>Considere, por exemplo, como as coisas s&#227;o diferentes ao comparar dois esportes distintos cujas habilidades s&#227;o positivamente correlacionadas. O futebol americano tem uma posi&#231;&#227;o chamada <em>kicker</em>, cujo papel &#233; chutar a bola (<em>sic</em>), tentando fazer com que ela passe por cima de um travess&#227;o e entre as traves de uma esp&#233;cie de goleira invertida em um formato que poderia ser descrito como um &#237;psilon que s&#243; aceita &#226;ngulos retos em seus v&#233;rtices. Existe uma correla&#231;&#227;o positiva entre as habilidades necess&#225;rias para ser um <em>kicker </em>e para ser um jogador de futebol. Nesse caso, ser&#225; que os melhores jogadores de futebol v&#227;o jogar na Premiere League e os melhores <em>kickers </em>v&#227;o jogar na NFL? Aqui &#233; que as coisas come&#231;am a ficar mais complicadas, porque a escolha de um atleta que sabe chutar uma bola deixa de ser &#243;bvia. </p><p>Para nos ajudar a pensar sobre o problema, &#233; &#250;til entender como os sal&#225;rios dependem da habilidade em cada esporte. Por exemplo, o <em>kicker </em>n&#227;o &#233; exatamente o jogador mais importante em uma partida de futebol americano. Isso provavelmente significa que, mesmo que o sujeito seja um excelente chutador, ele ainda n&#227;o vai ganhar muito mais do que um chutador n&#227;o t&#227;o bom, pelo menos quando comparamos o sal&#225;rio de um jogador de futebol ruim com o de um jogador bom. Ou seja: <em>os sal&#225;rios dos kickers provavelmente est&#227;o muito mais concentrados em torno do sal&#225;rio m&#233;dio do que os de jogadores da Premier League</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>. <em>Isso significa que o atleta mais habilidoso em futebol &#8212; que tamb&#233;m seria o kicker mais habilidoso &#8212; vai preferir jogar futebol</em>. O segundo atleta tamb&#233;m e assim sucessivamente, at&#233; que chegue um atleta cuja habilidade o leva a preferir jogar na NFL, pois o sal&#225;rio vai ser maior l&#225;. Esse sujeito est&#225; bem atr&#225;s na fila de habilidade no futebol (e como <em>kicker</em>), mas vai ser o sal&#225;rio mais alto dessa posi&#231;&#227;o na NFL. Ou seja, muito provavelmente os melhores <em>kickers </em>n&#227;o est&#227;o na NFL, e sim na Premiere League. Mas a nossa an&#225;lise n&#227;o para por a&#237;, porque os piores jogadores de futebol ganham muito menos do que os piores <em>kickers</em>. Isso significa que a NFL n&#227;o s&#243; n&#227;o atrai os melhores <em>kickers</em>, mas tamb&#233;m tende a atrair os piores jogadores de futebol. </p><p>A analogia esportiva pode ser resumida em poucas palavras: os humanos fazem escolhas o tempo todo e essas escolhas n&#227;o s&#227;o aleat&#243;rias. Ningu&#233;m joga uma moedinha para saber o momento certo de atravessar a rua ou qual profiss&#227;o escolher. O modelo de Roy mostra como essas escolhas interagem entre si, gerando resultados muitas vezes n&#227;o &#243;bvios. As diferen&#231;as na distribui&#231;&#227;o de sal&#225;rios entre setores da economia, por exemplo, s&#243; podem ser compreendidas a partir de uma an&#225;lise que leva em conta as escolhas humanas, que dependem de muitos fatores, mas principalmente de incentivos. O que nos leva de volta ao problema do filme e a mais uma analogia.</p><h4><strong>Ainda o modelo de Roy ou: Conan, o b&#225;rbaro vs. Faramir, o pr&#237;ncipe</strong></h4><p>Imagine que existam duas sociedades com dois sistemas morais distintos<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>. Vamos chamar a primeira de &#8220;Sociedade do Conan&#8221;, na qual os valores e &#8220;aquilo que &#233; considerado como melhor&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> s&#227;o a for&#231;a, a conquista e a gl&#243;ria adquiridas em batalhas. Logicamente, &#8220;batalhas&#8221; s&#227;o usadas aqui como figuras de linguagem; voc&#234; pode interpret&#225;-las de forma mais abstrata, como, por exemplo, a guerra no mundo dos neg&#243;cios<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>. O melhor &#233; o que ganha mais dinheiro, domina o mercado, esmaga os competidores etc. Por simetria tem&#225;tica, vamos chamar a segunda sociedade de &#8220;Sociedade de Faramir&#8221;. Nela, os valores mais elevados<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a> s&#227;o a miseric&#243;rdia, a mod&#233;stia, a caridade etc. O sucesso nos neg&#243;cios n&#227;o &#233; necessariamente valorizado. N&#227;o &#233; que essa sociedade despreze as conquistas empresariais, mas o valor delas &#233; contingente a uma s&#233;rie de outras quest&#245;es, como, por exemplo, a finalidade dessas conquistas e os meios empregados para obt&#234;-las.</p><p>Agora, imagine os tipos de indiv&#237;duos que poderiam participar dessas sociedades. Provavelmente, existem indiv&#237;duos mais ou menos habilidosos, mais ou menos capazes de fazer grandes coisas, sejam elas no mundo do Conan ou no de Faramir. Em outras palavras, as habilidades necess&#225;rias para ser produtivo em ambas as sociedades s&#227;o positivamente correlacionadas. H&#225;, no entanto, diferen&#231;as importantes. Considere primeiro os indiv&#237;duos mais habilidosos. Esse indiv&#237;duo pode ser um monopolista, um tit&#227; da ind&#250;stria valorizado pelas suas vit&#243;rias na sociedade do Conan, ou um empres&#225;rio tamb&#233;m vitorioso, mas valorizado pelo exerc&#237;cio da magnanimidade, da liberalidade e da caridade na sociedade de Faramir. <em>Isso significa que, nesta &#250;ltima, o mais habilidoso &#233;, de certa forma, limitado no que pode fazer, enquanto o mais forte dos empres&#225;rios &#233; um deus na primeira</em>. Agora, considere os indiv&#237;duos na parte de baixo: aqueles que tiveram azar, os menos habilidosos. Estes indiv&#237;duos certamente estariam melhor no mundo em que o mais forte n&#227;o &#233; um deus, no mundo em que o empres&#225;rio bem-sucedido olha para o mais fraco. </p><p>Com essa descri&#231;&#227;o, j&#225; &#233; poss&#237;vel imaginar como seria a distribui&#231;&#227;o de resultados nessas duas sociedades. No mundo do Conan, os mais fortes se d&#227;o muito bem e os mais fracos, muito mal. J&#225; na sociedade do Faramir, os fortes ainda se d&#227;o bem, mas nem tanto; j&#225; os fracos est&#227;o muito melhor do que nos fracos da sociedade do b&#225;rbaro, pois eles contam com a caridade e miseric&#243;rdia dos fortes. Ou seja, a desigualdade &#233; menor na sociedade do Faramir.</p><p>Agora, suponha que uma ponte seja constru&#237;da ligando as duas sociedades, permitindo a migra&#231;&#227;o entre elas. Quais seriam os imigrantes na sociedade de Faramir? Como as habilidades para ser bem-sucedido em ambas as sociedades s&#227;o semelhantes, nenhum sujeito altamente habilidoso sairia do mundo do Conan. Por outro lado, todos os indiv&#237;duos de menor habilidade migrariam para a Sociedade de Faramir; afinal, l&#225; contam com miseric&#243;rdia. Ou seja, essa sociedade concentraria os indiv&#237;duos de baixa habilidade, n&#227;o necessariamente porque eles acreditam nos valores do Pr&#237;ncipe de Gondor, mas sim porque eles se beneficiam de uma menor desigualdade. Essa sociedade ficaria repleta de indiv&#237;duos &#8220;fracos&#8221;, como diria Nietzsche. Nela, os fracos adquirem uma esp&#233;cie de poder sobre os fortes. &#201; uma esp&#233;cie de poder, porque, na verdade, os fortes ainda s&#227;o fortes, mas eles t&#234;m que seguir algumas regras, e &#233; aqui que as coisas come&#231;am a dar problema, pois um fraco pode ser competente em manipular essas regras em seu favor. Um fraco que consiga emular valores caridosos pode subir na vida. O que nos faz voltar ao filme e sua conclus&#227;o. </p><h4>Daniel, o super-homem</h4><p>Em Sangue Negro, &#233; como se Daniel, um habitante do mundo do Conan, tivesse ca&#237;do inadvertidamente no mundo de Faramir. No fim, Daniel Plainview consegue construir o oleoduto e, assim, escoar sua produ&#231;&#227;o sem precisar usar as ferrovias monopolizadas pela Standard Oil. O pre&#231;o, no entanto, foi alto: a submiss&#227;o ao sacerdote Eli. O filme retrata justamente o problema apontado por Nietzsche ou, talvez, pelo modelo de Roy inspirado pelo fil&#243;sofo alem&#227;o: a moral crist&#227; &#233; utilizada por fracos, manipuladores e ressentidos que se valem dela para subjugar ou controlar homens excelentes sob o aspecto da for&#231;a, capacidade, vitalidade etc. </p><p>De fato, a cr&#237;tica &#233; contundente e vale para o mundo em que vivemos. Valores como caridade, igualdade e justi&#231;a s&#227;o frequentemente utilizados como pretexto por sociopatas para aumentar o controle sobre a sociedade. Por exemplo, <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32614222/">pesquisas</a> mostram que a sinaliza&#231;&#227;o de virtudes e de vitimiza&#231;&#227;o &#233; mais frequente em indiv&#237;duos que possuem tra&#231;os de personalidade conhecidos como &#8220;Dark Triad&#8221; (Maquiavelismo, Narcisismo e Psicopatia). Esse era claramente o caso de Eli. (Ali&#225;s, cenas an&#225;logas &#224; do batismo se tornaram comuns nos tempos atuais, em que um indiv&#237;duo &#233; for&#231;ado a pedir desculpas &#8220;para a internet&#8221; por opini&#245;es.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a>)</p><p>O problema gerado por esses aproveitadores &#233; que eles acabam deslegitimando os pr&#243;prios valores civilizacionais, cuja origem est&#225; no <a href="https://a.co/d/07NY2E0M">cristianismo</a>. O salto meton&#237;mico, que toma a parte pelo todo, faz com que cada vez mais pessoas (jovens principalmente) enxerguem nesses valores apenas aquilo que Nietzsche viu: uma moral feita por ressentidos para controlar os mais fortes. E para conclu&#237;rem depois disso, assim como o fil&#243;sofo, sobre a necessidade de surgirem super-homens, al&#233;m do bem e do mal, que retomem as r&#233;deas, n&#227;o &#233; preciso muito esfor&#231;o. Nesse caso, os ressentidos, as <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Tv5SI9wb-VI">tar&#226;ntulas</a>, eventualmente acabar&#227;o sendo varridos, junto com os valores civilizacionais, pela revolta dos Guerreiros. O que nos leva &#224; &#250;ltima cena do filme.</p><p>Muito tempo depois, Daniel Plainview consegue sua vingan&#231;a. A cena &#233; t&#227;o boa que n&#227;o me atrevo a transcrev&#234;-la; o leitor pode (re)v&#234;-la <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8B82J7W0t-U">aqui</a>. Vale destacar que, nessa cena final, ambos est&#227;o vestidos a car&#225;ter: Eli usa um terno de pregador com uma cruz gigante no pesco&#231;o, enquanto Daniel veste um casaco que, por diversas vezes, parece uma cota de malha, usada por guerreiros. O homem do petr&#243;leo humilha o sacerdote, for&#231;ando-o a reconhecer que ele &#233; um mentiroso, um falso profeta e, em seguida, o assassina. O final de Sangue Negro &#233; assustador, pois coloca o espectador diante de duas alternativas: ou um regime que advoga valores instrumentais ou o regime da for&#231;a bruta.</p><p>Mas h&#225; esperan&#231;a.</p><h4>***</h4><p>Antes da cena final entre Eli e Daniel, o filho adotivo do empres&#225;rio, H.W., vai falar com o pai para se despedir. H.W. j&#225; &#233; um homem feito, casado, e anuncia a Plainview que ir&#225; come&#231;ar uma empresa pr&#243;pria, longe dele. Ele faz isso n&#227;o com &#243;dio nem ressentimento, mas com genu&#237;no afeto pelo pai. O filho parece ter n&#227;o s&#243; as qualidades do pai (n&#227;o &#233; um fraco), mas tamb&#233;m os valores crist&#227;os. Valores adotados n&#227;o por conveni&#234;ncia instrumental, mas talvez, conforme explicou Max Scheler, como resultado de um transbordamento de vitalidade e for&#231;a. Ele est&#225; mais pr&#243;ximo de Faramir do que de Conan. A resolu&#231;&#227;o do dilema moderno passa pelo resgate das origens desses valores caros &#224; civiliza&#231;&#227;o. N&#227;o h&#225; como a justi&#231;a, a igualdade e a caridade entrarem no mundo, exceto pelo reconhecimento da sua fonte. A garantia delas &#233; a vida de Jesus Cristo, que exige de n&#243;s o que o catolicismo chama de Reta Inten&#231;&#227;o: agir com o prop&#243;sito de amar a Deus. Ela &#233; o ant&#237;doto contra os fracos que usam os valores da civiliza&#231;&#227;o para subverter a pr&#243;pria civiliza&#231;&#227;o. Um cristianismo heroico, como diria Henri de Lubac.</p><p>Eu terminei.</p><p>[Music cue: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=6hAaIxDTjQA">Johannes Brahms - Violin Concerto in D Major Op.77: 3. Vivace Non Troppo</a>]</p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/p/o-guerreiro-e-o-sacerdote-em-sangue?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Helium Integers. Se voc&#234; viu algum valor neste ensaio, por favor, curta, compartilhe e comente.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/p/o-guerreiro-e-o-sacerdote-em-sangue?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.heliumintegers.com/p/o-guerreiro-e-o-sacerdote-em-sangue?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p></div><p></p><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>A tarefa de imaginar situa&#231;&#245;es an&#225;logas para as mulheres &#233; deixada como exerc&#237;cio para as leitoras.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Eu uso esse termo com a plena consci&#234;ncia de que o substantivo &#8220;Ocidente&#8221; foi alistado no servi&#231;o militar obrigat&#243;rio e atualmente est&#225; na trincheira da &#8220;guerra cultural&#8221; e, assim sendo, acaba virando um signo sem referente na realidade. Seja como for, Ocidente nesse contexto significa apenas o povo que conhece a Il&#237;ada,  a Odisseia etc.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Nada demonstra mais claramente esse fato do que a vida dos santos e m&#225;rtires da igreja. Por exemplo, <a href="https://www.stmaximiliankolbechurch.com/about-us/biography-of-saint-maximilian">S&#227;o Maximiliano Kolbe</a>, quando era prisioneiro em um campo de concentra&#231;&#227;o nazista, entregou a sua vida colocando-se no lugar de um outro prisioneiro que fora aleatoriamente selecionado para ser executado. Kolbe amou o pr&#243;ximo de forma absolutamente corajosa e desinteressada, seguindo o exemplo de Cristo. N&#227;o h&#225; como encaixar o modelo nietzschiano nesse caso. De fato, apenas uma pessoa muito ressentida seria capaz de achar que a frase &#8216;ame ao pr&#243;ximo como a si mesmo&#8217; &#233; fruto de ressentimento.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Paridade Poder de Compra. A taxa de c&#226;mbio nominal n&#227;o leva em conta o fato de que os pre&#231;os entre os pa&#237;ses s&#227;o diferentes. Por exemplo, um corte de cabelo no Brasil custa muito menos do que um corte de cabelo m&#233;dio na Inglaterra. Para ter uma ideia real do quanto vale uma moeda, precisamos ajustar pelas diferen&#231;as de pre&#231;os entre os pa&#237;ses.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>De fato, a intelig&#234;ncia artificial do Google confirma isso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Exerc&#237;cio inspirado em<a href="https://www.jstor.org/stable/1814529"> Borjas (1987)</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Fala a&#237;, Conan, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Oo9buo9Mtos">o que &#233; &#8220;o melhor&#8221; na vida</a>? </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Ou um epis&#243;dio de <a href="https://www.youtube.com/shorts/6aXBtynSuSE">Billions</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p><em>'For myself,' said Faramir, 'I would see the White Tree in flower again in the courts of the kings, and the Silver Crown return, and Minas Tirith in peace: Minas Anor again as of old, full of light, high and fair, beautiful as a queen among other queens; not as a mistress of many slaves, nay, not even a kind mistress of willing slaves. War must be, while we defend our lives against a destroyer who would devour all; but I do not love the bright sword for its sharpness, nor the arrow for its swiftness, nor the warrior for his glory. I love only that which they defend: the city of the Men of N&#250;menor, and I would have her loved for her memory, her ancientry, her beauty, and her present wisdom. Not feared, save as men may fear the dignity of a man, old and wise.' </em></p><p><strong>&#8212;J.R.R. Tolkien, </strong><em><strong>The Lord of the Rings: The Two Towers</strong></em><strong>, "The Window on the West"</strong></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Ren&#233; Girard dizia que, ap&#243;s o cristianismo desvelar a farsa do bode expiat&#243;rio, a viol&#234;ncia passaria a ser feita em nome da v&#237;tima, como uma esp&#233;cie de par&#243;dia demon&#237;aca.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cinderella Man e a Renda Permanente]]></title><description><![CDATA[Irving Fisher &#233; o pai da macroeconomia.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/cinderella-man-e-a-renda-permanente</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/cinderella-man-e-a-renda-permanente</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Fri, 17 Oct 2025 09:02:55 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f3f30d92-9f00-466c-8241-543bba61f73b_1000x1041.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><blockquote><p><em>[<strong>RUGINDO</strong>, distante, talvez o oceano. Mais alto agora, n&#227;o ondas, mas o <strong>BURBURINHO DE VOZES</strong>. Ainda mais ALTO, ensurdecedor, enquanto a tela se ilumina, o relampejar de flashes de c&#226;meras <strong>REVELA... </strong>Um <strong>PUNHO ENLUVA&#173;DO &#8211; EM CLOSE.</strong> Erguido em triunfo.]</em></p><p><strong>[</strong><em><strong>LOCUTOR (EM OFF): </strong></em><strong>&#8220;</strong><em>E do grande estado de Nova Jersey, por decis&#227;o un&#226;nime, o vencedor do peso meio-pesado desta noite... <strong>Jim Braddock.&#8221;</strong></em><strong>]</strong></p><p><em><strong>AMPLIAR</strong></em></p><p><em><strong>INT. MADISON SQUARE GARDEN &#8211; NOVA YORK &#8211; 1928 &#8211; NOITE</strong></em></p></blockquote><p>Foi em uma noite de outono, em 30 de novembro de 1928 para ser mais preciso, que James J. Braddock derrotou &#8220;Tuffy&#8221; Griffiths, a sensa&#231;&#227;o do momento e um forte candidato a disputa do cintur&#227;o de pesos pesados leves. A multid&#227;o vibrava com a vit&#243;ria inesperada de Jim, e seu empres&#225;rio Joe Gould j&#225; sonhava com a disputa pelo cintur&#227;o. Estando ali, naquele momento, era dif&#237;cil imaginar que, em 1933, apenas seis anos depois da vit&#243;ria em Maddison Square Garden, Jimmy anunciaria sua aposentadoria dos ringues e precisaria trabalhar como estivador nas docas em Nova Jersey para sustentar sua fam&#237;lia. Mais dif&#237;cil ainda era conceber a ideia de que dois anos depois de anunciar a aposentadoria, esse mesmo boxeador se tornaria o grande campe&#227;o mundial de pesos pesados.</p><p>&#201; improv&#225;vel que exista uma hist&#243;ria de tamanha supera&#231;&#227;o quanto a de James J Braddock, o protagonista do filme <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0352248/">Cinderella Man</a> (2005). O descendente de irlandeses nascido em Nova Jersey oscilava entre triunfos memor&#225;veis e humilhantes derrotas. Em seu momento mais desesperador, desprestigiado no mundo do boxe e sem grandes qualifica&#231;&#245;es profissionais, James viveu na pobreza extrema. No entanto, em 1935, o irland&#234;s americano derrota Max Baer na disputa pelo t&#237;tulo de campe&#227;o mundial dos pesos pesados. </p><p>Essa demonstra&#231;&#227;o de supera&#231;&#227;o e resili&#234;ncia esportiva j&#225; seria suficiente para imortalizar Jimmy na hist&#243;ria do esporte. No entanto, o que torna a biografia de James Braddock <em>suis generis</em> &#233; sua sincronia com o drama que o povo americano experimentava &#224;quela &#233;poca, durante a maior crise econ&#244;mica do s&#233;culo XX: A Grande Depress&#227;o.</p><h4>***</h4><p>Existem muitas explica&#231;&#245;es para a Grande Depress&#227;o. Uma delas come&#231;a com a Inglaterra tentando reestabelecer a paridade entre a libra esterlina e o ouro, a qual fora quebrada excepcionalmente durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1924, Benjamin Strong, o ent&#227;o presidente do Banco Central americano, reduziu a taxa de juros dos Estados Unidos com o intuito de ajudar a Inglaterra. Essa redu&#231;&#227;o aumentava o diferencial de juros entre os dois pa&#237;ses, e isso fazia o ouro migrar da am&#233;rica para a Gr&#227;-Bretanha, onde ele renderia mais e auxiliaria os brit&#226;nicos a reestabelecerem o padr&#227;o-ouro vigente antes da guerra. Essa redu&#231;&#227;o da taxa de juros tamb&#233;m contribuiu para a bolha do mercado acion&#225;rio americano<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, a qual estoura em 1929, expondo o sistema banc&#225;rio americano a uma crise de liquidez<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>.  Essa crise desencadeia a fal&#234;ncia em massa de bancos, provocando uma queda n&#227;o antecipada de aproximadamente um ter&#231;o da oferta de moeda na economia americana. Esse choque monet&#225;rio negativo deprimiu a atividade econ&#244;mica, criando a maior crise econ&#244;mica do s&#233;culo XX.</p><p>A grande crise foi o que motivou John Maynard Keynes (1883-1946) a escrever um dos cl&#225;ssicos da macroeconomia do s&#233;culo XX, intitulado Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Nele, o economista desenvolveu sua explica&#231;&#227;o para o problema econ&#244;mico da &#233;poca: a grande capacidade ociosa existente dos pa&#237;ses desenvolvidos, a qual resultava em um alto e persistente n&#237;vel de desemprego. Grosso modo, a crise econ&#244;mica para Keynes acontecia quando o gasto efetivo dos consumidores, empres&#225;rios e governo era insuficiente para comprar todos os bens e servi&#231;os que haviam sido produzidos<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. A chave para entender as causas e a solu&#231;&#245;es da crise passava por entender o comportamento da demanda. N&#227;o a demanda de um produto ou servi&#231;o, e sim uma ideia mais abstrata e abrangente de demanda, uma esp&#233;cie de demanda total da economia. O gasto das fam&#237;lias, o investimento dos empres&#225;rios e o gasto do governo eram os principais componentes dessa &#8220;demanda total&#8221; e Keynes procurou explic&#225;-los utilizando uma s&#233;rie de pressupostos comportamentais simples. A parte mais importante desse modelo de demanda era a parte do consumo. O gasto das fam&#237;lias, ou consumo, era determinado por dois componentes: o primeiro deles era &#8220;consumo aut&#244;nomo&#8221;, o qual n&#227;o mudava conforme a conjuntura econ&#244;mica (por isso &#8220;aut&#244;nomo&#8221;), e o segundo correspondia uma fra&#231;&#227;o constante da renda, ou seja, ele oscilava conforme a renda total. O consumo era a parte crucial do modelo de Keynes justamente porque &#233; nele que est&#225; presente a simultaneidade: o consumo impacta a demanda agregada, a qual governa a renda total da economia e esta, por sua vez, impacta o consumo. Sabendo como o consumo muda com a renda, seria poss&#237;vel determinar totalmente a renda da economia para qualquer n&#237;vel de gasto do governo ou de investimento. </p><p>A teoria, seu diagn&#243;stico da crise e as prescri&#231;&#245;es sobre como sair dela dominaram o debate de pol&#237;tica econ&#244;mica da &#233;poca, fazendo com que muitas pessoas considerassem Keynes o pai da macroeconomia. Contudo, como &#233; frequente nessas quest&#245;es, &#8220;muitas pessoas&#8221; est&#227;o erradas. Na verdade, a paternidade da macroeconomia pertence a Irving Fisher (1867 - 1947), pois foi ele que inventou o modelo sob o qual a macroeconomia moderna se sustenta. Muito antes de Keynes, Fisher, em<em> The Rate of Interest</em> (1907), j&#225; oferecia uma teoria sobre o comportamento das fam&#237;lias em rela&#231;&#227;o aos gastos com consumo. O modelo de Irving Fisher foi o precursor<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> do que ficou conhecido como a Teoria da Renda Permanente, desenvolvida por Milton Friedman. Essa teoria foi particularmente importante para a macroeconomia moderna, pois ela oferecia uma descri&#231;&#227;o mais geral e consistente da rela&#231;&#227;o entre a renda e o consumo do que aquela desenvolvida por Keynes. </p><p>Existem muitas maneiras de entender o que Fisher, Friedman e a economia ensinam sobre o comportamento dos gastos com consumo. A mais interessante delas &#233; continuar lendo este ensaio, o qual usa a vida de James Braddock, o Homem Cinderela, como ilustra&#231;&#227;o.</p><p><em>[Mas antes de  falar sobre James Braddock, &#233; importante entender um pouco sobre como funciona o boxe profissional. Se voc&#234; j&#225; sabe, pode pular esta parte.]</em></p><div><hr></div><h4><code>Como funciona o boxe profissional</code></h4><p><code>Os campe&#245;es mundiais de boxe n&#227;o s&#227;o decididos em campeonatos. As regras e regulamentos, as categorias de peso, o ranqueamento de atletas e os campe&#245;es dos cintur&#245;es s&#227;o definidos pelas associa&#231;&#245;es de boxe</code><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a><code>. O boxeador que deseja ser campe&#227;o precisa se destacar na multid&#227;o. Para isso, ele tem que n&#227;o s&#243; vencer muitas vezes, mas tamb&#233;m vencer atletas cada vez mais vitoriosos que o precedem em notoriedade. Uma vez que ele tenha batido em gente suficiente, uma oportunidade lhe &#233; oferecida para lutar contra o campe&#227;o, o detentor do cintur&#227;o. Se ele vencer a luta, ent&#227;o haver&#225; um novo campe&#227;o.</code></p><p><code>O processo todo envolve uma complexa economia que tem algumas figuras essenciais: o empres&#225;rio do atleta, o promotor de lutas, a comiss&#227;o de boxe e, &#233; claro, o pugilista. Embora este &#250;ltimo seja a condi&#231;&#227;o necess&#225;ria para a exist&#234;ncia do esporte, ele depende do empres&#225;rio, que tem a fun&#231;&#227;o de administrar sua carreira, promovendo lutas que sejam ao mesmo tempo relevantes o bastante para seu atleta se destacar, rent&#225;veis do ponto de vista financeiro e, &#233; claro, que ofere&#231;am alguma chance de vit&#243;ria. A rentabilidade, no entanto, depende do promotor de lutas. &#201; ele quem organiza o evento pelo qual milhares de pessoas v&#227;o pagar ingresso para ver dois homens se espancarem. Finalmente, tudo isso &#233; regulado pela comiss&#227;o de boxe, a qual deve sancionar a luta.</code></p><p><code>O objetivo de todo pugilista profissional &#233; chegar ao cintur&#227;o. Entre ele e o t&#237;tulo est&#227;o outros pugilistas a serem vencidos. Se ele conseguir vencer de forma espetacular &#233; ainda melhor, afinal &#233; o espet&#225;culo que vende ingressos e &#233; isso que engorda o quanto se recebe por uma luta. Nocautes s&#227;o melhores do que vit&#243;rias por decis&#227;o (que acontece quando os rounds terminam e os ju&#237;zes precisam decidir). Empates, embora raros, acontecem. Do ponto de vista do espet&#225;culo, a pior coisa que pode acontecer s&#227;o lutas sem decis&#227;o que, em alguns casos, poderiam at&#233; tirar o dinheiro dos pugilistas. Portanto, se o boxeador quer uma chance de disputar o t&#237;tulo, ele precisa vencer, preferencialmente por nocaute, evitar empates e lutas indefinidas.]</code></p><div><hr></div><h4>A carreira de Jimmy Braddock</h4><p><em>&#8220;Guarde o que voc&#234; ganhar.&#8221;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a> Esse foi o conselho da m&#227;e de Jimmy quando ele disse que seria um lutador de boxe profissional. O leitor perceber&#225; que esse foi um excelente conselho ao aprender um pouco sobre a carreira de Jimmy. Em seu <a href="https://www.amazon.com/Cinderella-Man-Braddock-Greatest-History/dp/0618711902/ref=sr_1_1?crid=2FFWLJFZLDM8I&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.7rkegBL_cfl3xcNlQYAe_YP6XC5vxGHQeQ1KaUXggfWvjmCgfyYDHQOXKn-wgryVoyRIKkSk9ahrTJTQrhVh960L9gXSsxwAHDyYOfbydM4-ZRs4GJiZG0Z2qWfm9DO2l_j_6AXvEcDvn5YMvwPUdYmnwdC9tWNKMpdO_GlT0mpoihFqvk0QTea1fpzYPhUtk3UguKhMVvk3t-rG5PUNALUUQppjdqFVdZr8cayDJJw.uVxS0ho7JhUVxPoidyc9ja8hTf54iZUUp5vi2fZGw9M&amp;dib_tag=se&amp;keywords=cinderella+man&amp;qid=1745679938&amp;s=books&amp;sprefix=cinderella+ma%2Cstripbooks-intl-ship%2C300&amp;sr=1-1">livro</a> &#8220;Cinderella Man&#8221;, Jeremy Schaap conta detalhes da biografia do pugilista. A carreira profissional de Braddock come&#231;ou em 1926, ano em que seu empres&#225;rio Joe Gould arranjou impressionantes quinze lutas (tr&#234;s vezes mais do que um boxeador lutaria hoje em dia). Destas quinze, James venceu treze e empatou duas. Tendo um cartel de lutas razo&#225;vel, em 1927, Jimmy faria sua estreia no Maddison Square Garden, em Nova York, contra George LaRocco em uma das lutas preliminares que antecediam a defesa do cintur&#227;o de pesos pesados. Braddock venceu por nocaute. Ap&#243;s mais quinze lutas, as quais ele venceu a maioria, empatou duas e as restantes n&#227;o houve vencedor, ele termina o ano de 1927 enfrentando Joe Monte em uma luta de dez rounds que terminou em empate. Foi nessa luta que James Braddock quebrou a m&#227;o direita pela primeira vez. Para arrum&#225;-la, eram necess&#225;rios U$ 1.400, que estavam fora do alcance do boxeador. A solu&#231;&#227;o foi continuar lutando, mesmo com a m&#227;o quebrada. Em 1928, ele faz sua pr&#243;xima grande luta no Maddison Square Garden e consegue uma vit&#243;ria usando sua desajeitada m&#227;o esquerda. Ainda em 1928, ap&#243;s algumas derrotas, empates e lutas sem decis&#227;o, Jimmy Consegue duas vit&#243;rias e uma delas particularmente importante. &#8220;Tuffy&#8221; Griffths era uma das estrelas em ascens&#227;o do boxe e a luta no Maddison Square Garden atraiu um p&#250;blico consider&#225;vel. A vit&#243;ria de Jimmy por nocaute rendeu a ele cerca de oito mil d&#243;lares, o que seria aproximadamente cento e cinquenta mil d&#243;lares em 2025. Finalmente, em 18 de julho de 1929, ap&#243;s uma derrota seguida de tr&#234;s vit&#243;rias por nocaute, ele tem a chance de disputar o t&#237;tulo de campe&#227;o dos meio-pesados enfrentando Tommy Loughran. Jimmy &#233; sumariamente derrotado pelo campe&#227;o. Ele sofreu mais duas derrotas naquele mesmo ano, al&#233;m de outras lutas sem decis&#227;o. A partir da&#237;, sua carreira entra em decl&#237;nio. Coincidentemente, naquele mesmo ano, numa quinta-feira, 24 de outubro, a Bolsa de Valores de Nova Iorque entra em colapso. Este evento marca o in&#237;cio da Grande Depress&#227;o.</p><p>***</p><p>Impl&#237;cito nos conselhos da m&#227;e de Jimmy Braddock, estava o fato de que, ao contr&#225;rio da maioria das pessoas, boxeadores n&#227;o recebem sal&#225;rios. O seu ganha p&#227;o depende das lutas que seu empres&#225;rio consegue agendar e do n&#250;mero de ingressos vendidos para assisti-las. Poucas lutas ou poucos ingressos vendidos, significam pouco dinheiro. A posi&#231;&#227;o do pugilista &#233; muito particular: Como todo atleta, os anos mais produtivos de sua carreira s&#227;o na juventude, mas, ao contr&#225;rio da maioria dos atletas, devido a natureza do boxe, esses anos podem acabar abruptamente. Na &#233;poca de James Braddock, um pugilista de vinte e cinco anos j&#225; era considerado velho.</p><p>Isso significa que, enquanto o boxeador profissional est&#225; em atividade, a maior parte da sua renda &#233; transit&#243;ria e, portanto, seu consumo ao longo do tempo deve ser muito bem planejado. O que &#233; impl&#237;cito na vida do assalariado, para quem o fluxo de gastos com consumo mensal tende a coincidir com o fluxo de renda, &#233; expl&#237;cito para o pugilista: ao planejar o consumo, ele precisa levar em conta n&#227;o s&#243; a renda de hoje, mas tamb&#233;m a renda do futuro, o que significa discernir entre rendas transit&#243;rias e rendas permanentes.</p><p>Um plano de consumo &#233; uma estimativa do quanto o consumidor ir&#225; consumir em cada dia da sua vida. Isso parece estranho a primeira vista, pois, nem eu e, provavelmente, nem o leitor desta <em>newsletter </em>temos esse plano salvo no google drive (ou no WhatsApp em que voc&#234; manda mensagens para voc&#234; mesmo). E ainda assim nem eu nem o leitor ignoramos o amanh&#227;. O planejamento funciona mais ou menos como o plano que n&#243;s fazemos ao atravessar uma rua &#8212; ningu&#233;m mede a dist&#226;ncia dos carros, nem a dist&#226;ncia a ser percorrida entre um meio fio e o outro. Intuitivamente, o que guia nossos planos &#233; uma regra muito simples:<em> o &#250;ltimo real gasto em cada dia deve ter mais ou menos o mesmo valor subjetivo entre eles, pois, caso contr&#225;rio, valeria a pena mudar esse real de um dia em que ele vale menos para um dia em que ele vale mais</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a>.</p><p>Em um mundo sem juros e sem impaci&#234;ncia (quando cem reais gastos hoje trazem o mesmo valor subjetivo que cem reais gasto amanh&#227;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>) essa regra fica muito simples: James J. Braddock deveria consumir a mesma quantidade todos os dias da sua vida. Essa quantia &#233; a soma de todas as rendas que ele espera receber at&#233; o fim da vida dividido pelo n&#250;mero de dias, ou seja, a renda m&#233;dia.  Obviamente, essa conta &#233; feita tendo em mente a renda mais <em>prov&#225;vel </em>de cada per&#237;odo: Enquanto para um assalariado essa renda tende a oscilar muito pr&#243;ximo ao sal&#225;rio, para James Braddock ela tende a variar muito mais. A diferen&#231;a gera padr&#245;es de consumo diferentes mesmo que em um determinado m&#234;s Braddock e o assalariado ganhem a mesma renda. O que determina o consumo naquele m&#234;s &#233; o componente da renda que &#233; permanente. Isso significa que sempre que Braddock ganhava uma renda maior do que a renda m&#233;dia esperada, ele deveria poupar a diferen&#231;a e n&#227;o aumentar o consumo naquele m&#234;s. Por outro lado, quando a renda do m&#234;s vinha abaixo da renda m&#233;dia, ele deveria &#8220;despoupar&#8221; para manter o seu plano de consumo.</p><h4>As finan&#231;as de Jimmy</h4><blockquote><p><em><strong>[Dois promotores est&#227;o rindo.</strong> Eles nem percebem Jim no come&#231;o. S&#243; notam quando ele j&#225; est&#225; parado bem diante deles.]</em></p><p><em><strong>BRADDOCK: </strong>Sr. Allen. Phil.</em></p><p><em>[Dizer isso quase o destr&#243;i.]</em></p><p><em><strong>BRADDOCK: </strong>O neg&#243;cio &#233; o seguinte... n&#227;o consigo pagar o aquecimento. Tive que mandar meus filhos embora.</em></p><p><em>[Cada palavra sai como se pesasse toneladas.]</em></p><p><em><strong>BRADDOCK: </strong>No cais, eles vivem cortando os turnos. Voc&#234; n&#227;o &#233; chamado todo dia. S&#243; preciso de um pouco pra me recuperar.</em></p><p><em>[A vergonha &#233; quase insuport&#225;vel.]</em></p><p><em><strong>BRADDOCK: </strong>Vendi minhas luvas e meus sapatos. Consegui dois d&#243;lares. Preciso de mais dez e cinquenta. Pra pagar a conta. E poder t&#234;-los de volta.</em></p></blockquote><p>Em 1933, os Estados Unidos e James J Braddock chegaram ao ponto mais baixo de suas crises. Desesperado, sem vencer as lutas nos poucos lugares dispon&#237;veis para boxeadores desprestigiados, sem conseguir emprego nas docas ou em qualquer outro lugar que estivesse ao alcance de suas habilidades (afinal, nesse ano, um quarto dos americanos economicamente ativos estavam desempregados), Jimmy recorre ao rec&#233;m-criado aux&#237;lio do governo federal destinado aos americanos que se encontravam em extrema pobreza. Um observador que tivesse acesso apenas a dois pontos da vida de Jimmy, o momento de triunfo em 1928 no Maddison Square Garden e a desonrosa visita ao servi&#231;o de previd&#234;ncia social, poderia imaginar que o boxeador descendente de irlandeses n&#227;o seguiu o conselho materno a respeito de guardar dinheiro. Afinal de contas, em um determinado momento da carreira, James Braddock chegou a acumular 850 mil d&#243;lares a pre&#231;os de 2025, uma elevada quantia que, se bem administrada, seria no m&#237;nimo capaz de impedir que sua fam&#237;lia passasse fome e frio. No entanto, n&#227;o foi intemperan&#231;a que o levou a ru&#237;na. </p><p>Assim que Braddock come&#231;ou a ganhar dinheiro, ele quitou a hipoteca da casa de seus pais. O restante do dinheiro foi poupado. Uma parcela dele foi guardada no banco, j&#225; a outra parte foi investida na bolsa de valores de Nova Iorque e em uma empresa de t&#225;xi na mesma cidade. Em 1930, o banco faliu e Jimmy perdeu toda poupan&#231;a que havia l&#225;. Esse banco se chamava Banco dos Estados Unidos e sua fal&#234;ncia foi um marco da Grande Depress&#227;o. A quebra de uma institui&#231;&#227;o com o nome do pr&#243;prio pa&#237;s e o fato dele ser um dos grandes bancos de Nova Iorque abalaram definitivamente a confian&#231;a no sistema banc&#225;rio americano. Em 1931, foi a vez da empresa de t&#225;xi de Jimmy quebrar, pois, como bem destaca o biografo do boxeador &#8220;as pessoas simplesmente n&#227;o conseguiam mais pagar por uma corrida de t&#225;xi&#8221;. Eu n&#227;o preciso dizer o que aconteceu com o dinheiro de Jimmy aplicado na bolsa. Resumindo, o boxeador perdeu tudo o que havia acumulado.</p><p>A hist&#243;ria de fracassos financeiros de Braddock ilustra um elemento importante da Teoria da Renda Permanente. O leitor j&#225; compreendeu que sob os pressupostos dessa teoria, o consumidor tem um plano de consumo n&#227;o s&#243; para o dia de hoje ou para a semana, mas para a vida inteira. Esse plano determina que boa parte da renda transit&#243;ria seja poupada para garantir o seu cumprimento. O problema &#233; que na vida real todas as formas de poupar envolvem incertezas em rela&#231;&#227;o ao rendimento delas. O dinheiro no banco, o valor da empresa de t&#225;xi e das a&#231;&#245;es adquiridas na bolsa s&#227;o ativos cujas valoriza&#231;&#245;es s&#227;o incertas (e algumas delas s&#227;o mais incertas que outras). </p><p>Ajudaria o leitor imaginar que cada tipo de ativo corresponde a um alvo de um jogo de dardos. Imagine alguns alvos circulares com divis&#245;es que demarcam &#225;reas de pontua&#231;&#227;o. No centro de cada alvo, h&#225; um c&#237;rculo pequeno, dif&#237;cil de acertar. Mais afastado do centro, existem &#225;reas demarcadas por c&#237;rculos conc&#234;ntricos ao c&#237;rculo pequeno. Essas &#225;reas s&#227;o divididas em outras regi&#245;es formando algo como &#8220;peda&#231;os de pizzas&#8221; e, por serem maiores do que o c&#237;rculo pequeno, s&#227;o mais f&#225;ceis de acertar. (Por f&#225;cil e dif&#237;cil, entenda o leitor o seguinte: se dardos fossem jogados aleatoriamente na dire&#231;&#227;o do alvo, haveria mais dardos nas &#225;reas afastadas do centro do que no centro.)</p><p>Nesse jogo de dardos, cada &#225;rea demarcada vale uma determinada pontua&#231;&#227;o que vai multiplicar o valor poupado. Imagine que um dos alvos se chama &#8220;dinheiro no banco&#8221;. Nesse alvo, todas as &#225;reas, sejam nas mais f&#225;ceis ou mais dif&#237;ceis de acertar, a pontua&#231;&#227;o &#233; a mesma: um. Ou seja, n&#227;o interessa onde o dardo cair, o jogador recebe a mesma quantidade de dinheiro que foi poupada ali. No resto dos alvos, cada &#225;rea tem valores diferentes. Existem n&#250;meros grandes e pequenos maiores que um. Existem tamb&#233;m algumas &#225;reas com n&#250;meros menores do que um e at&#233; mesmo zero. Ou seja, nesses alvos, o jogador pode receber muito mais do que aplicou, mas tamb&#233;m pode receber menos, at&#233; mesmo zero.  </p><p>Abusando da analogia, para implementar o seu plano de consumo, o indiv&#237;duo precisa escolher bem quais alvos ele vai querer jogar dardos e quanto do seu dinheiro ele vai destinar a cada um deles. Uma regra que faz muito sentido em geral &#233; que o indiv&#237;duo deveria descartar todos os alvos que na m&#233;dia tendem a dar um retorno menor do que aquele alvo chamado &#8220;dinheiro no banco&#8221;. Isso significa supor que geralmente ningu&#233;m gosta de correr riscos desnecess&#225;rios. Os alvos que sobraram oferecem uma troca tentadora: um retorno m&#233;dio maior do que o alvo &#8220;dinheiro no banco&#8221;, mas ao pre&#231;o de aumentar a incerteza em rela&#231;&#227;o ao futuro.</p><p>Para resolver esse problema, lembre-se o leitor que, segundo a teoria da renda permanente, o bem-estar que o &#250;ltimo real gasto hoje proporciona ao indiv&#237;duo precisa ser equivalente ao bem-estar que esse mesmo real o proporcionaria amanh&#227;. Nada mais importa. Quando o retorno da poupan&#231;a n&#227;o &#233; incerto, a &#250;nica incerteza que aflige o indiv&#237;duo &#233; saber o quanto um real a mais vai trazer de bem-estar para ele no futuro. Pode ser que valha muito ou pouco a depender da situa&#231;&#227;o em que ele se encontre no dia de amanh&#227;. Por exemplo, um real adicional &#233; mais valioso se voc&#234; perdeu o emprego do que numa situa&#231;&#227;o em que voc&#234; est&#225; empregado.</p><p>Se o retorno da poupan&#231;a &#233; incerto, o problema do consumidor complica mais. Ele j&#225; tinha incerteza sobre qual seria o bem-estar proporcionado por um real de consumo a mais amanh&#227;. Agora, dependendo do ativo escolhido para levar esse um real para o futuro, ele tamb&#233;m n&#227;o sabe com certeza qual ser&#225; o valor monet&#225;rio desse real quando o futuro chegar. (O valor do ativo vai depender de qual regi&#227;o do alvo o dardo vai acertar.) Antes, o consumidor tinha que estimar apenas a m&#233;dia do valor do bem-estar de um real a mais. Agora ele tamb&#233;m precisa estimar a m&#233;dia do retorno futuro do ativo. E n&#227;o &#233; s&#243; isso. Como o benef&#237;cio de poupar um real hoje depende do quanto ele vai valer amanh&#227; em termos monet&#225;rios e em termos de bem-estar, <strong>o consumidor tamb&#233;m precisa entender qual &#233; a rela&#231;&#227;o entre as duas coisas</strong>. O que o consumidor n&#227;o gostaria de fazer &#233; poupar muito atrav&#233;s de um ativo que tenha um retorno muito baixo justamente quando ele mais precisa de dinheiro. Por outro lado, um ativo que pague muito bem quando o consumidor est&#225; em apuros &#233; bastante atraente. Isso significa que ativos cujos retornos s&#227;o negativamente relacionados com o bem-estar gerado por um real a mais de consumo no futuro s&#227;o mais arriscados para o consumidor e vice-versa.</p><p>[<em>Ajudaria o leitor a pensar em exemplos das duas situa&#231;&#245;es. Ouro &#233; um investimento que tende a subir de pre&#231;o quando h&#225; uma crise econ&#244;mica. &#201; justamente durante crises econ&#244;micas que um real a mais tem um valor subjetivo maior para as pessoas em geral, uma vez que &#233; nesses momentos que o risco de desemprego e de redu&#231;&#227;o na renda &#233; maior. Ou seja, ouro &#233; um tipo de investimento que est&#225; positivamente relacionado com o valor subjetivo de um real a mais &#8220;amanh&#227;&#8221;: ele vale muito quando voc&#234; precisa muito de dinheiro. Por outro lado, a&#231;&#245;es da bolsa do pa&#237;s em que voc&#234; trabalha t&#234;m a rela&#231;&#227;o oposta. Quando a economia est&#225; mal, o retorno das a&#231;&#245;es &#233; baixo, mas o valor subjetivo de um real a mais para voc&#234; &#233; alto.</em>]</p><p>Esse desdobramento da teoria da renda permanente ajuda a entender parte dos problemas financeiros de Jimmy. O lucro de uma empresa de t&#225;xi em Nova Iorque depende de quantos passageiros ela tem. O n&#250;mero de passageiros, por sua vez, depende da atividade econ&#244;mica da cidade. A bolsa de valores de Nova Iorque tamb&#233;m depende da atividade econ&#244;mica, pois a valoriza&#231;&#227;o das a&#231;&#245;es de uma empresa reflete a expectativa do qu&#227;o lucrativa ela ser&#225;. Ou seja, o rendimento de dois dos tr&#234;s investimentos principais de Braddock dependiam da prosperidade econ&#244;mica dos Estados Unidos. Pelos desdobramentos da teoria da renda permanente, isso por si s&#243; n&#227;o seria necessariamente ruim. O fundamental era saber como o rendimento desses ativos variavam em rela&#231;&#227;o as necessidades financeiras de Jimmy. E a&#237; estava o problema. A prosperidade econ&#244;mica dos Estados Unidos tamb&#233;m estava inversamente relacionada a necessidade de dinheiro do boxeador. Crises econ&#244;micas reduzem n&#227;o s&#243; o n&#250;mero de lutas, mas tamb&#233;m o valor da bolsa recebida em cada uma delas. Al&#233;m disso, elas reduzem as oportunidades fora do boxe para os atletas que n&#227;o conseguem ganhar seu sustento com lutas. Esse era o caso de Jimmy, o qual s&#243; conseguia trabalho como estivador no cais do porto. Portanto, mesmo tendo ouvido o conselho de sua m&#227;e, Braddock acabou tomando decis&#245;es de investimento muito arriscadas para uma pessoa como ele. </p><h4>Um Cora&#231;&#227;o Determinado</h4><blockquote><p><em>&#8220;O inacredit&#225;vel aconteceu&#8221;, ele escreveu. &#8220;James J. Braddock &#233; o campe&#227;o mundial dos pesos pesados. Nada parecido jamais aconteceu antes na longa hist&#243;ria do boxe profissional. Isso s&#243; mostra at&#233; onde um cora&#231;&#227;o determinado pode levar um homem &#8212; desde que ele tenha um bom soco de esquerda para acompanh&#225;-lo.&#8221;</em></p><p>&#8212; Schaap, Jeremy. Cinderella Man: James J. Braddock, Max Baer, and the Greatest Upset in Boxing History (p. 265). Mariner Books. Edi&#231;&#227;o do Kindle.</p></blockquote><p>Depois de atingir o ponto mais baixo no come&#231;o de 1933, a economia americana come&#231;ava a se recuperar. Nesse meio tempo, Jimmy trabalhava no cais do porto como estivador. O trabalho duro mantinha o ex-boxeador em boa forma f&#237;sica. Al&#233;m disso, as sucessivas les&#245;es na m&#227;o direita, obrigaram-no a usar sua m&#227;o esquerda no trabalho, aumentando significativamente sua destreza. O trabalho duro e o uso da m&#227;o que, at&#233; ent&#227;o, era imprest&#225;vel ao boxeador em suas lutas, providencialmente ajudaram Jimmy em 1934, quando seu empres&#225;rio conseguiu agendar uma luta com um boxeador de prest&#237;gio chamado &#8220;Corn&#8221; Griffin em Long Island, NY. Ap&#243;s nove meses sem lutar, Jimmy vence a luta por nocaute t&#233;cnico. Ele estava de volta.</p><p>Eventualmente, ap&#243;s derrotar mais dois boxeadores de prest&#237;gio, James J. Braddock finalmente ganha uma nova chance de disputar o cintur&#227;o de pesos pesados. Dessa vez, o detentor do t&#237;tulo era Max Baer. Em 1935, desafiando todos os progn&#243;sticos, o descendente de irland&#234;s que havia experimentado grandes sucessos, humilhantes derrotas e at&#233; mesmo a pobreza extrema, vence o detentor do t&#237;tulo e se consagra o novo campe&#227;o mundial. Ap&#243;s a luta, os jornalistas esportivos n&#227;o demoraram para tra&#231;ar o paralelo entre a biografia de Braddock e do &#8220;Homem Comum&#8221; americano v&#237;tima da Grande Depress&#227;o. O cintur&#227;o de campe&#227;o mundial permaneceu com Jimmy at&#233; 1937, quando ele foi facilmente derrotado por Joe Louis, um dos maiores pugilistas da hist&#243;ria. Coincidentemente, nesse mesmo ano a economia americana interrompeu sua recupera&#231;&#227;o no que ficou conhecida como &#8220;A Recess&#227;o de Roosevelt&#8221;. De fato, os destinos de Jimmy e do seu pa&#237;s pareciam estar entrela&#231;ados.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Helium Integers ! 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Eu lia o <a href="https://www.amazon.com.br/Manual-do-perfeito-idiota-latino-americano/dp/8528605949/ref=sr_1_1?crid=165CA55AC9O89&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.1nEh-kBYXU_SNF4Z7MFejguOGAkMsZ7SgcHvKSjpiFv_tLlY1YLfsZeOgDCSRap36a3iTD9UR5nWYqFx5Hjflc2q-kkoOrZTLny-Vi3FVqg.wazeWjEBuF95fpXYHgIBO8qhQc6Gnn2vketDH7ub9gs&amp;dib_tag=se&amp;keywords=manual+do+perfeito+idiota+latino+americano&amp;qid=1749151122&amp;sprefix=Manual+do+Perfeito+%2Caps%2C251&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9">Manual do Perfeito Idiota Latino-americano</a> e assistia Manhattan Connection com o meu pai. Foi por a&#237; tamb&#233;m que eu ouvi na televis&#227;o a express&#227;o <em>overshooting </em>cambial e resolvi virar economista). A Grande Depress&#227;o era aquele acontecimento lament&#225;vel n&#227;o s&#243; do ponto de vista real, em termos do sofrimento que ela causou, mas tamb&#233;m porque pegava muito mal para o time liberal. Mantendo a analogia futebol&#237;stica, era como se o time liberal tivesse sofrido um rebaixamento. Esse sentimento meio bobo e juvenil providencialmente acabou me levando a estudar economia e aprender um pouco mais sobre a Crise de 1929. Eu conheci os trabalhos do Milton Friedman com a Anna Schwartz que ofereciam uma explica&#231;&#227;o convincente sobre a gravidade e dura&#231;&#227;o da crise. Al&#233;m deles, &#233; claro, eu tamb&#233;m tive contato com a escola austr&#237;aca, principalmente Menger, Bohm-Bawerek, Mises e Hayek, que oferecia uma teoria interessante sobre ciclos econ&#244;micos, a qual vale a pena mencionar nesta nota de roda p&#233;, afinal, se voc&#234; leu ela at&#233; aqui, claramente <a href="https://tenor.com/pt-BR/view/know-more-desire-to-know-more-intesifies-gif-9636468">voc&#234; quer saber mais</a>: </p><p><em>Caro leitor, existem muitas maneiras de cortar &#225;rvores. Uma delas &#233; usar pedras que voc&#234; encontra no ch&#227;o para cortar um anel ao redor do tronco e depois usar fogo controlado para derrub&#225;-la. Outra maneira &#233; usar um machado. Uma terceira maneira &#233; usar uma serra el&#233;trica e, finalmente, voc&#234; pode usar uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=D_qfOH-Z764">colheitadeira florestal</a>. A diferen&#231;a entre elas est&#225; na produtividade e no tempo que voc&#234; tem que esperar para extrair a madeira: enquanto a pedra lascada te permite cortar &#225;rvores imediatamente, mas com pouca produtividade, a colheitadeira florestal demora para ficar pronta, mas, uma vez pronta, voc&#234; pode derrubar uma floresta inteira alguns dias. A diferen&#231;a entre elas se resume a estrutura de capital utilizada. A pedra lascada &#233; um capital que demora algumas horas para ficar pronto, enquanto a colheitadeira demora bem mais tempo. Um dos problemas que uma sociedade precisa resolver &#233; identificar a melhor maneira para cortar &#225;rvores: Ela deve usar baixa ou alta intensidade de capital?</em></p><p><em>Em uma economia de mercado, &#233; a taxa de juros da economia que regula qual o melhor jeito de cortar &#225;rvores. Taxas de juros altas significam que investimentos na produ&#231;&#227;o de coisas que v&#227;o demorar muito para ficarem prontas n&#227;o s&#227;o lucrativos. Nesse caso, n&#227;o vale a pena esperar a colheitadeira ser produzida. A madeireira vai ser menos produtiva com pedra lascada, mas, pelo menos, vai dar lucro. Taxas de juros muito baixas significam que talvez at&#233; aquela empresa que est&#225; tentando inventar uma colheitadeira autom&#225;tica de &#225;rvores guiado por intelig&#234;ncia artificial e que s&#243; vai ficar pronto daqui a dez anos ser&#225; lucrativo. A colheitadeira vai demorar dez anos, mas quando o momento chegar, n&#227;o vai faltar mais madeira para a sociedade.</em></p><p><em>Alterar a taxa de juros, portanto, significa alterar a estrutura produtiva da economia, aumentando ou diminuindo os est&#225;gios de produ&#231;&#227;o at&#233; o consumidor final. Ela &#233; quem determina a viabilidade de processos mais ou menos &#8220;indiretos&#8221; e &#8220;demorados&#8221; de produ&#231;&#227;o. Uma redu&#231;&#227;o de juros deve estimular mais aquelas atividades distantes do consumo (f&#225;bricas de colheitadeiras, constru&#231;&#227;o civil, pesquisa e desenvolvimento da ind&#250;stria farmac&#234;utica etc.), pois s&#227;o essas atividades cuja lucratividade &#233; mais sens&#237;vel ao custo do tempo. Um aumento dos juros, por outro lado, deprime essas atividades em detrimento de atividades cujo tempo de matura&#231;&#227;o &#233; curto como, por exemplo, um restaurante que vende hamburguer. </em></p><p><em>*[Para entender melhor isso, considere o exemplo dado pelo economista B&#246;hm-Bawerk sobre quantos anos o vinicultor deve deixar o vinho envelhecendo: Quanto mais tempo ele deixa no barril, maior ser&#225; o pre&#231;o da garrafa. Por outro lado, quanto mais tempo o vinho fica ali, por mais tempo ele abrir&#225; m&#227;o dos juros que ele receberia se vendesse o vinho imediatamente e emprestasse o dinheiro da venda para algu&#233;m. Enquanto o aumento no pre&#231;o resultante de envelhecer o vinho por mais um ano for maior do que o ganho com os juros de vender o vinho agora, vale a pena deixar o vinho no barril. O momento certo de vender a garrafa, portanto, &#233; quando o aumento de pre&#231;o resultante de envelhecer o vinho um minuto a mais se tornar igual o menor do que o juro. Note como a taxa de juros da economia, portanto, determinaria o envelhecimento dos vinhos. Note tamb&#233;m, como argumentar&#225; <a href="https://www.econlib.org/library/Enc/bios/Fisher.html#:~:text=But%20Fisher%20objected,to%20productivity.">Irving Fisher</a>, que n&#227;o &#233; necessariamente o tempo mais longo de produ&#231;&#227;o que aumenta a produtividade da atividade. O que acontece &#233; que um custo de oportunidade de tempo menor viabiliza processos mais demorados, sejam eles mais produtivos ou n&#227;o. Obviamente os empres&#225;rios v&#227;o tender a escolher aqueles mais produtivos. Recentemente, um <a href="https://www.nber.org/papers/w33499?utm_campaign=ntwh&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=ntwg11">artigo na NBER</a> mediu o &#8220;Per&#237;odo M&#233;dio de Produ&#231;&#227;o&#8221; das empresas como sendo a raz&#227;o entre o custo do invent&#225;rio da empresa e o custo dos produtos vendidos. Segundo o artigo, quanto maior era o custo de capital dessas empresas, menor era a raz&#227;o, ou seja, menor era o tempo m&#233;dio de produ&#231;&#227;o.]*</em></p><p><em>Mises e Hayek argumentam que a taxa de juros que coordena o uso do tempo e, portanto, o tempo m&#233;dio de produ&#231;&#227;o da economia, &#233; determinada naturalmente pela oferta e demanda de poupadores e tomadores de empr&#233;stimos. Essa taxa de juros, no entanto, &#233; &#8220;latente&#8221; e n&#227;o necessariamente coincidir&#225; com a taxa de juros banc&#225;ria, a qual &#233; muito mais influenciada pela pol&#237;tica monet&#225;ria do governo, que pode alter&#225;-la comprando ou vendendo t&#237;tulos p&#250;blicos, por exemplo. O descolamento entre as duas taxas de juros (natural e banc&#225;ria) gera problemas de coordena&#231;&#227;o na economia. Quando a taxa de juros banc&#225;ria est&#225; mais baixa do que a natural, empreendimentos de longa matura&#231;&#227;o se tornam <strong>artificialmente </strong>vi&#225;veis, isto &#233;, vi&#225;veis sob o ponto de vista da taxa de juros banc&#225;ria, mas invi&#225;veis sob a taxa de juros natural. Esse processo deflagra uma competi&#231;&#227;o por recursos da economia por parte das empresas naturalmente vi&#225;veis e artificialmente vi&#225;veis. Essa competi&#231;&#227;o faz com que o pre&#231;o dos recursos e dos ativos aumente. Durante esse tempo, a economia observa um boom econ&#244;mico. O processo de expans&#227;o, no entanto, acaba gerando ou infla&#231;&#227;o cada vez mais elevada ou bolhas em mercados de ativos (como a&#231;&#245;es, mercado imobili&#225;rio  etc.). Eventualmente, ser&#225; preciso haver uma corre&#231;&#227;o, a qual aproxima a taxa de juros banc&#225;ria da taxa de juros natural e &#233; nesse momento que os investimentos artificiais se revelam invi&#225;veis do ponto de vista econ&#244;mico e a crise econ&#244;mica &#233; deflagrada.</em></p><p>N&#227;o v&#225; o fiel leitor que me seguiu at&#233; aqui achar que eu sou um economista austr&#237;aco. Eu estudei bastante o assunto, principalmente no come&#231;o da faculdade, depois que eu fui em um f&#243;rum da liberdade e vi o professor Olavo resumir em tr&#234;s frases o argumento da impossibilidade do c&#225;lculo em uma economia socialista do Ludwig von Mises (eu me levantei e imediatamente fui comprar A&#231;&#227;o Humana, o qual eu li nos degraus da faculdade de economia). Como eu disse, quando eu era jovem eu tinha muitas convic&#231;&#245;es, uma delas &#233; de que eu era um economista austr&#237;aco, mas hoje eu sou apenas um economista. Talvez, no m&#225;ximo, um frequentador do AA: Austr&#237;acos An&#244;nimos (um dia de cada vez). N&#227;o, n&#227;o. Eu tenho alguns problemas com essa teoria. O principal deles &#233; que, <a href="https://heliumintegers.substack.com/p/mais-estranho-que-a-ficcao">desde que Robert Lucas Jr. escreveu a Cr&#237;tica de Lucas</a>, o sujeito que faz um modelo para explicar algum fen&#244;meno econ&#244;mico n&#227;o pode ser mais inteligente que as pessoas que vivem no modelo dele. Se o autor do modelo consegue identificar o descolamento entre a taxa natural e a banc&#225;ria, o que faz com que os empres&#225;rios n&#227;o consigam? Existem alguns potenciais candidatos para resolver esse problema, algo equivalente ao <a href="https://www.grumpy-economist.com/p/resurrecting-the-lucas-phillips-curve">modelo de ilhas do pr&#243;prio Robert Lucas Jr.</a>, mas essa nota de roda p&#233; j&#225; ficou grande demais, ent&#227;o &#233; melhor parar por aqui.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Uma crise de liquidez acontece quando o banco fica sem dinheiro para honrar seus compromissos. Ela &#233; deflagrada por rumores (verdadeiros ou falsos) a respeito da sa&#250;de financeira do banco. Em 1929, muitos devedores de empr&#233;stimos banc&#225;rios come&#231;aram a atrasar o pagamento, prejudicando o fluxo de caixa e o patrim&#244;nio l&#237;quido dos bancos. Quando isso come&#231;a a acontecer, n&#227;o demora muito para que surjam rumores sobre a solv&#234;ncia do banco, isto &#233;, a capacidade do banco de garantir os dep&#243;sitos aos seus clientes. Nesse ambiente, nenhum depositante quer correr o risco de ficar sem seu dep&#243;sito e, portanto, corre para o banco. Note que todos os clientes tamb&#233;m t&#234;m a mesma ideia, mesmo aqueles que n&#227;o acreditam no rumor, pois a pr&#243;pria corrida banc&#225;ria em si mesma &#233; capaz de tornar o banco insolvente, e, se este n&#227;o for auxiliado pelo banco central ou por outros bancos, ele de fato quebra.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>A insufici&#234;ncia de gasto resultava em uma redu&#231;&#227;o de produ&#231;&#227;o por parte dos empres&#225;rios, pois estes ajustavam suas expectativas. A redu&#231;&#227;o na produ&#231;&#227;o, por sua vez, reduzia a demanda efetiva, o que fazia os empres&#225;rios ajustarem novamente as expectativas, at&#233; que demanda efetiva e produ&#231;&#227;o fossem iguais e, finalmente, um novo equil&#237;brio fosse atingido. O problema &#233; que a produ&#231;&#227;o existente nesse equil&#237;brio n&#227;o necessariamente coincide com aquela que utiliza toda a capacidade produtiva da economia.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Irving Fisher tamb&#233;m foi o precursor de muitas outras teorias importantes para a economia. Para ver mais detalhes sobre suas contribui&#231;&#245;es, veja <a href="https://cooperative-individualism.org/dimand-robert_irving-fisher-and-modern-macroeconomics-1997-may.pdf">Irving Fisher and the Modern Macroeconomics</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>A mais importante delas &#233; a World Boxing Association, com sede no Panam&#225;. Sua antecessora foi a National Boxing Association, criada em 1921, nos Estados Unidos e, embora existissem atletas que recebiam a alcunha de campe&#227;o mundial antes dela, pode-se dizer que ela foi a primeira que oficializou o t&#237;tulo.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p><em>Quando Jimmy disse &#224; m&#227;e que queria ser boxeador, ela n&#227;o tentou convenc&#234;-lo a seguir a carreira de advogado ou entrar para o sacerd&#243;cio. Em vez disso, ela teria dito a ele: &#8220;Fico feliz em saber que voc&#234; decidiu viver do boxe. Talvez eu entenda muito pouco sobre a sua profiss&#227;o, mas sei que, para ter sucesso, &#233; preciso levar uma vida muito correta, treinar duro, ouvir o seu treinador e, o que &#233; mais importante,<strong> economizar o que voc&#234; ganhar.</strong>&#8221;</em></p><p>&#8212; Schaap, Jeremy. Cinderella Man: James J. Braddock, Max Baer, and the Greatest Upset in Boxing History (pp. 80-81). Houghton Mifflin Harcourt. Edi&#231;&#227;o do Kindle.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Se queremos ser mais precisos, esse valor deveria levar em conta o fato de que o consumo no dia seguinte s&#243; vai acontecer no dia seguinte e n&#227;o hoje, ou seja, eu vou ter que esperar para esse consumo. Portanto, entra no c&#225;lculo a minha impaci&#234;ncia em esperar o consumo amanh&#227; (o que faz com que gastar cem reais amanh&#227; sempre me traga menos bem-estar do que gastar esses cem reais hoje). Al&#233;m disso, al&#233;m da dor existente em esperar o dia seguinte para consumir, tamb&#233;m existe a taxa de juros. Olhando do presente, cem reais hoje valem mais do que cem reais amanh&#227;. De forma mais geral, a regra do mesmo valor do &#250;ltimo real gasto deve levar em conta a impaci&#234;ncia (custo de esperar o consumo) e o juro (benef&#237;cio de esperar o consumo).</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Ver nota de rodap&#233; n&#250;mero 7.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O significado de "O Guarda-Costas"]]></title><description><![CDATA[A Economia do Trabalho nos ajuda a corrigir um erro hist&#243;rico]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-significado-de-o-guarda-costas</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-significado-de-o-guarda-costas</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Tue, 08 Apr 2025 23:28:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/91aaeb78-7a3f-4cd9-8b5c-d46b2be1a2dc_1441x1145.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0103855/?ref_=ext_shr_lnk">O Guarda-Costas (1992)</a> foi sucesso de bilheteria, arrecadando mais de 400 milh&#245;es de d&#243;lares, segundo a Wikipedia. No entanto, o filme &#233; mais conhecido por sua trilha sonora. A ic&#244;nica can&#231;&#227;o <em>I Will Always Love You</em> interpretada pela popstar Whitney Houston, que tamb&#233;m &#233; a atriz principal do filme, fez com que o disco da trilha tivesse mais de 45 milh&#245;es de c&#243;pias vendidas pelo mundo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, tornando-o at&#233; hoje o &#225;lbum de trilha sonora mais vendido da hist&#243;ria.</p><p>Whitney Houston interpreta Rachel Marron que, no filme, tamb&#233;m &#233; uma superstar da m&#250;sica pop. Ela divide o protagonismo com o seu guarda-costas Frank Farmer, interpretado por Kevin Costner. O filme &#233; um thriller caracter&#237;stico da &#233;poca e a trama gira em torno de Rachel, que recebe amea&#231;as de morte de quem parece ser um f&#227; obsessivo. Ap&#243;s um grave incidente, o empres&#225;rio de Rachel, Bill Devaney, acaba contratando um guarda-costas para a prote&#231;&#227;o da diva da m&#250;sica pop. </p><p>A totalidade das sinopses que existem a respeito do filme descrevem-no como um &#8220;thriller rom&#226;ntico&#8221; (uma hist&#243;ria de amor misturada com suspense), uma opini&#227;o provavelmente semelhante a da esmagadora maioria dos espectadores. Existem muitos motivos para isso. Em primeiro lugar, est&#225; o fato de que inegavelmente h&#225; um romance no filme. Em segundo lugar, a simples presen&#231;a de Whitney Houston como par rom&#226;ntico de Frank Farmer acaba passando para a personagem Rachel Marron uma import&#226;ncia que transcende o pr&#243;prio roteiro. Em terceiro lugar, temos, &#233; claro, o sucesso <em>I Will Always Love You</em>. </p><p>O problema &#233; que a imensa maioria das sinopses est&#225; errada. O Guarda-costas pouco tem a ver com Rachel Marron, ou Whitney Houston. A m&#250;sica, a hist&#243;ria de amor, e uma superstar interpretando uma superstar foram adicionadas porque &#233; assim que se viabiliza um blockbuster<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Na verdade, o filme &#233; sobre Frank Farmer. </p><p>Observe, caro leitor, que o filme se chama &#8220;O Guarda-costas&#8221; e n&#227;o &#8220;A Diva e o Guarda-costas&#8221;. Observe tamb&#233;m que o roteiro do filme foi escrito em 1975 por Lawrence Kasdan, um dos grandes roteiristas de Hollywood, <a href="https://www.wired.com/2015/11/lawrence-kasdan-qa/">capaz de inserir profundidade em uma &#8220;&#243;pera espacial&#8221;</a>. Note que uma das inspira&#231;&#245;es para o roteiro foi um filme de Akira Kurosawa chamado <em><a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0055630/">Yojimbo </a></em><a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt0055630/">(1967)</a>, que significa &#8220;Guarda-costas&#8221; em japon&#234;s e conta a hist&#243;ria de&#8230; um guarda-costas. Por fim, veja que Kasdan, em uma entrevista de 1981, dez anos antes do filme existir, descreve a hist&#243;ria do filme como sendo sobre &#8220;<em>um guarda-costas que &#233; contratado para proteger uma mulher. (&#8230;) <strong>Eu estava interessado em que tipo de sujeito estaria disposto a fazer esse tipo de trabalho: estar disposto a morrer por um sal&#225;rio&#8230;</strong></em>&#8221;.  Bem&#8230; Que tipo de sujeito &#233; esse? O que o Lawrence Kasdan queria contar sobre Frank Farmer?</p><h3>Dinheiro, honra e dever</h3><p>O valor estat&#237;stico da vida &#233; um conceito utilizado por empresas e governos para ajud&#225;-los na tomada de decis&#245;es que envolvem vida e morte. Por exemplo, ele serve para balizar decis&#245;es judiciais sobre indeniza&#231;&#245;es a serem pagas para v&#237;timas de acidentes, erros m&#233;dicos e etc. Existem muitas maneiras de calcul&#225;-lo e uma delas &#8212; mais ou menos &#8220;inventada&#8221; por Adam Smith<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> &#8212; envolve a rela&#231;&#227;o entre o sal&#225;rio e o risco de morte nas ocupa&#231;&#245;es. A ideia &#233; simples: Existem dois an&#250;ncios de emprego no jornal. As vagas s&#227;o para exatamente o mesmo trabalho: instrutor de mergulho; a &#250;nica diferen&#231;a &#233; que a primeira vaga fica em um resort com um mar tranquilo e a segunda fica em um mar infestado de tubar&#245;es martelo. N&#227;o &#233; necess&#225;rio grandes explica&#231;&#245;es sobre por qual motivo seria natural esperar que o sal&#225;rio para fazer exatamente o mesmo trabalho seja maior no an&#250;ncio da <em>segunda vaga</em>. Afinal, espera-se que os instrutores de mergulho exijam maior retorno pelo risco que eles est&#227;o dispostos a tomar. A grande quest&#227;o &#233; saber o <em>quanto</em> <em>mais </em>de retorno por um <em>pouco mais</em> de risco. Para isso, os economistas fazem estudos estat&#237;sticos n&#227;o s&#243; com instrutores de mergulho, mas tamb&#233;m com todos os tipos de ocupa&#231;&#245;es. Uma vez que voc&#234; compreende o &#8220;quanto a mais de dinheiro voc&#234; precisa pagar algu&#233;m para que ele aceite aumentar um pouco a chance de morrer&#8221;, voc&#234; consegue chegar no <em>valor estat&#237;stico da vida</em>. Pronto.</p><p>Tudo isso serve para dizer que parte do motivo pelo qual algu&#233;m gostaria de virar um guarda-costas &#233; &#8212; tudo o mais constante &#8212; o mesmo pelo qual algu&#233;m gostaria de virar um instrutor de mergulho ou banc&#225;rio, i.e., <em>o sal&#225;rio vis-&#224;-vis o risco de vida</em>. Eu disse &#8220;parte do motivo&#8221;, pois, embora a teoria seja s&#243;lida, eu n&#227;o acho que ela explica tudo. Afinal, guarda-costas &#233; uma dessas ocupa&#231;&#245;es em que o risco de morte &#233; consider&#225;vel. Ao contr&#225;rio do instrutor de mergulho, cuja <em>job description</em> n&#227;o envolve enfrentar tubar&#245;es, o guarda-costas foi contratado para enfrentar assassinos, sequestradores e f&#227;s obsessivos. A <em>causa final</em> do guarda-costas &#233; proteger o cliente. &#201; verdade que na imensa maioria das vezes ele cumpre a miss&#227;o apenas agindo como um elemento de dissuas&#227;o de amea&#231;as, uma vez que a mera presen&#231;a e protocolos de seguran&#231;a j&#225; protegem o cliente. No entanto, existem algumas raras vezes em que ele precisa reagir ao perigo imediato e isso pode custar a sua vida. No limite, se nos apegarmos ao clich&#234; hollywoodiano, o guarda-costas deve at&#233; tomar o tiro ou a facada <em>no lugar do alvo</em>. </p><p>N&#227;o, o sal&#225;rio n&#227;o &#233; o bastante. Parte da explica&#231;&#227;o deve ter rela&#231;&#227;o com outras amenidades<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> que vem com o cargo.</p><h4>***</h4><p>Certa vez, em uma corrida de Uber, o motorista me disse que ele costumava ser motorista de carro-forte. Ele me explicou que os seguran&#231;as que fazem a prote&#231;&#227;o do ve&#237;culo n&#227;o fazem esse trabalho apenas por dinheiro. Segundo ele, embora o carro seja blindado e a equipe tenha armas pesadas, a grande verdade &#233; que a maior parte do efeito dela &#233; dissuas&#243;rio. Se uma quadrilha de assaltantes quiser roub&#225;-lo e tiver algum planejamento, os seguran&#231;as do carro-forte est&#227;o em franca desvantagem e o risco de morte &#233; alt&#237;ssimo.<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a> &#8220;Em caso de confronto, os seguran&#231;as est&#227;o l&#225; para matar ou morrer. Eles se enxergam como guerreiros&#8221;, disse o motorista. Ou seja, <em>eles gostam do conflito</em>. Gostar de aspectos do emprego &#233; um motivo adicional na hora de escolher profiss&#227;o. Ora, um time que opera um carro-forte (motorista e seguran&#231;as) &#233; como se fosse um guarda-costas, s&#243; que de dinheiro, ent&#227;o a mesma l&#243;gica se aplica. Por fim, al&#233;m de gostar de dinheiro e do eventual combate, existem outros motivos para ser um guarda-costas, principalmente se estamos falando da prote&#231;&#227;o de chefes de estado. O sentido do dever e patriotismo podem ser motiva&#231;&#245;es adicionais que estimulam, por exemplo, candidatos ao Servi&#231;o Secreto dos Estados Unidos.</p><p>Com esse mapa rascunhado sobre as motiva&#231;&#245;es de um guarda-costas, j&#225; &#233; poss&#237;vel mergulhar na hist&#243;ria de Kasdan.</p><h3>As motiva&#231;&#245;es de Frank Farmer</h3><p>Das tr&#234;s motiva&#231;&#245;es &#8212; dinheiro, honra (ou &#8220;esp&#237;rito marcial") e dever &#8212;, podemos especular que a mais importante para Frank Farmer talvez fosse a &#250;ltima. Afinal, ele havia servido no Servi&#231;o Secreto americano. &#8220;Dois anos com Jimmy Carter e quatro com Reagan&#8221;, disse ele a Sy Spector, o publicista de Rachel Marron. </p><p>No entanto, isso n&#227;o explicaria por que ele continuou a trabalhar como guarda-costas particular. N&#227;o h&#225; patriotismo ou sentido de dever em proteger empres&#225;rios. Com esse fato, j&#225; &#233; poss&#237;vel riscar &#8220;dever&#8221; da lista. Restam dinheiro e o esp&#237;rito marcial. Vejamos se elas podem servir. </p><p>Para continuar nossa investiga&#231;&#227;o, &#233; &#250;til estudar um dos di&#225;logos iniciais do filme. Ap&#243;s uma bomba explodir no camarim de Rachel Marron, seu empres&#225;rio, Bill Devaney, tenta contratar os servi&#231;os de Frank Farmer. O protagonista inicialmente recusa a oferta, o que faz com que Bill v&#225; pessoalmente at&#233; a casa de Frank para tentar convenc&#234;-lo:</p><blockquote><p><strong>DEVANEY:</strong> <em>Ent&#227;o quer dizer que voc&#234; n&#227;o vai proteger Rachel Marron s&#243; porque ela &#233; do show business?</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>Eu n&#227;o trabalho com celebridades.</em></p><p><strong>DEVANEY:</strong> <em>Mas os maiores sal&#225;rios est&#227;o no pessoal do show business&#8230;</em></p></blockquote><p>Esse trecho do di&#225;logo &#233; importante, pois ele nos permite eliminar mais uma das motiva&#231;&#245;es: <em>o dinheiro</em>. Se ele fosse o grande motivador, talvez Frank <em>s&#243; trabalhasse com celebridades</em>. O di&#225;logo prossegue e chega a mais um ponto crucial:</p><blockquote><p><strong>DEVANEY: </strong><em>Farmer, estamos falando de uma mulher muito assustada. Com um filho de sete anos. Acredite, eu n&#227;o estaria aqui se n&#227;o achasse que isso &#233; s&#233;rio de verdade. [uma longa pausa] Farmer, ela me implorou pra encontrar voc&#234;.</em></p><p><em>[Frank finalmente se endireita na cadeira e encara Devaney por um longo tempo. Ele pega cinco facas de arremesso e se levanta.]</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>Tudo bem. Eu vou e vou dar uma olhada na situa&#231;&#227;o. Se eu aceitar, s&#227;o tr&#234;s mil por semana.</em></p></blockquote><p>&#201; somente ap&#243;s explicar a situa&#231;&#227;o para Frank, relatando sua gravidade, que Bill consegue fazer o guarda-costas reconsiderar a oferta. Esse trecho da conversa &#233; importante, pois informa a possibilidade de que a motiva&#231;&#227;o de Frank seja apenas o esp&#237;rito marcial. Talvez o motivo para ele n&#227;o aceitar trabalhar com celebridades &#233; que o trabalho seja <em>mon&#243;tono</em>. Celebridades enfrentam menos amea&#231;as do que figuras do mundo dos neg&#243;cios, mais visadas para sequestros e assassinatos. Ser&#225; que Devaney, ao convenc&#234;-lo de que o perigo era real, conseguiu oferecer a motiva&#231;&#227;o que seu esp&#237;rito marcial precisava?</p><h4>***</h4><p>Frank Farmer e Rachel se encontram pela primeira vez quando ele vai visit&#225;-la, conforme prometera ao seu empres&#225;rio. L&#225;, ele percebe uma s&#233;rie de problemas com a seguran&#231;a da atriz e faz recomenda&#231;&#245;es que a incomodam. A rela&#231;&#227;o entre os dois segue uma din&#226;mica conhecida: depois de um come&#231;o conflituoso, onde ambos parecem n&#227;o gostar um do outro, o enredo vai os colocando em situa&#231;&#245;es que acabam aproximando-os cada vez. Em um determinado momento do filme, quando Rachel fazia um show, uma amea&#231;a real faz Frank agir, salvando sua cliente. Ap&#243;s esse epis&#243;dio, Rachel come&#231;a a perceber a gravidade da amea&#231;a que a cerca e a import&#226;ncia de Frank. </p><p>Nesse momento da hist&#243;ria, Kasdan fornece mais uma pista sobre a motiva&#231;&#227;o do guarda-costas. Ela se d&#225; quando Rachel pede que Frank leve-a para sair. Ele decide lev&#225;-la ao cinema, onde estava passando seu filme favorito do guarda-costas, <em>Yojimbo</em>:</p><blockquote><p><strong>[EXT. TEATRO KOKUSAI - NOITE]</strong></p><p><em>[Frank e Rachel saem junto com um pequeno grupo de pessoas. Rachel usa um len&#231;o e &#243;culos escuros. A combina&#231;&#227;o ajuda bastante a disfar&#231;&#225;-la. Eles param em frente a uma das vitrines de exibi&#231;&#227;o. L&#225; dentro h&#225; um p&#244;ster do filme Yojimbo]</em></p><p><strong>RACHEL: </strong><em>Bem, ele n&#227;o parecia querer morrer, na minha opini&#227;o.</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>H&#225; uma grande diferen&#231;a entre querer morrer e n&#227;o ter medo da morte.</em></p><p><em>[Eles seguem caminhando pela cal&#231;ada.]</em></p><p><strong>RACHEL: </strong><em>E porque ele n&#227;o tinha medo da morte, ele era invenc&#237;vel?</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>O que voc&#234; acha?</em></p><p><strong>RACHEL: </strong><em>Bom, ele com certeza detonou todos no final.</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>&#201;, foi um bom filme.</em></p><p><em>[Eles continuam andando pela cal&#231;ada.]</em></p><p><strong>RACHEL: </strong><em>Quantas vezes voc&#234; j&#225; viu esse filme?</em></p><p><strong>FRANK:</strong><em><strong> Sessenta e duas</strong>.</em></p></blockquote><p>Ao mesmo tempo em que o encontro coloca os dois no caminho tradicional percorrido por casais em filmes rom&#226;nticos, ele tamb&#233;m releva um pouco mais sobre Frank.  <em>Yojimbo </em>&#233; o filme favorito de Frank (ele confessa que assistiu a ele &#8220;sessenta e duas&#8221; vezes). O filme &#233; um dos cl&#225;ssicos de Akira Kurosawa e inspirou filmes ocidentais como, por exemplo, &#8220;Por Um Punhado de D&#243;lares&#8221;. Ele conta a hist&#243;ria de um <em>ronin </em>&#8212; um samurai que, desprovido de um senhor a quem servir, vaga pelo Jap&#227;o oferecendo seus servi&#231;os a quem quer que seja. O protagonista do filme chega em uma cidade que &#233; assolada por duas fam&#237;lias criminosas e ele decide libertar os moradores de l&#225;. </p><p>Mais evid&#234;ncia em favor da teoria &#8220;esp&#237;rito marcial&#8221;. Poucos s&#237;mbolos representam mais esse esp&#237;rito do que &#8220;samurais&#8221;. </p><p>Ap&#243;s o encontro, a tens&#227;o do filme come&#231;a a aumentar. O vil&#227;o se torna cada vez mais ousado e, percebendo o risco iminente, Frank decide levar Rachel e a fam&#237;lia pr&#243;xima dela (Fletcher, o filho de sete anos e Nicki, a irm&#227;) para a casa do pai dele, em um lago isolado nas montanhas. Ali, convivendo com o pai do guarda-costas, o filme revela um pouco mais sobre Frank. O pai dele, Herb, &#233; vi&#250;vo. A m&#227;e de Frank morrera h&#225; alguns anos em um momento particularmente significativo para o guarda-costas:</p><blockquote><p><strong>HERB: </strong><em>Voc&#234; deve ser muito bem-sucedida pra precisar do Frank.</em></p><p><em>[Rachel sorri e olha pela janela.]</em></p><p><strong>RACHEL: </strong><em>&#201; t&#227;o silencioso aqui.</em></p><p><strong>HERB: </strong><em>O Frank voltou e ficou seis meses depois daquela coisa com o Reagan.</em></p><p><em>[O olhar curioso de Rachel incentiva Herb a continuar.]</em></p><p><strong>HERB: </strong><em><strong>O Frank n&#227;o estava l&#225; no dia em que ele levou o tiro. Ele nunca superou isso. (uma longa pausa) A gente enterrou a Katherine naquele dia.</strong></em></p></blockquote><p>A &#8220;coisa com o Reagan&#8221; da qual Herb se refere &#233; a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Attempted_assassination_of_Ronald_Reagan">tentativa de assassinato</a> perpetrada por John Hinckley Jr.. Al&#233;m de ferir gravemente o presidente, o atentado acabou vitimando um dos conselheiros de Reagan e ferindo dois membros do servi&#231;o secreto. No filme, Frank Farmer era parece ser um desses agentes que estavam com Reagan e isso s&#243; n&#227;o ocorreu porque ele precisou ir ao funeral de sua m&#227;e. </p><p>O fato de o guarda-costas &#8220;n&#227;o ter superado&#8221; essa aus&#234;ncia n&#227;o &#233; exatamente inesperado para os espectadores, afinal, eles j&#225; conhecem um pouco sobre a personalidade do guarda-costas. O senso de dever, combinado ao esp&#237;rito marcial que aparentemente Frank possui s&#227;o mais do que suficientes para explicar o sentimento. &#201; prov&#225;vel que ele se sentisse culpado por n&#227;o ter estado l&#225; no momento, &#233; prov&#225;vel que ele pense que ele poderia ter protegido melhor o presidente. Essas motiva&#231;&#245;es s&#227;o praticamente um clich&#234; em protagonistas de filmes desse tipo. No entanto, como o filme mostra mais diante, a personalidade de Frank parece ser um pouco mais complexa.</p><blockquote><p><strong>SALA DE JANTAR - NOITE</strong></p><p><em>[A refei&#231;&#227;o foi devorada com entusiasmo. Fletcher est&#225; agarrado a uma coxa de frango, o rosto coberto de migalhas e gordura. Rachel balan&#231;a a cabe&#231;a, rindo.]</em></p><p><strong>HERB: </strong><em>... E eu nunca bati nele. Nunca. At&#233; hoje. [ele olha para Frank] N&#227;o &#233; verdade [olha para Rachel] Isso &#233; muito incomum pro meu povo. E o que acontece? Aos dez anos, ele reclamou disso! Voc&#234; acredita nisso?</em></p><p>[&#8230;]</p><p><strong>HERB </strong><em>(&#8230;) Enfim, ele tinha dez anos e acabado de come&#231;ar a jogar futebol americano com contato. Ele chega pra mim e diz que tem medo de tomar pancadas, entendeu? E acha que &#233; porque eu nunca bati nele. &#8216;Por que voc&#234; nunca me bate?&#8217; ele me pergunta!</em></p><p>[&#8230;]</p><p><strong>HERB (O.S.) </strong><em>Ele superou isso. Virou um baita wide receiver. N&#227;o aguentava sentir medo. <strong>Quando encontrava alguma coisa que o assustava, ele fazia at&#233; o medo passar.</strong></em></p></blockquote><p>Nesse di&#225;logo aparentemente banal, os espectadores aprendem algo novo sobre Frank. Ao contr&#225;rio da maioria das pessoas, que preferem fugir de seus medos, ele tentava  super&#225;-los desafiando-os. Se isso &#233; verdade, ent&#227;o &#233; plaus&#237;vel imaginarmos que as motiva&#231;&#245;es que levaram Frank Farmer escolher sua ocupa&#231;&#227;o podem ser mais profundas do que as hip&#243;teses levantadas at&#233; agora. Talvez ele tenha escolhido ser guarda-costas porque queria enfrentar algum medo (da mesma forma que ele fez quando tinha dez anos). Mas qual seria esse medo?</p><h3>N&#227;o estar l&#225;</h3><p>O que prometia ser uma estadia tranquila na casa de Herb acabou se tornando um pesadelo. De alguma forma, o man&#237;aco descobriu o local em que Frank e Rachel se esconderam. Frank e seu pai conseguem salvar Rachel e Fletcher, mas a irm&#227; de Rachel, Nicki acaba morrendo. Ao voltarem para a casa de Rachel, &#224; noite, depois do funeral de sua irm&#227;, Fletcher vai at&#233; a cozinha para tomar um suco de laranja e acaba encontrando Frank. O di&#225;logo entre o garoto e o guarda-costas &#233; a pe&#231;a final do quebra-cabe&#231;a:</p><blockquote><p><strong>INT. SALA DE ESTAR - NOITE</strong></p><p><em>[Est&#225; bem escuro na sala de estar. Frank est&#225; sentado sozinho, completamente im&#243;vel, em uma das poltronas grandes e confort&#225;veis. A garrafa de vodca est&#225; sobre a mesa ao lado dele. Ele encara o vazio. Uma voz suave rompe o sil&#234;ncio da escurid&#227;o.]</em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>Voc&#234; t&#225; bem, Frank?</em></p><p><em>[Frank percebe a pequena presen&#231;a de Fletcher parado ao lado da grande poltrona. Ele n&#227;o o encara diretamente.]</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>T&#244; sim, Fletcher. E voc&#234;?</em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>Eu n&#227;o consegui dormir... Foi t&#227;o assustador, s&#243; de pensar nisso...</em></p><p><em>[Fletcher olha para Frank.]</em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>E voc&#234;? Voc&#234; t&#225; com medo, Frank?</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>Estou, Fletcher. Estou sim.</em></p><p><em>[Frank coloca a m&#227;o gentilmente sobre a cabe&#231;a de Fletcher, mas n&#227;o olha para ele.]</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em><strong>Todo mundo tem medo de alguma coisa, Fletcher. &#201; assim que a gente sabe que algo importa pra gente... Quando a gente tem medo de perder.</strong></em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>Do que voc&#234; tem medo?</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em>Acho que voc&#234; devia tentar voltar a dormir agora, campe&#227;o.</em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>Me conta, Frank, por favor. &#201; do homem que matou a Nicki? Voc&#234; tem medo dele?</em></p><p><em>[Finalmente, Frank se vira e olha para Fletcher. Frank est&#225; bastante abalado. Ele balan&#231;a a cabe&#231;a, dizendo "n&#227;o". Ele percebe que esse tipo de medo nunca tinha passado pela sua cabe&#231;a, e perceber isso o mergulha de volta em seus pensamentos.]</em></p><p><strong>FLETCHER: </strong><em>Ent&#227;o de qu&#234;? Do que voc&#234; tem medo?</em></p><p><em>[Frank j&#225; n&#227;o tem mais for&#231;as pra resistir. Ele deixa a m&#227;o cair, afastando-a de Fletcher.]</em></p><p><strong>FRANK: </strong><em><strong>Eu tenho medo... de n&#227;o estar l&#225;...</strong></em></p></blockquote><h4>***</h4><p>Quando eu era pequeno, eu tinha muito medo de morrer. N&#227;o que esse medo tenha desaparecido totalmente hoje em dia, mas ele era particularmente aterrorizante quando eu era pequeno. A sensa&#231;&#227;o aparecia especialmente &#224; noite, quando eu estava deitado, no meu quarto, no escuro. Ela surgia de repente, entre pensamentos banais a respeito dos acontecimentos do dia. A ideia da absoluta inevitabilidade do fim. A vida na qual voc&#234; est&#225; confortavelmente instalado, todos os seus pensamentos, todos os pensamentos de pensamentos, literalmente tudo o que voc&#234; &#233; capaz de experimentar e conhecer, tem um prazo de validade inexor&#225;vel. Absolutamente inexor&#225;vel. N&#227;o importa se a morte representa a separa&#231;&#227;o do composto hilem&#243;rfico de <a href="https://edwardfeser.blogspot.com/2020/04/the-lesson-of-resurrection.html">corpo e alma imortal</a>, ou se ela &#233; o fim absoluto. O fato &#233; que ela marca um ponto final e, portanto, existe para cada um de n&#243;s um futuro que &#233; inating&#237;vel. Um futuro para al&#233;m de uma barreira intranspon&#237;vel no qual voc&#234; n&#227;o poder&#225; mais se projetar. Em algum momento, <em>voc&#234; n&#227;o vai estar l&#225;</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>.</p><p>No di&#225;logo com Fletcher, descobrimos que Frank tinha esse mesmo medo da morte. Observe que &#8220;n&#227;o estar l&#225;&#8221; tem um duplo sentido. Ele pode significar &#8220;n&#227;o estar l&#225; para proteger seus clientes&#8221; e &#8220;n&#227;o estar l&#225;&#8221; no sentido de n&#227;o estar mais vivo. No entanto, o segundo sentido &#233; o &#250;nico consegue explicar todos os outros fatos que aprendemos sobre Frank. Ele, segundo seu pai, <em>&#8220;n&#227;o aguentava sentir medo. Quando encontrava alguma coisa que o assustava, ele fazia at&#233; o medo passar&#8221;</em>, e por isso escolheu uma das profiss&#245;es onde o risco de morte &#233; real. Ainda, segundo seu pai, ele n&#227;o superou o fato de n&#227;o estar na seguran&#231;a do presidente no dia em que ele sofreu o atentado, <em>pois ele estava no funeral de sua m&#227;e</em>, ou seja, naquele dia, n&#227;o s&#243; ele perdeu a oportunidade de enfrentar a morte, como teve de vivenci&#225;-la atrav&#233;s da m&#227;e. Por fim, h&#225; tamb&#233;m o di&#225;logo entre ele e Rachel sobre o protagonista do filme Yojimbo. &#8220;<em>H&#225; uma grande diferen&#231;a entre querer morrer e n&#227;o ter medo da morte&#8221;, </em>diz Frank, e Rachel responde:<em> &#8220;E porque ele n&#227;o tinha medo da morte, ele era invenc&#237;vel?&#8221;. <strong>Frank viu esse filme sessenta e duas vezes. Um filme sobre um homem que n&#227;o temia a morte. </strong></em>Frank Farmer queria se tornar <em>Sanjuro </em>(o protagonista de seu filme favorito)<em> </em>e para isso ele precisava enfrentar a morte sempre que poss&#237;vel, mas, at&#233; agora, essa oportunidade ainda n&#227;o havia aparecido.</p><h3>Salmo 23</h3><blockquote><p><em>"Se algu&#233;m est&#225; disposto a trocar a pr&#243;pria vida por uma morte, nada pode det&#234;-lo." </em></p><p><em>&#8212; Frank Farmer</em></p></blockquote><p>Depois do luto pela perda da irm&#227;, Rachel conversa com Frank sobre a amea&#231;a que ainda paira sobre ela. O assassino da irm&#227; n&#227;o se daria por satisfeito que Rachel estivesse morta. A atriz considera que um novo ataque poderia acontecer em um evento especial &#8212; a premia&#231;&#227;o dos Oscar. Ela estava concorrendo ao pr&#234;mio e iria apresentar uma categoria. Essa exposi&#231;&#227;o em um lugar p&#250;blico, com milhares de pessoas estranhas em volta ofereceria boas oportunidades para um assassino. Frank lembra a artista de que ir a premia&#231;&#227;o ser&#225; muito perigoso, mas ela insiste e ele acaba concordando. <em>&#8220;Ent&#227;o... eu vou l&#225; ver se ganho um Oscar. E n&#227;o vou me preocupar nem um pouco. Porque eu tenho voc&#234; pra me proteger.&#8221;</em>, conclui Rachel.</p><p>Frank estava correto e, de fato, o assassino v&#234; na cerim&#244;nia a oportunidade perfeita para matar Rachel. Depois de uma sequ&#234;ncia ic&#244;nica, intercalando o glamour dos Oscars de antigamente com as cenas de suspense e a&#231;&#227;o, a tens&#227;o se resolve com o assassino finalmente atirando na dire&#231;&#227;o de Rachel. Frank, no entanto, pula na frente da atriz e &#233; ele quem recebe os tiros. Depois de grande como&#231;&#227;o no palco, o assassino ainda tenta mais uma vez matar Rachel, mas, dessa vez, Frank, mesmo ferido, consegue neutralizar definitivamente a amea&#231;a.</p><blockquote><p><em>[O rosto de Frank Farmer. Triste e exausto. Sua guarda finalmente abaixou. Nada mais pode acontecer. Ele lentamente abaixa a arma, fecha os olhos e deixa a cabe&#231;a cair sobre o peito.]</em></p></blockquote><h4>***</h4><p>No fim, Frank sobrevive aos ferimentos. Ele reencontra Rachel, mas dessa vez apenas para se despedir, afinal, o filme n&#227;o &#233; sobre o casal, e sim sobre Frank. E agora? O arco de Frank est&#225; completo? Ele superou o medo da morte? A resposta para essas perguntas aparece na cena final: Frank reaparece, dessa vez como guarda-costas de um deputado que est&#225; prestes a fazer um discurso, mas, antes dele, um pastor presbiteriano inicia o evento com uma ben&#231;&#227;o inicial. As &#250;ltimas palavras da ben&#231;&#227;o (e do filme) s&#227;o: <em>&#8220;<strong>Pois sabemos em nossos cora&#231;&#245;es que, mesmo que andemos pelo vale da sombra da morte&#8230;</strong> Tu est&#225;s conosco... nos guiando e  protegendo. Am&#233;m.&#8221;, </em>claramente remetendo ao famoso Salmo 23. </p><p>A cita&#231;&#227;o do Salmo &#233; mais interessante n&#227;o pela parte que aparece, mas pela parte que <em>&#233; deliberadamente omitida</em>. No Salmo, o trecho &#8220;<em>mesmo que andemos pelo vale da sombra da morte&#8221; </em>&#233; seguido<em> </em>por<em> <strong>&#8220;eu n&#227;o temerei mal algum&#8221;</strong>.</em> Ou seja, a prece do reverendo nos indica que Frank finalmente superou o seu grande medo, <strong>o medo de andar pelo vale da morte</strong>. Para super&#225;-lo, Frank estava disposto a dar sua vida n&#227;o por uma morte (como o vil&#227;o do filme), mas pela vida do pr&#243;ximo. Assim, nosso her&#243;i se tornou invenc&#237;vel como o personagem do seu filme favorito e Lawrence Kasdan conclui um roteiro cinematogr&#225;fico quase perfeito sobre &#8220;um homem disposto a morrer por um sal&#225;rio&#8221;.</p><p>[MUSIC CUE: <a href="https://music.youtube.com/watch?v=tP0zj220CbQ&amp;si=huuOtaUwbkBJgAtl">&#8220;I Will Always Love You&#8221;</a> by Whitney Houston]</p><div class="captioned-button-wrap" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/p/o-significado-de-o-guarda-costas?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="CaptionedButtonToDOM"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Helium Integers ! Se voc&#234; gostou deste post, por favor, d&#234; um like, comente e compartilhe.</p></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/p/o-significado-de-o-guarda-costas?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Compartilhar&quot;}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.heliumintegers.com/p/o-significado-de-o-guarda-costas?utm_source=substack&utm_medium=email&utm_content=share&action=share"><span>Compartilhar</span></a></p></div><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Enquanto eu escrevo este artigo, <em>I Will Always Love You</em> foi reproduzida 2,8 bilh&#245;es de vezes no Youtube e <em>I Have Nothing,</em> a segunda faixa da trilha, modestas 1,2 bilh&#245;es de vezes.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Bundling &#233; uma estrat&#233;gia de discrimina&#231;&#227;o de pre&#231;o onde a empresa vende diversos servi&#231;os ou produtos em uma &#250;nica cesta por um &#250;nico pre&#231;o. Ao inv&#233;s de vender Excel apenas para quem quer pagar um pre&#231;o alto por Excel, e vender o Word por um pre&#231;o alto para quem quer pagar um pre&#231;o alto pelo Word, &#233; mais lucrativo vender o Excel e o Word juntos por um &#250;nico pre&#231;o m&#233;dio. Assim voc&#234; consegue vender muito mais Excel e Word. Essa pr&#225;tica &#233; muito comum em setores em que o custo marginal &#233; baixo e o custo fixo (investimentos iniciais) s&#227;o altos (como &#233; o caso do desenvolvimento de um software com Word ou Excel). O mesmo fen&#244;meno explica por que a televis&#227;o por assinatura n&#227;o te vende apenas os canais de esporte &#8212; voc&#234; precisa comprar o GNT e a Universal. Um &#250;nico pre&#231;o m&#233;dio que, em teoria, deveria ser uma m&#233;dia ponderada da disposi&#231;&#227;o a pagar da popula&#231;&#227;o interessada. Como observou Alex Tabarrok, Bundling tamb&#233;m funciona muito bem em blockbusters. Filmes que gastam milh&#245;es para serem feitos precisam ter de tudo um pouco: a&#231;&#227;o, romance, atores famosos, com&#233;dia, suspense etc.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Ele foi o primeiro a perceber que o sal&#225;rio nunca seria o mesmo entre as diferentes ocupa&#231;&#245;es, o que &#233; estranho para um economista, porque, em tese, todos os sal&#225;rios deveriam ser iguais, pelo menos em equil&#237;brio, afinal ningu&#233;m vai trabalhar por mil reais em lugar sabendo que ele pode ganhar dois mil em outro. Segundo Smith, o que explica o fato de ocupa&#231;&#245;es que poderiam ser desempenhadas pelo mesmo grupo de pessoas terem sal&#225;rios diferentes &#233;, por exemplo, <a href="https://www.adamsmithworks.org/documents/keating-smith-differential-returns-to-labor">&#8220;as dificuldades, a limpeza ou sujeira, a honradez ou desonrardes do trabalho&#8221;</a>. Um lixeiro tem um trabalho mais insalubre do que um porteiro de um pr&#233;dio na Avenida Paulista, por exemplo. S&#243; esse fato j&#225; poderia explicar um diferencial de sal&#225;rio entre as duas profiss&#245;es com o lixeiro ganhando um pr&#234;mio pelo fato de lidar com o lixo da cidade. O insight de Adam Smith gerou o que o ramo da economia chamada Economia do Trabalho chama de <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1573446386010155"> &#8220;Theory of Compensating Wage Differentials&#8221;</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Ali&#225;s, essa tamb&#233;m uma parte importante da teoria do diferencial compensat&#243;rio de sal&#225;rios: Trabalhar em um escrit&#243;rio com vista para o mar deve ser melhor do que trabalhar em um por&#227;o e, portanto, as pessoas deveriam estar dispostas a receber menos sal&#225;rio para ficar de frente para o mar. Considerando &#8220;amenidades&#8221; mais sal&#225;rio, no entanto, os dois empregos, se forem id&#234;nticos em todo resto, deveriam dar o mesmo retorno.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>N&#227;o &#233; preciso ser um grande g&#234;nio militar para entender que ele provavelmente tem raz&#227;o. Os &#250;nicos assaltantes que de fato tentam atacar um carro-forte s&#227;o os que tem meios e planejamento que garantam uma taxa de sucesso elevada. Al&#233;m disso, eles t&#234;m a iniciativa, eles escolhem a hora e o local do ataque e sabem exatamente o que esperar da equipe de um carro-forte. Aos seguran&#231;as, resta apenas reagir ao que os assaltantes passaram meses planejando em detalhes.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Nesses momentos em que o medo se tornava muito presente, obviamente, eu corria para o quarto dos meus pais pedindo ajuda, imaginando que eles pudessem fazer alguma coisa a respeito. A vantagem de ter um pai fil&#243;sofo &#233; que, em certo sentido, ele praticamente &#233; pago para ficar pensando nessas coisas. No entanto, ao inv&#233;s de falar de teorias filos&#243;ficas, ele geralmente contava hist&#243;rias de alguns mitos antigos como, por exemplo, a hist&#243;ria de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Gilgamesh">Gilgamesh</a>. Embora o problema de morrer n&#227;o fosse resolvido, estranhamente, ouvir a hist&#243;ria de um sujeito que deixou a planta da imortalidade ali &#8212; jogado num canto para qualquer serpente pegar enquanto ele tomava banho &#8212; me acalmava e eu conseguia dormir.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Conflito de Visões em Mestre dos Mares]]></title><description><![CDATA["Afinal, voc&#234;s querem os seus filhos cantando La Marseillaise?"]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-conflito-de-visoes-em-mestre-dos</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-conflito-de-visoes-em-mestre-dos</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Tue, 11 Jun 2024 00:29:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f0d9c5f-9298-48e8-9039-21d4ff1aa6b9_828x780.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>Abril &#8212; 1805</em></p><p><em>Napole&#227;o &#233; o senhor da Europa</em></p><p><em>Apenas a frota brit&#226;nica est&#225; diante dele</em></p><p><em>Agora, oceanos s&#227;o campos de batalha.</em></p><p>&#8212; Master and Commander: The Far Side of the World (2003)</p></blockquote><p>Em mat&#233;ria de gravidade, as ideias de uma pessoa precisam ser ponderadas pelo fator &#8220;o que vai acontecer com essa pessoa se ela estiver errada?&#8221;. Se nada de ruim acontecer, ent&#227;o a opini&#227;o n&#227;o deve ser levada muito a s&#233;rio. Por outro lado, se a vida dela depende da acur&#225;cia de seus palpites, ent&#227;o eles deveriam pesar muito<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. E &#233; por isso que poucas ideias pesam tanto quanto as do capit&#227;o de um navio<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. </p><p>&#201; esse senso de gravidade, de &#8220;tudo ou nada&#8221;, que faz com que filmes de aventuras mar&#237;timas sejam t&#227;o interessantes. &#8220;<a href="https://www.imdb.com/title/tt0099810/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_q_hunt%2520for%2520the%2520red%2520october">A Ca&#231;ada ao Outubro Vermelho</a>&#8221;, &#8220;<a href="https://www.imdb.com/title/tt0082096/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_q_das%2520boot">Das Boot</a>&#8221;, &#8220;<a href="https://www.imdb.com/title/tt0112740/?ref_=nv_sr_srsg_0_tt_8_nm_0_q_mar%25C3%25A9%2520vermelha">Mar&#233; Vermelha</a>&#8221; e tantos outros filmes mostram indiv&#237;duos organizados em pequenas comunidades pol&#237;ticas agindo em prol de uma miss&#227;o grave e urgente. Nesse universo, cada palavra, pensamento, ato ou omiss&#227;o faz a diferen&#231;a entre sucesso e fracasso, entre vida e morte. No navio, n&#227;o h&#225; espa&#231;o para fingimento, sinaliza&#231;&#227;o de virtudes ou pose. A tripula&#231;&#227;o, confinada numa pequena embarca&#231;&#227;o flutuando em um vasto oceano, est&#225; a algumas decis&#245;es erradas de se tornarem n&#225;ufragos, cujas ideias, segundo um fil&#243;sofo espanhol popularizado por um fil&#243;sofo brasileiro, s&#227;o as &#250;nicas que realmente importam. Sendo assim, as ideias dos marinheiros s&#227;o as que est&#227;o mais perto de importarem.</p><p>Mais graves ainda s&#227;o as ideias e convic&#231;&#245;es do comandante de um navio no come&#231;o do s&#233;culo XIX, uma &#233;poca em que n&#227;o existia GPS ou r&#225;dio e em que o navio de madeira dependia apenas da for&#231;a dos ventos. Portanto, &#233; seguro de dizer que as convic&#231;&#245;es do capit&#227;o Jack Aubrey no comando da<em> HMS Surprise</em> eram pesad&#237;ssimas e talvez seja isso que torne &#8220;<a href="https://www.imdb.com/title/tt0311113/?ref_=fn_al_tt_1">Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo</a>&#8221; um dos melhores filmes do g&#234;nero.</p><p><strong>I. As Vis&#245;es e seus Representantes</strong></p><p>Mas antes de falar sobre as convic&#231;&#245;es do capit&#227;o Aubrey &#233; importante meditar sobre  a origem ou fundamento das convic&#231;&#245;es de uma pessoa. Qualquer a&#231;&#227;o humana consciente est&#225; alicer&#231;ada em impress&#245;es expl&#237;citas ou impl&#237;citas sobre como o mundo funciona. Quando voc&#234; decide atravessar uma rua movimentada, por exemplo, o que guia sua decis&#227;o sobre o momento certo atravess&#225;-la &#233; uma estimativa da quantidade, dist&#226;ncia, posi&#231;&#227;o e da velocidade dos carros que est&#227;o vindo em sua dire&#231;&#227;o. Voc&#234; tem intuitivamente uma no&#231;&#227;o baseada em premissas impl&#237;citas sobre o funcionamento dos aspectos f&#237;sicos da realidade. Isso vale para quando voc&#234; calcula a for&#231;a e a dist&#226;ncia necess&#225;rias para saltar uma po&#231;a de &#225;gua entre o meio fio e o asfalto. Voc&#234; faz isso e, na maioria das vezes, &#233; bem-sucedido sem ter lido um livro de f&#237;sica.</p><p>Assim como nossas impress&#245;es sobre a f&#237;sica do mundo guiam nossas decis&#245;es cinem&#225;ticas, nossas impress&#245;es sobre a natureza humana e o funcionamento da sociedade guiam nossas atitudes na esfera social, pol&#237;tica ou econ&#244;mica. Em seu cl&#225;ssico<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> intitulado &#8220;<a href="https://www.amazon.com.br/Conflict-Visions-Ideological-Political-Struggles-ebook/dp/B06XBV7WHL/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=2M6QSY9QUJFW6&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.Ljw06EvRZFZ5ePpzk1b2m2wovdanDNd3dmcFvH-hvYbj69UftftPC-ZJlL-Be43tV79yrhtjrT8GMF6ojKkefrkfCr2e697sC_dyO9NZNLsP-3Gp9IOJskCZGF-mBcI5XG4m-q0OHv6vYXdgdGfWpENO1wkDnb8v_NiTHQ1zc0Nf-TOJD80ozWpqW-5Bxm75X3Zi1uY0C_lljUH7K6yOFYp0Sp_pLnx2ULXNRq2zN-IjdFgZEkvSRVzvDiSG1JCqg6aAQpygnxgpdUvENnk3vcO9QlBEUhVLTlYt9QWU4Fo.VTyGeT1VmqYhIxp1llQa8R4Nks70vGhnCY3yvszdcsA&amp;dib_tag=se&amp;keywords=a+conflict+of+visions&amp;qid=1714177567&amp;sprefix=a+conflict+of+vision%2Caps%2C563&amp;sr=8-1">Conflito de Vis&#245;es</a>&#8221;, o economista Thomas Sowell explica  que cada indiv&#237;duo possui certas cren&#231;as e &#8220;impress&#245;es&#8221; fundamentais sobre o mundo, as quais os instrui sobre como interpretar fatos e acontecimentos da vida em sociedade. Essas cren&#231;as formam vis&#245;es de mundo que identificam quais s&#227;o as rela&#231;&#245;es de causa e efeito mais prov&#225;veis em cada situa&#231;&#227;o e, com isso, possibilitam que o indiv&#237;duo possa agir e escolher racionalmente. Embora cada indiv&#237;duo possa ter uma vis&#227;o de mundo pr&#243;pria &#8212; o que faz com que existam uma mir&#237;ade de opini&#245;es sobre qualquer assunto &#8212;, Sowell prop&#245;e que as vis&#245;es podem ser classificadas em dois grandes grupos: as <strong>Vis&#245;es Restritas </strong>(<em>Constrained Visions)</em> e as <strong>Vis&#245;es Irrestritas</strong> <em>(Unconstrained Visions)</em>. A diverg&#234;ncia fundamental entre os dois grupos, segundo Sowell, &#233; em rela&#231;&#227;o a <strong>natureza humana</strong>. </p><p>A vis&#227;o restrita da natureza humana pode ser definida como &#8220;pessimista&#8221;. Para ilustr&#225;-la, Thomas Sowell recorre a uma medita&#231;&#227;o cl&#225;ssica do economista Adam Smith sobre nossas defici&#234;ncias morais. Uma vers&#227;o atualizada dessa medita&#231;&#227;o &#233; a seguinte: &#201; bem prov&#225;vel que voc&#234;, caro leitor, tenha perdido mais noites de sono por causa do seu time de futebol ou por uma paixonite n&#227;o correspondida do que pelas v&#237;timas de um tsunami na Indon&#233;sia que matasse 300 mil pessoas. Segundo Smith, n&#227;o &#233; como se n&#243;s n&#227;o nos import&#225;ssemos com as v&#237;timas do desastre natural. N&#243;s apenas ficamos demonstravelmente mais tristes quando coisas meramente desagrad&#225;veis acontecem conosco do que quando coisas absolutamente terr&#237;veis acontecem com pessoas de outro continente.</p><p>A nossa consci&#234;ncia, nossa capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros (nosso espectador imparcial, segundo Smith) &#233; insuficiente para restringir nossas paix&#245;es. Roger E. Backhouse explica o problema levantado por Adam Smith: &#8220;<em>Quando contemplamos nossas a&#231;&#245;es antes de agir, &#8220;nossas paix&#245;es&#8221; tendenciam nosso julgamento. Depois que uma a&#231;&#227;o foi tomada, por outro lado, o desejo de n&#227;o pensar mal sobre n&#243;s mesmos nos levar&#225; ao vi&#233;s</em>.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>.  Em resumo, o homem &#233; intrinsecamente moralmente limitado.</p><p>Nesse mundo, uma boa forma de fazer os homens ajudarem uns aos outros &#233; atrav&#233;s de incentivos que apelem ao autointeresse. De fato, &#233; isso que Adam Smith afirmava que o mercado fazia: o padeiro, o a&#231;ougueiro e o cervejeiro trabalhavam uns para os outros n&#227;o por benevol&#234;ncia, mas, sim, porque essa era a melhor maneira de atingirem seus pr&#243;prios interesses. As boas institui&#231;&#245;es servem justamente para isso: alinhar incentivos de indiv&#237;duos fundamentalmente deficientes do ponto de vista moral para que eles, na pr&#225;tica, contribuam para o bem comum da comunidade, pouco importando se a inten&#231;&#227;o do sujeito era boa ou n&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>.</p><p>Em Mestre dos Mares, capit&#227;o Jack Aubrey, &#233; um representante dessa vis&#227;o. Uma cena que ilustra isso se passa ainda no come&#231;o do filme: &#192; noite, na grande cabine do navio, Aubrey est&#225; jantando com os oficiais e, junto deles, tamb&#233;m est&#225; o m&#233;dico e naturalista dr. Stephen Maturin, amigo do capit&#227;o. No meio do jantar, Aubrey faz uma brincadeira com ele envolvendo um jogo de palavras:</p><blockquote><p><em>&#8220;<strong>JACK</strong>: Voc&#234; v&#234; esses duas pragas, doutor?</em></p><p><em>[Ele aponta para um leve movimento entre as migalhas de um biscoito.]</em></p><p><em><strong>STEPHEN</strong>: Eu vejo.</em></p><p><em><strong>JACK</strong>: Qual dos dois voc&#234; escolheria?</em></p><p><em>[A mesa fica tensa com antecipa&#231;&#227;o a uma das &#8220;piadas&#8221; do Capit&#227;o. Stephen se concentra.]</em></p><p><em><strong>STEPHEN</strong>: N&#227;o h&#225; um fiapo de diferen&#231;a. Ambos s&#227;o da mesma esp&#233;cie de Gorgulhos.</em></p><p><em><strong>JACK</strong>: Mas suponha que voc&#234; tivesse que escolher?</em></p><p><em><strong>STEPHEN</strong>: Nesse caso, eu escolheria a &#8220;praga&#8221; da direita, ela tem uma vantagem percept&#237;vel em comprimento e largura.</em></p><p><em><strong>JACK</strong>: A&#237; est&#225;, eu o peguei. Voc&#234; est&#225; completamente derrotado. <strong>Voc&#234; n&#227;o sabe que na Marinha voc&#234; sempre deve escolher &#8220;das pragas, a menor&#8221;?</strong></em></p><p><em>[Ele troveja com gargalhadas, o resto se junta a ele, sem f&#244;lego com alegria, l&#225;grimas de risos escorrendo pelos seus rostos.]&#8221;</em></p></blockquote><p>Das pragas, a menor &#8212; ou, se utilizarmos o trocadilho original que funciona apenas em ingl&#234;s, &#8220;dos males, o menor&#8221; (<em>the lesser of two evils</em>) &#8212; &#233; um ditado popular cuja  interpreta&#231;&#227;o &#233; a de que toda escolha envolve algum custo (algum mal) e, portanto, nos resta apenas escolher dentre todas as alternativas, aquela que custa menos. Para a vis&#227;o restrita, as limita&#231;&#245;es morais e cognitivas do homem o impedem de achar solu&#231;&#245;es definitivas e sem custos para os problemas. Um dos lemas dessa vis&#227;o segundo Sowell seria &#8220;n&#227;o h&#225; solu&#231;&#245;es, apenas dilemas (<em>trade-offs</em>)&#8221;. As falhas do mercado, por exemplo, devem ser comparadas com as falhas das alternativas ao mercado<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>.</p><p>**</p><p>Como voc&#234;s podem imaginar, se a vis&#227;o restrita &#233; pessimista, a vis&#227;o irrestrita &#233; otimista em rela&#231;&#227;o a natureza humana. Segundo ela, existe um potencial moral n&#227;o realizado no homem. Se ele for desenvolvido, o indiv&#237;duo n&#227;o s&#243; colaborar&#225; com o bem comum (algo tamb&#233;m poss&#237;vel na vis&#227;o restrita), mas tamb&#233;m far&#225; isso de forma benevolente, colocando os interesses dos outros acima do seus. Um exemplo dessa vis&#227;o pode ser encontrado na famosa carta &#8220;Socialismo e o homem em Cuba&#8221; (<em><a href="https://www.marxists.org/espanol/guevara/65-socyh.htm">El socialismo y el hombre en Cuba</a></em>). Nela, Che Guevara argumentava que, atrav&#233;s da revolu&#231;&#227;o socialista, surgir&#227;o &#8220;novos homens e mulheres&#8221; com uma nova consci&#234;ncia, a qual dispensar&#225; a necessidade de incentivos para que cada um cumpra seu dever<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a>. O revolucion&#225;rio &#233; pedag&#243;gico ao expor sua vis&#227;o irrestrita:</p><blockquote><p><em>&#8220;Existe o perigo de que a floresta n&#227;o seja vista por causa das &#225;rvores. O sonho ut&#243;pico de que o socialismo possa ser alcan&#231;ado com a ajuda das <strong>ferramentas insuficientes que nos foram deixadas pelo capitalismo</strong> ([&#8230;],<strong> a lucratividade, o interesse material individual como alavanca, etc.</strong>) pode nos levar a um beco sem sa&#237;da. Quando voc&#234; acaba l&#225;, depois de ter viajado por um longo caminho com muitas encruzilhadas, &#233; dif&#237;cil determinar exatamente onde voc&#234; fez a escolha errada. Enquanto isso, a base econ&#244;mica que foi estabelecida fez o seu trabalho de minar o desenvolvimento da consci&#234;ncia. <strong>Para construir o comunismo, &#233; necess&#225;rio, simultaneamente com as novas bases materiais, construir o novo homem e a nova mulher.</strong></em></p></blockquote><p>Se para a vis&#227;o restrita as institui&#231;&#245;es s&#227;o a &#250;nica forma de fazer homens imperfeitos cooperarem de alguma forma, para a vis&#227;o irrestrita essas institui&#231;&#245;es s&#227;o justamente a causa do problema. Enquanto para os primeiros as institui&#231;&#245;es &#8220;s&#227;o o melhor que podemos fazer&#8221; dada a nossa natureza, para os &#250;ltimos elas apenas estimulam a busca pelo autointeresse, impedindo o aprimoramento moral. Mais do que isso, as institui&#231;&#245;es s&#227;o vistas como mecanismos de domina&#231;&#227;o de um homem sobre os demais. &#8220;O homem nasce livre e em todos os lugares ele est&#225; acorrentado&#8221;, diria Rousseau, uma frase que, segundo o Sowell, resume bem a vis&#227;o irrestrita. Em Mestre dos Mares, essa vis&#227;o otimista &#233; representada pelo dr. Stephen Maturin. </p><p>A piada do capit&#227;o Jack Aubrey na mesa a respeito das pragas tinha como objetivo reanimar o esp&#237;rito do doutor. Stephen sentira-se deslocado do grupo, formado por oficiais da marinha, por causa de uma hist&#243;ria que o capit&#227;o acabara de contar. Jack falou da vez em que ele conheceu ningu&#233;m menos que Lorde Nelson. </p><p>Lorde Nelson &#233; um dos maiores her&#243;is da Inglaterra e sua est&#225;tua pode ser vista no topo de uma coluna de 52 metros de altura na pra&#231;a <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nelson%27s_Column_Looking_Towards_Westminster_-_Trafalgar_Square_-_London_-_240404.jpg#/media/File:Nelson's_Column_Looking_Towards_Westminster_-_Trafalgar_Square_-_London_-_240404.jpg">Trafalgar Square</a>, em Londres. Ali&#225;s, Trafalgar foi uma decisiva batalha naval travada durante as guerras napole&#244;nicas na costa da Espanha, na qual o almirante Nelson faria o maior sacrif&#237;cio que um homem pode fazer por seu pa&#237;s &#8212; entregar a pr&#243;pria vida em batalha. N&#227;o &#233; preciso dizer que a hist&#243;ria do encontro do capit&#227;o com a lenda da marinha inglesa atraiu a aten&#231;&#227;o de todos os presentes no jantar. Aubrey contou que serviu com o almirante na batalha do Nilo e que em certa ocasi&#227;o: <em>&#8220;&#8230; Algu&#233;m ofereceu a ele</em> [Lord Nelson]<em> um casaco em uma noite fria e ele recusou, ele disse que estava bastante quente &#8212; <strong>que o zelo pelo rei e pelo pa&#237;s o mantinham aquecido</strong>&#8217; (&#8230;) Parece absurdo, eu sei, e se fosse outro homem voc&#234; gritaria: "Oh, o que coisa lament&#225;vel" e descartaria como mero entusiasmo, mas com ele voc&#234; sentia o seu cora&#231;&#227;o brilhar.&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Um brinde ao Lorde Nelson&#8221;</em>, disse Mowett, um aspirante s&#234;nior que estava na mesa. Todos brindaram, mas era vis&#237;vel a falta de entusiasmo do dr. Stephen. O m&#233;dico do navio n&#227;o era um grande apreciador do patriotismo. Adepto da vis&#227;o otimista, Stephen Mautrin acredita, assim como Che Guevera, na capacidade de aperfei&#231;oamento do homem e, portanto, compromissos e la&#231;os de lealdade  que o vinculem a uma na&#231;&#227;o, comunidade ou fam&#237;lia s&#227;o <em>irracionais</em>. </p><p>De acordo com Thomas Sowell, a vis&#227;o otimista ou irrestrita tem uma cren&#231;a muito  grande na capacidade do homem de acumular cada vez mais conhecimentos racionais. Sendo assim, adeptos dessa vis&#227;o esperam que o homem do futuro sempre ter&#225; mais informa&#231;&#245;es e ser&#225; mais virtuoso do que o passado. Nesse contexto, tradi&#231;&#245;es e promessas que o prendam ao passado, impedindo-o de agir em fun&#231;&#227;o do que &#233; &#8220;mais racional agora&#8221;, devem ser evitadas. O patriotismo, por exemplo, seria um sentimento irracional e indesej&#225;vel na medida em que leva o patriota ter uma prefer&#234;ncia, um vi&#233;s, pelo seu pa&#237;s e por seus compatriotas em detrimento dos demais povos. Para a vis&#227;o restrita, por outro lado, o patriotismo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a> &#233; uma institui&#231;&#227;o que facilita a coopera&#231;&#227;o social de um determinado grupo de pessoas ao longo do tempo. Ele ajuda a provis&#227;o de defesa nacional, por exemplo, que &#233; um bem p&#250;blico e, como tal, a provis&#227;o depende em grande parte de uma coordena&#231;&#227;o social para minimizar o comportamento <em><a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Free-rider_problem">free rider</a></em>. </p><p>Ali&#225;s, o motivo que levava o capit&#227;o Jack Aubrey e sua tripula&#231;&#227;o ao lado mais distante do mundo era justamente um assunto de defesa nacional. O ano era 1805, momento em que Napole&#227;o planejava invadir a Inglaterra. A batalha pela supremacia dos mares era a &#250;nica coisa que impedia esse plano de ser concretizado e a miss&#227;o do comandante da <em>H.M.S. Surprise</em> era interceptar um navio franc&#234;s chamado <em>Acheron </em>que estava atacando navios comerciais ingleses. </p><p>&#201; interessante notar que o Conflito de Vis&#245;es n&#227;o se d&#225; apenas no microcosmos do navio. A disputa entre Fran&#231;a e Inglaterra retratada no filme tamb&#233;m se insere nesse tema. De um lado, temos a Fran&#231;a de Napole&#227;o que foi o resultado da Revolu&#231;&#227;o de 1789, cuja inspira&#231;&#227;o iluminista a colocaria dentro da vis&#227;o de mundo irrestrita. Do outro, temos a Inglaterra, a terra de Edmund Burke, expoente da vis&#227;o restrita e autor do famoso panfleto &#8220;Reflex&#245;es Sobre a Revolu&#231;&#227;o Francesa&#8221;, o qual al&#233;m de fazer duras cr&#237;ticas ao que acontecera na Fran&#231;a, tamb&#233;m fazia uma defesa do sistema ingl&#234;s, baseado na tradi&#231;&#227;o e costumes. <em>Acheron </em>era a Fran&#231;a de Rousseau, da igualdade, do progresso, da raz&#227;o com erre mai&#250;sculo e da cren&#231;a no potencial ilimitado do homem. O <em>H.M.S. Surprise</em> era a Inglaterra de Burke, das hierarquias, da valoriza&#231;&#227;o dos costumes, da experi&#234;ncia e do ceticismo em rela&#231;&#227;o a natureza humana.</p><p>Jack Aubrey, a marinha brit&#226;nica, dr. Mautrin e a Fran&#231;a revolucion&#225;ria s&#227;o personagens e elementos do filme que representam vis&#245;es de mundo distintas, variando em maior ou menor grau na escala criada por Thomas Sowell. No entanto, nenhum momento desse &#233;pico naval o choque de vis&#245;es fica t&#227;o evidente quanto na subtrama do Aspirante Sr. Hollom.</p><p><strong>II. O caso do Aspirante Sr. Hollom</strong></p><p>O Aspirante Hollom simplesmente n&#227;o estava apto para o servi&#231;o na marinha. Ele tinha vinte e quatro anos e ainda era um Aspirante, o que, na marinha inglesa, &#233; um p&#233;ssimo sinal<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-9" href="#footnote-9" target="_self">9</a>. Em diversas ocasi&#245;es do filme sua inaptid&#227;o &#233; demonstrada. A demora em anunciar o toque &#8216;a seus postos&#8217; custou minutos preciosos da tripula&#231;&#227;o para a primeira batalha contra o <em>Acheron, </em>na qual todos os homens sob seu comando foram mortos. Al&#233;m disso, a hesita&#231;&#227;o na hora de ajudar o capit&#227;o do mastro principal, William Warley, a recolher as velas durante a travessia do Cabo Horn contribuiu para que o mastro se rompesse com o vento e fosse jogado ao mar, junto com Warley, que infelizmente n&#227;o pode ser resgatado. Diante destes fatos, n&#227;o &#233; a toa que a tripula&#231;&#227;o simplesmente n&#227;o o respeitava:</p><blockquote><p><strong>&#8220;HOLLOM:</strong> <em>Tenho tentado conhecer um pouco os homens, senhor, ser amig&#225;vel, mas eles ficaram contra mim. Sempre cochichando quando eu passo, me olhando de um jeito estranho. Mas vou corrigir isso, ser mais duro com eles daqui pra frente.</em></p><p><strong>JACK: </strong><em>Voc&#234; n&#227;o pode fazer 'amizades' com os marinheiros do mastro de proa, eles v&#227;o acabar te desprezando. Nem precisa ser um tirano. O que eles querem &#233; lideran&#231;a, for&#231;a, respeito.&#8221;</em></p></blockquote><p>Na ordem social que vigorava naquele pequeno navio, oficiais tinham alguns privil&#233;gios, os quais eram aceitos pela tripula&#231;&#227;o porque sob esses mesmos oficiais pesavam responsabilidades maiores tamb&#233;m. Os marinheiros n&#227;o viam Hollom cumprindo com seu dever e, portanto, n&#227;o o respeitavam. A crise de autoridade chegou ao &#225;pice quando o carpinteiro Nagel, ainda irritado com a morte de seu amigo Warley, deliberadamente esbarra no Asipriante Hollom, fazendo-o cair no conv&#233;s na frente de todos. O Capit&#227;o Jack observa a cena e imediatamente ordena a deten&#231;&#227;o de Nagel e, mais tarde, ordena a execu&#231;&#227;o da  puni&#231;&#227;o por insubordina&#231;&#227;o: Chibatadas na frente de toda tripula&#231;&#227;o.</p><p>O a&#231;oitamento de Nagel &#233; mais uma ocasi&#227;o em que o conflito de vis&#245;es aparece. O Capit&#227;o deveria ser misericordioso com o carpinteiro, ou deveria aplicar a puni&#231;&#227;o que consta no cap&#237;tulo trinta e seis do <em>Articles of War</em>? Nagel e o resto da tripula&#231;&#227;o estavam passando por um grande <em>stress</em>. O navio franc&#234;s a ser capturado estava em uma classe superior ao do <em>H.M.S. Surprise</em> e este &#250;ltimo quase foi derrotado no primeiro encontro, conseguindo fugir apenas por uma combina&#231;&#227;o de sorte e sagacidade de seu Capit&#227;o. At&#233; os oficiais superiores reconheciam que miss&#227;o de perseguir e interceptar o <em>Acheron</em> era quase imposs&#237;vel. N&#227;o fosse a determina&#231;&#227;o de Jack Aubrey em persegui-lo at&#233; o &#8220;Lado Mais Distante do Mundo&#8221;, eles j&#225; estariam a caminho de casa. Al&#233;m disso, a tripula&#231;&#227;o e, em particular Nagel, ainda sofria a perda do amigo que morrera afogado na travessia do Cabo Horn e, aos olhos deles (e, convenhamos, aos olhos de quem assiste o filme tamb&#233;m<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-10" href="#footnote-10" target="_self">10</a>), a omiss&#227;o de Hollom tornava-o parcialmente culpado. Por fim, naquele momento, a nau estava parada no meio do oceano, pois n&#227;o havia vento algum, n&#227;o havia nem sequer uma nuvem, apenas o sol escaldante sob suas cabe&#231;as. Sob essas condi&#231;&#245;es de <em>stress </em>e luto, n&#227;o seria compreens&#237;vel a atitude de Nagel e tamb&#233;m uma atenua&#231;&#227;o da pena? Essa era a posi&#231;&#227;o do representante da vis&#227;o irrestrita, o dr. Stephen, como podemos ver em um dos melhores di&#225;logos do filme e no qual o conflito de vis&#245;es aparece de forma cristalina:</p><blockquote><p><em><strong>A GRANDE CABINE - CREP&#218;SCULO</strong></em></p><p><em>[JACK est&#225; ajustando uma nova corda do violino. A cena se amplia para revelar STEPHEN sentado em frente com seu violoncelo.]</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Eu n&#227;o sou um capit&#227;o que castiga com chibatadas.</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Hollom &#233; um bode expiat&#243;rio para toda a m&#225; sorte, real ou imagin&#225;ria, nesta viagem&#8230; Eles est&#227;o exaustos. Esses homens est&#227;o exaustos. Voc&#234; os pressionou demais.</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Stephen, eu te convido para esta cabine como meu amigo. N&#227;o para criticar nem comentar sobre meu comando.</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Bem, devo deix&#225;-lo at&#233; que esteja em um estado de esp&#237;rito mais harmonioso?</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>O que voc&#234; quer que eu fa&#231;a?</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Jogue o grogue do navio fora.</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Parar com o grogue deles?</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Nagle estava b&#234;bado quando insultou Hollom.</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Parar anos de privil&#233;gio e tradi&#231;&#227;o? Prefiro t&#234;-los completamente b&#234;bados do que enfrentar um motim.</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Eu come&#231;o a compreender bem os motins. Homens arrancados de suas casas, confinados por meses a bordo de uma pris&#227;o de madeira...</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Respeito seu direito de discordar de mim, mas s&#243; posso me dar ao luxo de ter um rebelde neste navio. Odeio quando voc&#234; fala do servi&#231;o dessa maneira. Isso me deixa muito deprimido. Voc&#234; acha que eu quero castigar Nagle? Um homem que cortou as cordas que enviaram seu colega para a morte? Sob ordens? Sob minhas ordens?! Voc&#234; n&#227;o v&#234;? As &#250;nicas coisas que mant&#234;m este mundo de madeira unido s&#227;o o trabalho &#225;rduo...</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Jack, o homem falhou em saudar.</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Existem hierarquias at&#233; mesmo na natureza.</em></p><p><strong>STEPHEN: </strong><em>N&#227;o h&#225; desd&#233;m na natureza. N&#227;o h&#225;...</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Os homens devem ser governados! Muitas vezes n&#227;o de forma s&#225;bia, mas governados, no entanto.</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>Essa &#233; a desculpa de todo tirano na hist&#243;ria, de Nero a Bonaparte. Eu, por exemplo, sou contra a autoridade. &#201; a fonte de mis&#233;ria e opress&#227;o.</em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Voc&#234; veio ao lugar errado em busca de anarquia, irm&#227;o.</em></p></blockquote><p>Existem diversos elementos interessantes nesse di&#225;logo, mas sua motiva&#231;&#227;o central, a raz&#227;o dele existir &#233; a puni&#231;&#227;o a ser imposta ao carpinteiro Nagel. Afinal, ela &#233; justa? Segundo Thomas Sowell, h&#225; uma grande diferen&#231;a em como as duas vis&#245;es em conflito enxergam a Justi&#231;a. Para a vis&#227;o restrita, ela &#8220;significa a ader&#234;ncia a regras pr&#233;-estabelecidas, enquanto na vis&#227;o irrestrita, algo &#233; justo ou injusto de acordo com o resultado final.&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-11" href="#footnote-11" target="_self">11</a> Jack Aubrey est&#225; aplicando a regra dos <em>Articles of War</em>, de conhecimento comum a todos os marinheiros, e, portanto, est&#225; fazendo justi&#231;a. Stephen, por outro lado, olha apenas para o resultado, o a&#231;oitamento de um bom marinheiro que est&#225; exausto, fora de si e sob grande <em>stress</em>, algu&#233;m v&#237;tima das circunst&#226;ncias. <strong>Stephen enxerga o &#8220;potencial" de Nagel, o homem que ele seria caso a situa&#231;&#227;o n&#227;o fosse desfavor&#225;vel. </strong></p><p>A diverg&#234;ncia entre as duas abordagens reca&#237; sobre a fundamental diferen&#231;a a respeito da natureza humana. O capit&#227;o Jack entende que o homem &#233; limitado na sua capacidade de julgamentos morais e que seguir regras pr&#233;-estabelecidas &#233; uma forma de corrigir os excessos de homens falhos por natureza. O doutor Stephen acredita na capacidade do homem de discernir as nuances e detalhes de cada situa&#231;&#227;o, de tal forma que as regras pr&#233;-estabelecidas podem ser adimplidas ou n&#227;o conforme o caso. Enquanto a vis&#227;o irrestrita &#233; otimista em rela&#231;&#227;o a capacidade do homem discernir caso a caso o que &#233; melhor fazer, a vis&#227;o restrita estima que o custo de fazer tais julgamentos &#233; proibitivo. Al&#233;m disso, conforme explica Thomas Sowell: </p><blockquote><p><em>A vis&#227;o restrita avaliar&#225; seus custos de processo em termos de como essa viola&#231;&#227;o das regras desorganiza as expectativas de muitos outros e altera adversamente sua conduta futura, &#224; medida que perdem a confian&#231;a na confiabilidade geral das regras e acordos existentes, bem como nas regras e acordos futuros.</em></p><p>(Sowell, Thomas. "A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Struggles" (pp. 97-98). Basic Books. Edi&#231;&#227;o do Kindle.)</p></blockquote><p>Regras cujas viola&#231;&#245;es n&#227;o s&#227;o sempre punidas tendem a ser ineficazes para dissuadir o comportamento a ser disciplinado. Para o capit&#227;o, se a puni&#231;&#227;o de Nagel fosse extinta, isso estimularia, ainda que marginalmente, a insubordina&#231;&#227;o dos outros marinheiros. Todos aqueles que se sentissem nas mesmas condi&#231;&#245;es que Nagel e todos aqueles que julgassem que tal oficial fosse indigno do posto poderiam se considerar no direito de serem insubordinados.</p><p>Al&#233;m do respeito ao estabelecido, ao acordado previamente, a vis&#227;o restrita tamb&#233;m tende a considerar a tradi&#231;&#227;o e os costumes na hora de tomar decis&#245;es. Homens limitados precisam se alicer&#231;ar sobre o conhecimento acumulado de gera&#231;&#245;es, os quais muitas vezes n&#227;o podem ser articulados de forma racional. Esse tipo de conhecimento &#233; o que Thomas Sowell chama de &#8220;Racionalidade Sist&#234;mica&#8221;. Um modo de agir no qual nenhum indiv&#237;duo em particular consegue exatamente explicar o nexo causal entre sua a&#231;&#227;o e a consequ&#234;ncia esperada. Sua a&#231;&#227;o &#233; justificada pelo processo social que a guiou. Um exemplo de racionalidade sist&#234;mica &#233; o fato curioso de que quando h&#225; uma guerra no oriente m&#233;dio, os moradores de uma cidadezinha no interior do Peru come&#231;am a usar mais bicicleta e menos autom&#243;veis para ir ao trabalho. Nenhum habitante daquela regi&#227;o saberia explicar exatamente o motivo de porqu&#234; ser necess&#225;rio que a sociedade economize gasolina, mas, no entanto, ele &#233; levado pelo processo social, o sistema de pre&#231;os, a faz&#234;-lo.</p><p>Na vis&#227;o otimista, a tradi&#231;&#227;o e outros processos sociais s&#227;o preteridos ao que Sowell chama de &#8220;Racionalidade Articulada&#8221;, ou seja, aquele tipo de conhecimento que um indiv&#237;duo consegue articular racionalmente, consegue explicar o nexo causal entre a a&#231;&#227;o e a consequ&#234;ncia. Quando dr. Stephen sugere ao capit&#227;o que jogasse fora a bebida alco&#243;lica (grogue) como solu&#231;&#227;o para os problemas de insubordina&#231;&#227;o, era esse tipo de racioc&#237;nio que ele tinha. Homens alcoolizados est&#227;o mais dispostos a criar confus&#227;o. Stephen ignorava totalmente a racionalidade sist&#234;mica do capit&#227;o. Jack Aubrey entendia que, por mais claro que o nexo causal entre embriaguez e confus&#227;o fizesse sentido, a tradi&#231;&#227;o naval de servir uma ra&#231;&#227;o de rum para os marinheiros deveria ser respeita <strong>justamente porque ela &#233; antiga e, portanto, validada pelo tempo e experi&#234;ncia.</strong></p><p>O debate prossegue com o capit&#227;o tentando explicar sua vis&#227;o. Respeito as regras, tradi&#231;&#227;o e disciplina s&#227;o as &#250;nicas coisas que impedem a anarquia dentro de um navio. Novamente, para a vis&#227;o pessimista, o processo &#233; mais importante do que impedir ou prevenir um resultado question&#225;vel. No livro, Sowell usa uma frase de Adam Smith que &#233; ilustrativa: "<em>A paz e a ordem da sociedade s&#227;o mais importantes do que at&#233; mesmo o al&#237;vio dos miser&#225;veis.</em>"<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-12" href="#footnote-12" target="_self">12</a>. Sim, a incompet&#234;ncia do aspirante Hollom eram um problema para o funcionamento do navio e, sim, Nagel era um marinheiro competente e castig&#225;-lo n&#227;o &#233; agrad&#225;vel a ningu&#233;m, mas, mesmo assim, o bom funcionamento do processo era mais importante. A disciplina e as regras eram o que garantia a paz e a ordem no navio<strong> </strong>e<strong> justamente quando elas s&#227;o dif&#237;ceis de serem cumpridas &#233; que seu efeitos disciplinante e apaziguador s&#227;o maiores, afinal, qualquer um &#233; capaz de cumprir regras que geram um resultado agrad&#225;vel e popular</strong>.</p><p>Essas mesmas institui&#231;&#245;es que Jack Aubrey considera a solu&#231;&#227;o para o problema da natureza humana s&#227;o identificadas como o problema para o dr. Stephen. &#8220;<em>N&#227;o h&#225; desd&#233;m na Natureza</em>&#8221;, diz ele, uma afirma&#231;&#227;o que vai ao encontro do lema otimista de Rousseau sobre a bondade natural do homem. &#8220;<em>Homens precisam ser governados</em>&#8221;, responde o capit&#227;o, cuja frase est&#225; muito mais em concord&#226;ncia com a famosa cita&#231;&#227;o de James Madison nos Federalists Papers: <em>"Mas o que &#233; o governo, sen&#227;o a maior de todas os reflex&#245;es sobre a natureza humana? Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necess&#225;rio." </em>O tipo de governo de um povo depende de sua vis&#227;o sobre a natureza humana. Para Jack, homens n&#227;o s&#227;o anjos e por isso precisam ser governados.</p><p><strong>III. Qual &#233; vis&#227;o correta? </strong></p><p>Um impulso quase natural quando nos deparamos com um conflito &#233; nos perguntarmos qual dos lados da briga est&#225; com a raz&#227;o. A natureza do homem &#233; male&#225;vel e portanto aperfei&#231;o&#225;vel ou &#233; r&#237;gida e, portanto, irrecuper&#225;vel? Em Conflito de Vis&#245;es, Thomas Sowell torna essa pergunta dif&#237;cil de responder, pois ele mesmo reconhece que essa classifica&#231;&#227;o de vis&#245;es n&#227;o &#233; bin&#225;ria e, sim, uma esp&#233;cie de r&#233;gua que vai de um extremo ao outro. Segundo ele, <strong>no extremo da vis&#227;o restrita est&#225; a ideia de aus&#234;ncia total de livre arb&#237;trio, o homem &#233; determinado pela natureza, pelo cosmos ou alguma outra entidade. No extremo oposto, o homem &#233; uma esp&#233;cie de deus e, portanto, &#233; capaz de criar a realidade a sua imagem e semelhan&#231;a. </strong>Al&#233;m disso, existem tamb&#233;m teorias h&#237;bridas que cont&#233;m elementos de ambas as vis&#245;es como, por exemplo, o Marxismo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-13" href="#footnote-13" target="_self">13</a>. </p><p>A escala de vis&#245;es &#233; &#250;til, pois consegue dar conta da maior parte das vis&#245;es de mundo que observamos nos debates p&#250;blicos. Por exemplo, conservadores e a &#8220;direita&#8221; est&#227;o mais para o lado da vis&#227;o restrita, enquanto progressistas e a &#8220;esquerda&#8221; est&#227;o predominantemente do lado irrestrito. Apesar da utilidade, as pr&#243;prias defini&#231;&#245;es dos extremos j&#225; s&#227;o pistas de que talvez nenhuma vis&#227;o, seja ela mais restrita ou mais irrestrita, parece ser capaz de dar conta da realidade inteira. A coisa parece ser mais complicada do que parece e &#233; o que veremos a seguir.</p><p><strong>&#167;1 A Maldi&#231;&#227;o de Jonas</strong></p><blockquote><p><em>[Stephen &#233; chamado por Blankeney. Algum marinheiro n&#227;o est&#225; se sentindo bem.]</em></p><p><strong>BLAKENEY:</strong> <em>Senhor! Senhor, &#233; o Sr. Hollom.</em></p><p><em>[Stephen vai at&#233; o Sr. Hollom e o examina. Ele volta para falar com o capit&#227;o.]</em></p><p><strong>STEPHEN:</strong> <em>N&#227;o h&#225; nada de errado fisicamente com ele. <strong>Ele acha que foi amaldi&#231;oado.</strong></em></p><p><strong>JACK:</strong> <em>Marinheiros podem tolerar muita coisa, mas n&#227;o um Jonas.</em></p><p><strong>STEPHEN</strong>: <em>Meu Deus. Voc&#234; tamb&#233;m acredita nisso.</em></p><p><strong>JACK</strong>: <em>Nem tudo est&#225; nos seus livros, Stephen.</em></p></blockquote><p>A maldi&#231;&#227;o da qual os marinheiros falavam era inspirada em um dos livros da B&#237;blia chamado &#8220;Jonas&#8221; e, mais especificamente, nos acontecimentos do primeiro cap&#237;tulo desse livro. A hist&#243;ria desse profeta tem elementos de com&#233;dia, mas para perceber isso voc&#234; precisa entender um pouco de hist&#243;ria b&#237;blica<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-14" href="#footnote-14" target="_self">14</a>. O cap&#237;tulo come&#231;a abruptamente com Deus pedindo a Jonas que v&#225; at&#233; a cidade chamada N&#237;nive para fazer o que profetas costumam fazer: denunciar a corrup&#231;&#227;o generalizada do lugar e pedir que o povo se converta. O problema &#233; que N&#237;nive (atualmente Mossul, no Iraque) ficava no meio do imp&#233;rio Ass&#237;rio, o qual n&#227;o era exatamente um povo amigo de Israel. Apenas para dar um pouco de senso das propor&#231;&#245;es, &#233; como se Deus tivesse pedido para algu&#233;m sair de Londres e ir at&#233; Nuremberg, em 1940, pregar contra o partido nacional socialista. A frase que se segue imediatamente a ordem divina &#233; a que tem o <em>timing </em>c&#244;mico perfeito: <em>&#8220;Por&#233;m, Jonas se levantou para fugir da presen&#231;a do Senhor para T&#225;rsis.&#8221;</em> T&#225;rsis &#233; uma cidade fen&#237;cia que ficava a oeste de Israel &#8212; do outro lado do mar mediterr&#226;neo.  Ou seja, a primeira coisa que Jonas fez quando Deus pediu a ele que fosse para uma cidade ao leste, foi pegar um barco em dire&#231;&#227;o ao extremo oposto. O barco que levava Jonas para T&#225;rsis come&#231;a a passar por uma tempestade com fortes ventos. Os marinheiros desesperados tentam de tudo para impedir que o navio naufrague, at&#233; mesmo &#8220;lan&#231;ar as sortes&#8221; para saber quem &#233; o respons&#225;vel por essa tempestade; &#8220;<em>e a sorte caiu sobre Jonas</em>&#8221;.<strong> </strong>Quando o interrogaram a respeito da tempestade ele calmamente explica a situa&#231;&#227;o: a tempestade foi culpa dele, afinal ele estava fugindo do seu dever. Al&#233;m disso, ele mesmo d&#225; a sugest&#227;o de como resolver o problema: bastaria atir&#225;-lo ao mar que a tempestade passaria. E assim o fizeram. E o mar e a tempestade se acalmaram.</p><p>Na hist&#243;ria de Jonas, a tripula&#231;&#227;o inteira do navio estava sendo punida pela omiss&#227;o de um &#250;nico homem, Jonas. N&#227;o &#233; necess&#225;ria muita imagina&#231;&#227;o para os marinheiros associarem essa hist&#243;ria com a falta de sorte do <em>H.M.S. Surprise </em>e com a in&#233;pcia tamb&#233;m de um &#250;nico homem, Sr. Hollom. Era isso que Joe Plaice, um dos marinheiros mais velhos do navio e respeitado por seus colegas fez:</p><blockquote><p><strong>DEQUE INFERIOR - NOITE </strong></p><p><em>[Todos os olhares est&#227;o em JOE PLAICE. Ele fala das sombras.]</em></p><p><strong>JOE PLAICE:</strong> &#8220;<em>&#201; ele, n&#227;o &#233;? O Jonas. Ele que est&#225; causando isso. Ele est&#225; chamando, n&#227;o est&#227;o vendo? Toda vez que ele est&#225; de vigia, aquele navio aparece. Voc&#234; vai vendo. A qualquer momento esta noite, aquele navio fantasma vai aparecer. E vai nos levar a todos com ele, direto para o lugar quente.</em>&#8221;</p></blockquote><p>Joe &#233; o representante de um tipo extremo de vis&#227;o restrita. Extremo e antigo. Para entend&#234;-la precisamos cavar um pouco mais fundo do que o professor Sowell se prop&#244;s em seu livro.</p><p>Em <a href="https://www.amazon.com.br/Order-History-CW14-Israel-Revelation/dp/0826213510">Ordem e Hist&#243;ria</a>, o fil&#243;sofo Eric Voeglin, afirma que &#8220;a ordem da hist&#243;ria &#233; a hist&#243;ria da ordem&#8221;. Com essa frase, ele queria dizer que sentido ou a concatena&#231;&#227;o da hist&#243;ria humana n&#227;o &#233; fun&#231;&#227;o de alguma lei universal como acreditam os materialistas hist&#243;ricos por exemplo, e, sim, uma cronologia das diversas tentativas do ser humano entender a ordem da realidade. Por isso, a chave para entender a ordem da hist&#243;ria era estudar como as diversas civiliza&#231;&#245;es buscaram compreender o papel do homem no que Voeglin chamou de &#8220;Comunidade do Ser&#8221;, composta pela natureza, sociedade, homem e Deus.</p><p>Segundo Voeglin, as primeiras civiliza&#231;&#245;es eram &#8220;Imp&#233;rios Cosmol&#243;gicos&#8221;. Nelas havia a ideia de que natureza e sociedade eram uma coisa s&#243;. Os acontecimentos da sociedade e da natureza estavam interligados. Secas, enchentes, eclipses solares estavam diretamente relacionados com a ordem social. A quebra de mandamentos, ritos e etc. que abalassem o funcionamento da comunidade teriam uma repercuss&#227;o no cosmos, na natureza. Essa liga&#231;&#227;o entre o cosmos e a sociedade coloca o indiv&#237;duo como apenas uma pe&#231;a na engrenagem. Ele tem um papel pr&#233;-determinado a cumprir. Com o risco de incorrer em anacronismo, parece que essa percep&#231;&#227;o a cerca do papel do homem na realidade se encaixaria no lado mais extremo da vis&#227;o restrita. Ou, melhor dizendo, ela est&#225; na raiz dessa vis&#227;o.</p><p>Para Joe Plaice, n&#227;o pareceria haver distin&#231;&#245;es entre o que acontecia com o navio e o que acontecia com a ordem social vigente dentro dele. Uma engrenagem mal colocada, algu&#233;m que n&#227;o faz seu trabalho direito, estava causalmente conectado a uma tempestade, a aus&#234;ncia de ventos e etc. Cosmos e sociedade estavam integrados. Bons ventos s&#243; voltariam a soprar se a ordem social fosse reparada. A engrenagem que estava desajustava se chamava Hollom.</p><p>Neste momento da narrativa e deste ensaio, faz sentido voltar a uma express&#227;o que o dr. Stephen utilizou quando debatia com o capit&#227;o na grande cabine. &#8220;<em>Hollom &#233; um <strong>bode expiat&#243;rio</strong> para toda a m&#225; sorte, real ou imagin&#225;ria, nesta viagem&#8230;&#8221;</em>, disse o doutor. O bode expiat&#243;rio &#233; o bode que recebe todos os problemas da comunidade e &#233; sacrificado ou expulso da comunidade para que a ordem social volte a reinar. Algum tipo de sacrif&#237;cio era necess&#225;rio para trazer ordem. Era assim que as sociedades cosmol&#243;gicas tentavam reparar as crises. O mais incr&#237;vel &#233; que at&#233; mesmo Hollom, o pr&#243;prio bode expiat&#243;rio, se enxergava como o problema. Um problema ele mesmo decide resolver: </p><blockquote><p><em><strong>CASTELO DE PROA, MAIS TARDE - NOITE</strong></em></p><p><em>[BLAKENEY est&#225; perto da proa olhando para a noite. Uma figura se aproxima por tr&#225;s e coloca a m&#227;o em seu ombro.</em></p><p><em>BLAKENEY quase pula de susto.]</em></p><p>BLAKENEY: <em>Sr. Hollom! Voc&#234; me assustou tanto. Voc&#234; est&#225; melhor agora?</em></p><p><em>[A respira&#231;&#227;o de HOLLOM parece realmente mais f&#225;cil.]</em></p><p><strong>HOLLOM:</strong> <em>Muito melhor, obrigado. </em></p><p><strong>BLAKENEY:</strong> <em>O capit&#227;o acha que n&#243;s vamos conseguir nosso vento amanh&#227;.</em></p><p><strong>HOLLOM:</strong> <em>Tenho certeza disso</em>.</p><p><em>[Ele se abaixa, pega uma bola de canh&#227;o de 12 libras.]</em></p><p><strong>HOLLOM (CONT'D):</strong> <em>Voc&#234; sempre foi muito gentil comigo. Adeus, Blakeney.</em></p><p><em>[Com um movimento repentino, ele est&#225; na amurada, ent&#227;o ele pula para o lado com a bola de canh&#227;o em seus bra&#231;os.]</em></p><p><em>[BLAKENEY olha para baixo com choque ao ver o rosto p&#225;lido de HOLLOM se afastando dele nas profundezas. Leva um momento antes que ele re&#250;na sua coragem para gritar -]</em></p><p><strong>BLAKENEY:</strong> <em>Homem ao mar!</em></p></blockquote><p>O Aspirante Hollom se joga ao mar, assim como Jonas fora jogado na hist&#243;ria b&#237;blica. Entre o indiv&#237;duo e a comunidade pol&#237;tica, prevalece a &#250;ltima, assim como nas sociedades cosmol&#243;gicas de que Voeglin falava. &#201; como se Hollom aceitasse a sua condi&#231;&#227;o de bode expiat&#243;rio, como se aceitasse que ele &#233; a causa da m&#225; sorte da <em>H.M.S. Surprise</em> e sua tripula&#231;&#227;o. Ele n&#227;o &#233; apenas um oficial ruim no seu trabalho, mas, sim, o elemento de perturba&#231;&#227;o da ordem natural.</p><p>Neste momento, &#233; &#250;til trazer para a an&#225;lise o franc&#234;s Rene Girard. O fil&#243;sofo argumenta que em sociedades antigas vigorava o ciclo de viol&#234;ncia mim&#233;tica. Em linhas muito gerais, sua teoria diz que em qualquer sociedade h&#225; uma tend&#234;ncia natural ao conflito. Essa tend&#234;ncia surge do desejo mim&#233;tico, ou seja, o desejo de imitar alguma outra pessoa, seja cobi&#231;ando suas coisas, seu status social ou qualquer outro elemento dela. O conflito nasce da impossibilidade material de todos terem ou serem aquilo que desejam. O conflito cresce at&#233; que a comunidade identifica em uma pessoa a causa de todos os problemas e a transforma em um bode expiat&#243;rio, o qual deve ser sacrificado. Ap&#243;s o sacrif&#237;cio, a comunidade fica apaziguada por um tempo, at&#233; que o ciclo recomece. Segundo Girard, o mundo antigo &#233; caracterizado em grande parte por isso: a viol&#234;ncia justificada da comunidade contra uma amea&#231;a a sua paz.</p><p>Ambas as interpreta&#231;&#245;es, de Girard ou de Voeglin, s&#227;o aplic&#225;veis ao racioc&#237;nio dos marinheiros daquele navio. Para eles, a comunidade pol&#237;tica do <em>H.M.S. Surprise</em> era uma comunidade do tipo antiga. Uma sociedade cosmol&#243;gica, na qual perturba&#231;&#245;es na ordem social eram resolvidas com a viol&#234;ncia em nome da comunidade contra um bode expiat&#243;rio. A vis&#227;o restrita, tomada em sua vers&#227;o mais extrema, &#233; justamente a de uma sociedade em que para atingir ordem e paz social ela est&#225; disposta a praticar a viol&#234;ncia contra aquele que &#233; visto com o causador da desordem. Para essa vis&#227;o, as institui&#231;&#245;es dessa sociedade s&#227;o absolutas, na verdade, elas mesmas fazem parte da pr&#243;pria natureza.</p><p>Agora, vamos contrastar essa vis&#227;o extrema com a vis&#227;o irrestrita. Um sujeito adepto dessa vis&#227;o e que observasse a trag&#233;dia do senhor Hollom ficaria absolutamente horrorizado. Para ele, Hollom e todos os marinheiros seriam uma v&#237;tima das institui&#231;&#245;es. O problema seria a cultura da marinha inglesa, a ignor&#226;ncia supersticiosa, o imperialismo ingl&#234;s, o capitalismo, enfim, todos as institui&#231;&#245;es que d&#227;o a moldura para a a&#231;&#227;o dos indiv&#237;duos. Elas corromperam Hollom, o capit&#227;o, o carpinteiro, Joe Plaice e todos os outros. Vemos um pouco dessa vis&#227;o na cabe&#231;a do doutor Stephen quando ele diz: &#8220;<em>Eu come&#231;o a compreender bem os motins. Homens arrancados de suas casas, confinados por meses a bordo de uma pris&#227;o de madeira...&#8221;.</em> Para o radical da vis&#227;o irrestrita, a solu&#231;&#227;o para os problemas da <em>H.M.S. Surprise</em> seria uma revolu&#231;&#227;o. O extremo da vis&#227;o irrestrita n&#227;o v&#234; limita&#231;&#227;o alguma da natureza para os seus objetivos. N&#227;o h&#225; ordem pr&#233;-estabelecida, mas sim apenas aquilo que o homem criou, ou seja, s&#243; h&#225; hist&#243;ria, a qual chegar&#225; ao &#225;pice quando ele assumir o controle. Para chegar l&#225;, &#8220;fuzilamos e seguiremos fuzilando&#8221; como diria Che Guevara, adepto da vis&#227;o irrestrita radical.</p><p>Se na vis&#227;o irrestrita encontramos um revolucion&#225;rio, o que encontramos na vis&#227;o restrita &#233; o seu oposto. O adepto da vis&#227;o restrita quer restringir as ambi&#231;&#245;es do revolucion&#225;rio. Girard e tantos outros te&#243;ricos identificam um s&#237;mbolo desse restritor na pr&#243;pria B&#237;blia, mais especificamente em 2 Tessalonicenses 2:3-7. Ela &#233; uma carta que o ap&#243;stolo Paulo escreveu para os membros da igreja de Tessal&#244;nica, na qual ele fala sobre a segunda vida de Cristo. O trecho fundamental diz o seguinte: </p><blockquote><p><em>"Esse dia n&#227;o vir&#225; a menos que a rebeli&#227;o venha primeiro e o &#237;mpio seja revelado, aquele destinado &#224; destrui&#231;&#227;o. Ele se op&#245;e e se exalta acima de todo suposto deus ou objeto de adora&#231;&#227;o, de modo que ele toma assento no templo de Deus, declarando-se ser Deus... <strong>Voc&#234;s sabem o que agora o restringe, para que ele seja revelado no seu tempo. Pois o mist&#233;rio da iniquidade j&#225; est&#225; em a&#231;&#227;o, mas apenas at&#233; que aquele que agora o restringe seja removido.</strong>"</em></p></blockquote><p>O termo em grego utilizado na carta para &#8220;aquele que agora restringe&#8221; &#233; <em>katechon</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-15" href="#footnote-15" target="_self">15</a>, uma express&#227;o que virou um conceito de filosofia pol&#237;tica. Wolfgang Palaver, um estudioso de Ren&#233; Girard explica como o fil&#243;sofo franc&#234;s entendia essa figura:</p><blockquote><p><em>"O katechon restritivo &#233; uma for&#231;a paradoxal que podemos comparar &#224; <strong>supera&#231;&#227;o violenta da viol&#234;ncia no mecanismo do bode expiat&#243;rio</strong>. O katechon, assim como o mecanismo do bode expiat&#243;rio, &#233; composto pelo mesmo mal que ele pr&#243;prio tenta restringir."</em></p><p>(&#8230;)</p><p><em>"A figura do katechon pode nos ajudar a entender melhor a realidade pol&#237;tica contempor&#226;nea com suas m&#250;ltiplas divis&#245;es e antagonismos. At&#233; certo ponto, nosso sistema de estados nacionais mostra que ainda estamos vivendo sob a prote&#231;&#227;o da ordem katech&#244;ntica. (&#8230;) Aqueles que temem o caos iminente que segue enfraquecendo as formas tradicionais de pol&#237;tica talvez permane&#231;am apoiando a ordem katech&#244;ntica e implementem todos os recursos dispon&#237;veis (&#8230;) para preservar a harmonia social."</em></p><p>Palaver, Wolfgang. Ren&#233; Girard's Mimetic Theory (Studies in Violence, Mimesis &amp; Culture) (p. 253 e p.254). Michigan State University Press. Edi&#231;&#227;o do Kindle.</p></blockquote><p>Sejam as vis&#245;es revolucion&#225;rias ou restritivas, ambas usam de viol&#234;ncia para atingir seus objetivos, <strong>a diferen&#231;a &#233; que a primeira faz a viol&#234;ncia em nome da v&#237;tima e a segunda em nome da comunidade. </strong>Che Guevara mata em nome da classe oprimida, v&#237;tima do sistema capitalista, enquanto o Capit&#227;o Nascimento mata para proteger a comunidade dos agentes desestabilizadores.<strong> </strong></p><p>A classifica&#231;&#227;o de Thomas Sowell encontra similaridades com as defini&#231;&#245;es simb&#243;licas de direita e esquerda feita pelo fil&#243;sofo Olavo de Carvalho em a <a href="https://www.amazon.com.br/Revolu%C3%A7%C3%A3o-Cultural-Fritjof-Antonio-Gramsci/dp/8567394260">A Nova Era e a Revolu&#231;&#227;o Cultural</a>. Na introdu&#231;&#227;o do livro, o fil&#243;sofo coloca a gravura de William Blake que retrata os dois monstros b&#237;blicos que aparecem no Livro de J&#243;, Beemot e Leviat&#227;: </p><blockquote><p><em>O primeiro [Beemot] imperando pesadamente sobre o mundo, o maci&#231;o poder de sua pan&#231;a firmemente apoiada sobre as quatro patas, o segundo [Leviat&#227;] agitando-se no fundo das &#225;guas, derrotado e tem&#237;vel no seu rancor imponente. (&#8230;) Beemot &#233; o peso maci&#231;o da necessidade natural, Leviat&#227; &#233; a infranatureza diab&#243;lica, invis&#237;vel sob as &#225;guas ~ o mundo ps&#237;quico ~ que agita com a l&#237;ngua.</em></p><p>(&#8230;)</p><p><em>No plano da Hist&#243;ria mais recente, isto &#233;, no ciclo que come&#231;a mais ou menos na &#233;poca do Iluminismo, essas duas for&#231;as assumem claramente o sentido do r&#237;gido conservadorismo e da&nbsp;h&#252;bris&nbsp;revolucion&#225;ria. Ou, mais simples ainda, direita e esquerda.</em></p><p>Carvalho, Olavo de. A Nova Era e a Revolu&#231;&#227;o Cultural (p. 11 e 12). Vide Editorial. 4&#170; Edi&#231;&#227;o.</p></blockquote><p>Beemot &#233; o s&#237;mbolo da vis&#227;o restrita. A vis&#227;o que enxerga as limita&#231;&#245;es do homem e, portanto, a sua necessidade de se adequar a uma ordem maior do que ele, seja essa ordem divina ou n&#227;o. Leviat&#227;, por outro lado, &#233; o s&#237;mbolo da vis&#227;o irrestrita. A vis&#227;o em que o homem tem um potencial ilimitado e qualquer tentativa de se adequar a realidade atrav&#233;s de ordem e institui&#231;&#245;es &#233; uma tentativa de limitar o potencial humano. Me parece claro que a distin&#231;&#227;o criada por Thomas Sowell vai ao encontro com da tese exposta em <a href="https://www.amazon.com.br/Jardim-das-Afli%C3%A7%C3%B5es-Olavo-Carvalho/dp/8567394511/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=2ILZ4QY5B2VXX&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.xh9jE_ls4522v83c-wJBlG4fElqwQLmkJilBl2RgQyHHip1e_UJ4sGlGEujWixSyEyRFjgiMHWRg3Qu3plbAXrQU7mk8_CuLUDuKVcgMrPRl-U_ruE0Kresp7-5eXLiKyXm40Szm4UD5HUnIwEeBTPF28V3h8urSW7Raq6cilQdP3D9Lf03I9in6OsZasoXYmg86EaIw-BhAMXAGisMzzLTC2q4wrUfK76d4imV4TuI.5pT1xEbxcEWX_eKrj5SHq3EzB6uBRfyTY5KPJe0CVp8&amp;dib_tag=se&amp;keywords=O+Jardim+das+Afli%C3%A7%C3%B5es&amp;qid=1718063689&amp;s=books&amp;sprefix=o+jardim+das+afli%C3%A7%C3%B5es%2Cstripbooks%2C426&amp;sr=1-1">O Jardim das Afli&#231;&#245;es</a>, por Olavo de Carvalho, segundo a qual &#8220;direita&#8221; e &#8220;esquerda&#8221; s&#227;o bra&#231;os antag&#244;nicos em fun&#231;&#227;o de &#234;nfases distintas de aspectos da realidade. Do lado da vis&#227;o restrita, temos o cosmos, as leis f&#237;sicas, experi&#234;ncia e a natureza. Do lado da vis&#227;o irrestrita, a humanidade, as leis da raz&#227;o, pensamento e a cria&#231;&#227;o. Um exemplo prosaico disso &#233; o debate sobre o diferencial de sal&#225;rio entre homens mulheres. Adeptos da vis&#227;o restrita colocam &#234;nfase nas diferen&#231;as naturais entre os sexos para explicar o diferencial, ao passo que os adeptos da vis&#227;o irrestrita colocam &#234;nfase na &#8220;cria&#231;&#227;o&#8221;, ou seja, no condicionamento social das mulheres. Outro exemplo &#233; a ideia de combate a criminalidade. A vis&#227;o restrita entende que a &#250;nica forma de impedir crimes &#233; tornar custoso pratic&#225;-los e isso envolve o uso da for&#231;a. A vis&#227;o irrestrita, por outro lado, v&#234; a criminalidade como um problema social fruto de institui&#231;&#245;es que corrompem os homens.</p><p><strong>Para al&#233;m do conflito de vis&#245;es</strong></p><p>Para Rene Girard, foi o cristianismo que aboliu o ciclo de viol&#234;ncia mim&#233;tica. A hist&#243;ria contada nos evangelhos &#233; diferente do que o mundo antigo estava acostumado. A vida, paix&#227;o e morte de Jesus Cristo &#233; contada sob a perspectiva da v&#237;tima sacrificial e n&#227;o da comunidade que a sacrifica. Segundo o fil&#243;sofo franc&#234;s, um de seus efeitos foi desnudar o mecanismo antigo que preserva a paz e a ordem social. A &#8220;<em>supera&#231;&#227;o violenta da viol&#234;ncia&#8221; </em>d&#225; lugar uma nova proposta de lidar com os conflitos, baseada na imita&#231;&#227;o de Jesus Cristo, o modelo definitivo fundado no amor a Deus e ao pr&#243;ximo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-16" href="#footnote-16" target="_self">16</a>.</p><p>Uma das grandes cenas de Mestre dos Mares ilustra justamente a obsolesc&#234;ncia do ciclo mim&#233;tico. No dia seguinte a morte do Sr. Hollom, ao amanhecer, o capit&#227;o Jack Aubrey, re&#250;ne toda a tripula&#231;&#227;o do navio para falar sobre o ocorrido:</p><blockquote><p><strong>CONV&#201;S - AMANHECER</strong></p><p><em>[A tripula&#231;&#227;o est&#225; reunida no conv&#233;s. JACK est&#225; de p&#233; junto ao p&#250;lpito. KILLICK <strong>lhe entrega uma B&#237;blia aberta na hist&#243;ria de Jonas</strong>.</em></p><p><em>JACK olha, <strong>depois devolve para KILLICK</strong>.]</em></p></blockquote><p>Killick, o auxiliar do capit&#227;o, tamb&#233;m era um marinheiro veterano e interpretou os acontecimentos envolvendo o sr. Hollom do mesmo jeito que Joe Plaice: a maldi&#231;&#227;o havia sido desfeita com o sacrif&#237;cio do aspirante. &#201; por isso que ele entrega ao capit&#227;o Jack Aubrey a b&#237;blia aberta no cap&#237;tulo de Jonas. A mistura entre viol&#234;ncia mim&#233;tica e cristianismo &#233; o que Rene Girard identificava como &#8220;cristianismo sacrificial&#8221;, o qual seria uma pervers&#227;o do sentido aut&#234;ntico da mensagem crist&#227;. Aubrey, no entanto, tem uma compreens&#227;o melhor sobre o significado do sacrif&#237;cio de Cristo e, sendo assim, faz uma prece muito mais adequada:</p><blockquote><p><strong>JACK:</strong> <em>O fato &#233;&#8230; Nem todos n&#243;s nos tornamos os homens que um dia esper&#225;vamos ser. Mas todos somos criaturas de Deus. Se alguns de n&#243;s falaram mal do Sr. Hollom, ou pensaram mal dele, ou o falharam em termos de companheirismo, ent&#227;o pedimos o seu perd&#227;o, Senhor, e pedimos pelo dele.</em></p><p><em>[Fechando nos rostos da tripula&#231;&#227;o - KILLICK, HIGGINS, NAGEL, CALAMY, BLAKENEY e finalmente Stephen.]</em></p><p><strong>JACK</strong> <em>(CONT)</em><strong>: </strong><em>Am&#233;m. </em></p><p><strong>TRIPULA&#199;&#195;O </strong><em>(murmura envergonhada)</em><strong>:</strong> <em>Am&#233;m.</em></p></blockquote><p>&#201; ap&#243;s a prece, e somente ap&#243;s a prece, que o vento come&#231;a a soprar e, com ele, o <em>H.M.S. Surprise</em> pode novamente continuar com a sua miss&#227;o. A sorte de seus tripulantes s&#243; come&#231;ou a mudar quando o ciclo de viol&#234;ncia mim&#233;tica foi desmascarado pelo ato de contri&#231;&#227;o guiado pelo capit&#227;o.</p><p>O epis&#243;dio de Hollom &#233; uma demonstra&#231;&#227;o das limita&#231;&#245;es da vis&#227;o restrita. O pessimismo exacerbado a respeito do potencial humano gera um mundo sem miseric&#243;rdia. &#8220;Miseric&#243;rdia para o culpado &#233; crueldade com o inocente&#8221;, diz a frase atribu&#237;da ao Adam Smith<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-17" href="#footnote-17" target="_self">17</a>. Sim, o aspirante Hollom era incompetente e sua incompet&#234;ncia gerou muitos problemas, mas, ainda assim, ele era uma pessoa dotada de livre arb&#237;trio e, por isso, dotada de alguma capacidade de escolher o bem. O problema &#233; que a vis&#227;o restrita extrema n&#227;o acredita nessa capacidade e teme que, ao se oferecer miseric&#243;rdia, o delicado sistema de institui&#231;&#245;es que protege a ordem social entre em colapso. A miseric&#243;rdia enfraquece o Katechon, enfraquece o Beemot e sem eles, n&#227;o h&#225; nada para nos proteger do &#237;mpeto revolucion&#225;rio da vis&#227;o irrestrita.</p><p>O problema da absolutiza&#231;&#227;o da vis&#227;o restrita &#233; que ela pode levar a problemas parecidos com o produto das revolu&#231;&#245;es geradas pela vis&#227;o irrestrita. Rene Girard dir&#225; que o personagem que melhor ilustra o Katechon &#233; o Grande Inquisidor que aparece numa hist&#243;ria contada por Ivan Karamazov no romance Os Irm&#227;os Karamazov de Fyodor Dostoievsky. O conto de Ivan se passa no s&#233;culo XVI, bem no auge da inquisi&#231;&#227;o espanhola, na cidade de Sevilla. Um belo dia, Jesus Cristo aparece na cidade e come&#231;a a fazer milagres. O povo todo o reconhece imediatamente e come&#231;a a segui-lo, mas o Grande Inquisidor, que observava atento a situa&#231;&#227;o, manda prend&#234;-lo. &#192; noite, nas masmorras, o sacerdote visita Jesus e come&#231;a a justificar o motivo da pris&#227;o. <strong>O grande problema do Inquisidor com Jesus foi o fato dele ter dado livre arb&#237;trio para o homem mesmo sabendo o que boa parte da humanidade faria com ele. </strong>Para o Grande Inquisidor, Cristo teria respondido incorretamente &#224;s <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Temptation_of_Christ">tr&#234;s tenta&#231;&#245;es do Diabo no deserto</a>. Primeiro, para ele, &#233; evidente que Jesus deveria ter transformado pedras em p&#227;o. Imagine quantas pessoas ele n&#227;o conseguiria &#8220;salvar&#8221; com esse feito? &#201; f&#225;cil controlar as pessoas apelando a barriga. &#201; f&#225;cil controlar as pessoas atrav&#233;s de milagres, de grandes feitos e, portanto, o Inquisidor no lugar de Jesus teria se jogado do alto da torre para ser salvo pelos anjos. Espet&#225;culos com esse impressionam e as pessoas querem ser impressionadas. Por fim, &#233; claro que o Inquisidor teria se jogado aos p&#233;s do Diabo em troca de ganhar todos os reinos do mundo, afinal, com isso ele poderia instaurar a paz e a ordem no mundo. O Inquisidor, segundo Girard, consegue manter a paz e a ordem atrav&#233;s da viol&#234;ncia, do controle. Ele &#233; necess&#225;rio, pois as pessoas n&#227;o s&#227;o capazes de usar seu livre arb&#237;trio.</p><p>A vis&#227;o irrestrita, em sua &#226;nsia por derrubar as barreiras artificiais que separam o homem da felicidade total, acaba buscando a concentra&#231;&#227;o do poder para implementar o c&#233;u na terra. Como diria Eric Voeglin, ela busca &#8220;imanentizar o escathon&#8221;, trazer o final da escatologia crist&#227; para o aqui e agora. Ela quer governar o homem em prol de um futuro promissor. A vis&#227;o restrita, por outro lado, far&#225; de tudo para controlar as paix&#245;es humanas, instituir&#225; barreiras contra o caos. Como diria Girard, ser&#225; o Katechon, aquele que restringe. Ela quer governar o homem em prol da manuten&#231;&#227;o do presente ao ponto do Grande Inquisidor, um sacerdote crist&#227;o, basicamente dizer para Cristo &#8220;veja bem, eu sei que o senhor disse que ia voltar, mas a gente t&#225; segurando bem as pontas por aqui, acho que nem vai precisar, sabe?&#8221;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-18" href="#footnote-18" target="_self">18</a></p><p><strong>IV. O Fim</strong></p><p>O <em>H.M.S</em> <em>Surprise </em>triunfa sobre <em>Acheron</em>. No entanto, bem no final do filme, vemos que as aventuras de Jack Aubrey e sua tripula&#231;&#227;o n&#227;o terminam. O conflito de vis&#245;es tamb&#233;m parece n&#227;o ter fim. Esquerda e direita, progressistas e conservadores, Revolucion&#225;rios e Katechons, Beemots e Leviat&#227; seguem lutando pela hegemonia deste mundo. Teremos momentos em que o partido dos Katechons vencem mais elei&#231;&#245;es e momentos em que os Revolucion&#225;rios conquistam o poder. No meio dessa batalha as for&#231;as da &#8220;<em>necessidade implac&#225;vel e da rebeli&#227;o impotente&#8221;</em>, como descreveu Olavo de Carvalho<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-19" href="#footnote-19" target="_self">19</a>, &#233; indispens&#225;vel que nos lembremos da ora&#231;&#227;o do capit&#227;o. Rejeitemos a viol&#234;ncia, seja da h&#252;bris revolucion&#225;ria, seja da frieza do katechon. H&#225; outro caminho e ele &#233; a &#250;nica forma de fazer o navio voltar para casa.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Eu estou perfeitamente ciente de que esse princ&#237;pio que acabei de descrever &#233; em si mesmo uma ideia que foi expressa por algu&#233;m, no caso, eu mesmo e, portanto, o leitor se sentir&#225; no direito de aplic&#225;-lo ao pr&#243;prio princ&#237;pio. Esse &#233; o problema de princ&#237;pios que tem a pretens&#227;o de ter validade universal: a autorrefer&#234;ncia. Preciso ser honesto e admitir que nada vai acontecer de muito grave comigo se eu estiver errado.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Comandantes de submarino talvez ven&#231;am essa disputa, mas, convenhamos, um submarino &#233; apenas um navio que consegue submergir (e voltar a superf&#237;cie, claro &#8212; essa &#233; a parte mais importante, ali&#225;s. Todos os navios, em princ&#237;pio, conseguem submergir, principalmente os ruins). </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Thomas Sowell <a href="https://www.youtube.com/watch?v=XY7zi6ln7Fc">afirmou uma vez</a> que o Conflito de Vis&#245;es era talvez o seu livro favorito.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Backhouse, Roger E. The Ordinary Business of Life (p. X)</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Milton Friedman, um adepto da vis&#227;o restrita, argumenta justamente que &#8220;as pol&#237;ticas devem ser julgadas n&#227;o por suas inten&#231;&#245;es, mas por seus resultados&#8221;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Em um famoso <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8aF8rKa_Ogw">v&#237;deo</a>, Sowell elenca as tr&#234;s perguntas que deveriam ser feitas na hora de comparar alternativas: 1) Comparado a qu&#234;? 2) Qual o custo? 3) Que ind&#237;cios voc&#234; tem para fundamentar?</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Em tempo, o problema de &#8220;quem far&#225; o qu&#234;?&#8221; ap&#243;s uma revolu&#231;&#227;o socialista sempre me pareceu digno de uma esquete de Monty Python. Ali&#225;s, aqui vai um esbo&#231;o:</p><blockquote><p><em>[<strong>Townsquare of the capital.</strong></em></p><p><em>Thousands gather to celebrate the great victory of the revolution.]</em></p><p><em><strong>LEADER:</strong> "Very well, comrades. The revolution has been a resounding success. We have utterly <strong>vanquished </strong>the capitalist pigs.&#8221;</em></p><p><em><strong>CROWD: </strong>&#8220;Huzzah!"</em></p><p><em><strong>LEADER:</strong> "Yes, huzzah indeed, comrades. Our triumph is irrefutable. Now, onto the simpler tasks. Let's distribute the chores."</em></p><p><em><strong>JOHN:</strong> "Chores?"</em></p><p><em><strong>LEADER:</strong> "Yes, of course. The amount litter on my street is embarrassing, accumulating for months on end. Someone must clean it up&#8230; Hmm.. How about you, John?"</em></p><p><em><strong>JOHN:</strong> "Oh? Me? Well, I'm not the best comrade for picking up litter, honestly. And if I must be completely honest, I had hoped to be entrusted with<strong> designing the uniforms </strong>or <strong>perhaps managing the party's social media accounts</strong>&#8230;"</em></p><p><em><strong>LEADER:</strong> "Oh, really? This does put us on a tight spot, comrade John&#8230; You see, Gucci designed our uniforms already. True we had to shoot all the designers once they delivered the designs, you know, a capitalist with a keen sense of fashion is still a swine&#8230; But we have them now, we&#8217;re settle on the designs.</em></p><p><em>[Comrades in the crowd whispers and talk amongst themselves.]</em></p><p><strong>SOMEONE </strong><em>[whispering to the person next to him]: &#8220;Oh Yes, yes&#8230; absolutely.&#8221;</em></p><p><strong>LEADER</strong>: <em>&#8220;And for the social media accounts&#8230; Do you really think you can do a better job than Google? Really?</em></p><p><em>[John seems reluctant to admit the obvious]</em></p><p><strong>LEADER</strong>: <em>&#8220;Come on comrade Johnny admit it&#8230;&#8221;</em></p><p><strong>JOHN</strong>: <em>&#8220;Well, yeah, I suppose I cannot&#8230; Alright&#8230;&#8221;</em></p><p><strong>LEADER:</strong> <em>&#8220;Johnny boy&#8230; The <strong>wipes</strong> are calling&#8230;&#8221;</em></p><p><strong>JOHN:</strong> <em>&#8220;Alright&#8230; Alright&#8230; For Lenin&#8217;s sake.&#8221;</em></p><p><em><strong>LEADER:</strong> "That&#8217;s the spirit, comrade! Or should I say, &#8220;<strong>the matter</strong>&#8221;?&#8221;, the leader giggles at his own Marxist joke. Ok now, comrades, moving on, coal mines, anyone? Yes, I&#8217;m looking at you comrade Steve, don&#8217;t be shy now."</em></p></blockquote></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>O mesmo vale para institui&#231;&#245;es que regem parte da vida em sociedade como, por exemplo, o casamento. O compromisso matrimonial entre o casal exige dos participantes a prefer&#234;ncia estrita um pelo outro em todos os momentos do tempo (at&#233; que a morte os separe). Para adeptos da vis&#227;o irrestrita, isso faz pouco sentido, pois seria pouco razo&#225;vel supor que essa prefer&#234;ncia seja racional sempre. A vis&#227;o restrita parte do pressuposto que a capacidade do ser humano conhecer &#233; severamente limitada e que, portanto, &#233; mais importante garantir o bom funcionamento de processos sociais e o casamento &#233; uma forma de regular um processo extremamente importante, do qual depende a sobreviv&#234;ncia da esp&#233;cie.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-9" href="#footnote-anchor-9" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">9</a><div class="footnote-content"><p>Algumas pessoas atribuem o sucesso da marinha inglesa ao fato do sistema de promo&#231;&#245;es dos oficiais ser uma fun&#231;&#227;o de m&#233;rito, em oposi&#231;&#227;o a mera patronagem. Enquanto no ex&#233;rcito ingl&#234;s era poss&#237;vel comprar postos militares, na marinha isso ocorria com menos frequ&#234;ncia. No s&#233;culo XIX, durante as guerras napole&#244;nicas, o posto de oficial mais baixo era o de Aspirante (<em>Midshipman).</em> Para conseguir ascender ao posto de Tentene (<em>Lieutenant</em>) eram necess&#225;rios tr&#234;s anos atuando como Aspirante e seis anos de experi&#234;ncia no navio. Uma vez cumprido o requisito de experi&#234;ncia, os Aspirantes precisavam fazer um exame de admiss&#227;o para o posto de Tenente. A maior parte dos Aspirantes era extremamente jovem para o padr&#227;o atual, muitos come&#231;avam com quinze, quatorze, at&#233; mesmo treze anos de idade e, portanto, estavam aptos a fazer o exame e assumir o novo posto antes dos vinte anos.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-10" href="#footnote-anchor-10" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">10</a><div class="footnote-content"><p>Hollom est&#225; para o Mestre dos Mares assim como o cabo Upham est&#225; para o Resgate do Soldado Ryan. A diferen&#231;a &#233; que Hollom tem um pouquinho mais de dignidade.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-11" href="#footnote-anchor-11" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">11</a><div class="footnote-content"><p>Sowell, Thomas. A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Struggles (p. 97). Basic Books. Edi&#231;&#227;o do Kindle. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-12" href="#footnote-anchor-12" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">12</a><div class="footnote-content"><p>Sowell, Thomas. A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Struggles (p. 84). Basic Books. Edi&#231;&#227;o do Kindle. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-13" href="#footnote-anchor-13" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">13</a><div class="footnote-content"><p>O Marxismo &#233; h&#237;brido, segundo Sowell, pois ao mesmo tempo em que Karl Marx defende o materialismo hist&#243;rico &#8212; segundo o qual o comportamento dos indiv&#237;duos &#233; determinado pela classe social em que ele se encontra &#8212;, sua proposta pol&#237;tica &#233; revolucion&#225;ria e envolve a tomada e concentra&#231;&#227;o do poder nas m&#227;os de um grupo para organizar a sociedade perfeita, onde todos os seres humanos ser&#227;o livres para atingirem seus potenciais. O materialismo hist&#243;rico seria uma vis&#227;o restrita do homem, enquanto a prescri&#231;&#227;o pol&#237;tica entraria na vis&#227;o irrestrita. Mais ainda, a pr&#243;pria ideia de que um homem (Marx) poderia tirar o v&#233;u da realidade, descobrir a chave de todos os processos hist&#243;ricos e ainda por cima enunci&#225;-los racionalmente em livros j&#225; exige uma f&#233; heroica na capacidade do homem, ou, pelo menos de um homem. </p><p>Sowell argumenta que a l&#243;gica de Marx &#233; consistente, pois a teoria marxista prev&#234; que em cada nova etapa da hist&#243;ria o homem adquire cada vez mais autonomia para desenvolver seu potencial, logo, o homem teria sido &#8220;determinado ou limitado a ser, ap&#243;s um monte de lutas de classes, ilimitado&#8221;. Eu, no entanto, acho que a teoria marxista &#233; inconsistente mesmo. Como diz o fil&#243;sofo Olavo de Carvalho, Marx n&#227;o poderia existir num mundo em que a teoria marxista fosse verdadeira, pois ele, enquanto fil&#243;sofo e ativista pol&#237;tico, n&#227;o agiu segundo sua classe social o determinaria a agir. Pior ainda, se Marx contasse a um burgu&#234;s que ele descobriu a l&#243;gica da hist&#243;ria da humanidade, este burgu&#234;s certamente trataria de desparecer com o barbudo ao inv&#233;s de ajud&#225;-lo (e deve ser por isso que Engels provavelmente n&#227;o ganhou o &#8220;pr&#234;mio burgueses destaque do ano&#8221;. Engels &#233; um &#8220;vacil&#227;o&#8221;.). A &#250;nica parte que importa do Marxismo &#233; a pr&#225;xis, ou seja, &#233; o ativismo pol&#237;tico, a revolu&#231;&#227;o, a tentativa de mudar o mundo. A teoria que justificava a a&#231;&#227;o, no fundo, &#233; apenas isso, uma justificativa. Aqui cabe uma cita&#231;&#227;o do melhor livro de Roger Scruton:</p><blockquote><p><em>There is a kind of theological cunning in this aspect of Marx&#8217;s thought. Since the class-theory is a genuine science, bourgeois political thought is ideology. And since the class-theory exposes bourgeois thought as ideology, it must be science. We have entered the magic circle of a creation myth. Moreover, by dressing up the theory in scientific language Marx has endowed it with the character of a badge of initiation. Not everybody can speak this language. A scientific theory defines the elite that can understand and apply it. It can offer proof of the elite&#8217;s enlightened knowledge and therefore of its title to govern. It is this feature that justifies the charge made by Eric Voegelin, Alain Besan&#231;on and others that Marxism is a kind of gnosticism, a title to &#8216;government through knowledge&#8217;.</em></p><p><em>Here, then, is the perfect totalitarian ideology: a pseudo-science that justifies and recruits resentment, that undermines and dismisses all rival claims to legitimacy and that endows the not quite successful with the proof of their superior intellectual power and of their right to govern. The Marxian ideology provides the frustrated intellectual with the power that he needs: the power of his own resentment, which echoes and amplifies the resentment of a victim class.</em></p><p>Scruton, Roger. A Political Philosophy: Arguments for Conservatism (p. 153). Bloomsbury Publishing. Edi&#231;&#227;o do Kindle. </p></blockquote></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-14" href="#footnote-anchor-14" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">14</a><div class="footnote-content"><p>Ou assistir a uma <a href="https://www.youtube.com/watch?v=PqGXDnG2Wus">homilia</a> do Bispo Robert Barron, como no meu caso. Tamb&#233;m existe esse <a href="https://www.youtube.com/watch?v=dLIabZc0O4c">v&#237;deo </a>no YouTube que &#233; interessante.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-15" href="#footnote-anchor-15" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">15</a><div class="footnote-content"><p>Ali&#225;s, enquanto eu estava escrevendo esse ensaio o substack <a href="https://livrearbitrio.substack.com/p/harvard-cancela-projeto-de-geoengenharia">Livre Arb&#237;trio fez um post muito interessante em que ele explica esse conceito</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-16" href="#footnote-anchor-16" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">16</a><div class="footnote-content"><p>Essa mensagem est&#225; hermeticamente contida at&#233; mesmo no livro de Jonas. No livro, Deus resgata o profeta insubordinado do fundo do mar, de dentro de uma baleia, para que ele complete sua miss&#227;o e, com ela, a reden&#231;&#227;o.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-17" href="#footnote-anchor-17" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">17</a><div class="footnote-content"><p>Ou, como diria Dwight Schrute: <em>"Melhor que 1.000 homens inocentes sejam presos do que um homem culpado fique livre.&#8221; </em></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-18" href="#footnote-anchor-18" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">18</a><div class="footnote-content"><p>Peter Thiel &#233; um bilion&#225;rio estudioso de Rene Girard que parece entender o problema. Essa <a href="https://youtu.be/vfbndRTlsg4?si=wHTvbVRU2Xtptj-C&amp;t=1832">conversa </a>com o economista Tyler Cowen &#233; sensacional. Tamb&#233;m existe, &#233; claro, o seu cl&#225;ssico <a href="https://gwern.net/doc/politics/2007-thiel.pdf">&#8220;The Straussian Moment&#8221;,</a> o qual recomendo a todos que leiam.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-19" href="#footnote-anchor-19" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">19</a><div class="footnote-content"><blockquote><p><em>&#8230; n&#227;o &#233; ao homem, nem a Behemot, que cabe subjugar o Leviat&#227;. S&#243; o pr&#243;prio Deus pode faz&#234;-lo. A iconografia crist&#227; mostra Jesus como o pescador que puxa o Leviat&#227; para fora das &#225;guas, prendendo sua l&#237;ngua com um anzol. Quando, por&#233;m, o homem se furta ao combate interior, renegando a ajuda do Cristo, ent&#227;o se desencadeia a luta destrutiva entre a natureza e as for&#231;as rebeldes antinaturais, ou infranaturais.</em></p><p><em>(&#8230;)</em></p><p><em>Furtando-se ao combate espiritual que o amedronta, mas que poderia vencer com a ajuda de Jesus Cristo, o homem se entrega a perigos de ordem material no cen&#225;rio sangrento da Hist&#243;ria. Ao faz&#234;-lo, move-se da esfera da Provid&#234;ncia e da Gra&#231;a para o &#226;mbito da fatalidade e do destino, onde o apelo &#224; ajuda divina j&#225; n&#227;o pode surtir efeito, pois a&#237; j&#225; n&#227;o se enfrentam a verdade e o erro, o certo e o errado, mas apenas as for&#231;as cegas da necessidade implac&#225;vel e da rebeli&#227;o impotente. No plano da Hist&#243;ria mais recente, isto &#233;, no ciclo que come&#231;a mais ou menos na &#233;poca do Iluminismo, essas duas for&#231;as assumem claramente o sentido do r&#237;gido conservadorismo e da&nbsp;h&#252;bris&nbsp;revolucion&#225;ria. Ou, mais simples ainda, direita e esquerda.</em></p><p>A Nova Era da Revolu&#231;&#227;o Cultural p. xx</p></blockquote><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Espírito de Porto Alegre - Uso do Conhecimento na Sociedade (e nos Desastres) - Reconstrução]]></title><description><![CDATA[A primeira newsletter em formato de newsletter desta Newsletter]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-espirito-de-porto-alegre-uso-do</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-espirito-de-porto-alegre-uso-do</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 May 2024 01:30:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/bf6d9def-b9e5-4cba-9215-8311fc7329e6_556x271.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h4><strong>O Esp&#237;rito de Porto Alegre</strong></h4><p>Em maio, centenas de pequenas embarca&#231;&#245;es de lazer foram utilizadas para resgatar pessoas que estavam isoladas e em perigo. Estou falando, &#233; claro, de maio de 1940, quando a <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Dunkirk_evacuation#Little_ships">Opera&#231;&#227;o D&#237;namo</a> foi deflagrada para o resgate de centenas de milhares de soldados presos entre o Canal da Mancha e a, at&#233; ent&#227;o, invicta Wehrmacht. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=bgS0GPQhzHg">O uso de embarca&#231;&#245;es e volunt&#225;rios civis foi retratado no filme Dunkirk</a>, do cineasta Christopher Nolan.</p><p>Oitenta e quatro anos depois, em Porto Alegre, minha cidade natal, e em outras cidades do Rio Grande do Sul, vimos algo parecido. Volunt&#225;rios com lanchas, botes, barcos, jet-skis navegavam nas &#225;guas turvas das enchentes para resgatar as pessoas ilhadas. Foi uma esp&#233;cie de &#8220;Dunquerque porto-alegrense&#8221;, uma Dunquerque riograndense&#8221; ou, porque n&#227;o, &#8220;uma Dunquerque brasileira&#8221;, afinal vimos volunt&#225;rios de todas as partes do Brasil. </p><p>Logo ap&#243;s a retirada bem sucedida, Winston Churchill, em 04 de junho de 1940, <a href="https://www.theguardian.com/theguardian/2007/apr/20/greatspeeches1">afirma em seu mais famoso discurso</a> que &#8220;o que aconteceu na Fran&#231;a e B&#233;lgica foi um desastre militar colossal e que guerras n&#227;o s&#227;o vencidas com retiradas&#8221;. Da mesma forma, os resgates e a comovente ajuda dos volunt&#225;rios de todos os lugares do Brasil  n&#227;o garantem a vit&#243;ria contra as enchentes que varreram do mapa cidades inteiras do Rio Grande do Sul. A destrui&#231;&#227;o aqui tamb&#233;m foi &#8220;colossal&#8221; e o trabalho est&#225; s&#243; come&#231;ando. </p><p>Apesar do desastre, o resgate em Dunquerque salvou mais mais de 300 mil soldados e muito provavelmente contribuiu significativamente para evitar uma vit&#243;ria nazista no front ocidental. Al&#233;m disso, a solidariedade do povo brit&#226;nico demonstrada naquela retirada reverberou por todo Reino Unido e ficou conhecida com o &#8220;Esp&#237;rito de Dunquerque&#8221;. Essa express&#227;o &#233; lembrada at&#233; hoje e ainda serve como um modelo a ser imitado, um padr&#227;o a ser reparado pela posteridade. </p><p>Eu me pergunto se algo similar poderia ocorrer no Brasil. Para uma popula&#231;&#227;o carente de modelos a serem seguidos e com uma confian&#231;a interpessoal extremamente baixa, o que vimos em Porto Alegre e nas demais cidades ga&#250;chas &#233; significativo: Brasileiros comuns ajudando brasileiros comuns. Vida longa ao Esp&#237;rito de Porto Alegre!</p><h4><strong>O Uso do Conhecimento na Sociedade (e nos Desastres)</strong></h4><p>Em seu artigo mais famoso, o economista F A Hayek argumenta em favor da superioridade da economia de mercado para a gest&#227;o de recursos de uma sociedade. Ele explica que boa parte do conhecimento necess&#225;rio para a tomada de decis&#245;es econ&#244;micas racionais n&#227;o s&#243; est&#225; disperso entre os indiv&#237;duos da sociedade como tamb&#233;m &#233; um conhecimento muitas vezes n&#227;o articul&#225;vel, impl&#237;cito e que, portanto, dificilmente poderia ser transmitido ou catalogado por um &#243;rg&#227;o central.</p><p>Esse conhecimento local, espec&#237;fico e contingente tamb&#233;m existe na hora de ajudar v&#237;timas de desastres como o que ocorreu no Rio Grande do Sul. Nem todas as necessidades das v&#237;timas s&#227;o as mesmas, cada local tem um contexto espec&#237;fico e apenas as pessoas daquela regi&#227;o s&#227;o capazes de compreender rapidamente o que est&#225; acontecendo. O poder p&#250;blico &#233; incapaz de extrair essas informa&#231;&#245;es e, mesmo que conseguisse, ele tem uma baixa capacidade customizar a ajuda para cada localidade. A sociedade, por outro lado, embora tenha esse conhecimento, &#233; ruim em coordenar-se em prol de um objetivo comum. </p><p>Ou pelo menos era ruim.</p><p>O que vimos no Rio Grande do Sul foi a a&#231;&#227;o concreta de milhares de pessoas agindo localmente, doando dinheiro e recursos para locais, realidades e situa&#231;&#245;es espec&#237;ficas. Isso foi poss&#237;vel gra&#231;as a velocidade de difus&#227;o de informa&#231;&#227;o de utilidade p&#250;blica nas redes sociais e a praticidade do PIX como meio de pagamento. Combinadas, essas tecnologias reduziram significativamente os custos de coordena&#231;&#227;o da sociedade civil. <em>Influencers</em> de redes sociais utilizaram seu prest&#237;gio e reputa&#231;&#227;o para angariar dezenas de milhares de reais e, em alguns casos, at&#233; mesmo milh&#245;es de reais. O uso do dinheiro era documentado em tempo real atrav&#233;s das redes sociais. As pr&#243;prias demandas das v&#237;timas de cada localidade divulgadas pelo Instagram, WhatsApp, Twitter etc. </p><p>Me parece imposs&#237;vel voltarmos ao jeito antigo de ajudar as v&#237;timas de desastres.</p><h4><strong>Reconstru&#231;&#227;o</strong></h4><p>O debate sobre a reconstru&#231;&#227;o do Rio Grande do Sul come&#231;ou. O trabalho &#233; gigantesco. Muitas pol&#237;ticas foram ou est&#227;o para serem anunciadas e muitas delas s&#227;o inspiradas nas medidas econ&#244;micas adotadas pelos governos durante a Pandemia da Covid-19.</p><p>Embora seja verdade que existam semelhan&#231;as entre a pandemia e as enchentes no RS, existem tamb&#233;m diferen&#231;as importantes. Em particular, as enchentes destru&#237;ram capital f&#237;sico, seja da ind&#250;stria (m&#225;quinas de grande porte e as pr&#243;prias f&#225;bricas), seja na agropecu&#225;ria (&#225;rvores frut&#237;feras, por exemplo). Pol&#237;ticas de cr&#233;dito implementadas na pandemia foram particularmente &#250;teis para manter o fluxo de caixa, pagar compromissos e etc. das empresas durante a vig&#234;ncia das pol&#237;ticas de distanciamento social. Todavia, na crise atual,<strong> elas n&#227;o ter&#227;o a mesma efic&#225;cia que antes, </strong>pois o problema &#233; diferente<strong>.</strong></p><p>Em termos microecon&#244;micos, podemos pensar que a enchente jogou todas as empresas que perderam parte significativa do seu capital &#8220;no longo prazo&#8221;. Sem capital fixo para prend&#234;-la a uma localidade, a decis&#227;o da empresa n&#227;o &#233; mais paralisar a produ&#231;&#227;o ou n&#227;o, mas, sim,<strong> fechar totalmente a planta, ou come&#231;ar novamente, talvez, em outro lugar</strong>. Um <a href="https://drive.google.com/file/d/1wmoQdauCisgtqa__kLHCJBUrDLicI_xc/view">artigo recente</a> de autoria do professor Bruno Barsanetti, por exemplo, mostra os efeitos persistentes de um desastre natural na geografia econ&#244;mica de uma regi&#227;o. Em particular, o artigo mostra que uma forte geada no Paran&#225; em 1975 teve efeitos de longo prazo na localiza&#231;&#227;o espacial da agricultura, especialmente no cultivo do caf&#233;. As baixas temperaturas destru&#237;ram o capital f&#237;sico (&#225;rvores de caf&#233;) dos cafeicultores, gerando uma queda duradora no emprego na agricultura.</p><p>A ideia &#233; que o capital fixo funciona como uma esp&#233;cie de &#226;ncora para as empresas. Uma vez que ele n&#227;o existe mais, h&#225; o risco de cairmos em um novo &#8220;equil&#237;brio espacial&#8221; com consequ&#234;ncias profundas nas localidades afetadas como, por exemplo,  menor crescimento econ&#244;mico e grandes custos de ajustamento para a popula&#231;&#227;o local.</p><p>Nesse sentido, &#233; imperativo que os gestores locais (governador e prefeitos) <strong>estejam comprometidos n&#227;o apenas com a reconstru&#231;&#227;o das &#225;reas afetadas, mas tamb&#233;m com o desenvolvimento de um sistema moderno e eficaz de preven&#231;&#227;o contra enchentes.</strong> Essa &#233; a &#250;nica pol&#237;tica que pode impedir uma mudan&#231;a significativa na distribui&#231;&#227;o espacial das empresas e suas consequ&#234;ncias adversas para a popula&#231;&#227;o e economia local. Um <a href="https://www.nber.org/system/files/working_papers/w30250/w30250.pdf">artigo publicado</a> na NBER dos pesquisadores Jia, Ma e Xie, por exemplo, estimam que cerca de 80% da redu&#231;&#227;o de crescimento econ&#244;mico das &#225;reas afetadas pela enchente resultam do &#8220;efeito de expectativas&#8221;, isto &#233;, da mudan&#231;a na percep&#231;&#227;o de riscos por parte dos empres&#225;rios. Regi&#245;es como o Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, passam a se tornar mais arriscadas para empresas e trabalhadores e isso pode impactar negativamente no crescimento dessas localidades.</p><p>H&#225; um grande risco de que essas pol&#237;ticas, as que realmente importam para o crescimento de longo prazo das regi&#245;es afetadas, sejam negligenciadas pelo poder p&#250;blico. A raz&#227;o passa pelas falhas de governo. O potenciais dividendos pol&#237;ticos de obras de preven&#231;&#227;o contra desastres naturais que ocorrem com relativa baixa frequ&#234;ncia est&#227;o desalinhados com o horizonte temporal de pol&#237;ticos que disputam elei&#231;&#245;es, principalmente elei&#231;&#245;es majorit&#225;rias. Um sistema que foi constru&#237;do por um governador que ser&#225; &#250;til apenas cinquenta anos depois &#233;, muito provavelmente, muito menos valioso do ponto de vista eleitoral do que a distribui&#231;&#227;o de recursos para grupos de interesse. O caso emblem&#225;tico disso &#233; o do <a href="https://www.nbcnews.com/id/wbna43018489">prefeito Kotaku Wamura da cidade de Fudai</a>, no Jap&#227;o, que foi duramente criticado por construir um muro contra tsunamis. H&#225; tamb&#233;m a quest&#227;o da prefer&#234;ncia do eleitorado por pol&#237;ticas cujo retorno seja imediato em detrimento de pol&#237;ticas com retorno maior, mas mais de longo prazo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>.</p><p>***</p><p>Obrigado pela aten&#231;&#227;o e nos vemos na pr&#243;xima. Lembre-se do &#8220;Esp&#237;rito de Porto Alegre&#8221;, fa&#231;a uma doa&#231;&#227;o do que puder para algu&#233;m ou para uma institui&#231;&#227;o que esteja precisando. Nenhum homem &#233; uma ilha.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Helium Integers ! 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A impossibilidade de suavizar consumo plenamente faz com que pol&#237;ticas p&#250;blicas cujo retorno sobre a produtividade seja de longa matura&#231;&#227;o se tornem menos desej&#225;veis do que pol&#237;ticas de curto prazo como, por exemplo, transfer&#234;ncias diretas de renda. Camargo e Stein (2022) apresentam o mecanismo e ind&#237;cios sugestivos para pol&#237;ticas p&#250;blicas em capital humano.</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Lei da Demanda]]></title><description><![CDATA[Nota sobre a vota&#231;&#227;o da Descriminaliza&#231;&#227;o das Drogas no STF]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/lei-da-demanda</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/lei-da-demanda</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Wed, 06 Mar 2024 10:54:47 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9743bf74-2ff6-4384-8539-5392c420aa34_640x521.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>&#8220;<em>A &#225;gua &#233; molhada</em>&#8221; e &#8220;<em>o fogo queima</em>&#8221; s&#227;o obviedades que aparecem no poema &#8220;Gods of the Copybook Headings&#8221; (&#8220;Deuses dos Cabe&#231;alhos&#8221;) do Nobel de literatura Rudyard Kipling.&nbsp; Tais express&#245;es ficavam no cabe&#231;alho dos livros de caligrafia das escolas inglesas. As crian&#231;as deviam copi&#225;-las para exercitar a letra cursiva e, como as frases eram platitudes, elas n&#227;o as distra&#237;am da finalidade do exerc&#237;cio.</p><p>Para um economista, uma obviedade digna de ocupar o cabe&#231;alho dos livros de caligrafia &#233; &#8220;<em>a quantidade demandada aumenta quando o pre&#231;o cai&#8221;. </em>Apesar de &#243;bvia, a rela&#231;&#227;o entre pre&#231;o e quantidade demandada foi ignorada por pelo menos cinco ministros do STF que votaram em favor da descriminaliza&#231;&#227;o das drogas, tema que voltou &#224; pauta.</p><p>Assim como com gasolina ou picanha, a quantidade demandada por drogas aumenta quando o pre&#231;o cai. Ocorre que para o usu&#225;rio de drogas o pre&#231;o de consumi-las n&#227;o &#233; apenas aquilo que ele paga ao traficante. Embutido no quanto algu&#233;m est&#225; disposto a pagar est&#225; o risco de ser pego consumindo e as san&#231;&#245;es resultantes. A descriminaliza&#231;&#227;o das drogas reduz o seu pre&#231;o total e, portanto, aumenta a sua demanda. Essa parece ser a experi&#234;ncia de Portugal, que teve um aumento na taxa de consumo de drogas il&#237;citas entre 2001 e 2022.</p><p>Al&#233;m disso, regras que excluem ilicitude com base na quantidade de entorpecente em posse do indiv&#237;duo acabam reduzindo o custo de distribui&#231;&#227;o das drogas no varejo, afinal, tais regras ser&#227;o exploradas pelo crime organizado para vend&#234;-las sem medo da pol&#237;cia. A redu&#231;&#227;o nos custos somada ao incremento na demanda aumenta os lucros dos produtores e torna atraente a entrada de novos empreendedores. Estes ir&#227;o brigar por uma fatia de mercado, gerando mais viol&#234;ncia nas comunidades.</p><p>Em seu poema, Kipling denuncia os novos deuses do progresso, que, de tempos em tempos, aparecem para negar verdades patentes sobre a ordem social. No entanto, &#8220;t&#227;o certo como o fogo queima&#8221;, o bom senso dos deuses do cabe&#231;alho retorna, mas, at&#233; l&#225;, o dano causado pelos novos deuses pode ser grande demais.</p><p><em>[Enviei essa nota para o espa&#231;o de opini&#227;o do jornal Zero Hora na segunda-feira. Antes que ele fique datada, decido coloc&#225;-la aqui.]</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Dinheiro é Memória]]></title><description><![CDATA[Uma par&#225;bola sobre Padeiros, Cervejeiros e A&#231;ougueiros benevolentes, Bitcoins, Real Digital e o fim da moeda.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/dinheiro-e-memoria</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/dinheiro-e-memoria</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 23 Jul 2023 12:26:57 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/cba6be4b-b23b-4561-8a4b-c4e85687b0fe_800x600.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>Eu preciso acreditar em um mundo fora da minha mente.</em></p><p><em>Eu preciso acreditar que minhas a&#231;&#245;es ainda t&#234;m sentido.</em></p><p><em>Mesmo que eu n&#227;o consiga me lembrar delas.</em></p><p><em>Eu preciso acreditar que quando meus olhos est&#227;o fechados, o mundo continua aqui.</em></p><p><em>Eu acredito que o mundo ainda est&#225; aqui?    Ele ainda est&#225; aqui?</em></p><p>&#8212; Leonard Shelby, Memento (transcri&#231;&#227;o)</p></blockquote><p>Polaroides legendadas e tatuagens eram os meios atrav&#233;s dos quais Leonard Shelby tentava reconstruir sua hist&#243;ria. O personagem principal do filme <em>noir </em>&#8220;<a href="https://www.imdb.com/title/tt0209144/">Memento</a>&#8221; tinha  amn&#233;sia de mem&#243;rias de curto prazo. Embora ele se recordasse do seu passado anterior ao in&#237;cio do problema, ele era incapaz de formar novas mem&#243;rias.  Tudo que ocorria h&#225; quinze minutos era esquecido.</p><p>Se a simples vida cotidiana j&#225; seria desafiadora a uma pessoa com esse problema, a situa&#231;&#227;o do protagonista era ainda pior, pois ele estava tentando resolver o assassinato da sua esposa. No filme, as fotos de lugares e pessoas, as tatuagens contendo pistas e informa&#231;&#245;es vitais precisavam ser desvendadas de novo e de novo pelo protagonista, como um quebra-cabe&#231;a que cresce em complexidade e se desmancha de tempos e em tempos.</p><p><strong>Dinheiro, para que serve?</strong></p><p>Dinheiro &#233; meio de troca. Ele &#233; um meio para atingir um fim. Voc&#234; precisa de Reais, pois eles servem para conseguir o que voc&#234; realmente precisa: P&#227;es, cerveja e carne, por exemplo. Uma forma natural de explicar o que &#233; o dinheiro &#233; meditar sobre o que aconteceria na sua aus&#234;ncia. Carl Menger, um dos economistas mais importantes do s&#233;culo XIX, argumenta que, sem o dinheiro, trocas s&#243; seriam poss&#237;veis na presen&#231;a de uma<strong> dupla coincid&#234;ncia</strong> de desejos. A dupla coincid&#234;ncia &#233; um conceito simples de entender. Se voc&#234; &#233; um padeiro e quer cerveja, voc&#234; s&#243; vai conseguir essa bebida se encontrar um cervejeiro que estiver procurando p&#227;o. A coincid&#234;ncia &#233; dupla pois quem oferece a cerveja precisa querer o p&#227;o e vice-versa. Embora esse exerc&#237;cio imaginativo seja &#250;til para entender o papel da moeda, as economias pr&#233;-monet&#225;rias muito provavelmente n&#227;o dependiam de duplas coincid&#234;ncias para funcionar ou mesmo para que existissem trocas ali. As trocas aconteciam, mas eram na forma de &#8220;presentes&#8221;.</p><p><strong>Uma Par&#225;bola de Presentes<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></strong></p><p>Antes do dinheiro existir, as organiza&#231;&#245;es humanas se restringiam a pequenas comunidades, muitas vezes isoladas umas das outras. Considere uma sociedade muito pequena com apenas tr&#234;s habitantes. No esp&#237;rito smithiano, imagine que cada um dos membros dessa comunidade se especializou em apenas um de tr&#234;s produtos: p&#227;o, cerveja e carne. Trata-se, portanto, de uma economia com um padeiro, um cervejeiro e um a&#231;ougueiro.</p><p>Certo dia, o padeiro decide que quer uma cerveja e, portanto, vai at&#233; a casa do cervejeiro atr&#225;s da bebida. Ao chegar l&#225;, o cervejeiro se disp&#245;e a vender sua cerveja, mas h&#225; um problema: o cervejeiro n&#227;o quer p&#227;es, mas, sim, alguns peda&#231;os de carne. Como n&#227;o h&#225; dupla coincid&#234;ncia nos desejos, poder&#237;amos imaginar que o padeiro deixaria a casa do cervejeiro sem nenhum barril da bebida. No entanto, n&#227;o &#233; isso que acontece. O cervejeiro entrega de bom grado a cerveja para o padeiro, sem que este precise lhe entregar nada. Para um observador de fora da comunidade, esse gesto poderia ser interpretado como um &#8220;presente&#8221;.</p><p>A explica&#231;&#227;o para a aparente benevol&#234;ncia do cervejeiro est&#225; na confian&#231;a da <strong>mem&#243;ria comunit&#225;ria</strong>. Ele sabe que todos os membros da sociedade sabem que ele &#233; cervejeiro e que ele presenteia cervejas. Assim sendo, o cervejeiro tamb&#233;m sabe que ele pode ir at&#233; o a&#231;ougue pedir alguns peda&#231;os de carne. O a&#231;ougueiro lhe dar&#225; de bom grado, afinal ele se lembra que o cervejeiro produz cervejas e que ele presenteia cervejas para o padeiro. Da mesma foram, essa mem&#243;ria comunit&#225;ria permite ao a&#231;ougueiro pedir alguns p&#227;es ao padeiro, o qual tamb&#233;m lhe presentear&#225;, pois sabe que ele satisfez a demanda do cervejeiro. </p><p>Note que essa economia simples sobrevive satisfatoriamente sem a necessidade de dinheiro, <strong>porque &#233; muito f&#225;cil manter o registro das transa&#231;&#245;es passadas.</strong> H&#225; um registro t&#225;cito, uma mem&#243;ria comum do que foi dado e recebido por cada um dos membros. Essa mem&#243;ria pode ser pensada como um grande livro raz&#227;o p&#250;blico, o qual &#233; mantido de forma suficientemente atualizada e fidedigna. As demandas do cervejeiro s&#227;o atendidas, porque ele tem cr&#233;ditos com o padeiro, os quais, nesse exemplo, ser&#227;o redimidos em &#250;ltima inst&#226;ncia pelo sujeito que quer p&#227;es, no caso, o a&#231;ougueiro. </p><p>Se fosse poss&#237;vel observar essa mem&#243;ria comunit&#225;ria em um determinado ponto do tempo, seria poss&#237;vel identificar o saldo que cada um dos habitantes daquela comunidade possui em termos de servi&#231;os prestados ou, melhor dizendo, de presentes entregues aos outros membros. Colocando esse saldo em uma mesma unidade de medida, ele poderia ser interpretado como dinheiro que cada um tem na quele momento.</p><p><strong>Um ladr&#227;o na noite</strong></p><blockquote><p><em>Eu n&#227;o tenho mem&#243;ria de curto prazo. Eu sei tudo sobre mim mesmo, eu apenas&#8230;</em></p><p><em>Desde meu ferimento, eu n&#227;o consigo formar novas mem&#243;rias. Tudo desaparece.</em></p><p><em>Se n&#243;s conversarmos por muito tempo, eu esquecerei como n&#243;s come&#231;amos&#8230;</em></p><p><em>&#8230; e, na pr&#243;xima vez em nos vermos, eu n&#227;o lembrarei dessa conversa.</em></p><p><em>Eu nem sei se n&#243;s j&#225; nos conhecemos antes.</em></p><p><em>Ent&#227;o, se eu parecer um pouco estranho ou rude, ou algo assim, uh&#8230;</em></p><p><em>Eu j&#225; havia contado isso a voc&#234; antes, n&#227;o?</em></p><p>&#8212; Leonard Shelby, Memento (transcri&#231;&#227;o)</p></blockquote><p>Agora, imagine que um ladr&#227;o vem at&#233; ao micro vilarejo do a&#231;ougueiro, cervejeiro e padeiro. Ele vai sorrateiramente at&#233; a casa de cada um deles e golpeia as cabe&#231;as de cada um para deix&#225;-los inconscientes enquanto ele rouba os estoques. No dia seguinte, os tr&#234;s artes&#245;es acordam com dor de cabe&#231;a e sem mem&#243;ria do ocorrido. Al&#233;m disso, eles notam uma sequela terr&#237;vel. Assim como o protagonista de &#8220;Memento&#8221;, nenhum deles n&#227;o t&#234;m mais mem&#243;ria de acontecimentos imediatamente recente. Todos s&#227;o incapazes de lembrar do que fizeram, nem do que aconteceu depois  alguns minutos. A partir desse momento, a economia de presentes acaba. </p><p>Sem a mem&#243;ria perfeita, os tr&#234;s s&#227;o incapazes de acompanhar o fluxo de presentes da economia. Quando o cervejeiro vai at&#233; ao a&#231;ougueiro atr&#225;s de alguns peda&#231;os de carne, ele n&#227;o vai saber se o cervejeiro produziu cerveja suficiente para que ele tenha direito a carne. Antecipando essa possibilidade, o cervejeiro, por sua vez, n&#227;o vai querer presentear o padeiro com suas cervejas. N&#227;o h&#225; mais presentes nessa economia e as &#250;nicas trocas poss&#237;veis s&#227;o aquelas em que existe uma dupla coincid&#234;ncia de desejos.</p><p>Para resolver esse problema, o padeiro, a&#231;ougueiro e cervejeiro tentam algumas solu&#231;&#245;es. Uma delas &#233; escrever em uma planilha p&#250;blica todas as trocas que aconteceram. Dessa forma, os tr&#234;s teriam um registro f&#237;sico do que aconteceu e poderiam consult&#225;-lo sempre que necess&#225;rio. O problema dessa solu&#231;&#227;o &#233; que a planilha poderia ser adulterada e, desde o incidente, ningu&#233;m confia suficientemente uns nos outros. </p><p>Outra solu&#231;&#227;o &#233; anotar em um papel sempre que algum produto for presenteado por algum dos tr&#234;s. Por exemplo, o padeiro poderia receber a cerveja e entregar ao cervejeiro um papel dizendo que o cervejeiro lhe presenteou com um barril da bebida. Esse papel poderia ser usado pelo cervejeiro para conseguir carne com a&#231;ougueiro, o qual usaria o papel para resgatar p&#227;es do padeiro. O problema dessa &#250;ltima solu&#231;&#227;o &#233; que, assim como a planilha p&#250;blica, existe uma grande possibilidade de adultera&#231;&#227;o. O cervejeiro poderia falsificar bilhetes do padeiro e conseguir carne do a&#231;ougue sem ter produzido cerveja.</p><p><strong>A Moeda &#233; um signo para servi&#231;os prestados</strong></p><p>Embora o comprovante n&#227;o seja a solu&#231;&#227;o ideal, a ideia de algo que comprove a entrega de presentes n&#227;o &#233; ruim em si. Uma forma de resolver o problema dos tr&#234;s artes&#245;es &#233; tornar o comprovante dif&#237;cil de falsificar ou reproduzir. Um metal precioso como o ouro, por exemplo, pode funcionar. Se o padeiro, cervejeiro e a&#231;ougueiro souberem mais ou menos qual &#233; a quantidade desse metal naquela economia, ele pode funcionar como registro de entrega de presentes. O padeiro pede cerveja ao cervejeiro e entrega a ele uma quantidade de ouro. Essa troca &#233; poss&#237;vel, pois o cervejeiro sabe que o a&#231;ougueiro aceitar&#225; o ouro em troca dar carne. Ele sabe isso, porque entende que o a&#231;ougueiro reconhece na posse do ouro um comprovante de servi&#231;os prestados. Isso &#233; dinheiro: um signo de servi&#231;os prestados naquela economia.</p><p>Saindo do mundo artificial da par&#225;bola, n&#227;o &#233; necess&#225;rio que exista uma mem&#243;ria deficiente para que mais cedo ou mais tarde economia de presentes se torne invi&#225;vel. Mesmo que o padeiro, o cervejeiro e o a&#231;ougueiro tivessem uma boa mem&#243;ria, a medida que a economia ganhasse complexidade e maior divis&#227;o do trabalho &#8212; adicionando mais membros ao vilarejo ou trocando com outras comunidades, por exemplo &#8212; seria imposs&#237;vel manter um registro confi&#225;vel de todas as transa&#231;&#245;es.  Seria imposs&#237;vel afirmar com elevado grau de confian&#231;a quem deve o qu&#234; para quem. O dinheiro surge como um substituto para a mem&#243;ria comunit&#225;ria. Se voc&#234; tem 100 Reais no bolso, &#233; porque voc&#234; provavelmente fez algum servi&#231;o ou produto para algu&#233;m e isso &#233; suficiente para que outras pessoas aceitem dar mercadorias e servi&#231;o em troca dessa nota<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. O hist&#243;rico das transa&#231;&#245;es da economia brasileira inteira pode ser resumido ao saldo de dinheiro na carteira de cada brasileiro, n&#227;o h&#225; necessidade de mem&#243;ria.</p><p><strong>Novas tecnologias, o fim do dinheiro e o retorno da mem&#243;ria</strong></p><p>O dinheiro &#233; uma boa solu&#231;&#227;o para o problema da mem&#243;ria imperfeita. No entanto, ele tem alguns inconvenientes. O principal deles &#233; que eu preciso encontrar <strong>fisicamente </strong>o cervejeiro para entregar dinheiro a ele. Se eu quiser comprar cerveja por um aplicativo de entrega no meu celular, por exemplo, eu preciso usar um banco ou uma empresa de cart&#227;o de cr&#233;dito para efetuar a transa&#231;&#227;o. Seria muito conveniente, no entanto, se eu pudesse enviar dinheiro para o cervejeiro <strong>diretamente</strong>, como eu faria se fosse pessoalmente at&#233; l&#225;. A moeda digital &#233; uma forma de fazer isso.</p><p>O Bitcoin &#233; o exemplo mais famoso de uma moeda digital que dispensa a necessidade de intermedi&#225;rios para enviar dinheiro de um lugar ao outro do mundo. O princ&#237;pio por tr&#225;s dessa moeda &#233; o mesmo da mem&#243;ria na pequena comunidade da par&#225;bola anterior. Existe um grande livro raz&#227;o, um registro p&#250;blico que pode ser auditado, que documenta as transa&#231;&#245;es realizadas entre dois indiv&#237;duos quaisquer e que, portanto, consegue autenticar o saldo de &#8220;moeda&#8221; de cada pessoa. A valida&#231;&#227;o das transa&#231;&#245;es &#233; remunerada com Bitcoins, gerando incentivos para que pessoas disponibilizem seus computadores para esse servi&#231;o. H&#225; tamb&#233;m uma previsibilidade sobre como o estoque de moeda evoluir&#225; ao longo do tempo.</p><p>Uma outra forma de criar uma moeda digital &#233; atrav&#233;s do Estado. Ela seria muito parecida com um o Pix, mas a diferen&#231;a &#233; que voc&#234; n&#227;o precisaria ter conta em banco. Imagine se todos os brasileiros com CPF estivessem registrados no Banco do Brasil e, a partir desse registro, eles pudessem realizar pagamentos com um Real digital de um CPF para outro utilizando carteiras virtuais. Nesse contexto, a &#8220;moeda&#8221; n&#227;o seria nada mais do que uma unidade de conta que seria movida de um lado para o outro em uma grande planilha administrada pela autoridade monet&#225;ria. Seria mais ou menos como um livro raz&#227;o que o padeiro, o a&#231;ougueiro e o cervejeiro pensaram em criar quando eles perderam a mem&#243;ria. A diferen&#231;a entre ela e algo como o Bitcoin &#233; que o livro raz&#227;o seria administrado pelo Banco Central.</p><p>Seja Bitcoin ou Real digital, o fato &#233; que essas novas tecnologias tornam muito clara a rela&#231;&#227;o entre dinheiro e mem&#243;ria. Enquanto o dinheiro na sua carteira &#233; um signo f&#237;sico de uma mem&#243;ria comunit&#225;ria abstrata, o saldo de Bitcoin e do Real digital na sua carteira virtual s&#227;o o contr&#225;rio. O elemento mais concreto desses meios digitais &#233; justamente a planilha de transa&#231;&#245;es ou, em outras palavras, o tal livro raz&#227;o. <strong>O livro raz&#227;o &#233; o que importa, o &#8220;dinheiro&#8221; &#233; apenas uma unidade de conta</strong>. A mem&#243;ria comunit&#225;ria de todas as transa&#231;&#245;es que foram realizadas informa por meio dos saldos de cada indiv&#237;duo quantos cr&#233;ditos cada um deles t&#234;m. Esses cr&#233;ditos d&#227;o acesso aos bens e servi&#231;os.</p><p>A conveni&#234;ncia em realizar trocas remotas, combinada com as tecnologias digitais fez com que os indiv&#237;duos optassem cada vez mais pela mem&#243;ria no lugar do dinheiro. Ningu&#233;m mais usa dinheiro para pagar suas compras e cada vez mais usamos Pix ao inv&#233;s de usar servi&#231;os banc&#225;rios tradicionais. O efeito colateral &#233; tornar a mem&#243;ria comunit&#225;ria que estava dispersa entre milh&#245;es de indiv&#237;duos em uma mem&#243;ria concentrada, seja na planilha p&#250;blica e an&#244;nima do Bitcoin ou na planilha dos Banco Centrais.</p><p><strong>Resolvendo para o equil&#237;brio</strong></p><p>Governos existem e sempre v&#227;o existir. Eles t&#234;m o monop&#243;lio da viol&#234;ncia, cobram impostos em moeda que eles mesmos emitem e t&#234;m grande influ&#234;ncia sobre a infraestrutura de seus pa&#237;ses (energia, internet etc.). Por isso, eu n&#227;o acredito que o moedas do tipo Bitcoin tem alguma chance contra moedas digitais estatais. A conveni&#234;ncia da moeda digital estatal &#233; a mesma, se n&#227;o maior, do que a do Bitcoin. O futuro, portanto, me parece estar no Real (D&#243;lar, Libra etc.) digital. </p><p>Nesse contexto, &#233; importante meditar sobre o poder que o Estado recebe em troca da conveni&#234;ncia de realizar transa&#231;&#245;es remotas. Voc&#234; pode comprar p&#227;o &#224; dist&#226;ncia e, em troca, o Estado ganha acesso a mem&#243;ria comunit&#225;ria das transa&#231;&#245;es. Isso tem o efeito de aumentar enormemente os meios de a&#231;&#227;o dos governos. Talvez n&#227;o seja preocupante que o Banco Central se lembre &#8212; literalmente se lembre &#8212; de tudo que foi trocado na economia. No entanto, o que acontece se outras partes do governo conseguirem acesso a essa mem&#243;ria? </p><p>(<em>Em algum lugar de um livro sobre um ano espec&#237;fico h&#225; uma discuss&#227;o sobre se o passado &#233; real, e sobre se este fica nos registros ou n&#227;o, e sobre como quem controla o presente (e, portanto, os registros) pode controlar o passado e, com ele, controlar futuro&#8230; Qual o livro mesmo? N&#227;o consigo me lembrar do nome&#8230;</em>)</p><p>[MUSIC CUE: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=8haH-Z38TcA">&#8220;Something in the air&#8221;</a> by David Bowie]</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>A par&#225;bola nada mais &#233; do que uma vers&#227;o mais detalhada daquela que existente no artigo de Narayana R. Kocherlakota, "Money is memory." publicado em 1998 no <em>Journal of Economic Theory</em>. Essa tamb&#233;m &#233; uma boa hora para confessar que eu roubei o t&#237;tulo do artigo dele. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Moedas fiduci&#225;rias como o Real servem para trocas assim como o ouro. &#201; razoavelmente dif&#237;cil falsificar Reais e o sistema de metas de infla&#231;&#227;o combinado com uma pol&#237;tica fiscal coerente podem ancorar a expectativa sobre o valor da moeda.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Batismo de Michael]]></title><description><![CDATA[Meu filho vai ser batizado nesse pr&#243;ximo domingo]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-batismo-de-michael</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-batismo-de-michael</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Wed, 21 Jun 2023 23:48:21 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/1fa210e4-af04-4f7c-94d1-6f827cdbe669_602x377.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Michael Francis Rizzi, voc&#234; renuncia a Satan&#225;s?&#8221;</em></p><p><em>&#8220;Eu renuncio a ele&#8221;</em>. Essa foi a resposta que Michael deu ao sacerdote na cerim&#244;nia de batismo do seu sobrinho. A crian&#231;a era filho da irm&#227; de Michael, Conie Rizzi, e ele havia sido escolhido como padrinho. O batizado, em O Poderoso Chef&#227;o, &#233; uma das cenas mais ic&#244;nicas do cinema. Nela, o diretor do filme, Francis Ford Coppola, deixou muito claro at&#233; para o espectador mais desatento o paralelo que ele queria tra&#231;ar. No mesmo momento do batizado da crian&#231;a, em que Michael assumiu o papel de padrinho, seu primeiro plano como chefe (ou Padrinho) da fam&#237;lia Corleone estava sendo deflagrado.</p><p>As cenas do batismo religioso eram intercaladas com cenas brutais de assassinatos dos conspiradores Moe Green, Philip Tataglia, Emilio Barzini e Tessio, os quais queriam aproveitar a morte de Don Vito para acabar com a fam&#237;lia Corleone. Os assassinatos representavam a imers&#227;o definitiva do her&#243;i de guerra na nova vida de crime. Enquanto seu sobrinho era imerso em &#225;gua, Michael era imerso no sangue que ele mesmo derramava.</p><p>A origem da palavra batismo remete a imers&#227;o. A imers&#227;o limpa e d&#225; uma nova vida &#224;quele que foi batizado. Na tradi&#231;&#227;o cat&#243;lica, a purifica&#231;&#227;o do batismo comunica o dom sobrenatural dado ao homem por Deus. Esse presente &#233; a capacidade de n&#227;o apenas reconhecer, mas tamb&#233;m de fazer parte da vida de Deus.</p><p>Segundo a filosofia cl&#225;ssica, o homem &#233; um animal racional, dotado de vontade e intelecto. Nessa mesma tradi&#231;&#227;o, a finalidade natural do homem deve ser, portanto, conhecer a verdade e querer o bem. A Verdade e o Bem, em &#250;ltima inst&#226;ncia, s&#227;o Deus. &#201; pr&#243;prio da natureza do homem, portanto, buscar essa Verdade e querer esse Bem. Esse &#233; o sentido da vida de todos n&#243;s.</p><p>Embora pela natureza humana, aspectos de Deus at&#233; possam ser conhecidos atrav&#233;s da raz&#227;o, esse conhecimento &#233; muito limitado. Uma analogia &#250;til para entender essa limita&#231;&#227;o &#233; pensar que o nosso conhecimento sobre o transcendente &#233; como o conhecimento que uma crian&#231;a tem a respeito do pai que partiu para guerra antes de ela nascer. A crian&#231;a compreende atrav&#233;s da raz&#227;o que ela tem um pai. Al&#233;m disso, ao conviver com sua m&#227;e e ao estudar os pertences do seu pai, ela pode querer agir segundo ele ordenou. No entanto, isso n&#227;o &#233; a mesma coisa que estar com ele.</p><p>A Gra&#231;a &#233; o elemento sobrenatural &#8211; al&#233;m das habilidades naturais do homem &#8211; que lhe permite participar da vida de Deus. No Jardim do &#201;den, o homem tinha esse dom naturalmente e, portanto, caminhava com Deus &#8212; o menino estava na presen&#231;a de seu pai. Depois da queda, esse v&#237;nculo foi rompido. Infelizmente, como explica Leo Trese, os filhos, netos e bisnetos de um bilion&#225;rio que desperdi&#231;ou sua fortuna acabam tamb&#233;m sendo afetados por esse erro. Todos n&#243;s nascemos, portanto, com o pecado original: a consequ&#234;ncia da quebra de confian&#231;a entre Criador e criatura, que levou ao decaimento da nossa natureza.</p><p>A boa not&#237;cia &#233; que, no sacramento do batismo, a crian&#231;a recebe a Gra&#231;a. Ela &#233; um presente que Deus concedeu aos homens para que possam novamente viver junto Dele. Esse v&#237;nculo &#233; restaurado no batismo gra&#231;as &#224; vida, paix&#227;o, morte e ressurrei&#231;&#227;o de Cristo. Se antes o homem era um copo vazio, ap&#243;s o batismo o copo est&#225; novamente cheio. A crian&#231;a pode n&#227;o s&#243; conhecer aspectos do pai que estava na guerra, como tamb&#233;m pode abra&#231;&#225;-lo.</p><p>Al&#233;m do batismo, a trilogia inteira de O Poderoso Chef&#227;o &#233; repleta de sacramentos cat&#243;licos. O casamento de Conie e o batizado de seu filho na primeira parte, a primeira comunh&#227;o de Anthony Corleone na segunda e a malsucedida confiss&#227;o de Michael na terceira e &#250;ltima parte. Embora isso n&#227;o seja necessariamente surpreendente &#8212; afinal de contas a trilogia conta a trajet&#243;ria de uma fam&#237;lia italiana &#8212; h&#225; quem diga que Mario Puzo e Francis Coppola queriam mostrar a hipocrisia da Igreja e dos cat&#243;licos. Se isso &#233; verdade, eu n&#227;o sei. O que podemos ter certeza &#233; que, em caso afirmativo, vale aqui a m&#225;xima de S&#243;crates: em geral, os artistas n&#227;o fazem a menor ideia do significado &#250;ltimo de suas obras. Eu vou explicar o motivo.</p><p>O leitor atento percebeu que a pergunta transcrita no come&#231;o do texto, embora tenha sido respondida por Michael Corleone, era dirigida a Michael Francis Rizzi. Michael Rizzi, hom&#244;nimo do chefe da m&#225;fia Corleone, era a crian&#231;a que estava sendo batizada. Antigamente, no rito do batismo, o padre se dirigia ao beb&#234; em quest&#227;o, mas, por motivos &#243;bvios, quem respondia eram os padrinhos. Michael Corleone estava, portanto, renunciando a Satan&#225;s em nome de seu afilhado. Enquanto o padrinho estava sendo imerso no pecado, seu afiliado hom&#244;nimo estava sendo limpo dele. Havia ali dois Michaels: um na estrada para perdi&#231;&#227;o e outro no caminho da reden&#231;&#227;o.</p><p>Acontece, caro leitor, que voc&#234;, mesmo que seja f&#227; da trilogia, provavelmente nunca deve ter ouvido falar de Michael Francis Rizzi, exceto na cena do batismo. Isso porque o menino nunca entrou nos neg&#243;cios da fam&#237;lia. O batismo pela &#225;gua benta &#8212; o sacramento &#8212; retratado no primeiro filme livrou o menino do destino de seus parentes. &#8220;Little Michael&#8221; (Pequeno Michael), como era conhecido, ficou limpo do pecado original da fam&#237;lia Corleone. O sacramento, portanto, foi duplamente eficaz<em><strong>.</strong></em></p><p>                                                                       ***</p><div><hr></div><p>PS: Agrade&#231;o ao amigo e prof. Dr. <a href="https://www.amazon.com.br/DIREITO-NATURAL-CONTEMPOR%C3%82NEO-RENASCEN%C3%87A-JUSNATURALISMO-ebook/dp/B09J1K3DM7">Marcos Paulo Fernandes de Ara&#250;jo</a> por me impedir de incorrer em erros e heresias na elabora&#231;&#227;o desse texto.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mais estranho que a ficção]]></title><description><![CDATA[O professor Robert Lucas nos ensinou como um economista deve contar uma hist&#243;ria.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/mais-estranho-que-a-ficcao</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/mais-estranho-que-a-ficcao</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sat, 20 May 2023 10:34:49 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/abd9511f-30fb-4e05-a60f-23c4120a8ff4_1920x1080.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>[Banheiro -- Manh&#227;]</em></p><p><em>[Harold est&#225; mais uma vez escovando os dentes meticulosamente.]</em></p><p><strong>Narradora</strong>: <em>Se algu&#233;m tivesse perguntado a Harold, ele teria dito que quarta-feira foi exatamente como todas as quartas-feiras anteriores. E ele come&#231;ou da mesma forma que el..</em></p><p>[Harold para de repente, assim como a narra&#231;&#227;o. Ele come&#231;a a olhar em volta, obviamente ouvindo algo. Ele faz uma pausa e escuta. N&#227;o h&#225; nada ali. Ele retoma a escova&#231;&#227;o. A narra&#231;&#227;o recome&#231;a tamb&#233;m.]</p><p><strong>Narradora </strong>(continua): <em>E ele come&#231;ou da mesma forma que sempre fazi..</em></p><p><em>[Harold para novamente e a narra&#231;&#227;o para abruptamente com ele. Ele definitivamente ouve alguma coisa. Ele olha para a escova de dentes.]</em></p><p><strong>Harold</strong>:<em> Al&#244;?</em></p><p><em><strong>&#8212; Mais Estranho que a Fic&#231;&#227;o (2006)</strong></em></p></blockquote><p>N&#227;o era a escova de dentes que estava falando com Harold. Na verdade, ningu&#233;m estava falando com ele<em>, mas, sim, sobre ele</em>. No filme <a href="https://www.imdb.com/title/tt0420223/">Mais Estranho que a Fic&#231;&#227;o</a> (<em>Stranger Than Fiction</em>) de 2006, Harold Crick, um sujeito que levava uma vida mon&#243;tona e solit&#225;ria como auditor da receita federal, come&#231;a a escutar a voz de uma mulher que parece estar narrando a sua vida.  A cada instante, Harold ouvia descri&#231;&#245;es sobre suas a&#231;&#245;es, al&#233;m de coment&#225;rios sobre sua personalidade e pensamentos.</p><p>N&#227;o &#233; necess&#225;rio dizer que Harold achou aquilo tudo muito estranho. Primeiro ele pensou estar sendo seguido por algu&#233;m e, depois pensou estar maluco. No entanto, a perplexidade de Harold n&#227;o o impediu de prosseguir, na medida do poss&#237;vel, com sua rotina di&#225;ria, mesmo que ela fosse comentada o tempo todo por uma narradora. Algum tempo passa e o protagonista estava quase se acostumando com a situa&#231;&#227;o. No entanto, quando ele estava voltando para casa e parou para acertar o seu rel&#243;gio, a voz et&#233;rea deixa escapar uma informa&#231;&#227;o que nenhum de n&#243;s gostaria de ouvir:</p><blockquote><p><em>[Harold ajusta rapidamente seu rel&#243;gio para 5:47 e salva.]</em></p><p><strong>Narradora</strong>:<em> Ent&#227;o o rel&#243;gio de Harlod o colocou &#224; merc&#234; do caminho imut&#225;vel do destino. Pois, ao acertar a hora de seu rel&#243;gio, <strong>Harold mal sabia que esse ato simples e aparentemente in&#243;cuo resultaria em sua morte.</strong></em></p><p><em>[O ar &#233; sugado para fora de Harold quando ele ouve isso.]</em></p><p><strong>Harold</strong>: <em>O qu&#234;?</em></p><p><em>[Ele olha para cima.]</em></p><p><strong>Harold</strong>: <em>O qu&#234;?! ei!  </em>[pausa]<em>  Voc&#234;... Voc&#234; acabou de... Voc&#234; disse que isso acabaria resultando na minha morte?! Resultaria... Me desculpe... Ol&#225; &#8212; voc&#234; disse na minha morte?</em>  [pausa]<em>  Al&#244;?</em></p><p><em><strong>&#8212; Mais Estranho que a Fic&#231;&#227;o (2006)</strong></em></p></blockquote><p>Conforme explicar&#225; Hilbert &#8212; o professor de literatura a quem Harold acaba recorrendo em desespero para tentar entender sua situa&#231;&#227;o (a narra&#231;&#227;o tinha estilo de prosa liter&#225;ria) &#8212; a express&#227;o &#8220;mal sabia que&#8221; significa que o narrador &#233; <em>onisciente</em>, ou seja, que ele sabe de coisas que o personagem da hist&#243;ria n&#227;o sabe no momento.  O narrador sabia n&#227;o apenas que Harold iria morrer, o que, francamente, n&#227;o &#233; novidade para nenhum humano, mas tamb&#233;m como e quando ele iria morrer.</p><p>Apesar de saber que mais cedo ou mais tarde todos acabam morrendo, ao ouvir a narra&#231;&#227;o colocando sua vida em uma perspectiva temporal finita, Harold &#233; atingido por uma profunda ansiedade. Ele precisava saber o que estava acontecendo. Todos os seus planos tra&#231;ados at&#233; aquele momento foram colocados em suspens&#227;o. Em certo sentido, a vida de Harold come&#231;ara ali. O resto do filme conta justamente a jornada de Harold para entender o que esta acontecendo.</p><p><strong>Um exerc&#237;cio de imagina&#231;&#227;o</strong></p><p>Tente se coloque no lugar de Harold. Suponha que sua vida tenha um sentido. Imagine que voc&#234; faz parte de uma hist&#243;ria escrita por algu&#233;m. Como em toda boa hist&#243;ria, os personagens tem um arco, um caminho a percorrer. Um in&#237;cio, um meio e, sobre tudo, um fim. Al&#233;m disso, imagine um narrador onisciente que comunica ao leitor informa&#231;&#245;es sobre a hist&#243;ria que ainda podem n&#227;o ter acontecido com voc&#234;. Agora imagine que voc&#234;, na condi&#231;&#227;o de personagem, come&#231;a a ouvir o narrador. O que voc&#234; faria? Na condi&#231;&#227;o de personagem, voc&#234; &#233; capaz de tomar decis&#245;es, mas, ao mesmo tempo, o narrador da sua hist&#243;ria &#233; onisciente, ou seja, ele sabe o rumo e o significado da hist&#243;ria. Portanto, as escolhas que voc&#234; faz e o arco criado pelo narrador precisam, de alguma forma, coincidir no final. Pelo menos &#233; isso que se esperaria numa boa hist&#243;ria desse tipo<em>. A l&#243;gica do universo em que voc&#234; vive precisa ser integrada nas suas a&#231;&#245;es e estas, por sua vez, s&#227;o integradas na l&#243;gica do universo (e vice-versa).</em></p><p>Pala ilustrar essa ideia, consideremos uma situa&#231;&#227;o em que os planos do narrador e do personagem n&#227;o coincidiriam se o &#250;ltimo pudesse ouvir o primeiro. Consideremos o destino de um importante personagem do &#8220;O Poderoso Chef&#227;o&#8221;. Nesse filme, n&#227;o h&#225; narrador onisciente para ser ouvido por algu&#233;m, mas vamos supor que ele existisse. Vamos supor que Sonny Corleone, o filho mais velho de Don Vito, conseguisse ouvir a narra&#231;&#227;o do roteirista Mario Puzo sobre sua vida. Suponha que ele tenha ouvido uma voz dizer que Carlo, cunhado de Sonny, bateria na sua irm&#227; Connie com intuito de faz&#234;-lo cair numa armadilha elaborada pela fam&#237;lia <s>Tataglia</s> Barzini. Essa informa&#231;&#227;o mudaria o comportamento dele? <strong>Muito provavelmente sim</strong>. Sonny era um sujeito col&#233;rico e pouco cerebral, ao contr&#225;rio do seu irm&#227;o Michael, mas mesmo ele teria agido para evitar seu destino. Aqui, as decis&#245;es do agente e os planos do narrador certamente iriam divergir e o &#8220;menino&#8221; de Don Vito n&#227;o seria <a href="https://www.youtube.com/shorts/lCKsBflly_Q">massacrado</a>. Podemos ir mais al&#233;m: mesmo que Mario Puzo tivesse contado a hist&#243;ria inteira de O Poderoso Chef&#227;o, Sony n&#227;o teria escolhido parar naquele ped&#225;gio. &#201; seguro dizer, portanto, que a narrativa e a experi&#234;ncia individual estariam desintegradas.</p><p>***</p><p>Se o narrador &#8220;convive&#8221; com os personagens (se eles sabem da exist&#234;ncia de um narrador), ent&#227;o a experi&#234;ncia individual dos &#250;ltimos deve ser integrada com a narrativa do primeiro. Embora esse insight j&#225; existisse na filosofia pelo menos desde &#8220;<em><a href="https://www.amazon.com.br/Confiss%C3%B5es-santo-Agostinho-Santo/dp/8582850476/ref=asc_df_8582850476/?tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=379708274562&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=13226725846698204156&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=1001686&amp;hvtargid=pla-460804285637&amp;psc=1">As Confiss&#245;es</a></em>&#8221;, a formula&#231;&#227;o e aplica&#231;&#227;o dessa ideia para a ci&#234;ncia econ&#244;mica &#233; uma das maiores contribui&#231;&#245;es do economista Robert Lucas (1936-2023), pr&#234;mio Nobel de Economia e um dos economistas mais influentes do s&#233;culo XX. Um de seus trabalhos mais impactantes, intitulado &#8220;<em><a href="http://people.sabanciuniv.edu/atilgan/FE500_Fall2013/2Nov2013_CevdetAkcay/LucasCritique_1976.pdf">Econometric Policy Evaluation: A Critique</a></em>&#8221;, o professor de Chicago explicita o problema de se fazer modelos te&#243;ricos e previs&#245;es sobre pessoas <strong>que justamente convivem com (e fazem!) modelos e teorias</strong>.</p><p><strong>A Cr&#237;tica de Lucas e as Expectativas Racionais</strong></p><p>Robert Lucas nos conta em &#8220;<em><a href="https://home.uchicago.edu/~vlima/courses/econ203/fall01/Lucas_wedo.pdf">What Economists Do</a></em>&#8221; que todo te&#243;rico de ci&#234;ncia econ&#244;mica &#233; um narrador, um contador de hist&#243;rias. A <a href="http://people.sabanciuniv.edu/atilgan/FE500_Fall2013/2Nov2013_CevdetAkcay/LucasCritique_1976.pdf">Cr&#237;tica de Lucas</a> argumenta que essas hist&#243;rias s&#227;o do tipo em que o narrador &#233; ouvido pelos pr&#243;prios personagens. Isso n&#227;o acontece em toda ci&#234;ncia. O economista difere de um astrof&#237;sico que estuda os orbes celestes, pois gal&#225;xias e planetas n&#227;o tem consci&#234;ncia, n&#227;o agem e n&#227;o tem expectativas sobre a realidade. Quando falamos de pessoas, no entanto, as expectativas delas sobre a realidade influenciam suas a&#231;&#245;es e ambas s&#227;o fundamentadas nas cren&#231;as que elas t&#234;m sobre rela&#231;&#245;es de causa e efeito na realidade. Ou seja, os personagens tamb&#233;m contam hist&#243;rias e, portanto, entendem o narrador.</p><p>Se isso &#233; verdade, ent&#227;o quando um te&#243;rico vai narrar uma hist&#243;ria atrav&#233;s de um modelo que envolva seres como ele pr&#243;prio, <em>&#233; prudente que ele adicione ao seus personagens a possibilidade deles formarem expectativas sobre o mundo do mesmo jeito que ele forma as suas</em>. Por isso, essas expectativas n&#227;o podem ser qualquer coisa, algo de livre escolha do te&#243;rico. O autor da hist&#243;ria n&#227;o pode limitar artificialmente o que seus personagens v&#227;o levar em conta na hora de formar suas expectativas. As pessoas da hist&#243;ria formam expectativas usando o mesmo modelo, a mesma hist&#243;ria do narrador. &#201; isso que os economistas chamam de &#8220;Expectativas Racionais&#8221;, ou, como Thomas Sargent costuma definir em suas aulas: <em>Communism of Beliefs</em>. A ideia &#233; que um modelo consistente da realidade precisa deixar as expectativas dos agentes livres para serem formadas levando em conta que eles mesmos sabem que existem um modelo. &#201; um &#8220;comunismo de cren&#231;as&#8221; porque, em tese, todos est&#227;o livres para formar suas expectativas dado o conhecimento dispon&#237;vel. Se o narrador sabe como o mundo funciona, os indiv&#237;duos tamb&#233;m v&#227;o acabar sabendo.</p><p><strong>Um Parque de Divers&#245;es</strong></p><p>Para ilustrar melhor o que isso significa, podemos fazer uso da hist&#243;ria contada por Robert Lucas em seu ensaio &#8220;<em>What Economists Do</em>&#8221;. Nele, o professor nos convida a imaginar um parque de divers&#245;es em que, para andar em cada brinquedo, voc&#234; precisa gastar tickets ao inv&#233;s de dinheiro. Os tickets s&#227;o adquiridos na bilheteria da entrada do parque. Eles correspondem a uma &#8220;moeda&#8221; interna daquele lugar. Na economia do parque divers&#245;es, pouco importa a taxa de c&#226;mbio entre tickets e Reais, desde que o n&#237;vel de pre&#231;os de cada brinquedo (quantidade de tickets para us&#225;-lo) varie de acordo, de tal sorte que o custo em Reais fique igual. Em outras palavras, tanto faz se o passeio no carrossel custe cinco tickets e cada ticket custe um real ou se ele custe dez tickets, mas cada ticket custe cinquenta centavos. O que importa &#233; que o custo em Reais, R$ 5,00, continua o mesmo. </p><p>Em um domingo qualquer, imagine que o dono do parque v&#225; at&#233; a bilheteria e mude a taxa de convers&#227;o entre Reais e tickets de, por exemplo, &#8220;um ticket por um Real&#8221; para &#8220;cinco tickets por um Real&#8221;, ou seja, uma &#8220;aprecia&#231;&#227;o&#8221; do Real frente aos tickets do parque. <strong>Ao mesmo tempo, suponha que o dono reajustasse todos os pre&#231;os de cada brinquedo para cima na mesma propor&#231;&#227;o</strong>, ou seja, se antes o carrossel custava cinco tickets, agora ele custa vinte e cinco. O que aconteceria com o movimento nesse parque? </p><p>Bem, se a primeira coisa que as pessoas observam &#233; a redu&#231;&#227;o de pre&#231;o dos tickets (precisar de menos Reais para comprar um ticket), ent&#227;o &#233; razo&#225;vel supor que a quantidade de tickets vendidos aumente. &#201; poss&#237;vel imaginar que as pessoas comprem mais tickets do que antes, pensando que v&#227;o conseguir andar e mais brinquedos a um custo relativamente menor. Por qu&#234;? <strong>Porque as pessoas esperavam que os tickets necess&#225;rios para andar nos brinquedos tivesse continuado o mesmo</strong>.</p><p>Se um economista fosse medir o movimento do parque nesse domingo, ele descobriria que ele foi maior do que o dos demais domingos. Em certo sentido, o economista poderia dizer que o dono gerou um <em>boom</em> econ&#244;mico em seu parque, com mais gente indo em mais brinquedos mais vezes. No entanto, <em>esse efeito n&#227;o passaria daquele domingo.</em> Por qu&#234;? Porque assim que as pessoas entraram no parque, elas se deram conta do que aconteceu: na pr&#225;tica,<strong> nada ficou mais barato, apenas o n&#237;vel de pre&#231;os (poder de compra do ticket) diminuiu frente aos brinquedos e ao Real</strong>. Sendo assim, as pessoas imediatamente ajustariam suas expectativas ao novo n&#237;vel de pre&#231;o e, como consequ&#234;ncia, mudariam suas a&#231;&#245;es. De fato, se o dono do parque de divers&#245;es contasse o que ele fez antes de abrir o parque, n&#227;o haveria <em>boom</em> algum. Ele contava que as pessoas tivessem uma expectativa errada sobre o n&#237;vel de pre&#231;os.</p><p><strong>Teorias Inconsistentes</strong></p><p>Segundo Lucas, o modelo do Parque de Divers&#245;es &#233; uma analogia para a economia real. Teorias econ&#244;micas cujas previs&#245;es s&#227;o alicer&#231;adas em expectativas arbitr&#225;rias dos agentes, s&#227;o inconsistentes. Por exemplo, uma forma arbitr&#225;ria de colocar expectativas numa teoria econ&#244;mica &#233; dizer que os indiv&#237;duos sempre v&#227;o esperar que o aumento de pre&#231;os de hoje (infla&#231;&#227;o) ser&#225; igual ao aumento passado. Ou seja, uma expectativa adaptativa. Aplicada ao parque de divers&#245;es, isso seria como se, no pr&#243;ximo domingo, as pessoas esperassem que os tickets ficassem novamente cinco vezes mais desvalorizados em rela&#231;&#227;o ao Real e aos brinquedos, <em>pois foi isso que aconteceu no domingo passado</em>.</p><p>Uma teoria que prop&#245;e esse tipo de expectativas adaptativa ainda permite que o propriet&#225;rio do parque de divers&#245;es consiga aumentar o n&#250;mero de pessoas no seu estabelecimento. O jeito de fazer isso &#233; muito simples: se ele sabe que as pessoas sempre esperam encontrar a infla&#231;&#227;o de tickets do &#250;ltimo domingo, ent&#227;o &#233; s&#243; ele inflacionar os tickets por um valor ainda maior, no caso, maior do que cinco vezes. Desse jeito, ele consegue &#8220;enganar&#8221; as pessoas fazendo-as achar que o pre&#231;o das atra&#231;&#245;es do parque ficaram menores em Reais e, portanto, estejam dispostas a comprar mais.</p><p>Esse tipo de hip&#243;tese sobre expectativas, no entanto, n&#227;o sobrevive no mundo em que narrador e personagem coexistem. Se as pessoas soubessem o que o dono do parque est&#225; fazendo, elas n&#227;o continuariam formando expectativas olhando apenas para o retrovisor, isto &#233;, apenas para o domingo que passou. Nesse mundo, as pessoas olhariam para tr&#225;s e para frente, internalizando dentro de si a hist&#243;ria que est&#225; sendo contada e, a partir da&#237;, tomando a decis&#227;o. Como diz Thomas Sargent, sob Expectativas Racionais, &#8220;todos os agentes dentro do modelo, o econometrista e Deus dividem o mesmo modelo&#8221;. O narrador n&#227;o &#233; melhor do que seus personagens. Isso significa que as expectativas dos agentes precisam, mais cedo ou mais tarde, internalizar a mec&#226;nica do mundo em que vivem. Tanto os agentes quanto o econometrista v&#227;o aprender, uma hora ou outra, o &#8220;modelo&#8221; que Deus criou e do qual eles igualmente fazem parte. Ningu&#233;m vai continuar indo naquele parque achando que ficou mais rico em termos de brinquedos. Como resultado, o dono do parque de divers&#245;es n&#227;o vai conseguir aumentar a demanda.</p><p><strong>Um Ponto Fixo na Hist&#243;ria</strong></p><blockquote><p><strong>Harold:</strong><em> (&#8230;) Eu li</em> [o final da hist&#243;ria]<em>. E eu amei. E s&#243; existe uma forma que ela pode acabar. Ela termina comigo morrendo. Quero dizer, eu n&#227;o tenho um background em literatura&#8230; nada, mas isso parece ser simples o bastante. </em></p><p>[Ele entrega o manuscrito para a narradora]</p><p><strong>Harold:</strong><em> Eu amei o seu livro. E eu acho que voc&#234; deveria termin&#225;-lo.</em></p><p><em><strong>&#8212; Mais Estranho que a Fic&#231;&#227;o (2006)</strong></em></p></blockquote><p>Neste momento da hist&#243;ria do filme, Harold j&#225; havia tido a oportunidade de conhecer a narradora, a qual vivia no mesmo mundo que ele. Ela era uma autora de romances. Al&#233;m disso, ele havia recebido o manuscrito contendo as p&#225;ginas da finais da hist&#243;ria, isto &#233;, as p&#225;ginas finais<strong> da sua hist&#243;ria</strong>. Ao l&#234;-las, Harold internaliza a l&#243;gica do mundo em que vive e responde de forma consistente com ela. As p&#225;ginas finais fazem sentido para ele e, dessa forma, suas expectativas e a&#231;&#245;es estar&#227;o levam a sua realiza&#231;&#227;o. Voc&#234; poderia dizer que, neste ponto da hist&#243;ria, ele aceitou seu destino e vice-versa. </p><p>Uma teoria econ&#244;mica que sup&#245;e Expectativas Racionais para seus agentes precisa funcionar mais ou menos da mesma forma. &#201; necess&#225;rio que exista uma coincid&#234;ncia entre cren&#231;as dos indiv&#237;duos sobre o resultado do modelo e o resultado gerado pelas a&#231;&#245;es induzidas por essas cren&#231;as. As cren&#231;as sobre o mundo motivam as a&#231;&#245;es dos agentes, e estas produzem um resultado. Esse resultado precisa ser consistente com o que os agentes esperavam, caso contr&#225;rio, os agentes n&#227;o agiriam da forma que agiram. A estrutura do modelo &#233; integrada dentro do personagem e suas a&#231;&#245;es, por sua vez, s&#227;o integradas na estrutura. </p><p>Para ilustrar esse ponto, vamos voltar para o parque de divers&#245;es. Dessa vez, esque&#231;amos do experimento de pre&#231;os e vamos nos concentrar nas decis&#245;es dos personagens sobre qual &#233; o melhor dia e hor&#225;rio para visitar o parque. Vamos imaginar que os personagens n&#227;o gostam de um parque cheio, pois ningu&#233;m gosta de ficar esperando nas filas e, em geral, ningu&#233;m gosta de andar no Barco Viking depois que muita gente j&#225; vomitou ali. Al&#233;m disso, vamos imaginar que ir at&#233; o parque &#233; custoso, pois ele exige um certo tempo de viagem e o estacionamento &#233; pago. Nesse contexto, as suas expectativas sobre o movimento no parque s&#227;o muito importantes para decidir o que fazer. Para formar essas expectativas, os indiv&#237;duos precisam fazer um modelo mental sobre quantas pessoas ir&#227;o ao parque. Eles precisam contar uma hist&#243;ria para si mesmos sobre isso. Nessa hist&#243;ria, eles s&#227;o narradores, mas tamb&#233;m s&#227;o personagens.</p><p>Quantas pessoas ir&#227;o ao parque?  Sob a perspectiva do narrador, o total de pessoas no parque depende das decis&#245;es individuais de cada pessoa sobre &#8220;ir ou n&#227;o ir&#8221; ao parque. Sob a perspectiva dos personagens, essas a&#231;&#245;es, por sua vez, dependem, em parte, de suas expectativas sobre o total de pessoas no parque.  As expectativas, portanto, precisam estar no modelo. E como ser&#225; formada a expectativa das pessoas sobre quantas pessoas ir&#227;o ao parque? Enquanto narrador, o indiv&#237;duo poderia colocar alguma expectativa ing&#234;nua como, por exemplo, &#8220;as pessoas v&#227;o esperar o total de pessoas do dia anterior&#8221;, <strong>mas, ao fazer isso, ele est&#225; se excluindo do pr&#243;prio modelo.</strong> Ele deixa de ser um personagem que decidiu pensar no modelo justamente para disciplinar suas expectativas. Se ele usa um modelo, porque diabos os habitantes do mundo dele n&#227;o far&#227;o o mesmo?</p><p>Ent&#227;o qual &#233; a forma correta de falar sobre expectativas? <strong>Ela come&#231;a por excluir qualquer forma que n&#227;o serviria para formar as expectativas do pr&#243;prio narrador</strong>. Ao se reconhecer como personagem, o narrador precisa admitir o &#243;bvio: os habitantes da sua hist&#243;ria tamb&#233;m usam modelos. Muito embora cada pessoa tenha suas prefer&#234;ncias (toler&#226;ncia por esperar em filas, por exemplo), todas vivem no mesmo mundo e, muito provavelmente, foram expectativas mais ou menos da mesma forma: Finais de semana s&#227;o mais cheios do que dias de semana, pois muitas pessoas n&#227;o trabalham nesses dias. Noites dos dias de semana s&#227;o mais cheias do que as tardes pelo mesmo motivo. Dias chuvosos s&#227;o menos lotados, pois ningu&#233;m gosta de tomar chuva. Existem muitas outras informa&#231;&#245;es relevantes sobre dias espec&#237;ficos e em horas espec&#237;ficas que certamente v&#227;o contribuir para a decis&#227;o dos indiv&#237;duos.</p><p>Aqui chegamos a uma esp&#233;cie de &#8220;looping&#8221;. O total de pessoas que vai ao parque de divers&#227;o depende da l&#243;gica das a&#231;&#245;es de cada pessoa. A a&#231;&#227;o de &#8220;ir ou n&#227;o ir&#8221; ao parque depende das expectativa de quantas pessoas v&#227;o ao parque. A expectativa do total de pessoas que v&#227;o ao parque depende do modelo sobre o total de pessoas, o qual depende da l&#243;gica, que depende das expectativas, e assim sucessivamente.  Se o narrador sabe que vive no mesmo modelo que os agentes da sua hist&#243;ria, a expectativa devem, mais cedo ou mais tarde, ser consistentes com o resultado previsto pelo modelo, o qual incorporou essas mesmas expectativas. Isso precisa ser verdade, pois n&#227;o faz sentido algum o narrador se colocar fora do pr&#243;prio mundo. Qualquer bom modelo precisa levar em conta que as pessoas ir&#227;o &#8220;saber do modelo&#8221; na hora de tomar decis&#245;es.</p><p><strong>A Grande Li&#231;&#227;o</strong></p><blockquote><p><strong>Professor Hilbert:</strong> <em>Ningu&#233;m quer morrer, Harold. Mas, infelizmente, n&#243;s n&#227;o podemos evitar. Harold. Harold, me escute: Voc&#234; vai morrer, algum dia.. em algum momento. De insufici&#234;ncia card&#237;aca no banco, engasgado com uma bala, alguma longa e arrastada doen&#231;a que voc&#234; contraiu nas f&#233;rias. Voc&#234; vai morrer. Voc&#234; vai morrer com certeza. Mesmo que voc&#234; evite essa morte... alguma outra o encontrar&#225;. E eu garanto que ela n&#227;o ser&#225; nem de perto mais po&#233;tica ou significativa do que a que ela escreveu.</em></p><p><strong>Harold:</strong> <em>N&#227;o... N&#227;o...</em></p><p><strong>Professor Hilbert:</strong> <em>Harold. Me desculpe. (pausa) &#201; a natureza de todas as trag&#233;dias, Harold. O her&#243;i morre, mas a hist&#243;ria vive para sempre.</em></p><p><em><strong>&#8212; Mais Estranho que a Fic&#231;&#227;o (2006)</strong></em></p></blockquote><p>A realidade &#233; mais estranha que a fic&#231;&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. Falar sobre a realidade s&#243; &#233; poss&#237;vel, pois voc&#234; j&#225; est&#225; inserida nela e, por isso, toda hist&#243;ria que voc&#234; vai contar sobre ela precisa levar isso em conta<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Algu&#233;m que queira explicar alguma coisa sobre a realidade humana precisa se colocar na condi&#231;&#227;o dupla de &#8220;narrador-personagem&#8221;. Dito de outra forma, voc&#234; precisa sempre se perguntar o seguinte: Se voc&#234; contar para o agente do seu modelo a l&#243;gica do seu mundo, ele vai se comportar como voc&#234; esperava que ele se comportasse? Ao ser lembrado de sua mortalidade pelo narrador onisciente, Harold compreendeu o significado de sua vida no grande esquema das coisas e, de bom grado, acabou aceitando-o. Nesse momento, narrativa e as a&#231;&#245;es do personagem se integraram.</p><p>Em uma boa hist&#243;ria, em uma hist&#243;ria convincente sobre a realidade, isso precisa acontecer, afinal, o te&#243;rico da realidade nunca consegue sair dela. Enquanto te&#243;rico, voc&#234; precisa entender que os agentes da sua hist&#243;ria ou modelo s&#227;o iguais a voc&#234;. Eles s&#227;o sujeitos, mas tamb&#233;m s&#227;o observadores. O economista Robert Lucas trouxe para a economia uma das li&#231;&#245;es mais preciosas sobre epistemologia e, por isso, a sua hist&#243;ria &#233; uma daquelas que nunca ser&#225; esquecida.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>E nem todas as hist&#243;rias s&#227;o trag&#233;dias.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Como explicou bem um fil&#243;sofo: &#8220;Todo discurso gn&#243;stico tem o problema da autorrefer&#234;ncia. Ele n&#227;o se explica a si mesmo. Ele acaba sempre sendo uma exce&#231;&#227;o a sua pr&#243;pria regra e isso mostra uma falha, uma ruptura b&#225;sica na integridade da vis&#227;o que o sujeito tem, e por isso mesmo n&#227;o pode ser considerada doutrina filos&#243;fica, porque a filosofia &#233; justamente a busca dessa integridade. Dessa integridade n&#227;o somente na esfera do discurso, mas na esfera da a&#231;&#227;o e da conduta. Ent&#227;o se o sujeito &#233; um fil&#243;sofo e ele busca a explica&#231;&#227;o de alguma coisa, essa explica&#231;&#227;o tem que explicar ele tamb&#233;m. Ele tem que estar inserido na sua pr&#243;pria explica&#231;&#227;o. Ele n&#227;o pode ser uma exce&#231;&#227;o.&#8221;</p><p></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Quem foi João Rodrigues de Brito?]]></title><description><![CDATA[De certa forma, o Brasil vive sempre o mesmo dia &#8212; todo dia.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/quem-foi-joao-rodrigues-de-brito</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/quem-foi-joao-rodrigues-de-brito</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 26 Feb 2023 13:15:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f8d92271-5b3a-4a07-b617-64ae26ff0726_997x552.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><blockquote><p>[Lanchonete. Phil e Rita sentam-se juntos na mesma mesa de antes.]</p><p>PHIL: &#8220;<em>Rita, estou revivendo o mesmo dia sem parar. O Dia da Marmota. Hoje.&#8221;</em></p><p>RITA: [completamente c&#233;tica] &#8220;<em>Ok. Estou esperando a piada.&#8221;</em></p><p>PHIL: &#8220;<em>N&#227;o. Realmente. Esta &#233; a terceira vez. &#201; como se &#8216;ontem&#8217; nunca tivesse acontecido.&#8221;</em></p><p>&#8212; Groundhog Day (1993)</p><p></p></blockquote><p>*</p><p>[MUSIC CUE: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=HKGjCPBSG38">&#8220;I Got You Babe&#8221;</a> by Sonny and Cher]</p><p>*</p><p>Em 12 de maio do ano de 1807<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, a pedido do pr&#237;ncipe regente, o governador da capitania da Bahia, Conde da Ponte, pediu para a C&#226;mara da capital um parecer sobre a situa&#231;&#227;o econ&#244;mica da capital, Salvador. O relato deveria ser capaz de responder cinco perguntas, as quais foram elencadas na forma de artigos. Assim eram as perguntas que constavam no of&#237;cio do governador:</p><blockquote><p><em>"1&#186; Se reconhecem nesta Cidade alguma causa opressiva contra a Lavoura? Qual seja esta causa, e o meio dela se evitar?</em></p><p><em>2. Se a mesma lavoura tem recebido progressivo aumento, de que tanto depende a prosperidade do Com&#233;rcio desta Capital, e qual o motivo favor&#225;vel, ou desfavor&#225;vel a &#234;ste respeito.</em></p><p><em>3.&#186; Se o Com&#233;rcio sofre algum vexame, qual &#234;le seja e se ser&#225; conveniente ao mesmo Com&#233;rcio particular desta pra&#231;a, desoprim&#237;-lo d&#234;le sem risco de outro maior dano.</em></p><p><em>4.&#186; Se os diferentes exames s&#244;bre a b&#244;a qualidade dos g&#234;neros de exporta&#231;&#227;o desta Col&#244;nia, e mais cautelas, que se praticam a respeito dos mesmos g&#234;neros, se podem considerar &#250;teis, ou nocivas ao progresso do Com&#233;rcio.</em></p><p><em>5. Se o Lavrador desobrigado d&#234;stes exames, e o Negociante na liberdade de convencionar-se nos pre&#231;os dos g&#234;neros com o mesmo Lavrador, promover&#227;o melhor seus rec&#237;procos interesses.&#8221;</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.45-46</p></blockquote><p>Em outras palavras, o governador queria saber quais eram os entraves para a produ&#231;&#227;o naquela capital e, caso existissem, saber como resolv&#234;-los. Os vereadores de cidade decidiram chamar um desembargador chamado Jo&#227;o Rodrigues de Brito para que ele respondesse as perguntas na forma de um parecer. O desembargador fez sua resposta na forma de uma carta, dividindo-a entre as cinco perguntas. A resposta ao primeiro quesito &#233; um dos primeiros registros existentes de uma an&#225;lise econ&#244;mica sobre problemas brasileiros no s&#233;culo XIX.</p><p><strong>A Resposta</strong></p><p>Jo&#227;o Rodrigues come&#231;a metodicamente sua <a href="https://www.google.com.br/books/edition/_/CYtDAAAAYAAJ?hl=pt-BR&amp;gbpv=1">resposta</a> para a primeira indaga&#231;&#227;o do governador. Confirmando que reconhecia a presen&#231;a de &#8220;causas opressivas contra a Lavoura&#8221; na Bahia, ele decide apresent&#225;-las seguindo a metodologia &#8220;dos melhores economistas&#8221; de sua &#233;poca. Para saber quais s&#227;o as causas &#8220;opressivas&#8221;, antes era necess&#225;rio saber quais s&#227;o, segundo ele, os elementos necess&#225;rios para a prosperidade. Ele os separou em tr&#234;s categorias:<em> Liberalidades, Facilidades e Instru&#231;&#245;es</em>.</p><p><strong>Liberalidades</strong></p><p>Segundo o desembargador, as &#8220;liberalidades&#8221; que os lavradores precisavam seriam as seguintes:</p><blockquote><p><em>1&#186; a de cultivar quaisquer g&#234;neros, que bem lhes parecesse; 2&#186; a de construir quaisquer obras, e f&#225;bricas que julgassem convenientes para o aproveitamento de seus frutos; 3&#186; a de os mandar vender em qualquer lugar, por qualquer caminho, e pelo minist&#233;rio de quaisquer pessoas, de que se quisessem servir, sem &#244;nus, ou formalidade; 4&#186; a de preferir quaisquer compradores que melhor lhes pagassem; 5&#186; finalmente a de os venderem em qualquer tempo que lhes conviesse. <strong>Desgra&#231;adamente em nenhum destes artigos a logram os Lavradores desta Capitania;</strong></em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.53</p></blockquote><p>O Jo&#227;o Rodrigues d&#225; exemplos para cada um dos itens mencionados. O primeiro deles &#233; infame. Ao lermos sua descri&#231;&#227;o, n&#227;o podemos deixar de notar a maneira banal sobre como o desembargador aplica princ&#237;pios de economia em situa&#231;&#245;es que envolvem escravos. Em 1807, a principal m&#227;o-de-obra utilizada no cultivo das commodities para exporta&#231;&#227;o eram as pessoas capturadas no continente africano, as quais eram sequestradas e vendidas como se fossem mercadoria em um mercado internacional. No caso do Brasil col&#244;nia, segundo o desembargador, haviam leis e provis&#245;es exigindo que todos Lavradores do rec&#244;ncavo baiano cultivassem quinhentas covas de mandioca para cada escravo que trabalhasse em suas terras.  O protesto de Rodrigues de Brito contra essa pol&#237;tica era puramente de efici&#234;ncia econ&#244;mica.</p><p>Segundo o desembargador, o problema era o elevado <strong>custo de oportunidade</strong> de se plantar mandioca, um produto de baixo valor, em uma terra f&#233;rtil para o cultivo de produtos de alto valor como cana, algod&#227;o e tabaco. Nem em toda terra se podia plantar as commodities caras, ao passo que a mandioca podia-se plantar em qualquer lugar. Nas terras f&#233;rteis, portanto, para cada cova de mandioca que se plantasse, se estaria abrindo m&#227;o de plantar um outro produto cujo valor era maior. Nesse sentido, segundo Rodrigues de Brito, fazia mais sentido econ&#244;mico que os produtores de cana e tabaco comprassem a mandioca (ou a farinha de mandioca) no mercado. De fato, o pr&#243;prio mercado de mandioca e de farinha era pouco desenvolvido, segundo ele, por causa da exig&#234;ncia mencionada, afinal, aqueles pr&#243;prios regulamentos retiravam uma parte significativa da demanda pelo produto. Com o pre&#231;o baixo, n&#227;o havia incentivo para o desenvolvimento de um mercado robusto de farinha de mandioca.</p><p>Embora seja uma curiosidade para a hist&#243;ria do pensamento econ&#244;mico que Jo&#227;o Rodrigues tenha come&#231;ado sua explana&#231;&#227;o da mesma forma que em um livro de introdu&#231;&#227;o &#224; economia &#8212; falando sobre <em>tradeoffs </em>e custos de oportunidade &#8212;, essa curiosidade fica em segundo plano, pois n&#227;o podemos ignorar a mat&#233;ria do exemplo utilizado pelo desembargador. Naquela &#233;poca, falava-se naturalmente de escravos como propriedade e aplicava-se a estrita racionalidade econ&#244;mica em assuntos que os envolviam. A m&#227;o-de-obra cativa recebia quase o mesmo tratamento que outros insumos e equipamentos inanimados. Eu escrevo &#8220;quase&#8221;, pois, em sua resposta, Rodrigues de Brito argumentar&#225; em favor do fim da &#8220;escravid&#227;o perp&#233;tua&#8221;:</p><blockquote><p><em>A perpetuidade da escravid&#227;o, cuja considera&#231;&#227;o basta para abater o esp&#237;rito dos escravos, e lan&#231;&#225;-los em uma in&#233;rcia fatal. Se &#234;stes desgra&#231;ados descobrissem um termo ao seu triste estado, e pudessem, ainda antes d&#234;le, remir-se do cativeiro mediante o justo pre&#231;o adquirido por servi&#231;os relevantes, ou por ass&#237;duo trabalho nos dias, que lhes s&#227;o dados para o descanso, a consoladora esperan&#231;a dessa felicidade animaria suas atividades. O Estado ganhando um consider&#225;vel acr&#233;scimo de trabalho, e ind&#250;stria, veria ir diminuindo o n&#250;mero daqueles infelizes &#224; medida que fossem recuperando suas liberdades convertidos em homens livres, tanto mais &#250;teis, quanto maior &#233; o inter&#234;sse que tem na ordem social, e o gr&#225;u de intelig&#234;ncia, que se adquire com a pr&#225;tica da livre administra&#231;&#227;o da pr&#243;pria pessoa, e bens.</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.99</p></blockquote><p>Embora exista nesse trecho um reconhecimento do valor da liberdade, note que a defesa da flexibiliza&#231;&#227;o da escravid&#227;o, pelo menos nesta carta, &#233; apenas de natureza instrumental. Segundo Rodrigues de Brito, os escravos seriam mais produtivos (&#8220;animaria suas atividades&#8221;) se eles tivessem a esperan&#231;a de conquistar a liberdade. Novamente, o desembargador est&#225; aplicando a racionalidade econ&#244;mica ao problema de aumentar a produ&#231;&#227;o. Ao dar a oportunidade do escravo comprar sua pr&#243;pria liberdade, o produtor dividia &#8220;o risco&#8221; do resultado da lavoura com ele e, portanto, o incentivava a se esfor&#231;ar mais. </p><p>&#201; dif&#237;cil encontrar na resposta de Rodrigues de Brito uma obje&#231;&#227;o moral a institui&#231;&#227;o da escravid&#227;o. Esses trechos da resposta de Rodrigues de Brito nos d&#227;o uma li&#231;&#227;o importante sobre a racionalidade instrumental. Em princ&#237;pio, &#233; poss&#237;vel aplicar os princ&#237;pios de economia em qualquer situa&#231;&#227;o em que se envolvem escolhas. O conte&#250;do das escolhas pode ser imoral ou moral. No entanto, at&#233; que ponto pode-se discutir de forma banal a efici&#234;ncia econ&#244;mica de escolhas imorais<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>?</p><p>***</p><p>Passando ao segundo item das Liberalidades, o desembargador destaca a dificuldade de conseguir abrir novos engenhos para a moagem da cana-de-a&#231;&#250;car. Naquela &#233;poca, os engenhos exigiam grandes investimentos iniciais para sua constru&#231;&#227;o, o que por si s&#243; j&#225; constitu&#237;a uma importante barreira aos novos entrantes. No entanto, somavam-se a estes custos os gastos adicionais para conseguir permiss&#245;es e autoriza&#231;&#245;es para a constru&#231;&#227;o de novos empreendimentos. Comparando a facilidade de empreender na moagem de cana entre a China e o Brasil, Jo&#227;o Rodrigues protesta:</p><blockquote><p><em>&#8220;Entre n&#243;s para estabelec&#234;-los</em> [os novos engenhos]<em> na pr&#243;pria casa, <strong>cumpre beijolar ao Governador, peitar o Ouvidor e o Escriv&#227;o da Comarca</strong>, os quais sem exorbitantes sal&#225;rios n&#227;o v&#227;o fazer a indispens&#225;vel vistoria, que deve proceder a informa&#231;&#227;o!&#8221;</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.57</p></blockquote><p>A restri&#231;&#227;o de cria&#231;&#227;o de novos engenhos tinha impacto direto nos produtores de cana-de-a&#231;&#250;car, pois, segundo o desembargador, muitos deles n&#227;o conseguiam moer toda a cana produzida, a qual acabava estragando e era descartada. Al&#233;m disso, se existem muito produtores em rela&#231;&#227;o ao n&#250;mero de engenhos, os donos destes s&#227;o capazes de obter uma renda extra fruto do poder de monop&#243;lio sobre a moagem. </p><p>Sobre o terceiro item das Liberadidades, o de &#8220;mandar vender em qualquer lugar, por qualquer caminho&#8230;&#8221;, Jo&#227;o Rodrigues de Brito &#233; exaustivo em seus exemplos. Em particular, ele conta o problema que os criadores de gado tinham na hora de vend&#234;-lo. Para chegar na cidade, toda a &#8220;carne verde&#8221; precisava passar por uma mesma estrada com o intuito de facilitar a fiscaliza&#231;&#227;o. A estrada era prec&#225;ria e como estava frequentemente abarrotada de gado, as pastagens j&#225; eram ralas. Al&#233;m disso, a aus&#234;ncia de pontes para atravessar os rios no meio do caminho, faziam com que parte do rebanho fosse perdido no processo. Para complicar mais a situa&#231;&#227;o, caso fosse observada uma redu&#231;&#227;o do rebanho em rela&#231;&#227;o ao <em>primeiro posto de inspe&#231;&#227;</em>o, esta deveria ser justificada ao Superintendente da Feira, o qual era respons&#225;vel pela fiscaliza&#231;&#227;o.</p><p>Ao chegar na cidade, segundo o desembargador, a situa&#231;&#227;o piora, pois os donos do rebanho entregavam o produto aos &#8220;marchantes&#8221;, os quais tinham o privil&#233;gio de escolher o a&#231;ougue, o respons&#225;vel pelo corte e a balan&#231;a em que a carne seria pesada. Ou seja, todo esse processo fugia do controle dos donos do gado. Esses intermedi&#225;rios oficiais eram artificialmente escassos e, nessa condi&#231;&#227;o, conseguiam extrair rendas extraordin&#225;rias de ambos os lados da negocia&#231;&#227;o. Segundo os relatos do desembargador, o mercado todo era ineficiente. Os a&#231;ougues p&#250;blicos matavam os animais e faziam a distribui&#231;&#227;o da carne entre os &#8220;talhos&#8221;. Os talhos eram estabelecimentos menores que vendiam a carne dos a&#231;ougues. Nem todos os talhos podiam operar o tempo todo, apenas talhos especiais tinham esse privil&#233;gio. A maioria deles precisava de uma autoriza&#231;&#227;o da C&#226;mara de Vereadores para come&#231;ar a vender.  Como o processo era lento e o produto era perec&#237;vel, a carne que n&#227;o conseguia ser distribu&#237;da rapidamente invariavelmente via seu pre&#231;o despencar.</p><p>O ponto quatro elencado por Jo&#227;o &#233; relacionado aos demais, na medida em que refor&#231;a a import&#226;ncia da liberdade de vender o produto a quem quer que seja. Segundo o desembargador, a C&#226;mara de Vereadores havia definido apenas oito indiv&#237;duos autorizados a negociar carne na cidade em nome dos propriet&#225;rios. A explica&#231;&#227;o de Jo&#227;o de Brito sobre os problemas dessa limita&#231;&#227;o &#233; did&#225;tica:</p><blockquote><p><em>Os atravessadores n&#227;o s&#227;o &#250;teis sen&#227;o quando o seu n&#250;mero &#233; indefinido sem limita&#231;&#227;o alguma, porque a pr&#243;pria concorr&#234;ncia de uns impede os outros de se locupletarem com ganhos exorbitantes, que s&#243; n&#227;o o s&#227;o quando qualquer outro Cidad&#227;o pode correr a participar deles, fazendo livremente o mesmo giro; mas restringir o n&#250;mero dos concorrentes &#233; monopolizar o com&#233;rcio do g&#234;nero.</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.76</p></blockquote><p>Lendo o relato de Jo&#227;o Rodrigues de Brito, tem-se clara a impress&#227;o de que em 1807 a capitania da Bahia era tomada por uma s&#233;rie de leis e regulamentos cujo efeito pr&#225;tico para aquela regi&#227;o era reduzir a produtividade de sua economia. A motiva&#231;&#227;o para boa parte desses regulamentos e restri&#231;&#245;es era de natureza fiscal. A coroa portuguesa precisava maximizar sua receita com impostos e garantir a fidelidade de seus s&#250;ditos al&#233;m mar. O jeito de fazer isso era privatizar a fiscaliza&#231;&#227;o, concedendo privil&#233;gios de fiscaliza&#231;&#227;o aos membros da elite, os quais fariam a coleta de impostos. Essa situa&#231;&#227;o, apesar de prejudicial para a economia, gerava oportunidades para que a autoridade e a elite local conseguisse extrair renda do setor produtivo.</p><p><strong>Facilidades </strong></p><p>Nessa parte do relato, Jo&#227;o Rodrigues de Brito escreve sobre problemas que dificultam o com&#233;rcio e a produ&#231;&#227;o ao aumentarem os <strong>custos de transa&#231;&#227;o da economia</strong>. O que o desembargador chama de &#8220;Facilidades&#8221; s&#227;o obras e institui&#231;&#245;es que complementam a Liberalidade ao facilitar o processo mercantil reduzindo custos. Dentre os pontos levantados por ele, alguns temas s&#227;o especialmente interessantes como, por exemplo, transporte, cr&#233;dito e capitais, bem como o funcionamento da justi&#231;a. </p><p>O problema de transporte especialmente era grave no rec&#244;ncavo baiano:</p><blockquote><p><em>"A primeira </em>[obra]<em>, com que o Governo de qualquer pa&#237;s a deve favorecer, &#233; a constru&#231;&#227;o, e conserva&#231;&#227;o das pontes, e barcas para a passagem dos rios, estradas (...) E<strong>stas obras nos faltam absolutamente, e estamos reduzidos &#224;quelas facilidades que a natureza por si mesma nos fornece, ou a ind&#250;stria d'alguns particulares</strong> (...) Uma grande parte do ano cessam inteiramente as comunica&#231;&#245;es por terra, n&#227;o s&#243; ondes o rios atravessam os caminhos, mas no pr&#243;prio centro do Rec&#244;ncavo por causa de invade&#225;veis atoleiros."</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.82</p></blockquote><p>O diagn&#243;stico de Jo&#227;o Rodrigues de Brito &#233; o mesmo de tantos outros da sua &#233;poca, e apenas corrobora as teses de William Summerhill e Nathaniel Leff sobre um dos entraves centrais ao desenvolvimento da economia brasileira no s&#233;culo XIX.</p><p>Sobre o cr&#233;dito, o desembargador adverte contra a tenta&#231;&#227;o de fixar a taxa de juros da economia em um patamar muito abaixo da &#8220;taxa de juros natural&#8221;:</p><blockquote><p><em>&#8220;A taxa de juro n&#227;o s&#243; impede a introdu&#231;&#227;o dos capitais estrangeiros, mas faz que o Lavrador, nem esses poucos que existem, possa conseguir; por que os capitalistas acham para eles emprego mais lucrativo que o juro da Lei.&#8221;</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.104</p></blockquote><p>Al&#233;m da limita&#231;&#227;o da taxa de juros, Jo&#227;o Rodrigues de Brito explica os problemas gerados pelas leis que impediam que os engenhos fossem tomados pelos credores em caso de <em>default </em>dos Senhores de Engenho. Diante da aus&#234;ncia de garantias reais, a disposi&#231;&#227;o a emprestar seria muito menor:</p><blockquote><p><em>"Mas este rem&#233;dio </em>[a prote&#231;&#227;o do engenho contra execu&#231;&#227;o]<em> veio ainda agravar o mal; porque lhe aumentou as causas, que consistiam na dificuldade de obterem capitais, e na facilidade de dissiparem em superfluidades os que possu&#237;am. </em></p><p><em>Vaidosos com esta prerrogativa, que parecia real&#231;ar o lustre do seu t&#237;tulo de Senhor de Engenho, elevando-o &#224; qualidade de morgado, ele n&#227;o receou mais a pobreza e uma por&#231;&#227;o de fundos, que devia converter em capitais (...) foi reservada para seu servi&#231;o pessoal.</em></p><p><em>Por outra parte a considera&#231;&#227;o do privil&#233;gio aterrou os capitalistas com a feia perspectiva da maior dificuldade de reembolsarem os fundos que emprestassem. Em consequ&#234;ncia muitos fugiram de contratar com uma classe de homens, que a Lei privilegiou com a faculdade de serem caloteiros impunemente."</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.106-107</p></blockquote><p>Sobre a mat&#233;ria da justi&#231;a, o desembargador faz o seguinte diagn&#243;stico:</p><blockquote><p><em>&#8220;Outra causa n&#227;o menos poderosa, que tamb&#233;m influi para a mesma estagna&#231;&#227;o dos capitais, e consequente aumento do seu juro, <strong>&#233; a longa dura&#231;&#227;o dos pleitos, o qual grandemente auxilia os caloteiros para que jamais os Capitalistas possam realizar a cobran&#231;a do seu dinheiro sem inc&#244;modos intoler&#225;veis;</strong>&#8221;</em></p></blockquote><p>No sistema legal da &#233;poca, vigorava o pagamento de <em>emolumentos</em> judiciais. Os integrantes do judici&#225;rio recebiam valores proporcionais ao n&#250;mero de procedimentos e processos que a causa em quest&#227;o gerava. Aqui talvez temos um dos par&#225;grafos mais engra&#231;ados da resposta do desembargador:</p><blockquote><p><em>O sistema emolument&#225;rio faz que todos os empregados na administra&#231;&#227;o da Justi&#231;a tenham interesses em multiplicar, complicar e prolongar os processos; porque quanto mais estes se multiplicam, complicam e prolongam, mais crescem assinaturas para os Julgadores, alega&#231;&#245;es para os Advogados, escritas para os Escriv&#227;es, e sal&#225;rios para os solicitadores; sendo assim interessados em desunir, e enredar os Cidad&#227;os. <strong>&#8220;Deus desavenha quem nos mantenha&#8221;</strong>. Eis aqui a ora&#231;&#227;o matutina que lhes inspira o tal sistema emolument&#225;rio.</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.116</p></blockquote><p><em>&#8220;Deus desavenha quem nos mantenha&#8221;</em>, ou seja, quanto pior para o cidad&#227;o, melhor para os membros do judici&#225;rio. Al&#233;m da efici&#234;ncia da justi&#231;a, Jo&#227;o Rodrigues de Brito se preocupava com a seguran&#231;a jur&#237;dica:</p><blockquote><p><em>Mas n&#227;o basta que os processos sejam breves, cumpre tamb&#233;m que as decis&#245;es sejam justas; porque sem isto n&#227;o se obt&#234;m uma perfeita seguran&#231;a dos direitos de propriedade, e do cumprimento dos contratos, que &#233; o primeiro objeto da sociedade civil, e o mais interessante dos aux&#237;lios com que um governo pode facilitar aos Lavradores o exerc&#237;cio da sua ind&#250;stria, e a livre circula&#231;&#227;o dos capitais.</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.118</p></blockquote><p><strong>Instru&#231;&#245;es</strong></p><p>Nesta parte, Jo&#227;o Rodrigues explica a import&#226;ncia da educa&#231;&#227;o para incrementar a produtividade da economia daquela capitania. Em particular, o estudo da economia e das ci&#234;ncias f&#237;sicas, a qual pode melhorar os processos de produ&#231;&#227;o. Para resolver a falta de instru&#231;&#227;o, segundo ele era preciso:</p><blockquote><p><em>&#8230; dissipar as trevas da ignor&#226;ncia, ordenando que todas as pessoas de ambos os sexos saibam ler, escrever, e contar; estabelecendo (...) um bom sistema de estudos.</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.132</p></blockquote><p>Sobre as ci&#234;ncias f&#237;sicas:</p><blockquote><p><em>&#8220;Para se formar uma ideia da import&#226;ncia, e ao mesmo tempo da falta que temos dos seus conhecimentos, basta comparar os antigos produtos do Engenho da Ponta com os que dele extrai atualmente o seu novo propriet&#225;rio (...) </em></p><p><em>Pela primeira reforma de fornalhas aproveitando melhor o a&#231;&#250;car, economizou dous ter&#231;os da lenha cuja despesa montava a mais de tr&#234;s mil cruzados cada ano.&#8221;</em></p><p>&#8212; A Economia Brasileira no S&#233;culo XIX, p.126</p></blockquote><p>O capital humano aumentava a produtividade da economia, n&#227;o s&#243; aumentando a produtividade dos indiv&#237;duos, mas tamb&#233;m permitindo maiores avan&#231;os no progresso t&#233;cnico.</p><p>*</p><p>[MUSIC CUE: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=HKGjCPBSG38">&#8220;I Got You Babe&#8221;</a> by Sonny and Cher]</p><p>*</p><p><strong>J&#225; estivemos aqui antes</strong></p><blockquote><p>["I Got You, Babe" est&#225; tocando. Phil bate no r&#225;dio-rel&#243;gio para deslig&#225;-lo. Ele fica l&#225; por um momento, ent&#227;o se levanta pesadamente fora da cama, sem vontade de repetir o dia mais uma vez. Com o r&#225;dio desligado, Phil repete a rotina matinal dos DJs, aparentemente pela milion&#233;sima vez.]</p></blockquote><p>A resposta de Jo&#227;o Rodrigues de Brito tem uma relev&#226;ncia hist&#243;rica, pois cont&#233;m uma das primeiras an&#225;lises econ&#244;micas a respeito da economia brasileira, ainda que circunscrita ao rec&#244;ncavo baiano. Al&#233;m disso, ela tamb&#233;m tem relev&#226;ncia para a investiga&#231;&#227;o das causas do nosso atraso econ&#244;mico. O relato do desembargador ilustra que diversos de nossos problemas institucionais estavam presentes antes mesmo do Brasil ser independente. Leis e regulamentos, burocratas e fiscais que deprimem o retorno econ&#244;mico das atividades, e distorcem pre&#231;os relativos est&#227;o presentes em toda a hist&#243;ria brasileira. As limita&#231;&#245;es das taxa de juros e as garantias reais sempre foram um problema. O judici&#225;rio sempre foi moroso, ineficiente e sempre serviu a si pr&#243;prio. O ac&#250;mulo de capital humano sempre foi aqu&#233;m do necess&#225;rio.</p><p>Duzentos e dezesseis anos se passaram e muitos dos problemas apontados por Jo&#227;o Rodrigues persistem. Evidentemente, o Brasil teve avan&#231;os importantes desde 1807: nossos mercados s&#227;o mais eficientes, nosso povo mais alfabetizado, nosso mercado de cr&#233;dito mais desenvolvido e, claro, no dia 13 de maio de 1888 a Lei &#193;urea aboliu a escravid&#227;o. Mesmo assim, &#233; dif&#237;cil n&#227;o ter a sensa&#231;&#227;o de familiaridade ao ler as an&#225;lises do desembargador. Um sentimento de &#8220;j&#225; estivemos aqui antes&#8221;, os problemas econ&#244;micos do Brasil de 1807 s&#227;o parecidos com os de 2023. De certa forma, pelo menos na economia, o Brasil vive sempre o mesmo dia &#8212; todo dia.</p><p><strong>Refer&#234;ncias:</strong></p><p>Brito,&nbsp;Rodrigues de.&nbsp;A economia brasileira no alvorecer do s&#233;culo XIX.&nbsp;Brasil:&nbsp;Progresso,&nbsp;1923.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Apenas trinta e um anos depois da <em>Riqueza das Na&#231;&#245;es</em> ter sido publicado por Adam Smith.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Isso me faz lembrar nos dias de hoje os artigos de economia que falam sobre as consequ&#234;ncias econ&#244;micas do aborto. Ver Miller, Wherry e Foster (2022) ou a infame e cl&#225;ssica s&#233;rie de artigos sobre aborto e criminalidade, cujo artigo mais recente &#233; Donohue e Levitt (2020). Um ato imoral continua sendo imoral mesmo que possa ter impacto &#8220;positivo&#8221; sob certas vari&#225;veis socioecon&#244;micas. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sobre Moedas e Mulas]]></title><description><![CDATA[A melhor maneira de saber o que &#233; uma coisa &#233; primeiro saber o que ela n&#227;o &#233;.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/sobre-moedas-e-mulas</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/sobre-moedas-e-mulas</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 19 Feb 2023 04:40:56 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/9f30461d-5a65-4424-afea-321f890e3941_740x370.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>[It&#225;lia, em algum lugar da Toscana.]</p><p>[Jerry trope&#231;a para fora do t&#225;xi.]</p><p>JERRY<em>: Voc&#234; n&#227;o precisava me empurrar.</em></p><p>KRAMER<em>: Eu n&#227;o empurrei voc&#234;. Quanto voc&#234; pagou a esse cara?</em></p><p>JERRY<em>: 75.000 liras.</em></p><p>KRAMER<em>: 75.000 liras?! Voc&#234; est&#225; louco?!</em></p><p>JERRY<em>: Kramer, voc&#234; n&#227;o entende a taxa de c&#226;mbio.</em></p><p>KRAMER<em>: Oh, taxa de c&#226;mbio, oh.</em></p><p>JERRY<em>: Sabe, eu nem sei porque eu trouxe voc&#234;.</em></p><p>KRAMER<em>: Ningu&#233;m colocou uma arma na sua cabe&#231;a.</em></p><p>&#8212; "The Maestro". Seinfeld, epis&#243;dio 3 da s&#233;tima temporada.</p></blockquote><p>Considerando a taxa de c&#226;mbio lira para d&#243;lares e a infla&#231;&#227;o de 1995 at&#233; 2023, Jerry pagou aproximadamente 95 d&#243;lares na corrida de taxi (mais todos os custos da viagem) para mostrar ao <em>Maestro</em> que, sim, ainda haviam casas na Toscana para serem alugadas. Apesar de n&#227;o ser uma corrida barata, certamente n&#227;o foram 95 d&#243;lares que deixaram Kramer espantado &#8212; ele realmente n&#227;o entendia o sistema de convers&#227;o de moedas<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. Mas, afinal, quem entende esse sistema? A convers&#227;o de moedas gera muita confus&#227;o e dificulta a realiza&#231;&#227;o de trocas entre pessoas que residem em &#225;reas monet&#225;rias diferentes.</p><p>A magnitude da confus&#227;o e inefici&#234;ncia econ&#244;mica que a convers&#227;o provoca depende de alguns fatores. Um dos mais importantes deles &#233; o grau de integra&#231;&#227;o entre as economias que tem moedas diferentes. Por exemplo, o preju&#237;zo econ&#244;mico da Alemanha adotar uma moeda diferente da Coreia do Norte &#233; baixo, pois norte-coreanos e alem&#227;es raramente fazem neg&#243;cios uns com os outros: n&#227;o h&#225; uma troca significativa de bens entre eles, n&#227;o existem muitos alem&#227;es indo trabalhar na Coreia do Norte, nem capital norte-coreano investindo em empresas na Alemanha e vice-versa. O mesmo n&#227;o pode ser dito para as rela&#231;&#245;es entre Alemanha e B&#233;lgica, ou entre Alemanha, Holanda e Fran&#231;a. Entre eles, h&#225; um fluxo intenso de produtos, pessoas e capital indo de um lado para o outro, ou seja, uma grande integra&#231;&#227;o de suas economias. Nesse caso, o custo de transa&#231;&#227;o de ter que lidar com marcos, francos, franco belga e florim holand&#234;s era alto o bastante para justificar uma unifica&#231;&#227;o da moeda.</p><p>O uso da palavra &#8220;justificar&#8221; no paragrafo anterior sugere que talvez nem sempre o uso de uma moeda &#250;nica entre duas regi&#245;es seja correto. Claro, existem raz&#245;es geopol&#237;ticas pelas quais talvez n&#227;o seja uma boa ideia compartilhar sua moeda com a Coreia do Norte, mas ser&#225; que existem raz&#245;es econ&#244;micas? Robert Mundell &#233; o economista vencedor do pr&#234;mio Nobel que pensou sobre isso em seu artigo chamado <em>A Theory of Optimum Currency Areas</em> (Uma Teoria de &#193;reas Monet&#225;rias &#211;timas em portugu&#234;s). Nesse estudo, Mundell est&#225; preocupado em saber qual deve ser o tamanho da regi&#227;o na qual vigora uma mesma moeda. Em princ&#237;pio, ela pode vigorar em apenas um pa&#237;s ou em v&#225;rios, pode ser grande ou pequena. A libra esterlina vigora apenas na Inglaterra, enquanto o euro &#233; adotado por dezenas de pa&#237;ses. A quest&#227;o &#233; saber qual seria o tamanho &#243;timo. Como bom economista, Mundell pensa sobre esse problema em termos de benef&#237;cios e custos. O benef&#237;cio de adotar uma moeda &#250;nica &#233; &#243;bvio: <strong>s&#227;o os ganhos de troca que surgem com a redu&#231;&#227;o dos custos de transa&#231;&#227;o.</strong> Mas quais s&#227;o os custos? Bem, para entender isso precisamos voltar no tempo.</p><p><strong>Velho Testamento</strong></p><blockquote><p><em>&#8220;As montanhas s&#227;o altas demais para escalar, os rios largos demais para atravess&#225;-los. &#201; assim que as energias da natureza obstruem o esp&#237;rito dos homens.&#8221;</em></p><p>&#8212; C&#244;nsul brit&#226;nico Lennon Hunt em seu relat&#243;rio sobre com&#233;rcio e trocas do Rio de Janeiro durante o ano de 1869. Extra&#237;do de <em>Order Against Progress: Government, Foreign Investment, and Railroads in Brazil, 1854-1913</em>.</p></blockquote><p>Esse depoimento &#233; apenas um dos que William Summerhill utilizou para ilustrar aos brasileiros do s&#233;culo XXI a situa&#231;&#227;o de um viajante no Brasil no s&#233;culo XIX. No segundo cap&#237;tulo do seu livro <em>Order Against Progress</em> (&#8220;Trilhos do Desenvolvimento&#8221; em portugu&#234;s), o historiador econ&#244;mico caracteriza a situa&#231;&#227;o desesperadora do transporte no nosso pa&#237;s ao longo do seu primeiro s&#233;culo como na&#231;&#227;o independente. O cap&#237;tulo come&#231;a com uma frase que resume bem o diagn&#243;stico:</p><blockquote><p><em>&#8220;Na metade do s&#233;culo XIX, o Brasil permanecia preso com uma tecnologia de transporte pouco diferente daquela encontrada no Velho Testamento.&#8221;</em></p></blockquote><p>Enquanto as ferrovias come&#231;avam a aparecer no mundo, o transporte de mercadorias e pessoas no Brasil era feito no lombo de mulas<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Os comboios percorriam estradas rudimentares, muitas das quais, segundo Summerhill, foram herdadas de tribos ind&#237;genas e mission&#225;rios. O animal preferido para percorr&#234;-las eram mulas, pois elas eram as mais eficientes em termos econ&#244;micos e eram as que melhor enfrentavam o terreno.</p><p>A p&#233;ssima qualidade das estradas &#233; agravada pelo o que o depoimento do c&#244;nsul estrangeiro d&#225; a entender. Suas frases capturam de forma po&#233;tica a triste realidade brasileira: a p&#233;ssima geografia do nosso pa&#237;s. <strong>O Brasil &#233; um pa&#237;s de dimens&#245;es continentais</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> <strong>com relevo muito ruim</strong>. Com exce&#231;&#227;o do Rio Grande do Sul e parte do Nordeste, nossa costa &#233; repleta de montanhas e planaltos. A rugosidade do terreno, rente ao mar, dificulta o acesso ao interior, o que faz com que as atividades econ&#244;micas tendam a se concentrar nas cidades litor&#226;neas. Ou seja, trata-se de um pa&#237;s continental cujo terreno dificulta a cria&#231;&#227;o de estradas. &#8220;Certo&#8221;, voc&#234; deve estar se perguntando, &#8220;mas e os rios?&#8221;. Sim, n&#243;s temos bastante rios, mas eles tamb&#233;m t&#234;m problema.</p><p>Infelizmente, como destaca Summerhill, os rios brasileiros que s&#227;o ao mesmo tempo extensos e naveg&#225;veis <strong>est&#227;o &#8220;no lugar errado&#8221;</strong>. Ou seja, eles n&#227;o ligavam as zonas agr&#237;colas f&#233;rteis com os centros urbanos e portos. Para se ter uma compara&#231;&#227;o da falta de sorte brasileira, abra o Google Maps para ver o caminho que o rio Mississipi percorre ao longo dos Estados Unidos e depois tente achar um rio assim no Brasil (que seja naveg&#225;vel, lembre-se). Embora se usasse rios para transporte de bens e pessoas, este era limitado tanto no volume transportado quanto na extens&#227;o percorrida.</p><p>Um pa&#237;s com vasto territ&#243;rio como o Brasil poderia, em tese, explorar mais facilmente ganhos de escala na agricultura, por exemplo. Al&#233;m disso, esse mesmo gigantismo, em princ&#237;pio, aumenta a extens&#227;o do mercado potencial e, com ela, o grau de especializa&#231;&#227;o da economia. Ganhos de escala e especializa&#231;&#227;o s&#227;o fontes de aumento de produtividade, a qual &#233; causa central da riqueza de uma na&#231;&#227;o. O problema &#233; que a limita&#231;&#227;o do terreno impedia que o nosso pa&#237;s desfrutasse desse potencial. Ganhos de escala exigem acesso f&#225;cil ao interior e mercados integrados exigem baixos custos de transporte entre regi&#245;es. Um &#8220;gigante pela pr&#243;pria natureza&#8221; e, por essa mesma natureza, um pa&#237;s fragmentado &#8212; essa era a realidade do Brasil at&#233; quase o fim do s&#233;culo XIX.</p><p>Para se ter uma ideia do grau de desintegra&#231;&#227;o, segundo o Summerhill, o custo de transportar min&#233;rio de ferro de Minas Gerais por uma dist&#226;ncia de 186km quase triplicava o pre&#231;o do produto. <strong>Isso significava, na pr&#225;tica, que o mercado final dessa mercadoria era severamente limitado.</strong> E quanto menor o mercado para o produto, menor tender&#225; a ser sua escala de produ&#231;&#227;o e, portanto, menor &#233; a possibilidade de aproveitar ganhos de escala na sua produ&#231;&#227;o. Al&#233;m disso, as diversas regi&#245;es do Brasil n&#227;o aproveitavam as vantagens comparativas umas das outras. Isso significa, por exemplo, que a regi&#227;o nordeste n&#227;o podia comprar muitos produtos da regi&#227;o sul, mas, sim, teria que produzi-los internamente. Ou seja, havia um baixo grau de especializa&#231;&#227;o da economia brasileira e, portanto, baixa produtividade<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>. Isso &#233; especialmente verdade no caso da agricultura de alimentos para consumo interno, as quais, devido as limita&#231;&#245;es de transporte, eram destinadas a pequenos mercados ou para subsist&#234;ncia apenas. </p><p><strong>Mas o que isso tem a ver com &#193;rea Monet&#225;ria &#211;tima?</strong></p><p>Os custos de adotar uma moeda comum podem ser ilustrados analisando uma situa&#231;&#227;o em que eles aparecem de forma patol&#243;gica. Uma situa&#231;&#227;o diferente daquela observada entre Fran&#231;a, Alemanha, B&#233;lgica e Holanda. <strong>Temos que observar uma &#225;rea em que exista uma moeda comum, mas cujas economias da regi&#227;o sejam desintegradas.</strong> Bem, essa era justamente a situa&#231;&#227;o do Brasil no s&#233;culo XIX e, mais especificamente, essa era especialmente o caso das regi&#245;es sudeste e nordeste. Pelo menos essa &#233; a teoria de outro grande historiador econ&#244;mico que se dedicou a estudar o Brasil: Nathaniel Leff.</p><p><em>How Latin America Fell Behind</em> ("Como Am&#233;rica Latina Ficou Para Tr&#225;s" em portugu&#234;s) &#233; uma colet&#226;nea com ensaios de hist&#243;ria econ&#244;mica do Brasil e do M&#233;xico durante o s&#233;culo XIX<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>. O segundo cap&#237;tulo &#233; um artigo em que Leff faz uma an&#225;lise dos problemas enfrentados pela economia brasileira nesse per&#237;odo. Essa an&#225;lise &#233; necess&#225;ria, segundo Leff, pois, em termos econ&#244;micos, o primeiro s&#233;culo da hist&#243;ria de nosso pa&#237;s foi t&#227;o emocionante quanto ver tinta secar (ele n&#227;o usou essas palavras, mas a ideia &#233; essa). De acordo com estimativas do historiador econ&#244;mico Angus Maddison, em 1800, o total produzido anualmente no pa&#237;s em termos per capita n&#227;o foi muito diferente daquele produzido cem anos depois. Ou seja, o s&#233;culo XIX foi um s&#233;culo perdido em termos econ&#244;micos.</p><p>Segundo Leff, parte desse fen&#244;meno &#233; explicado pelo gradual empobrecimento da regi&#227;o nordeste do Brasil. Essa regi&#227;o sempre teve uma relev&#226;ncia fundamental na economia colonial brasileira e, no s&#233;culo XIX, isso n&#227;o era diferente. A economia nordestina &#8212; assim como a brasileira &#8212; era alicer&#231;ada na exporta&#231;&#227;o, sendo este o setor mais produtivo do pa&#237;s. Os produtos exportados naquela regi&#227;o eram a&#231;&#250;car e algod&#227;o. Ao longo do s&#233;culo XIX, no entanto, ambas produ&#231;&#245;es tiveram um decl&#237;nio significativo. O motivo, segundo Leff, residia na ascens&#227;o de um novo produto, dessa vez na regi&#227;o sudeste do pa&#237;s: o caf&#233;. Ele explica:</p><blockquote><p><em>O decl&#237;nio da exporta&#231;&#227;o de a&#231;&#250;car e algod&#227;o do nordeste refletiu o fato de que, o Brasil do s&#233;culo dezenove, tinha uma vantagem comparativa mais forte na produ&#231;&#227;o de caf&#233; do que a&#231;&#250;car e algod&#227;o. Isto &#233;, uma unidade de moeda estrangeira poderia ser adquirida com menos recursos dom&#233;sticos em termos de caf&#233; do que em algod&#227;o e a&#231;&#250;car.</em></p><p>Nathaniel H. Leff. Economic Development in Brazil, 1822-1913. </p></blockquote><p>Traduzindo em portugu&#234;s, o Brasil conseguia comprar mais coisas do resto mundo produzindo caf&#233; do que algod&#227;o e a&#231;&#250;car. Al&#233;m disso, o crescimento das exporta&#231;&#245;es de caf&#233; na regi&#227;o sudeste aumentaram a entrada de moeda estrangeira no pa&#237;s. Quando isso acontece, h&#225; uma tend&#234;ncia de aprecia&#231;&#227;o da moeda nacional em rela&#231;&#227;o as demais. <strong>Essa aprecia&#231;&#227;o, por sua vez, afeta a receita medida em Mil-r&#233;is (a moeda brasileira da &#233;poca) dos exportadores de todas as comodities (algod&#227;o, caf&#233;, a&#231;&#250;car e etc.)</strong>. Quanto maior a aprecia&#231;&#227;o da moeda, menor a receita das exporta&#231;&#245;es medida em Mil-r&#233;is. Para contextualizar, se o d&#243;lar se desvaloriza em rela&#231;&#227;o ao real, isso significa que quando voc&#234; vende suas havaianas para um estrangeiro e ele te paga em d&#243;lares, na pr&#225;tica, voc&#234; recebe menos reais do que receberia antes da desvaloriza&#231;&#227;o. A explos&#227;o do caf&#233;, portanto, &#8220;prejudicava&#8221; os outros setores ao gerar uma aprecia&#231;&#227;o real da moeda.</p><p>At&#233; a&#237;, n&#227;o existem grandes problemas. Uma mudan&#231;a na taxa de c&#226;mbio &#233; uma mudan&#231;a de um pre&#231;o relativo. Numa economia de mercado, os pre&#231;os sinalizam escassez relativa, informando os consumidores e produtores as melhores oportunidades para economizar ou lucrar. No contexto brasileiro da &#233;poca, o sistema de pre&#231;os estava sinalizando que os fatores de produ&#231;&#227;o deveriam ser realocados de setores relativamente menos produtivos (algod&#227;o e a&#231;&#250;car), para setores mais produtivos (caf&#233;). <strong>O problema, segundo Leff, &#233; que, no caso brasileiro, esse processo foi excessivamente lento, o que prejudicou enormemente a economia nordestina.</strong> <strong>A causa dessa lentid&#227;o foi o simples fato de que o Brasil do s&#233;culo XIX n&#227;o era economicamente integrado</strong>.</p><p>Assim como Summerhill, Leff destaca o problema do transporte na economia brasileira. A falta de sorte na geografia e as p&#233;ssimas condi&#231;&#245;es de estradas que conectavam as regi&#245;es brasileiras,<strong> tornavam o Brasil um pa&#237;s em que cada lugar tinha sua pr&#243;pria din&#226;mica econ&#244;mica, com pouca rela&#231;&#227;o com as din&#226;mica das demais. </strong>Nesse contexto, a exist&#234;ncia de uma mesma moeda para todas as regi&#245;es pode gerar custos de ajustamento excessivamente altos. Como diz o pr&#243;prio Leff:</p><blockquote><p><em>Transfer&#234;ncias de outros fatores produtivos de a&#231;&#250;car e algod&#227;o para caf&#233; necessitavam de migra&#231;&#227;o inter-regional. As grandes dist&#226;ncias entre as regi&#245;es do Brasil, entretanto, significavam altos custos de transporte, de tal forma que migra&#231;&#227;o envolvia investimentos.</em></p><p>Nathaniel H. Leff. Economic Development in Brazil, 1822-1913.</p></blockquote><p>Sem mobilidade de trabalho, capital e bens entre duas &#225;reas econ&#244;micas, a vig&#234;ncia de uma moeda &#250;nica pode gerar mais custos do que benef&#237;cios. O motivo &#233; simples, o pre&#231;o da moeda muda mais r&#225;pido do que o pre&#231;os dos outros bens. Nesse contexto, vale imaginar, como faz o autor, uma situa&#231;&#227;o em que a regi&#227;o nordeste tivesse uma moeda diferente da moeda do sudeste. A expans&#227;o da exporta&#231;&#227;o do caf&#233; teria apreciado a taxa de c&#226;mbio real da regi&#227;o sudeste, mas n&#227;o da regi&#227;o nordeste. A moeda do nordeste teria se desvalorizado frente a moeda da regi&#227;o sudeste. O decl&#237;nio do algod&#227;o e do a&#231;&#250;car poderiam at&#233; acontecer eventualmente, mas a um custo econ&#244;mico menor. Leff conclui:</p><blockquote><p><em>As condi&#231;&#245;es monet&#225;rias e comerciais da regi&#227;o </em>[nordeste] <em>foram enormemente agravadas pelo seu pertencimento a uma entidade pol&#237;tica </em>[o Brasil]<em> que n&#227;o atendia as condi&#231;&#245;es m&#237;nimas para uma &#225;rea monet&#225;ria &#243;tima.</em></p><p>Nathaniel H. Leff. Economic Development in Brazil, 1822-1913.</p></blockquote><p><strong>Muitas conclus&#245;es</strong></p><p>A teoria de Leff sobre o nordeste est&#225; correta? O Brasil do s&#233;culo XIX n&#227;o era uma &#225;rea monet&#225;ria &#243;tima? Bem, &#233; dif&#237;cil dizer. Os dados desse per&#237;odo s&#227;o escassos e, na hist&#243;ria econ&#244;mica, &#233; dif&#237;cil de construir contrafactuais. Uma pesquisa recente indica que haviam problemas maiores para o nordeste do que um c&#226;mbio apreciado e estradas ruins. O historiador econ&#244;mico Thales Pereira escreveu um artigo no qual ele atribui a estagna&#231;&#227;o do algod&#227;o no nordeste a um problema de tributa&#231;&#227;o. Grosso modo, a ideia &#233; que o imposto de exporta&#231;&#227;o era excessivamente alto e isso impedia novos investimentos na produ&#231;&#227;o de algod&#227;o.</p><p>O que me parece fato &#233; que a aplica&#231;&#227;o do conceito de &#8220;&#193;reas Monet&#225;rias &#211;timas&#8221; para economia brasileira do s&#233;culo XIX &#233; uma &#243;tima forma de entender a teoria de Robert Mundell. Uma &#225;rea monet&#225;ria &#233; &#243;timas quando o benef&#237;cio adicional de aument&#225;-la (incluindo mais uma regi&#227;o ou pa&#237;s) &#233; igual ao seu custo adicional. Como vimos, o benef&#237;cio &#233; a facilita&#231;&#227;o das trocas, redu&#231;&#227;o dos custos de transa&#231;&#227;o. O custo de ter uma moeda &#250;nica &#233; a perda da capacidade de absorver choques econ&#244;micos atrav&#233;s do uso da pr&#243;pria moeda<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>. Esses custos s&#227;o altos sempre que as economias forem pouco integradas e n&#227;o existir livre mobilidade de pessoas, bens e capital.</p><p>Finalmente, estudando a hist&#243;ria econ&#244;mica brasileira, vemos que a geografia do nosso pa&#237;s foi um importante entrave para nosso desenvolvimento, especialmente no s&#233;culo XIX. As vastid&#227;o do territ&#243;rio n&#227;o propiciou os ganhos de escala e a especializa&#231;&#227;o esperadas devido ao prec&#225;rio sistema de transporte. H&#225; que se ter o cuidado, no entanto, em n&#227;o adotar uma vis&#227;o fatalista sobre o destino do nosso pa&#237;s. <strong>Dificuldades geogr&#225;ficas s&#227;o superadas com tecnologia.</strong> Essa &#233; a hist&#243;ria da humanidade. Summerhill escreveu um livro inteiro a respeito de como as ferrovias modificaram decisivamente (para melhor) o destino da economia brasileira. O problema da geografia, portanto, pode ser agravado ou atenuado a depender de como utilizamos os recursos que temos. As ferrovias vieram tarde para o Brasil e sua presen&#231;a foi provavelmente aqu&#233;m do necess&#225;rio. Por qu&#234;? Me parece que Edward C. Prescott oferece uma boa resposta em seu livro <em>Barriers to Riches</em>: </p><blockquote><p><em>Nossa vis&#227;o &#233; que diferen&#231;as nas rendas internacionais s&#227;o consequ&#234;ncia das diferen&#231;as no conhecimento que sociedades individuais aplicam a produ&#231;&#227;o de bens servi&#231;os. Essas diferen&#231;as n&#227;o surgem por causa de uma diferen&#231;a fundamental no estoque de conhecimento utiliz&#225;vel do qual cada sociedade pode se valer. Em vez disso, essas diferen&#231;as s&#227;o o resultado prim&#225;rio de pol&#237;ticas espec&#237;ficas dos pa&#237;ses, que resultam em restri&#231;&#245;es nas pr&#225;ticas de trabalho e na aplica&#231;&#227;o de melhores m&#233;todos de produ&#231;&#227;o das empresas. Muitas dessas restri&#231;&#245;es, ou barreiras, s&#227;o colocadas para proteger os interesses de grupos investidos no processo produtivo vigente. </em></p><p>Stephen L. Parente &amp; Edward C. Prescott. Barriers to Riches.</p></blockquote><p>&#201; uma teoria interessante e um belo assunto para outro post.</p><p>*****</p><p><strong>Livros e artigos citados:</strong></p><p><em>A Theory of Optimum Currency Areas. Robert A. Mundell</em></p><p><em>Order Against Progress. William Summerhill</em></p><p><em>How Latin America Fell Behind. Stephen Haber (editor)</em></p><p><em>Taxation and the stagnation of cotton exports in Brazil, 1800&#8211;60. Thales Zamberlan Pereira</em></p><p><em>Barriers to Riches. Stephen L. Parente &amp; Edward C. Prescott.</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Ver epis&#243;dio sete da oitava temporada para mais uma prova disso.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Segundo Summerhill, mulas eram o pilar do &#8220;setor de transporte&#8221; brasileiro. O engra&#231;ado &#233; que, diferente de barcos e ferrovias, esse meio de transporte &#233; um ser vivo, o qual precisa ser &#8220;criado&#8221; e n&#227;o produzido. O autor descreve a situa&#231;&#227;o curiosa:</p><blockquote><p><em>Because of the strong demand for transport services and the derived demand mand for essential inputs, mule breeding came to be an important activity in Brazil. In the first half of the nineteenth century it became clear that securing ing an adequate flow of pack animals would prove to be an enduring problem. lem. Concern over the issue created quasi-official interest in arrangements to procure them. In the end, most mules appear to have been supplied by private vate entrepreneurs dedicated to provisioning the market. While mules were bred throughout Brazil, large-scale mule supply was concentrated in the far south. At mid-century Brazilians raised and drove to market tremendous herds of these animals, which were then sold to middlemen and muleteers in major hinterland entrepots such as Sorocaba, Sao Paulo. From there, the new owners dispersed the great herds through marketing networks, effectively tively scattering mules throughout the major agricultural regions, where they were employed in providing the transportation services so sorely needed throughout Brazil.</em></p><p>William R. Summerhill. Order Against Progress: Government, Foreign Investment, and Railroads in Brazil, 1854-1913. Edi&#231;&#227;o do Kindle. </p></blockquote><p>Imagine a quantidade de recursos destinada a cria&#231;&#227;o desses animais. Terra, trabalho e capital que teriam usos muito mais produtivos n&#227;o fosse a situa&#231;&#227;o prec&#225;ria das estradas e aus&#234;ncia de malha ferrovi&#225;ria desenvolvida.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Maior do que a parte continental dos EUA, sendo que boa parte da diferen&#231;a est&#225; no comprimento. O problema de ter um grande comprimento (medida no sentido norte a sul) &#233; que voc&#234; vai ganhar climas diferentes em cada latitude, o que, infelizmente, n&#227;o &#233; bom para ganhar escala na agricultura. Os EUA, por exemplo, s&#227;o um ret&#226;ngulo cujo lado maior &#233; a base, o que &#233; bom para ganhar escala na agricultura.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Tente fazer seu pr&#243;prio sandu&#237;che sozinho. Eu n&#227;o digo abrir a geladeira para achar presunto, queijo e manteiga, ou desatar o ferrinho encapado com pl&#225;stico branco que prende a embalagem do p&#227;o. Tente <em>fazer </em>todo o seu sandu&#237;che. Do zero. Plante seu trigo, mate o seu porco, fa&#231;a o seu p&#227;o, ordenhe a vaca para conseguir o leite que vai virar a manteiga. Agora compare o custo disso com, sei l&#225;, o pre&#231;o do sandu&#237;che em um supermercado. Melhor ainda: divida o seu sal&#225;rio pelo n&#250;mero de horas de trabalho e veja que, em apenas alguns minutos, voc&#234; consegue fazer atrav&#233;s do mercado um sandu&#237;che muito melhor do que aquele que voc&#234; demorou seis meses para voc&#234; terminar (e que, com todo respeito, deve ter ficado uma bela porcaria). Agora entenda de uma vez por todas o que a especializa&#231;&#227;o atrav&#233;s do mercado nos propicia.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Ali&#225;s, foi uma dica do prof. Claudio Shikida. Leiam a <a href="https://cdshikida.substack.com/">newsletter</a> dele. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Existem outros problemas ao se utilizar uma mesma moeda. Regi&#245;es com a mesma moeda, mas sem integra&#231;&#227;o e coordena&#231;&#227;o da pol&#237;tica fiscal tamb&#233;m podem acabar mal. A Gr&#233;cia se beneficiou enormemente do acesso a cr&#233;dito barato fruto da integra&#231;&#227;o ao mercado europeu e, principalmente, da inclus&#227;o na Zona do Euro. O governo grego aproveitou as condi&#231;&#245;es favor&#225;veis de cr&#233;dito para se endividar e descumprir todas as regras de bom senso de pol&#237;tica fiscal. Infelizmente, toda gastan&#231;a desenfreada chega ao fim quando o mercado decide parar de financiar o governo irrespons&#225;vel. O problema &#233; que, nessa situa&#231;&#227;o, a d&#237;vida grega n&#227;o era denominada em uma moeda que ela controlava, cuja a qual ela poderia simplesmente come&#231;ar a imprimir para &#8220;pagar&#8221; a d&#237;vida (o que provocaria uma hiperinfla&#231;&#227;o, evidentemente). </p><p>A &#250;nica sa&#237;da para o governo grego era dar o calote ou tentar fazer um ajuste fiscal. O problema do ajuste fiscal &#233; que ele &#233; terrivelmente impopular e dif&#237;cil de ser implementado em um pa&#237;s sem boas institui&#231;&#245;es (Ei! Estou falando da Gr&#233;cia&#8230; Calma!). O problema do calote &#233; que ela geraria uma crise banc&#225;ria por toda Europa, pois os credores da d&#237;vida eram bancos importantes da Fran&#231;a, Alemanha e It&#225;lia. </p><p>Sabendo que o calote <em>exportaria custos</em> para os demais pa&#237;ses da Europa, a situa&#231;&#227;o do governo grego era peculiar: ele poderia amea&#231;ar dar calote e &#8220;sair do euro&#8221;, o que geraria uma crise financeira no continente, para conseguir negociar termos melhores no acordo de ajuste fiscal imposto como condi&#231;&#227;o para receber aux&#237;lio financeiro da <s>Alemanha</s> Uni&#227;o Europeia. O dilema <s>alem&#227;o</s> europeu em rela&#231;&#227;o a Gr&#233;cia tamb&#233;m era interessante: se a Gr&#233;cia for auxiliada com grana para pagar suas d&#237;vidas sem ter que fazer ajustes desconfort&#225;veis, isso estimula outros pa&#237;ses a seguir o exemplo da Gr&#233;cia e sair gastando a vontade. &#201; um problema interessante do ponto de vista estrat&#233;gico.</p><p>Esse &#233; o problema cl&#225;ssico de coordena&#231;&#227;o de pol&#237;ticas fiscais dentro de uma mesma uni&#227;o monet&#225;ria. Ele existiu tamb&#233;m na forma&#231;&#227;o dos EUA e no Brasil durante os anos 90 com os bancos estaduais.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Teoria Fiscal do Nível de Preços]]></title><description><![CDATA[O den&#225;rio s&#243; tem valor se voc&#234; consegue devolv&#234;-lo a C&#233;sar.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/a-teoria-fiscal-do-nivel-de-precos</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/a-teoria-fiscal-do-nivel-de-precos</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Mon, 13 Feb 2023 22:00:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/819d58d3-2846-4dec-8222-7498cad54c27_1013x570.webp" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>&#8220;Mestre, sabemos que falas e ensinas o que &#233; correto, e que n&#227;o julgas pela apar&#234;ncia, mas ministras o caminho de Deus de acordo com a verdade. Pois bem. &#201; certo pagar impostos a C&#233;sar ou n&#227;o?&#8221;</em> Jesus percebeu a ast&#250;cia deles e lhes ponderou: <em>&#8220;Mostrai-me um den&#225;rio. De quem &#233; a imagem e a inscri&#231;&#227;o estampadas?&#8221;</em> Imediatamente replicaram: <em>&#8220;De C&#233;sar!&#8221;</em> Ao que Ele lhes orientou: <em>&#8220;Dai, portanto, a C&#233;sar o que &#233; de C&#233;sar e a Deus o que &#233; de Deus!&#8221;</em></p></blockquote><p>Essa famosa passagem do Evangelho tem um significado profundo que est&#225; fora da capacidade de an&#225;lise do autor desta p&#225;gina de internet. No entanto, o que nos interessa aqui &#233; muito singelo: impl&#237;cito na narrativa, temos o fato de que C&#233;sar cunhou moedas que foram usadas para financiar gastos do governo e que, depois de gast&#225;-las, ele as quer de volta na forma de impostos. O imperador quer de volta o que &#233; dele. Nesse sentido, a moeda cunhada pelo estado serve para pagar impostos. </p><p>Quando o governo aceita liberar as pessoas de suas &#8220;obriga&#231;&#245;es tribut&#225;rias&#8221; com a moeda dele, esta passa a ter uma serventia para essas mesmas pessoas. O interessante &#233; que &#8220;coisas com alguma serventia&#8221; acabam adquirindo<strong> valor de troca</strong>. E isso tamb&#233;m acontece com a moeda emitida pelo estado. O motivo &#233; simples: se voc&#234; espera que as outras pessoas v&#227;o querer a moeda no futuro (para pagar impostos), ent&#227;o voc&#234; pode usar ela <strong>agora</strong> para conseguir arroz, biscoitos ou at&#233; uma bicicleta ergom&#233;trica. O arrozeiro, o padeiro e o&#8230; engenheiro mec&#226;nico provavelmente v&#227;o aceitar a moeda, pois eles ou v&#227;o us&#225;-la para pagar imposto, ou esperam conseguir troc&#225;-la por outros produtos com outras pessoas<em> </em><strong>que tamb&#233;m demandar&#227;o a moeda por um desses dois motivos, e assim sucessivamente</strong>. <strong>Ou seja, moeda estatal tem valor, pois voc&#234; pode pagar impostos com ela.</strong></p><p>Esse <em>insight </em>aparentemente simples &#233; o centro de um dos melhores livros de macroeconomia dos &#250;ltimos tempos. Em &#8220;<a href="https://www.amazon.com/Fiscal-Theory-Price-Level/dp/0691242240/ref=sr_1_1?keywords=the+fiscal+theory+of+the+price+level&amp;qid=1676313624&amp;sprefix=the+fiscal+theor%2Caps%2C242&amp;sr=8-1">The Fiscal Theory of the Price Level</a>&#8221; (<em>A Teoria Fiscal do N&#237;vel de Pre&#231;os</em>), John Cochrane, prop&#245;e uma nova teoria sobre como o n&#237;vel de pre&#231;os &#233; determinado. Assim como quase tudo que foi dito sobre economia nos &#250;ltimos dois s&#233;culos, Cochrane mostra que esse insight estava em forma embrion&#225;ria na obra de Adam Smith, A Riqueza das Na&#231;&#245;es:</p><blockquote><p><em>Um pr&#237;ncipe, que determinasse que uma certa propor&#231;&#227;o de seus impostos fosse paga em um papel-moeda de um certo tipo, poderia, assim, dar um certo valor a esse papel-moeda.</em></p><p>&#8212; Riqueza das Na&#231;&#245;es, Vol. I, Livro II, Cap&#237;tulo II</p></blockquote><p>Adam Smith disse primeiro. Todo mundo sabe que, eventualmente, algu&#233;m vai aceitar esse papel para sua finalidade tribut&#225;ria. A expectativa de que algu&#233;m precisar&#225; pagar seus impostos com o papel moeda j&#225; confere e ele um valor de troca.  E o valor da moeda &#233; justamente o seu poder de compra. O poder de compra de uma moeda, por sua vez, &#233; inversamente relacionado ao n&#237;vel de pre&#231;os da economia. Quando a moeda perde valor, isso significa que, com a mesma quantidade de moeda, <strong>voc&#234; consegue menos de todos os bens</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a><strong>. </strong>Ou seja, a aceita&#231;&#227;o da moeda para fins de tributa&#231;&#227;o vai, de alguma forma, determinar a infla&#231;&#227;o dessa economia. Mas como?</p><p><strong>Morte, impostos e infla&#231;&#227;o</strong></p><p>&#201; o &#250;ltimo dia de vida das pessoas de um pa&#237;s fict&#237;cio. As nove da manh&#227;, elas acordam e lembram que elas s&#227;o credoras do governo e hoje &#233; o dia de receber o dinheiro. No dia anterior, cada indiv&#237;duo adquiriu um t&#237;tulo de d&#237;vida p&#250;blica e cada t&#237;tulo paga exatamente uma unidade monet&#225;ria (um Real, ou D&#243;lar, ou Den&#225;rio) no seu vencimento. Nesse mundo, o governo redime os t&#237;tulos imprimindo dinheiro. Al&#233;m disso, ele tamb&#233;m gasta em obras, programas e transfer&#234;ncias governamentais. Finalmente, mesmo com a morte das pessoas ao final do dia, <strong>o governo tamb&#233;m arrecada impostos, &#233; claro</strong>. Tanto os gastos quanto a arrecada&#231;&#227;o do estado s&#227;o medidas em dinheiro. A diferen&#231;a entre a receita com impostos e a despesa &#233; o <strong>super&#225;vit prim&#225;rio</strong>, ou seja, &#233; o excesso de dinheiro que foi coletado pelo governo em rela&#231;&#227;o ao que foi gasto com as despesas n&#227;o financeiras.</p><p>Aqui precisamos fazer uma explica&#231;&#227;o mais detalhada sobre o super&#225;vit. Ele &#233; medido em moeda e, portanto, pode ser decomposto em duas partes: <strong>pre&#231;o e quantidade</strong>. A &#8220;quantidade&#8221; corresponde ao total de bens e servi&#231;os que esse super&#225;vit consegue efetivamente comprar<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. &#201; a parte real, portanto. O pre&#231;o &#233; o<em> n&#237;vel geral de pre&#231;os </em>desses bens, ou seja, &#233; relacionado ao valor da moeda comparada a todos os bens e servi&#231;os. <strong>Quanto maior o n&#237;vel de pre&#231;os, maior &#233; o super&#225;vit medido em moeda mesmo que a quantidade total de bens correspondente n&#227;o tenha aumentado</strong>.</p><p>O fim est&#225; pr&#243;ximo. O sol vai se pondo, muitas pessoas j&#225; pagaram seus impostos e, como amanh&#227; n&#227;o ser&#225; um novo dia, a moeda <strong>n&#227;o serve mais para nada</strong>. Nesse momento, ningu&#233;m quer guardar dinheiro, pois ele &#233; in&#250;til. No entanto, algumas pessoas que j&#225; pagaram seus impostos percebem que ainda tem dinheiro. Como ele n&#227;o tem mais serventia direta para elas, a &#250;nica coisa que faz sentido &#233; gastar esse dinheiro com bens e servi&#231;os, tentando passar adiante a moeda. Algumas pessoas v&#227;o aceitar trocar bens por moeda, pois elas ainda n&#227;o pagaram impostos. Mas o que acontece se a quantidade total de dinheiro emitida pelo governo &#233; maior do que o total arrecadado? <strong>A medida que as pessoas v&#227;o tentando se livrar do dinheiro, este vai perdendo valor frente aos bens e servi&#231;os da economia, pois, cada vez mais, as pessoas percebem que o dinheiro que sobrou n&#227;o tem mais serventia para ningu&#233;m.</strong></p><p>Como fazer essa conta fechar? Bem, a quantidade de dinheiro j&#225; foi emitida no come&#231;o do dia e o n&#237;vel de gasto e tributa&#231;&#227;o s&#227;o dif&#237;ceis de mudar rapidamente. <strong>A &#250;nica forma de fazer essa conta fechar &#233; se o super&#225;vit medido em moeda aumentar via aumento do n&#237;vel de pre&#231;os.</strong> Os pre&#231;os subir&#227;o at&#233; que o super&#225;vit medido em moeda fique igual ao valor de moeda emitida usada pagar os t&#237;tulos p&#250;blicos. Ora, <strong>mais isso &#233; justamente a infla&#231;&#227;o</strong>. Ou seja, quando existe mais moeda em circula&#231;&#227;o do que o governo &#233; capaz de &#8220;enxugar&#8221; com seus super&#225;vits, as pessoas v&#227;o tentar desesperadamente se livrar do correspondente excesso de moeda. Como diz John Cochrane, existir&#227;o duas formas de interpretar esse fen&#244;meno: i) vai existir &#8220;dinheiro de mais perseguindo bens de menos&#8221; (se voc&#234; &#233; Monetarista) ou ii) vai existir &#8220;muita demanda agregada&#8221; (se voc&#234; &#233; de Cambridge). </p><p>N&#227;o importa como voc&#234; vai interpretar o fen&#244;meno, o fato &#233; que a origem do problema inflacion&#225;rio foi fiscal. Ter um super&#225;vit incapaz de enxugar a quantidade de moeda em circula&#231;&#227;o &#233; a mesma coisa que ter um desequil&#237;brio fiscal, ou seja, voc&#234; n&#227;o consegue pagar todas as suas obriga&#231;&#245;es. Nesse sentido, a moeda pode ser encarada com uma d&#237;vida de curt&#237;ssimo prazo. O governo te promete que ela servir&#225; para pagar impostos e portanto voc&#234; a aceita, mas, se ele fez essa promessa para gente demais e n&#227;o tem tanto imposto para pagar assim, ela perde valor para os indiv&#237;duos e, consequentemente, perder&#225; poder compra.</p><p><strong>E se o mundo n&#227;o acabar amanh&#227;?</strong></p><p>A l&#243;gica &#233; a mesma para um mundo mais parecido com a realidade, em que h&#225; uma expectativa razo&#225;vel de que o mundo n&#227;o acabe no dia seguinte. A diferen&#231;a &#233; que agora, com a realidade de um novo amanh&#227;, <strong>o governo n&#227;o precisa pagar a d&#237;vida do per&#237;odo apenas com super&#225;vit daquele momento</strong>. Ele tamb&#233;m pode emitir uma nova d&#237;vida. O dinheiro que o governo paga pelos t&#237;tulos no per&#237;odo presente, portanto, pode ser &#8220;enxugado&#8221; por super&#225;vit e por nova emiss&#227;o de d&#237;vida.</p><p>O novo t&#237;tulo de d&#237;vida que o governo emite tem um pre&#231;o, &#233; claro. Como cada unidade do t&#237;tulo paga exatamente uma unidade de dinheiro no per&#237;odo seguinte, o pre&#231;o do t&#237;tulo no per&#237;odo anterior &#233; o <em>valor presente</em> de uma unidade de dinheiro. Ou seja, o pre&#231;o hoje seria &#8220;um real descontado a uma determinada taxa de juros&#8221;. Essa taxa de juros incorpora duas coisas: a taxa de impaci&#234;ncia de esperar um dia a mais para ganhar um real e a infla&#231;&#227;o esperada entre os dois per&#237;odos (entre hoje, quando o t&#237;tulo &#233; emitido, e amanh&#227;, quando o t&#237;tulo for resgatado).</p><p>Recapitulando, o correspondente ao dinheiro necess&#225;rio para pagar toda a d&#237;vida que vence hoje precisa ser igual <strong>ao super&#225;vit de hoje, mais o total de d&#237;vida emitida hoje que vence no per&#237;odo seguinte, cujo pre&#231;o incorporar&#225; a expectativa de infla&#231;&#227;o e a taxa de impaci&#234;ncia.</strong> Agora, suponha que o per&#237;odo seguinte seja o &#250;ltimo dia do mundo. Nesse caso, voltamos ao cen&#225;rio anterior: a &#250;nica forma de enxugar toda a grana emitida para pagar os empr&#233;stimos governamentais nesse dia precisam vir do super&#225;vit desse mesmo dia. Bem, as pessoas do per&#237;odo anterior sabem disso. Elas sabem que, em &#250;ltima an&#225;lise, a d&#237;vida emitida &#8220;hoje&#8221; precisa ser enxugada eventualmente por um super&#225;vit futuro. Isso significa que, se os super&#225;vits dos dois per&#237;odos n&#227;o forem suficientes para enxugar todo valor da d&#237;vida do primeiro per&#237;odo, ent&#227;o algo tem que acontecer. Como a d&#237;vida j&#225; foi emitida, se a &#8220;quantidade&#8221; ou &#8220;parte real&#8221; do super&#225;vit n&#227;o aumentar, ent&#227;o a &#250;nica forma dessa conta fechar &#233; se <strong>o n&#237;vel pre&#231;os aumentar hoje</strong>. Quando ele aumenta, o valor nominal dos super&#225;vits se ajusta at&#233; igualar o valor nominal da d&#237;vida: novamente, a infla&#231;&#227;o faz a conta fechar.</p><p>Nas palavras de John Cochrane:</p><blockquote><p><em>&#8220;O n&#237;vel de pre&#231;os hoje se ajusta para que o valor real da d&#237;vida seja igual ao valor presente dos super&#225;vits prim&#225;rios.&#8221;</em></p></blockquote><p><strong>Uma analogia muito &#250;til</strong></p><p>Qual &#233; o pre&#231;o de uma a&#231;&#227;o da Petrobr&#225;s? Bem, antes de responder essa pergunta, precisamos saber o que &#233; uma a&#231;&#227;o. Grosso modo, uma a&#231;&#227;o &#233; um peda&#231;o de uma empresa. Se voc&#234; tem uma a&#231;&#227;o da Petrobr&#225;s, voc&#234; &#233; dono de uma parte da empresa. A prerrogativa mais relevante para algu&#233;m que &#233; dono de parte de uma empresa &#233; a participa&#231;&#227;o nos lucros dela. Os dividendos pagos aos acionistas vem do lucro da empresa. Empresas mais lucrativas, tudo o mais constante, deveriam ser mais desejadas do que empresas menos lucrativas.</p><p>Imagine uma situa&#231;&#227;o em que existem duas empresas: a empresa A atua no setor de medicamentos e a empresa B em outro setor qualquer. As a&#231;&#245;es de ambas est&#227;o com o mesmo pre&#231;o e a empresa A anuncia um lan&#231;amento de um medicamento muito eficaz ao combate a todo tipo de c&#226;ncer. &#201; razo&#225;vel esperar que essa empresa passar&#225; a ter muitos lucros no futuro, os quais ser&#227;o repartidos, pelo menos em parte, entre os acionistas. Isso &#233; um excelente motivo para que voc&#234; queira virar um s&#243;cio dessa empresa nesse momento. Claro, voc&#234; n&#227;o teve essa ideia sozinho, muitas outras pessoas tamb&#233;m tiveram o mesmo racioc&#237;nio. A procura pela a&#231;&#227;o da empresa come&#231;a a subir, ou seja, o valor que as pessoas est&#227;o dispostas a pagar por uma unidade a mais da a&#231;&#227;o aumentou. O efeito disso &#233; que o pre&#231;o do papel come&#231;a a subir em rela&#231;&#227;o a empresa B, pois esta n&#227;o teve not&#237;cias significativas sobre a expectativa de lucro. </p><p>No entanto, o aumento de pre&#231;o da a&#231;&#227;o da empresa A n&#227;o vai durar para sempre. Eventualmente, ela custar&#225; t&#227;o caro que a quantidade demandada dessa a&#231;&#227;o ser&#225; igual a sua quantidade ofertada. O novo pre&#231;o j&#225; vai ter incorporado a nova realidade da empresa. Em outras palavras, o valor dela j&#225; vai ter incorporado o incremento no seu lucro esperado. Esse exemplo nos sugere, portanto, qual seria o principal determinante do pre&#231;o de uma a&#231;&#227;o: o total de lucro esperado entre hoje e o futuro long&#237;nquo. Como as pessoas s&#227;o impacientes, a expectativa de lucro futura se incorpora no pre&#231;o de hoje com uma taxa de desconto. Quando maior for o horizonte de tempo em que o aumento de lucro se concretizar&#225;, menor o seu impacto &#8212; tudo o mais constante &#8212; no pre&#231;o da a&#231;&#227;o hoje. O pre&#231;o, portanto, &#233; igual ao valor presente do lucro esperado da empresa.</p><p>Voltando para a Teoria Fiscal do N&#237;vel de Pre&#231;os, o valor real dos t&#237;tulos p&#250;blicos que est&#227;o em poder do p&#250;blico hoje tender&#227;o a ser <strong>iguais ao valor presente de todos os super&#225;vits prim&#225;rios entre hoje e o futuro long&#237;nquo</strong>. Em outras palavras, o dinheiro equivalente ao valor dos t&#237;tulos p&#250;blicos emitidos hoje devem ser, em &#250;ltima inst&#226;ncia, &#8220;enxugados&#8221; pelos resultados prim&#225;rios. A analogia com o pre&#231;o de uma a&#231;&#227;o &#233; clara: o valor da d&#237;vida p&#250;blica depende da capacidade do governo gerar receitas para pagar o servi&#231;o dessa d&#237;vida. Assim com a expectativa de lucro &#233; o que d&#225; valor a uma a&#231;&#227;o, o valor da d&#237;vida do governo depende da sua capacidade esperada de gerar fundos suficientes honr&#225;-la. Em resumo, <strong>o valor real do t&#237;tulo p&#250;blico est&#225; para o valor de uma a&#231;&#227;o assim como os super&#225;vits prim&#225;rios esperados est&#227;o para os lucros esperados.</strong></p><p>Se o valor presente de super&#225;vits fiscais for menor do que o valor da d&#237;vida em um determinado momento do tempo, isso significa que &#8220;no fim de tudo&#8221;, muita gente vai ficar com mais dinheiro do que gostaria. Para que a conta feche, uma das duas coisas precisa acontecer: ou o governo aumenta os super&#225;vits futuros ou o n&#237;vel de pre&#231;os vai subir, ou seja, sem ajuste fiscal, resta a infla&#231;&#227;o.</p><p><strong>De volta aos Romanos</strong></p><p>Embora eu tenha usado o exemplo do den&#225;rio romano para motivar esse artigo, a verdade &#233; que existe uma grande diferen&#231;a entre uma moeda de prata e uma moeda fiduci&#225;ria. Mesmo que o den&#225;rio tivesse a ef&#237;gie de C&#233;sar e, portanto, uma certifica&#231;&#227;o imperial, a moeda possu&#237;a o valor intr&#237;nseco de um metal preciososo. Nesse sentido, o valor dessa moeda &#233; duplo, pois &#233; contingente n&#227;o s&#243; na promessa imperial de que ela serve para pagar impostos, mas tamb&#233;m no fato de que ela &#233; literalmente feita de prata. A moeda fiduci&#225;ria, no entanto, tem seu valor derivado da simples promessa governamental de que ela serve para pagar impostos.</p><p>Curiosamente, ao longo do imp&#233;rio romano, o conte&#250;do de metal precioso no den&#225;rio foi se reduzindo. A medida que o valor intr&#237;nseco se reduzia, o valor de troca da moeda tamb&#233;m ca&#237;a. Esse fen&#244;meno, em parte, passou pelas necessidades de financiamento do governo. Ao reduzir o conte&#250;do de prata, o governo gasta a moeda pelo valor de face e, dessa forma, pode financiar suas despesas &#224;s custas de um imposto inflacion&#225;rio. Analogamente, a moeda fiduci&#225;ria tem seu valor associado a capacidade do governo gerar super&#225;vits prim&#225;rios. Gastos excessivos, mesmo que financiados com endividamento, s&#227;o inflacion&#225;rios se o p&#250;blico n&#227;o esperar que eles sejam pagos futuramente com super&#225;vits maiores. A l&#243;gica &#233; muito similar a redu&#231;&#227;o de conte&#250;do de prata: um t&#237;tulo de d&#237;vida p&#250;blica significa apenas uma promessa de que o governo vai te dar &#8220;moeda no futuro&#8221;. Se o valor dessa moeda (no presente ou no futuro) depende dos super&#225;vits, mais d&#237;vida sem mais super&#225;vit &#233; como fazer mais moedas com a mesma quantidade de prata.</p><p><strong>A import&#226;ncia da teoria para o Brasil</strong></p><p>Pa&#237;ses como o Brasil t&#234;m problemas fiscais cr&#244;nicos. Em particular, nossa Constitui&#231;&#227;o gera obriga&#231;&#245;es e amarras que engessam a nossa capacidade de fazer ajustes fiscais duradouros. No come&#231;o da Nova Rep&#250;blica, essa inconsist&#234;ncia fiscal era traduzida na forma de infla&#231;&#227;o patol&#243;gica. O diagn&#243;stico do problema foi feito por Thomas Sargent em uma carta aberta escrita ao Ministro da Fazenda da &#233;poca. Segundo ele:</p><blockquote><p><em>&#8220;Infla&#231;&#227;o alta e persistente &#233; sempre e em todo lugar um fen&#244;meno fiscal, no qual o Banco Central &#233; um c&#250;mplice monet&#225;rio. Um governo administrando moeda fiduci&#225;ria tem um restri&#231;&#227;o or&#231;ament&#225;ria intertemporal que for&#231;a o seu Banco Central e a autoridade fiscal a cooperarem, mais cedo ou mais tarde, de alguma forma.&#8221;</em></p></blockquote><p>Gastos excessivos precisam ser financiados. Isso ser&#225; feito com impostos ou infla&#231;&#227;o. Emiss&#227;o de d&#237;vida para financiar gastos s&#243; n&#227;o ser&#227;o inflacion&#225;rias se forem acompanhadas de uma expectativa futura de aumento de super&#225;vits fiscais. </p><p>Desde a segunda metade dos anos 90, a sociedade brasileira vive em uma guerra constante para ganhar controle das contas p&#250;blicas. Trata-se de uma luta em diversas frentes que v&#227;o desde reformas administrativas, leis de responsabilidade fiscal, reformas da previd&#234;ncia e aumento da carga tribut&#225;ria. No contexto dessa teoria, a aprova&#231;&#227;o do Teto de Gastos, por exemplo, foi uma das maiores contribui&#231;&#245;es para o combate a infla&#231;&#227;o no Brasil na medida em que ela mudou a trajet&#243;ria esperada dos super&#225;vits futuros. Outra medida importante foi a reforma da previd&#234;ncia.</p><p><strong>****</strong></p><p>A teoria Fiscal do N&#237;vel de Pre&#231;os vai muito al&#233;m do que eu tentei expor aqui. O livro de John Cochrane &#233; repleto de <em>insights </em>e de novas formas de pensar sobre problemas antigos. Em um mundo sem moedas mercadorias e onde cada vez menos sentido pensar em motivos friccionais para demandar moeda (ningu&#233;m mais carrega dinheiro na carteira e o seu dinheiro no Picpay rende 102% CDI), essa teoria consegue explicar o valor da moeda &#8212; e portanto o n&#237;vel de pre&#231;os &#8212; de uma forma simples e convincente: O den&#225;rio s&#243; tem valor se voc&#234; consegue devolv&#234;-lo &#224; C&#233;sar.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Toda profiss&#227;o cujo interesse p&#250;blico &#233; grande sofre com erros de interpreta&#231;&#227;o que persistem para sempre na mente de pessoas leigas. No caso de economia, um deles &#233; a confus&#227;o entre pre&#231;os relativos e n&#237;vel geral de pre&#231;os. A infla&#231;&#227;o &#233; a perda de valor da moeda frente a todos os pre&#231;os, ou seja, em rela&#231;&#227;o ao n&#237;vel geral de pre&#231;os. A desgra&#231;a &#233; que ningu&#233;m sabe como medir perfeitamente esse n&#237;vel geral de pre&#231;os. O IBGE tenta fazer isso com &#237;ndices de infla&#231;&#227;o, os quais, como o pr&#243;prio nome diz, s&#227;o &#237;ndices que tentam medir a infla&#231;&#227;o. O &#205;ndice de Pre&#231;os ao Consumidor Amplo (IPCA), por exemplo, tenta fazer isso atrav&#233;s da constru&#231;&#227;o de uma cesta de bens que fam&#237;lias que ganham at&#233; 40 sal&#225;rios m&#237;nimos consomem. Essa cesta &#233; descoberta atrav&#233;s de uma pesquisa chamada Pesquisa de Or&#231;amento Familiar (POF). Uma vez que a cesta &#233; determinada, o que o IBGE faz &#233; medir o valor dela, em Reais, ao longo do tempo. Essa varia&#231;&#227;o &#233; a infla&#231;&#227;o.</p><p>Evidentemente, esses &#237;ndices s&#227;o medidas imperfeitas da infla&#231;&#227;o. O motivo &#233; simples, nem toda varia&#231;&#227;o mensal do &#237;ndice &#233; devido a uma perda do poder aquisitivo da moeda. As vezes o que aconteceu &#233; que um item importante da cesta acabou ficando muito caro. Por exemplo, se a gasolina aumenta de pre&#231;o por causa de uma guerra na Europa, o &#237;ndice de infla&#231;&#227;o vai subir apenas um fen&#244;meno estat&#237;stico. Quando a gasolina fica mais cara, isso n&#227;o significa necessariamente infla&#231;&#227;o. Pode ser que apenas houve uma mudan&#231;a no pre&#231;o relativo deste produto, isto &#233;, o mercado agora est&#225; pedindo mais bens do que antes por um litro de gasolina. Isso &#233; diferente de quanto todos os bens se valorizam em rela&#231;&#227;o a moeda. Isso sim significa uma perda de poder de compra da moeda.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Imagine um mundo onde n&#227;o existe dinheiro, mas existe governo. Como o governo cobra impostos nesse cen&#225;rio? Na aus&#234;ncia de moeda, ele coletar&#225; bens e servi&#231;os (trigo, batata, bicicletas, horas de trabalho e etc.). J&#225; que estou com a minha b&#237;blia aberta, estamos falamos basicamente o que o Samuel descreve <a href="https://www.biblegateway.com/passage/?search=1%20Samuel%208&amp;version=NIV">aqui</a>:</p><blockquote><p><em>He said, &#8220;This is what the king who will reign over you will claim as his rights: He will take your sons and make them serve with his chariots and horses, and they will run in front of his chariots.&nbsp;Some he will assign to be commanders of thousands and commanders of fifties, and others to plow his ground and reap his harvest, and still others to make weapons of war and equipment for his chariots. He will take your daughters to be perfumers and cooks and bakers.&nbsp;He will take the best of your fields and vineyards and olive groves and give them to his attendants.&nbsp;He will take a tenth of your grain and of your vintage and give it to his officials and attendants. Your male and female servants and the best of your cattle[c] and donkeys he will take for his own use. He will take a tenth of your flocks, and you yourselves will become his slaves.&nbsp;When that day comes, you will cry out for relief from the king you have chosen, but the Lord will not answer you in that day.&#8221;</em></p></blockquote></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A Teoria das Crenças de Luxo]]></title><description><![CDATA[Eu gosto das minhas cren&#231;as como eu gosto dos meus bifes: mal passadas e folheadas a ouro.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/a-teoria-das-crencas-de-luxo</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/a-teoria-das-crencas-de-luxo</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 05 Feb 2023 05:00:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/f338249e-1f81-472d-bd4f-f888db1193dc_743x756.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Por que algu&#233;m iria comer uma carne folheada a ouro? Ou melhor, por que algu&#233;m iria pagar para comer um prato desses? Essa &#233; a pergunta que muitos de n&#243;s fizemos ao saber que uma das <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63864285#:~:text=V%C3%ADdeos-,Copa%20do%20Mundo%202022%3A%20'carne%20de%20ouro'%20comida%20por,pode%20ser%20feita%20em%20casa&amp;text=Uma%20pe%C3%A7a%20generosa%20de%20carne,com%20as%20pontas%20dos%20dedos.">atra&#231;&#245;es do Catar</a> era esse tipo de culin&#225;ria ex&#243;tica. Durante a Copa do Mundo naquele pa&#237;s, diversos jogadores futebol experimentaram a iguaria. Eu li que o prato custa aproximadamente nove mil reais. Me chamem de grosseiro, mas eu n&#227;o acredito que exista grande genialidade gastron&#244;mica em folhear uma carne com ouro. Tudo isso &#233; um exagero e, para falar bem a verdade, exagero e extravag&#226;ncia me parecem ser justamente o <em>ponto </em>dessa carne (<em>no pun intented</em>). O prato do exc&#234;ntrico chef Nusret G&#246;k&#231;e se enquadra perfeitamente no que, h&#225; mais de cem anos atr&#225;s, o soci&#243;logo Thorstein Veblen classificou como <strong>consumo consp&#237;cuo</strong>.</p><p>Em resumo, <strong>a l&#243;gica do consumo consp&#237;cuo, ou &#8220;ostentat&#243;rio&#8221;, &#233; sinalizar riqueza</strong>. Al&#233;m da satisfa&#231;&#227;o de consumir bens e servi&#231;os, sabemos que os indiv&#237;duos desejam possuir tamb&#233;m atributos &#8220;intang&#237;veis&#8221;. Honra e fama s&#227;o exemplos. Milh&#245;es de pessoas interagem nas redes sociais, expondo sua vida privada ou produzindo algum tipo de conte&#250;do apenas com o prop&#243;sito de ganhar fama. Quanto maior a fama, <strong>maior seu status dentro de um c&#237;rculo social relevante</strong>. Uma grande riqueza tamb&#233;m pode ser um jeito de mostrar seu status social. Um jeito de sinalizar riqueza mais sofisticado do que &#8220;andar com seu extrato banc&#225;rio colado na testa&#8221; &#233; adquirir bens e servi&#231;os car&#237;ssimos, <strong>cujo principal valor &#233; apenas o fato de serem caros</strong>. E, nesse caso, eu diria que n&#227;o existe uma maneira mais direta e clara de fazer isso do que <em>pagar por uma refei&#231;&#227;o literalmente folheada a ouro</em>. Afinal, o leitor &#233; um ser humano e, como tal, sabe que tudo que &#233; ingerido (e digerido) ter&#225; um destino &#250;ltimo muito claro. O prato sugere que o sujeito &#233; t&#227;o rico que&#8230; bem&#8230; voc&#234; entendeu.</p><p>Carros de luxo, canetas Montblanc, malas Louis Vuitton e a <a href="https://www.businessinsider.com/walter-rothschild-zebra-drawn-carriage-2015-7">carruagem de zebra de Lionel Rothschild</a> tamb&#233;m se encaixam nessa categoria. Elas carregam um valor que supera a simples utilidade imediata do bem. S&#227;o produtos associados a exclusividade e, na medida em que s&#227;o exclusivos, tamb&#233;m s&#227;o caros. Como apenas pessoas com alto status social t&#234;m riqueza suficiente para cometer essas extravag&#226;ncias, <strong>a mera posse do objeto j&#225; informa algo sobre seu propriet&#225;rio</strong>. Ela separa as pessoas de &#8220;alto&#8221; status das pessoas de &#8220;baixo&#8221; status social, ou pelo menos essa &#233; a ideia.</p><p>O problema &#233; que, pelo menos no Brasil, os atletas brasileiros que consumiram a carne folheada a ouro foram muito criticados. Nesse caso em particular, o consumo consp&#237;cuo n&#227;o atingiu o objetivo desejado. O prest&#237;gio e status dos jogadores n&#227;o foi elevado. Assim como em outras ocasi&#245;es recentes, numerosas demais para citar aqui, a ostenta&#231;&#227;o de bens e servi&#231;os caros foi alvo de cr&#237;ticas por uma parte consider&#225;vel do p&#250;blico. O mundo da sinaliza&#231;&#227;o de status parece ter mudado<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. O que est&#225; acontecendo?</p><p><strong>Ostenta&#231;&#227;o material &#233; t&#227;o s&#233;culo XIX, n&#227;o &#233; mesmo?</strong></p><p>Rob Henderson &#233; doutor em psicologia por Oxford, articulista para grandes jornais e autor de um excelente <a href="https://robkhenderson.substack.com/">Substack</a> com milhares de inscritos (o qual, por sinal, eu recomendo). Ele ganhou notoriedade com um <a href="https://nypost.com/2019/08/17/luxury-beliefs-are-the-latest-status-symbol-for-rich-americans/">artigo</a> no qual ele apresenta ao mundo sua teoria sociol&#243;gica chamada &#8220;Cren&#231;as de Luxo&#8221;. Trata-se de um conceito sim&#233;trico ao conceito de bens de luxo associados ao consumo consp&#237;cuo de Veblen. O pr&#243;prio Henderson explica:</p><blockquote><p><em>&#8220;No passado, os americanos de classe alta costumavam exibir seu status social com bens de luxo. Hoje, eles fazem isso com cren&#231;as de luxo.&#8221;</em></p></blockquote><p>O primeiro exemplo de cren&#231;as de luxo dado por Henderson s&#227;o aquelas sobre a &#8220;estrutura familiar&#8221;:</p><blockquote><p><em>&#8220;Um exemplo de cren&#231;a de luxo &#233; a de que todas as estruturas familiares s&#227;o iguais. Isso n&#227;o &#233; verdade. Os ind&#237;cios s&#227;o claros de que fam&#237;lias com dois pais casados &#8203;&#8203;s&#227;o as mais ben&#233;ficas para crian&#231;as pequenas. E, no entanto, pessoas ricas e instru&#237;das criadas por pais casados &#8203;&#8203;s&#227;o mais propensas do que as demais a acreditar que a monogamia est&#225; ultrapassada, que o casamento &#233; uma farsa ou que todas as fam&#237;lias s&#227;o iguais.&#8221;</em></p></blockquote><p>Segundo Henderson, cren&#231;as &#8220;mais liberais" sobre casamento s&#227;o mais comum nas classes sociais mais abastadas. Em particular, esse tipo de cren&#231;a tamb&#233;m &#233; dominante entre figuras da m&#237;dia e frequentemente aparece em programas e shows de televis&#227;o. H&#225; um certo "ar de cultura" e "progressismo" associado a ela. Por outro lado, ideias e cren&#231;as que reconhecem a import&#226;ncia de uma fam&#237;lia estruturada s&#227;o vistas como &#8220;caipiras&#8221;, ou seja, associadas a um pensamento de pessoas de "baixo status social". Por qu&#234;? Qual o mecanismo que est&#225; em funcionamento?</p><p>Para o autor, <strong>a l&#243;gica das cren&#231;as de luxo &#233; a mesma dos bens de luxo</strong>. Assim como chap&#233;us extravagantes de estilistas famosos, as cren&#231;as de luxo s&#227;o algo que apenas ricos poderiam colocar em suas cabe&#231;as. O motivo &#233; simples: s&#227;o cren&#231;as cujos desdobramentos negativos ter&#227;o pouco ou nenhum impacto sobre as pessoas ricas. Os efeitos negativos s&#243; s&#227;o caros demais para pessoas pobres. Ou seja, a elite &#233; suficientemente rica para &#8220;pagar por essas cren&#231;as&#8221;.</p><p>O exemplo da cren&#231;a sobre estrutura familiar &#233; muito ilustrativo. Os ricos podem defender que o casamento &#233; uma institui&#231;&#227;o ultrapassada e que n&#227;o existe um jeito melhor ou pior de estruturar uma fam&#237;lia. <strong>Eles s&#227;o ricos, ora bolas</strong>. A riqueza deles pode absorver qualquer imprevisto ou &#8220;choque&#8221; negativo. Uma gravidez fora de um casamento, por exemplo, pode ser muito mais facilmente administrada se voc&#234; tem recursos. Dinheiro compra fraldas, bab&#225;s em tempo integral e boas escolas. Por outro lado, se voc&#234; &#233; pobre, uma gravidez sem uma estrutura familiar pode prejudicar enormemente as pessoas diretamente envolvidas.</p><p>Outro exemplo interessante utilizado por Rob Henderson &#233; a opini&#227;o de que "a pol&#237;cia deveria ser abolida". Esta proposta radical e um tanto absurda ganhou destaque nos Estados Unidos durante os protestos contra a viol&#234;ncia policial em 2020. A opini&#227;o de que a pol&#237;cia deveria acabar era desproporcionalmente popular entre a elite americana<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Novamente, apenas pessoas muito ricas poderiam se dar ao luxo de propagar essa ideia, afinal, elas moram em bairros com densidade populacional relativamente baixa e podem pagar por seguran&#231;a privada. A falta de policiamento raramente foi um problema para elas. A viol&#234;ncia urbana &#233; um fen&#244;meno mais presente em comunidades de renda mais baixa e afeta diretamente, por exemplo, pequenos comerciantes. A falta de policiamento, na medida em que encoraja a pr&#225;tica de crimes, torna os bairros mais violentos lugares in&#243;spitos para empres&#225;rios, deprime o valor das propriedades e reduz as oportunidades de emprego locais. Os efeitos combinados acabam condenando aquela regi&#227;o &#224; pobreza.</p><p><strong>Cren&#231;as de luxo s&#227;o importantes</strong></p><p>O efeito delet&#233;rio das cren&#231;as de luxo &#233; que, ao propag&#225;-las atrav&#233;s dos meios culturais (academia, m&#237;dia de entretenimento e escolas), a elite acaba enfraquecendo <em>normas sociais</em> as quais, embora longe de serem perfeitas, potencialmente desempenhavam fun&#231;&#245;es importantes para a sociedade. A estrutura familiar e a garantia da lei da ordem, por exemplo, s&#227;o importantes justamente para os indiv&#237;duos que n&#227;o possuem recursos suficientes para absorver choques dessas naturezas. Bairros mais pobres e pequenos empres&#225;rios sofrem com a criminalidade, e filhos de m&#227;es solteira t&#234;m, tudo o mais constante, maiores problemas em diversas &#225;reas da vida. &#201; nesses termos que Rob Henderson define o conceito:</p><div class="pullquote"><p><em>&#8220;Cren&#231;as de Luxo s&#227;o ideias e opini&#245;es que conferem status aos ricos, enquanto cobram um pre&#231;o alto da classe baixa.&#8221;</em></p></div><p>Opini&#245;es &#8220;liberais&#8221; sobre, por exemplo, policiamento, casamento tradicional, imigra&#231;&#227;o<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> e o papel que o m&#233;rito tem no desempenho profissional<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a> conferem status &#224;queles que as proferem publicamente<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>. O custo da propaga&#231;&#227;o delas, no entanto, &#233; alto apenas para fam&#237;lias e pessoas pobres, pois os indiv&#237;duos mais abastados podem tranquilamente se proteger das suas consequ&#234;ncias negativas<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>. Esses dois fatos combinados fazem com que a cren&#231;a de luxo atue da mesma forma que bens de luxo: <strong>S&#227;o sinais que separam ricos de pobres, ou alto status de baixo status social.</strong></p><p><strong>Problemas com a teoria: Cren&#231;as s&#227;o bens n&#227;o rivais e n&#227;o excludentes.</strong></p><p>A tese de Rob Henderson &#233; interessante e parece descrever um fen&#244;meno social real. O conjunto de cren&#231;as &#8220;liberais&#8221; parece ser realmente mais comum entre as elites, principalmente mais jovens e escolarizadas, e parecem estar positivamente associadas a um maior status social (uma turma mais chique, mais esclarecida e elegante). Al&#233;m disso, as potenciais repercuss&#245;es negativas dessas cren&#231;as de fato parecem que afetar desproporcionalmente os mais pobres. H&#225;, portanto, um claro incentivo para que os ricos as defendam como forma de sinalizar sua posi&#231;&#227;o social, separando-se dos demais. </p><p>No entanto, parece-me que a similaridade entre bens e cren&#231;as de luxo n&#227;o &#233; total. H&#225; uma diferen&#231;a essencial na natureza destes objetos. Bens de luxo como BMWs, Ferraris e Montblancs s&#227;o <em>bens privados. </em>Pessoas que n&#227;o podem pagar por uma Ferrari nunca v&#227;o conseguir ter uma em suas garagens. Al&#233;m disso, enquanto o dono dela a estiver usando, ningu&#233;m mais conseguir&#225; pilot&#225;-la, afinal s&#243; existe um assento de motorista. Ou seja,<strong> </strong>ela &#233; um bem excludente e rival (voc&#234; pode aprender mais sobre os quatro tipos de bens na nota de rodap&#233; n&#250;mero sete<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a>).  <strong>O mesmo racioc&#237;nio n&#227;o &#233; v&#225;lido para cren&#231;as, sejam elas de luxo ou n&#227;o. </strong></p><p>Cren&#231;as sobre policiamento ou casamento s&#227;o <em>bens p&#250;blicos</em>. &#201; imposs&#237;vel excluir outras pessoas de terem essas cren&#231;as e, al&#233;m disso, elas n&#227;o &#8220;gastam&#8221;, ou seja, voc&#234; e eu podemos ter exatamente a mesma cren&#231;a, ao mesmo tempo, sem problema algum. Portanto, nada impede que pessoas &#8220;de fora da elite&#8221; professem publicamente essas mesmas cren&#231;as <strong>com o intuito de sinalizar um status que n&#227;o possuem</strong>. O &#250;nico desincentivo a fazer isso &#233; um tanto abstrato e indireto: consequ&#234;ncias potencialmente negativas que a propaga&#231;&#227;o dessas cren&#231;as ter&#227;o na sociedade, as quais afetar&#227;o desproporcionalmente as pessoas &#8220;de fora da elite&#8221;. A quest&#227;o &#233; saber se esse desincentivo &#233; suficientemente forte para dissuadi-las de tentarem se disfar&#231;ar de &#8220;ricas&#8221;. Em outras palavras, ser&#225; que esse desincentivo &#233; alto o bastante para que &#8220;defender cren&#231;as de luxo&#8221; seja um sinal informativo sobre o status social e riqueza? Se ele n&#227;o for alto o bastante, pessoas &#8220;de fora da elite&#8221; v&#227;o defender essas cren&#231;as e, ao fazerem isso, tais cren&#231;as perdem o efeito sinalizador. </p><p>No curto e m&#233;dio prazo, at&#233; pode ser que esse custo seja alto o bastante para sinalizar status. No entanto, gradativamente, essas ideias v&#227;o sendo difundidas entre as pessoas que n&#227;o fazem parte da &#8220;elite&#8221;. Assim como uma bolsa da Louis Vuitton falsificada, elas podem tentar emular essas cren&#231;as liberais sobre a organiza&#231;&#227;o da sociedade. &#201; muito prov&#225;vel que isso aconte&#231;a, pois, do ponto de vista individual, o efeito negativo de &#8220;apenas voc&#234;&#8221; defender essas ideias publicamente &#233; muito pequeno (sua influ&#234;ncia individual sobre as normas sociais &#233; &#237;nfimo). Portanto, <strong>o seu benef&#237;cio de sinalizar status supera o custo</strong>. Em ess&#234;ncia, podemos interpretar as normas sociais como <em>bens comuns</em> de nossa civiliza&#231;&#227;o. Como todo bem comum, elas est&#227;o a merc&#234; do comportamento oportunista: &#8220;<em>se eu n&#227;o &#8216;tuitar&#8217; essa cren&#231;a bonita na forma de uma hashtag agora, outra pessoa vai fazer no meu lugar e vai aproveitar o sinal, ent&#227;o &#233; melhor eu fazer.</em>&#8221;. Com isso, paulatinamente, normas sociais potencialmente importantes v&#227;o sendo destru&#237;das, assim como <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Trag%C3%A9dia_dos_comuns">as pastagens e locais de pescas comuns</a>.</p><p>A boa not&#237;cia &#233; que esse processo de populariza&#231;&#227;o das cren&#231;as acaba destruindo o seu poder de sinaliza&#231;&#227;o. Dessa forma, as elites v&#227;o gradativamente perdendo interesse em propag&#225;-las pelos meios culturais. Em outras palavras, &#8220;elas v&#227;o saindo de moda&#8221;. A quest&#227;o saber o que vir&#225; primeiro: o abandono dessas ideias ou a eros&#227;o total das normas sociais que elas visavam atacar? </p><p>Eis a&#237; uma pergunta folheada a ouro.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Basta imaginar com seria o  <em>feed </em>do Warren Buffet se ele andasse com uma carruagem movida a zebras no Central Park.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Ver slide treze dessa <a href="https://robkhenderson.substack.com/p/status-symbols-and-the-struggle-for">apresenta&#231;&#227;o</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Outra ideia comum entre esse grupo de pessoas &#233; a defesa da elimina&#231;&#227;o total de barreiras migrat&#243;rias entre os pa&#237;ses. Essa &#233; uma ideia radical que tamb&#233;m &#233; defendida por muitos economistas. Para uma vers&#227;o n&#227;o politicamente correta do assunto, leiam <a href="https://www.amazon.com.br/Wanted-Workers-Unraveling-Immigration-Narrative/dp/0393249018">We Wanted Workers: Unraveling the Immigration Narrative</a>. Aqui, novamente, vigora a defini&#231;&#227;o de Henderson: pessoas ricas s&#227;o as menos afetadas com os efeitos negativos que uma migra&#231;&#227;o totalmente desordenada pode gerar na sociedade. No entanto, elas ganham status social ao defender essa ideia.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>H&#225; uma cr&#237;tica disseminada no meio acad&#234;mico e midi&#225;tico (povoado, na sua grande maioria, por pessoas abastadas) de <strong>que o esfor&#231;o pessoal n&#227;o &#233; o que determina sucesso na vida</strong>. Henderson faz refer&#234;ncia ao <a href="https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/13504851.2019.1593930">trabalho</a> de Daniels e Wang (2019) para evidenciar que essa cren&#231;a &#233; mais comum entre os indiv&#237;duos de renda mais alta. Ricos j&#225; colocam seus filhos nas melhores escolas e oferecem todas as condi&#231;&#245;es para eles tenham bons prospectos na vida. A no&#231;&#227;o de m&#233;rito, &#233;tica do trabalho e esfor&#231;o individual &#233; justamente mais importante nas comunidades e fam&#237;lias de mais baixa renda, onde as condi&#231;&#245;es iniciais s&#227;o piores. A eros&#227;o desses conceitos, portanto, prejudica desproporcionalmente os mais pobres.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Cren&#231;as de luxo s&#227;o majoritariamente associadas a valores &#8220;liberais&#8221;. Uma quest&#227;o interessante &#233; saber a raz&#227;o disso. Curiosamente, segundo <a href="https://www.amazon.com.br/Aquinas-Market-Toward-Humane-Economy/dp/0674986407/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=15JPHYCAGOINU&amp;keywords=Aquinas+and+the+market&amp;qid=1675533545&amp;sprefix=aquinas+and+the+marke%2Caps%2C269&amp;sr=8-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.4bddec23-2dcf-4403-8597-e1a02442043d">Mary Hirschfeld</a> (e Santo Tom&#225;s de Aquino), <strong>existem duas virtudes que requerem riqueza para serem exercidas: Liberalidade e Magnific&#234;ncia.</strong> A liberalidade &#233; a virtude de conceder &#8220;presentes&#8221; (<em>gifts)</em> para as pessoas. &#201; algo diferente de &#8220;dar esmola&#8221;, pois, segundo a autora, a primeira est&#225; relacionada a rela&#231;&#227;o que voc&#234; tem com as outras pessoas, j&#225; a segunda diz respeito a suprir uma necessidade do pr&#243;ximo. Grosso modo, a liberalidade significa dar presentes, como, por exemplo, presentes aos nossos amigos. Quanto maior a riqueza, mais liberalidade dever&#237;amos ter. A virtude da liberalidade, portanto, &#233; um valor pr&#243;prio da aristocracia, da elite.</p><p>Em certo sentido, podemos interpretar cren&#231;as e valores &#8220;liberais&#8221; como presentes. S&#227;o presentes na forma de toler&#226;ncia e generosidade que uma sociedade concede a grupos ou indiv&#237;duos espec&#237;ficos. As cren&#231;as de luxo sobre casamento, por exemplo, talvez se originem de um desejo de &#8220;n&#227;o julgar&#8221; ou &#8220;n&#227;o ofender&#8221; uma pessoa em particular. &#201; uma esp&#233;cie de concess&#227;o que o sujeito faz para algu&#233;m com que ele deseja fazer amizade. Isso &#233; particularmente evidente em ambientes acad&#234;micos onde um dos objetivos principais &#233; fazer a outra pessoa se &#8220;sentir bem&#8221;. Por melhor que sejam as inten&#231;&#245;es, no entanto, o uso desordenado dessa liberalidade pode provocar uma eros&#227;o de normas sociais importantes, principalmente para as pessoas mais pobres. Aqui, escondida numa simples nota de rodap&#233;, est&#225; o que me parece ser a raiz do problema: O cultivo e sinaliza&#231;&#227;o da virtude da liberalidade, pr&#243;prio das classes mais altas, gera uma externalidade negativa para a sociedade com um todo.<strong> A elite n&#227;o internaliza esse custo justamente pelo fato de ser elite.</strong></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Nassim Taleb diria que os ricos,  ao propagar tais cren&#231;as, n&#227;o t&#234;m <em>skin in the game </em>(em bom portugu&#234;s: n&#227;o est&#227;o com o deles na reta)<em>. </em>E &#233; justamente esse o ponto. A sua despreocupa&#231;&#227;o em propor ideias estapaf&#250;rdias, por&#233;m &#8220;bonitas&#8221;, &#233; justamente o que sinaliza o seu status e, portanto, &#233; o que motiva a sua decis&#227;o de prop&#244;-las publicamente.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>Existem quatro tipos de bens: privados, p&#250;blicos, comuns e do tipo &#8220;clubes&#8221;. O que determina o tipo de um bem &#233; o grau de exclusividade e rivalidade que ele possui. Garrafas d&#8217;&#225;gua s&#227;o <em>bens privados,</em> pois &#233; f&#225;cil impedir que pessoas que n&#227;o pagaram por ela a consumam (exclusividade) e, se eu estou tomando a &#225;gua, voc&#234; n&#227;o consegue tom&#225;-la (rivalidade). Show de fogos de artif&#237;cio em Copacabana &#233; um <em>bem p&#250;blico</em>: n&#227;o tem como impedir ningu&#233;m de assistir aos fogos (n&#227;o exclusividade) e se eu estiver na praia assistindo, isso n&#227;o te impede de ficar do meu lado e assistir tamb&#233;m (n&#227;o rivalidade). Peixes em um rio &#233; um <em>bem comum</em>, pois, embora seja dif&#237;cil excluir pessoas de pescar no rio (n&#227;o exclusividade), o peixe que eu pesquei &#233; meu e voc&#234; n&#227;o pode consumi-lo (rivalidade). Por fim, existem os <em>clubes</em>. Pense na sua televis&#227;o por assinatura e, em particular, o <em>pay-per-view</em> do Brasileir&#227;o: F&#225;cil de excluir as pessoas de consumir (exclusividade), mas, se voc&#234; colocar a televis&#227;o no bar da esquina, a rua inteira vai poder assistir (n&#227;o rivalidade) &#8212; at&#233; algu&#233;m fazer uma den&#250;ncia para a empresa de televis&#227;o, claro.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Mercado Estranho - parte 2]]></title><description><![CDATA[Um utilitarista pessimista continua sendo um utilitarista.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-mercado-estranho-parte-2</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-mercado-estranho-parte-2</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 29 Jan 2023 04:46:01 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/dcf6a9e6-8372-4550-9b2b-ded22c0d13fc_848x565.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No artigo anterior, vimos que o seguro pode ser interpretado como uma forma de transferir recursos entre diferentes realidades paralelas. Voc&#234; transfere uma parte dos recursos das realidades em que os desastres n&#227;o aconteceram, e divide esse montante entre os universos em que as coisas deram muito errado. A rejei&#231;&#227;o ao risco faz com que voc&#234; queira manter em todas as realidades mais ou menos o mesmo padr&#227;o de consumo, no sentido de que um real adicional ter&#225; o mesmo impacto no seu bem-estar em todos os mundos existentes.</p><p>Embora a analogia seja &#250;til para entender o que seguro est&#225; fazendo, a verdade &#233; que o mercado de seguro funciona apenas em certas ocasi&#245;es e para coisas espec&#237;ficas. Seguro da casa, do carro e de vida s&#227;o alguns exemplos. N&#227;o existem seguros para coisas mais abstratas e de dif&#237;cil mensura&#231;&#227;o, pois o contrato seria muito dif&#237;cil de ser escrito, sem falar nos problemas informacionais envolvidos<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. N&#227;o, &#233; imposs&#237;vel criar um mercado de seguros que mimetize o nosso exerc&#237;cio de imagina&#231;&#227;o dos universos paralelos. Na nossa hist&#243;ria, um indiv&#237;duo n&#227;o tem muito o que fazer em rela&#231;&#227;o a sua sorte. A distribui&#231;&#227;o de realidades que ele observa &#233; a que est&#225; dispon&#237;vel.</p><p>Diante desta situa&#231;&#227;o, ser&#225; que podemos comparar <strong>duas distribui&#231;&#245;es entre si</strong>? Isto &#233;, ser&#225; que somos capazes de olhar para duas distribui&#231;&#245;es diferentes e afirmar que uma &#233; melhor do que outra? Em cada realidade o indiv&#237;duo ter&#225; um n&#237;vel de bem-estar espec&#237;fico em fun&#231;&#227;o do seu n&#237;vel de renda ali. A distribui&#231;&#227;o de realidades gera uma distribui&#231;&#227;o de bem-estar e, portanto, poder&#237;amos comparar-las para saber qual seria mais prefer&#237;vel.</p><p>Imagine que as diferentes realidades possam ser observadas como um explorador que, no alto de uma montanha, observa uma paisagem. Cada uma das realidades corresponde a uma regi&#227;o no vasto territ&#243;rio at&#233; onde a vista do explorador alcan&#231;a. Na paisagem, existem o&#225;sis com &#225;gua fresca, desertos escaldantes e congelantes, ravinas e cordilheiras, colinas e vales verdejantes com riachos e florestas. Existem tamb&#233;m cavernas e abismos profundos onde ningu&#233;m nunca o fundo. Da mesma forma, o nosso personagem observa as diferentes realidades, algumas delas absolutamente gloriosas, enquanto outras terr&#237;veis demais para descrever. Metodicamente, o personagem atribui a cada uma delas uma nota que corresponde a sensa&#231;&#227;o de bem-estar que ele sentiria se acordasse amanh&#227; ali: feliz em um o&#225;sis com sombra e &#225;gua fresca, ou sofrendo em uma g&#233;lida tundra.</p><p>As notas de bem-estar de cada realidade<strong> formam uma distribui&#231;&#227;o, cujas informa&#231;&#245;es podem ser sumarizadas</strong>. Podemos, por exemplo, tirar a m&#233;dia dessas notas e saber o valor m&#233;dio de bem-estar da paisagem que o sujeito est&#225; observando. Essa m&#233;dia poderia ser um crit&#233;rio para comparar diferentes &#8220;paisagens&#8221; ou distribui&#231;&#245;es de realidades. Entre duas distribui&#231;&#245;es, poder&#237;amos dizer que aquela com a maior m&#233;dia &#233; a melhor. Simples, n&#227;o? Bem&#8230; Existem alguns detalhes importantes aqui. Embora a medida seja simples, ela esconde algumas implica&#231;&#245;es que precisam ser melhor compreendidas. </p><p>Imagine duas distribui&#231;&#245;es de realidades. Em uma delas, a paisagem &#233; tediosa, todos os acidentes geogr&#225;ficos s&#227;o similares, o vasto territ&#243;rio &#233; composto de apenas um padr&#227;o determinado. Todas as realidades geram o mesmo bem-estar e, portanto, a m&#233;dia da distribui&#231;&#227;o ser&#225; esse mesmo valor. Em contrapartida, a segunda distribui&#231;&#227;o de realidades &#233; mais emocionante. Trata-se de uma paisagem com acidentes geogr&#225;ficos e regi&#245;es pitorescas, alguns que se parecem com o Jardim do &#201;den, enquanto outros com o inferno na terra. A distribui&#231;&#227;o de bem-estar nesse caso &#233; bem mais variada. Vamos supor que a m&#233;dia dessa distribui&#231;&#227;o seja maior do que a da paisagem tediosa. Pela l&#243;gica da maior m&#233;dia, faria sentido escolher a segunda distribui&#231;&#227;o, pois, na m&#233;dia, o bem-estar &#233; maior. Faz sentido isso? Pode ser que sim, <strong>mas entenda que, ao escolh&#234;-la, voc&#234; correr o risco de acabar no inferno na terra</strong>. Ou seja, h&#225; um elemento de risco a ser considerado.</p><p>Existem outros crit&#233;rios de compara&#231;&#227;o al&#233;m de olhar simplesmente para a m&#233;dia. Tudo depende do qu&#227;o pessimista ou medroso voc&#234; &#233;. Relembrando, a distribui&#231;&#227;o de que estamos falando s&#227;o dos tipos de universos em que voc&#234; poder&#225; acabar caindo. Olhar para a m&#233;dia faz sentido quando voc&#234; n&#227;o se importa com o risco, e sup&#245;e que a chance de cair em um universo em particular &#233; a mesma para os demais universos. Agora, o que acontece quando voc&#234; se importa com risco? Nesse caso, a m&#233;dia n&#227;o vai ser suficiente para tomar a tomar a decis&#227;o.</p><p>Para entender o que precisa ser considerado, &#233; &#250;til nos colarmos na posi&#231;&#227;o de um pessimista convicto. Enquanto o sujeito que n&#227;o se importa com risco pensa apenas na m&#233;dia de bem-estar, <strong>o pessimista pensa no pior cen&#225;rio poss&#237;vel</strong>. Ele tem motivos para acreditar que a natureza (ou a entidade que vai definir em que realidade ele vai parar) tem objetivos antag&#244;nicos aos dele e, portanto, <strong>est&#225; contra ele</strong>. Se &#233; essa sua vis&#227;o a realidade, ent&#227;o definitivamente n&#227;o &#233; para a m&#233;dia das distribui&#231;&#245;es que voc&#234; deveria estar olhando. Nesse cen&#225;rio, voc&#234; tem motivos de sobra <strong>para se importar apenas com o bem-estar da pior realidade da distribui&#231;&#227;o, pois &#233; onde voc&#234; acredita que ir&#225; parar</strong>. Entre as duas distribui&#231;&#245;es &#8212; mon&#243;tona e emocionante &#8212; <strong>voc&#234; vai escolher aquela em que o bem-estar do pior lugar &#233; maior.</strong> No exemplo em particular, voc&#234; vai escolher a distribui&#231;&#227;o mon&#243;tona, <strong>mesmo que m&#233;dia dela seja menor</strong>.</p><p><strong>Harsanyi vs. Rawls</strong></p><p>O pessimista convicto e o sujeito que n&#227;o se importa com risco s&#227;o representa&#231;&#245;es de diferentes vers&#245;es do utilitarismo<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. O exerc&#237;cio imaginativo das realidades paralelas pode ser utilizado para comparar diferentes distribui&#231;&#245;es de bem-estar na sociedade. Para isso percebermos isso, basta modific&#225;-lo levemente. Ao inv&#233;s de imaginar que os diversos universos s&#227;o poss&#237;veis destinos para voc&#234;, pense que cada um desses mundos ser&#225; habitado por alguma pessoa. Nesse caso, o que voc&#234; est&#225; observando &#233; a distribui&#231;&#227;o hipot&#233;tica de bem-estar social da sociedade. No entanto, perceba que quem ir&#225; habitar qual realidade ainda &#233; desconhecido. Ou seja, a sua posi&#231;&#227;o no mundo e a posi&#231;&#227;o das demais pessoas &#233; incerta e encoberta por uma esp&#233;cie de <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Original_position">v&#233;u</a>.</p><p>Nessa &#8220;posi&#231;&#227;o original&#8221;, onde voc&#234; e seus vizinhos n&#227;o sabem em que lugar v&#227;o parar, poder&#237;amos refletir sobre qual &#233; o crit&#233;rio de escolha mais sensato se fosse poss&#237;vel escolhermos entre diversas distribui&#231;&#245;es de realidades. N&#243;s gostar&#237;amos de uma distribui&#231;&#227;o cuja m&#233;dia de bem-estar das pessoas &#233; alta, ou uma distribui&#231;&#227;o em que a pior das posi&#231;&#245;es seja melhor do que a pior posi&#231;&#227;o da distribui&#231;&#227;o alternativa? Lembre-se que nosso objetivo &#233; pensar em um crit&#233;rio que seja razo&#225;vel, que seja aceit&#225;vel para todos, em princ&#237;pio.</p><p>John Harsanyi, vencedor do pr&#234;mio Nobel de economia em 1994, prop&#245;e o crit&#233;rio cl&#225;ssico utilitarista, onde se deveria garantir o maior bem-estar poss&#237;vel para o maior n&#250;mero de pessoas o que, na pr&#225;tica, significa almejar a maior m&#233;dia de bem-estar poss&#237;vel. Isso significa que, entre duas distribui&#231;&#245;es, ele vai preferir aquela em que o bem-estar social m&#233;dio seja o mais alto. Por outro lado, temos o fil&#243;sofo John Rawls, que defende a posi&#231;&#227;o do sujeito pessimista. Para Rawls, o que importa &#233; <strong>maximizar ou aumentar o bem-estar do pior dos mundos em que a pessoa pode parar</strong>. Impl&#237;cito em sua proposta est&#225; uma esp&#233;cie de paran&#243;ia, uma ideia de que a natureza ou &#8220;a Realidade&#8221; est&#225; jogando contra e que, portanto, &#233; melhor se preparar para o pior. Ou seja, entre duas distribui&#231;&#245;es de bem estar, ele vai optar por aquela em que o menor bem-estar poss&#237;vel &#233; maior. </p><p>Qual dos dois est&#225; certo? Se seguirmos um crit&#233;rio de razoabilidade, nem Rawls nem Harsanyi parecem ser suficientes. Por exemplo, as pessoas comuns me parecem estar em algum lugar no meio entre esses dois<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. Al&#233;m disso, ao tentar responder essa pergunta, implicitamente j&#225; estamos aceitando que essas vers&#245;es do utilitarismo s&#227;o crit&#233;rios adequados para responder perguntas sobre qual sociedade &#233; melhor. Esse &#233; um grande cheque em branco para o utilitarismo &#8220;lato senso&#8221; que, bem, tem l&#225; sua utilidade, mas est&#225; longe de ser uma solu&#231;&#227;o definitiva.</p><p><strong>Refer&#234;ncias:</strong></p><p><em>Jehle and Reny (2011): Advanced Microeconomic Theory, p&#225;ginas 288 at&#233; 290.</em></p><p><em>Arrow (1973). &#8220;Some Ordinais Utilitarian Notes on Rawls&#8221;, Journal of Philosophy, 70: 245-263.</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>O pr&#243;prio seguro de carro, que &#233; extremamente difundido na sociedade, sofre com esses problemas. Quando voc&#234; faz um seguro de carro, por exemplo, o seu comportamento em rela&#231;&#227;o a ele muda. Voc&#234; tem menos cuidado com ele, afinal, ele tem um seguro. Essa mudan&#231;a de comportamento muda as probabilidades de acidente. Se esse mercado de seguro j&#225; n&#227;o &#233; trivial, imagine um seguro contra problemas mais complexos. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Utilitarismo + &#8220;avers&#227;o a risco infinita&#8221; produzem a formula&#231;&#227;o de prefer&#234;ncias propostas por John Rawls. Logo, sua proposta &#233; um caso particular do arcabou&#231;o utilitarista. Por isso eu vou chamar ele de utilitarista. Um utilitarista pessimista e com mania de persegui&#231;&#227;o, &#233; verdade,<em> but still</em>...</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Na realidade, o modelo utilitarista admite qualquer grau de avers&#227;o ao risco. Arrow (1973) mostra isso ao lembrar que as utilidades podem ser transformadas em utilidades esperadas, as quais podem incorporar o elemento de avers&#227;o ao risco desejado.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Mercado Estranho]]></title><description><![CDATA[O mercado de seguros &#233; uma forma de transferir recursos entre diferentes realidades.]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/o-mercado-estranho</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/o-mercado-estranho</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 22 Jan 2023 18:54:39 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/15353ddf-a6c3-4c96-bfac-0620da4a02e3_1665x1080.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><em>"Este universo &#233; apenas um de um n&#250;mero infinito. Mundos sem fim. Alguns benevolentes e doadores de vida. Outros cheios de mal&#237;cia e fome. Lugares escuros onde poderes mais antigos do que o tempo jazem vorazes... e esperando."</em></p><p>&#8212; Doutor Estranho, 2016</p></blockquote><p>Al&#233;m de uma especula&#231;&#227;o metaf&#237;sica, a possibilidade de m&#250;ltiplos universos e paralelos &#233; um conceito que povoa a mente de escritores e roteiristas. Ele pode tanto ser usado em hist&#243;rias de aventura, quanto com&#233;dia e terror. Por exemplo, a exist&#234;ncia de universos desconhecidos, onde absolutamente tudo &#233; diferente e desconhecido &#233;&#8230; <em>estranha</em>; e coisas estranhas s&#227;o o combust&#237;vel das hist&#243;rias de terror mais eficazes. Claro, na pior das hip&#243;teses, o conceito &#233; um truque para corrigir ou reiniciar franquias multimilion&#225;rias de cinema, al&#233;m de criar <em>cliffhangers</em> bomb&#225;sticos, mas que se resolvem de forma decepcionante<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. <strong>Ele tamb&#233;m &#233; uma &#243;tima oportunidade para aprender sobre o que estamos fazendo quando compramos um seguro</strong>.</p><p>***</p><p>Na sua vida, voc&#234; vai participar de tr&#234;s tipos de mercados<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. O primeiro &#233; o mais simples e &#233; aquele em que voc&#234; compra ketchup no supermercado e aulas de baixo pela internet. Voc&#234; tamb&#233;m pode ser o baixista que vende as aulas, &#233; claro. Na verdade, se incluirmos o mercado de trabalho nessa categoria, a maioria de n&#243;s &#233; um vendedor tamb&#233;m.<strong> Esse &#233; o mercado em que voc&#234; pode comprar e vender coisas agora, no presente</strong>. Os outros dois mercados s&#227;o mais esquisitos e eu vou apresent&#225;-los em ordem crescente de estranheza.</p><p>O pr&#243;ximo &#233; o mercado de cr&#233;dito. Estamos acostumados a financiar uma casa, um carro ou at&#233; mesmo um celular. Fazemos isso quando o bem que queremos adquirir <strong>hoje</strong> custa uma quantidade de recursos maior do que a que temos no momento. Eu digo &#8220;no momento&#8221;, pois, a menos que dar um calote esteja nos seus planos, voc&#234;<strong> </strong>tem sim dinheiro suficiente para pagar o bem em quest&#227;o. O problema &#233; que boa parte desse dinheiro est&#225; presa no futuro. Ningu&#233;m toma suas decis&#245;es apenas mirando o presente. A conta para saber se voc&#234; pode pagar por um determinado bem leva em conta a sua expectativa de renda futura.</p><p>O financiamento de um apartamento &#233; poss&#237;vel, porque o banco tem uma expectativa suficientemente otimista de que voc&#234; conseguir&#225; gerar renda para pagar o valor do im&#243;vel. Como resultado, voc&#234; faz um gasto enorme com consumo hoje (&#8220;gasta&#8221; centenas de milhares de reais do seu fluxo de renda da vida inteira) e, em troca, voc&#234; abre m&#227;o de consumir menos nos, por exemplo, trezentos e sessenta meses seguintes. Isso significa que o mercado de cr&#233;dito, na verdade, nada mais &#233; do que uma forma de <strong>voc&#234; transferir consumo ao longo do tempo com voc&#234; mesmo</strong>. Os contratos de empr&#233;stimos destravam recursos futuros que estavam congelados no tempo. Claro, a quantidade de recursos que voc&#234; consegue destravar no futuro chega no presente em menor quantidade por causa da taxa de juros. A taxa de juros &#233; o custo de faz&#234;-los viajar para o tempo presente. Ela existe porque, para que seja poss&#237;vel fazer essa viagem, algu&#233;m est&#225; deixando de consumir hoje para consumir mais no futuro. Com esse mercado, portanto, voc&#234; consegue usar recursos do futuro para usar o mercado de bens e servi&#231;os hoje.</p><p>***</p><p>O mercado mais estranho, sem d&#250;vidas, &#233; o mercado de seguros. Para entender o que ele est&#225; fazendo, precisamos nos colocarmos no lugar de um personagem de fic&#231;&#227;o cient&#237;fica, em um mundo em que realidades paralelas ou m&#250;ltiplos universos n&#227;o s&#243; existem, mas tamb&#233;m &#233; poss&#237;vel ter alguma intera&#231;&#227;o com eles. Cada a&#231;&#227;o que voc&#234; toma lhe coloca na dire&#231;&#227;o de algum dos universos existentes. Voc&#234; n&#227;o sabe exatamente em qual deles ir&#225; cair,<strong> mas tem uma ideia de quais s&#227;o os mais prov&#225;veis</strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. Por exemplo, suponha que o personagem comprou um carro e, no momento da compra, parado ali na concession&#225;ria, est&#225; observando diferentes realidades em que vers&#245;es diferentes dele est&#227;o vivendo. Em algumas delas, a vers&#227;o do personagem sofreu uma perda de riqueza &#8212; o carro foi danificado em um acidente ou foi roubado &#8212; j&#225; em outras o carro n&#227;o sofreu nenhum arranh&#227;o e, portanto, sua riqueza foi preservada. Mesmo n&#227;o sabendo em quais das realidades o personagem vai parar, ele descobriu que em 10% das realidades ele perde o carro de alguma forma. Ou seja, de dez universos poss&#237;veis, o personagem sofre uma perda grande de riqueza em um deles.</p><p>Diante dessa not&#237;cia, uma alternativa para o personagem &#233; apenas torcer para que ele caia em algum dos mundos onde seu carro ser&#225; preservado. No entanto, o que aconteceria se ele tivesse a capacidade de transferir riqueza entre as diferentes realidades? Nesse cen&#225;rio esquisito, quando a riqueza de cada realidade n&#227;o est&#225; congelada ou travada naquela realidade espec&#237;fica, o indiv&#237;duo n&#227;o pensa nela de forma compartimentalizada.<strong> Na verdade, a riqueza dele corresponde a soma da riqueza em todas as realidades,</strong> e cabe ele distribu&#237;-la como bem entende. Por exemplo, ele pode tirar dez mil reais da realidade ER-231 e passar para a realidade XY-1450, onde, sei l&#225;, ele perdeu o carro em um esquema de pir&#226;mide envolvendo bitcoins.</p><p>Nesse contexto, o que voc&#234; faria? Eu vou tentar ajud&#225;-lo nessa resposta explicando melhor o dilema central.<strong> Voc&#234; poderia, por exemplo, arriscar e transferir toda sua riqueza para uma &#250;nica realidade</strong>. Como resultado, existir&#225; uma chance grande de voc&#234; ser muito pobre, pois em todas as realidades, exceto em uma, voc&#234; ter&#225; zero riqueza. Por outro lado, ainda que improv&#225;vel, existe chance de voc&#234; ser rico, pois existe uma realidade que concentra toda sua riqueza. &#201; uma aposta arriscada.<strong> Outra possibilidade &#233; voc&#234; distribuir sua riqueza igualmente entre todas as realidades</strong>, de tal forma que em todas elas voc&#234; ir&#225; consumir a mesma quantidade de bens e servi&#231;os. Esse &#233; um mundo sem surpresa alguma. A resposta para essa pergunta, portanto, <strong>depende do quanto voc&#234; gosta de risco</strong>. Em geral, as pessoas n&#227;o gostam de arriscar<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>. Nesse caso, elas preferem viver sem grandes surpresas e, por isso, v&#227;o preferir organizar um esquema que garante o mesmo padr&#227;o de consumo em todas as m&#250;ltiplas realidades.</p><p>Voltando para o mundo real, enquanto o mercado de cr&#233;dito permite voc&#234; trazer recursos do futuro para o presente, <strong>o mercado de seguros &#233; uma forma de transferir recursos entre diferentes realidades. </strong>O seguro de carro &#233; uma forma de enviar dinheiro (equivalente ao valor do carro, por exemplo) para a realidade em que seu carro foi roubado. Para fazer isso, voc&#234; paga uma quantia pelo seguro, a qual depende de uma s&#233;rie de fatores. Esses fatores afetam o risco de algo ruim acontecer com o seu carro (por exemplo, a idade do motorista afeta o risco de acidente). O risco &#233; uma chance, uma probabilidade. Ela tamb&#233;m pode ser interpretada como a <strong>raz&#227;o entre universos em que algo ruim acontece e o n&#250;mero total de possibilidades</strong>. </p><p>Quando as pessoas t&#234;m medo de arriscar e elas podem transferir livremente renda entre realidades, vimos que elas v&#227;o garantir o mesmo n&#237;vel de consumo em todas as realidades. Ou seja, o sujeito tem um &#8220;seguro completo&#8221; (<em>full insurance</em>), fa&#231;a chuva ou fa&#231;a sol, voc&#234; vai consumir a mesma coisa. A hist&#243;ria muda quando existe um <em>custo</em> de transferir consumo entre realidades. Suponha que, para fazer essa transfer&#234;ncia, voc&#234; precisa contratar uma pessoa que vai mandar essas grana para fora do seu universo e mandar para outro, uma esp&#233;cie de <em>TransferWise</em> do multiverso. Essa empresa vai te cobrar uma taxa, o que significa que, para cada real que voc&#234; queira mandar para fora, ela vai cobrar alguns centavos em cima. Nesse caso, mesmo tendo medo de arriscar, as pessoas v&#227;o querer comprar menos seguro, ou seja, v&#227;o colocar riqueza nos universos ruins, mas menos do que no caso do &#8220;seguro completo&#8221;.</p><p>O mercado de cr&#233;dito e o mercado de seguros, portanto, s&#227;o formas de acessar recursos que n&#227;o est&#227;o aqui e agora. Esses recursos, sejam vindos do futuro, sejam recebidos de outras realidades, s&#227;o alocados no mercado de bens e servi&#231;os do momento e universo em que voc&#234; se encontra. Claro, esses mercados n&#227;o funcionam perfeitamente. O mercado de seguros, por exemplo, tem alguns problemas de natureza informacional que o impedem de funcionar perfeitamente. Por esse motivo, n&#227;o existem seguros para todas as incertezas da vida, mas, sim, apenas para coisas espec&#237;ficas. </p><p>Pensando bem, seria interessante se a sociedade pudesse dividir inteiramente o risco entre si. Voc&#234; poderia dormir tranquilo sabendo que, assim como o seguro do seu carro, h&#225; um contrato que garante um determinado padr&#227;o de vida, n&#227;o importa o que o futuro lhe reservar. Mas n&#227;o temos como fazer isso. Sem esse seguro transcendental, o seu futuro depende da distribui&#231;&#227;o de realidades nas quais voc&#234; pode cair. A sua distribui&#231;&#227;o pode ser boa ou ruim. Na verdade, comparar a distribui&#231;&#227;o de realidades poss&#237;veis &#233; um tema interessante em si mesmo. Como saber qual distribui&#231;&#227;o de realidades &#233; melhor? Como orden&#225;-las? Acho que esse &#233; um <em>cliffhanger</em> apropriado para encerrar esta newsletter, e deixas os tr&#234;s leitores dela intrigados para a pr&#243;xima parte.</p><p><em>(To be continued)</em></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Ali&#225;s, quando eles aparecem na hist&#243;ria, &#233; o sinal para parar de assistir o filme ou seriado. </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Isso &#233; uma forma de agrupar mercados, claro. Para uma outra forma, mais interessante, ver epis&#243;dio 16 da terceira temporada de The Office, minuto 14:10.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>O porqu&#234; de voc&#234; saber disso &#233; uma quest&#227;o interessante. Talvez a chance seja a mesma em todos os universos, mas alguns universos aparecem mais vezes na sua frente e, portanto, a chance de cair ali &#233; maior.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>Ser averso ao risco significa que entre a op&#231;&#227;o de participar de uma loteria e ganhar com certeza o valor m&#233;dio do pr&#234;mio, voc&#234; prefere ganhar o valor m&#233;dio com certeza. Imagine que uma empresa te contrate e te ofere&#231;a dois tipos de contratos: o primeiro contrato diz que ela vai te pagar no final do ano ou 50 mil reais; o segundo contrato &#233; mais esquisito, pois antes de te pagar, ele faz voc&#234; jogar uma moeda para cima e, se der &#8220;cara&#8221;, voc&#234; ganha 0 reais, mas, se der &#8220;coroa&#8221;, voc&#234; ganha 100 mil. O que voc&#234; escolheria? Pois &#233;.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Scott's Tots e a Economia da Educação]]></title><description><![CDATA["Michael, isso &#233; uma coisa terr&#237;vel, terr&#237;vel que voc&#234; fez."]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/scotts-tots-e-a-economia-da-educacao</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/scotts-tots-e-a-economia-da-educacao</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 15 Jan 2023 04:56:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/31188efe-27b4-4c6c-9c7e-4cdcc26dabd7_1232x811.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p><strong>Pam:</strong><em> Michael, isso &#233; uma coisa terr&#237;vel, terr&#237;vel o que voc&#234; fez.</em></p><p><strong>Michael:</strong><em> Bem...</em></p><p><strong>Pam:</strong> <em>&#201; terr&#237;vel. Simplesmente terr&#237;vel. E quanto mais voc&#234; adiar, pior vai ficar.</em></p><p><strong>Michael:</strong> (&#8230;)<em> <strong>Eu fiz</strong> algumas <strong>promessas vazias</strong> na minha vida, mas, sem d&#250;vida, essa foi <strong>a</strong> <strong>mais generosa</strong>.</em></p></blockquote><p>Uma &#8220;generosa promessa vazia&#8221; &#233; a express&#227;o que define bem o cerne do desconfort&#225;vel epis&#243;dio intitulado <em>Scott&#8217;s Tots </em>de <em>The Office</em>. O epis&#243;dio come&#231;a com Michael Scott tentando adiar algo inevit&#225;vel. H&#225; dez anos atr&#225;s, ele havia prometido para quinze crian&#231;as de uma escola p&#250;blica que pagaria integralmente a faculdade delas. Voc&#234;, assim como eu, provavelmente assistiu a uma por&#231;&#227;o de filmes americanos, e sabe que uma fam&#237;lia de classe m&#233;dia dos EUA come&#231;a a poupar para a faculdade do filho desde que ele nasce. Isso significa que a promessa feita por Michael era <strong>milion&#225;ria</strong> e, obviamente, ele n&#227;o estava nem perto de ter capacidade de cumpri-la.</p><p>No meio do epis&#243;dio, depois de momentos constrangedores para n&#243;s e para Michael, ele, diante de uma sala lotada de alunos, pais e professores cheios daquele sorriso de uma gratid&#227;o antecipada, confessa o &#243;bvio:</p><blockquote><p><strong>Michael:</strong><em><strong> </strong>Tudo&#8230; Tudo bem. Eu vim aqui hoje porque prometi a voc&#234;s mensalidade</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>,<em> e a mensalidade &#233; algo muito estim&#225;vel. Mas voc&#234;s sabem o que &#233; inestim&#225;vel? &#201; a intui&#231;&#227;o. Voc&#234;s sabem o que &#233; isso? &#201; a capacidade de saber quando algo est&#225; prestes a acontecer. Algu&#233;m a&#237; tem intui&#231;&#227;o? Sabe o que vai acontecer a seguir? Ningu&#233;m? Ok, voc&#234;s v&#227;o me fazer dizer. Tudo bem, estou t&#227;o orgulhoso de todos voc&#234;s. Derrick, e Lefevre, e Ben, e Ayana, e Mikela, e Nikki e Jason, e&#8230; me desculpe, ok, eu estou esquecendo seu nome&#8230;</em></p><p><strong>Zion: </strong><em>Eu sou Zion, sou o irm&#227;o mais novo de Mikela.</em></p><p><strong>Michael: </strong><em>Bem, Zion, n&#227;o vou pagar sua mensalidade da faculdade. O que me leva ao meu ponto principal, que &#233; que<strong> eu n&#227;o poderei pagar a mensalidade de ningu&#233;m. Eu sinto muito.</strong></em></p></blockquote><p>Evidentemente, ap&#243;s a not&#237;cia, o caos reina na sala aula e Michael sai da escola desolado, pois, apesar de tudo, ele at&#233; &#233; um bom sujeito<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Na volta para o escrit&#243;rio, o peso da promessa vazia ainda era sentido pelo gerente regional. Ainda no carro, a secret&#225;ria Erin tenta anim&#225;-lo com uma not&#237;cia positiva:</p><blockquote><p><strong>Michael:</strong><em> (...) 15 vidas. Eu destru&#237; 15 vidas jovens hoje.</em></p><p><strong>Erin: </strong><em>N&#227;o.</em></p><p><strong>Michael:</strong> <em>Sim.</em></p><p>(&#8230;)</p><p><strong>Erin: </strong><em>O diretor me disse que 90% dos Scott's Tot&#8217;s est&#227;o prestes a se formar, <strong>e isso &#233; 35% a mais do que o resto da escola.</strong> Ent&#227;o, eu acho que se voc&#234; n&#227;o tivesse feito essa promessa, muitos deles teriam desistido. O que &#233; algo para se pensar, eu acho.</em></p></blockquote><p>Com essa informa&#231;&#227;o, o humor de Michael, e talvez o nosso, melhora. Apesar do choque colossal entre expectativa e realidade, &#233; poss&#237;vel que sua promessa tenha acidentalmente melhorado a vida de pelo menos parte dos jovens, pelo menos com aqueles que mudaram positivamente seu comportamento<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. <strong>A perspectiva de acessar a universidade estimulou os aluno a n&#227;o abandonarem o Ensino M&#233;dio</strong>.</p><p><strong>Ali&#225;s, por que terminar o Ensino M&#233;dio?</strong></p><p>Voc&#234; entra em uma barbearia para cortar o cabelo e &#233; recebido pelo barbeiro, o qual lhe instrui a sentar na cadeira do meio. Depois de vestir o avental para evitar que cabelos caiam na roupa, voc&#234; explica ao barbeiro como quer o corte e ele come&#231;a o servi&#231;o. L&#225; pelas tantas, no meio do corte, o barbeiro explica que vai precisar &#8220;sair mais cedo&#8221;, mas que n&#227;o &#233; para voc&#234; se preocupar, pois ele retomar&#225; o corte na semana que vem. Animado ao ouvir isso, voc&#234; tira o avental e, feliz, porque o corte terminou mais cedo, se arruma rapidamente para sair apenas com a parte de tr&#225;s do cabelo aparada. Algo assim nunca aconteceu com voc&#234;s? Pois &#233;, nem comigo. O barbeiro nunca fez algo do tipo e, se tivesse feito, eu jamais teria ficado feliz com isso. Entretanto, admita, leitor: Na juventude, <strong>voc&#234; ficava feliz quando o professor encerrava a aula mais cedo, n&#227;o?</strong> Pois &#233;, curioso&#8230; O que explica a diferen&#231;a entre o barbeiro e o professor?</p><p>A diferen&#231;a &#233; que o valor do corte de cabelo est&#225; no corte em si, ao passo que o valor de uma educa&#231;&#227;o &#233; uma soma de dois componentes: o conhecimento adquirido e o diploma de conclus&#227;o. O primeiro componente &#233;, em tese, o motivo de existirem institui&#231;&#245;es de ensino e professores: transmitir conhecimentos sobre t&#243;picos espec&#237;ficos e desenvolver compet&#234;ncias relativas a eles. O segundo &#233; um efeito colateral, resultado de um problema informacional. Quando voc&#234; vai falar com algu&#233;m que se diz m&#233;dico, principalmente se ele vestir um jaleco branco, &#233; muito dif&#237;cil saber se ele realmente entende de medicina ou n&#227;o. Grosso modo, o diploma &#233; um sinal que, sob certas condi&#231;&#245;es, &#233; capaz de separar as pessoas de acordo com suas habilidades. Esse sinal, portanto, tem valor mesmo que voc&#234; n&#227;o tenha aprendido nada no curso.</p><p>Por esse motivo, quando o professor encerra a aula mais cedo, voc&#234; n&#227;o fica triste, pois voc&#234; j&#225; ganhou presen&#231;a, e agora falta um dia a menos para voc&#234; ganhar seu &#8220;sinal&#8221;, digo, seu diploma. Claro, voc&#234; provavelmente n&#227;o ficaria feliz se isso acontecesse o tempo todo, afinal, espera-se que alguma coisa seja ensinada no curso, mas voc&#234; n&#227;o fica triste se isso acontecer ocasionalmente, principalmente se voc&#234; achar aquela mat&#233;ria em particular uma perda de tempo. O curso tem que ser exigente o bastante para que, ao final dele, o diploma tenha algum significado, isto &#233;, tenha conseguido distingui-lo de algu&#233;m que n&#227;o tem diploma. Ah, e seria bom se ele te ensinasse algo tamb&#233;m, afinal, n&#227;o queremos ser um Br&#225;s Cubas que, ao receber seu diploma, sentiu-se ao mesmo tempo &#8220;enganado e orgulhoso&#8221;.</p><p>Mas qual a rela&#231;&#227;o disso com o Ensino M&#233;dio? Bem, a conclus&#227;o do Ensino M&#233;dio tem esses dois efeitos tamb&#233;m. Por um lado, &#233; poss&#237;vel que voc&#234; realmente aprenda coisas valiosas para sua vida como, por exemplo, an&#225;lise combinat&#243;ria e geometria espacial. Por outro lado, o diploma tamb&#233;m &#233; um sinal para quem n&#227;o tem tempo de &#8220;conhecer a sua hist&#243;ria&#8221; profundamente. Se voc&#234; completou o Ensino M&#233;dio, isso j&#225; significa muito. Isso significa que voc&#234; sabe cumprir algumas regras, tem algum senso m&#237;nimo de responsabilidade e etc. Al&#233;m disso, com o diploma voc&#234; pode tentar ingressar na universidade, &#233; claro.</p><p><strong>Um problema de demanda</strong></p><p>Em geral, a taxa de abandono no Ensino M&#233;dio em escolas p&#250;blicas &#233; alta. Os motivos para isso s&#227;o v&#225;rios, mas posso destacar principalmente dois. Quando a escola oferece um ensino ruim, os pais e alunos tendem a perceber isso e, como consequ&#234;ncia, o incentivo de frequent&#225;-la cai consideravelmente. A qualidade afeta diretamente a decis&#227;o de frequentar a escola, pois elimina ou enfraquece o primeiro motivo para adquirir uma educa&#231;&#227;o formal: educar-se. &#8220;Tudo bem&#8221;, o leitor pode pensar, pois ainda existe o segundo motivo &#8212; obter um certificado valioso. O problema aqui &#233; que, para boa parte dos alunos da escola p&#250;blica, o acesso ao ensino superior &#233; dif&#237;cil e isso j&#225; reduz substancialmente a utilidade do diploma de Ensino M&#233;dio.</p><p>Para muitas fam&#237;lias, os dois problemas &#8212; qualidade e dificuldade de acesso a universidade &#8212; tornam pouco atraente a conclus&#227;o do Ensino M&#233;dio. Pior ainda, h&#225; uma complementariedade entre os problemas. A percep&#231;&#227;o do aluno sobre a qualidade da escola afeta negativamente a percep&#231;&#227;o dele sobre suas chances de entrar na universidade. As duas percep&#231;&#245;es combinadas reduzem o incentivo do aluno estudar, o que reduz ainda mais a percep&#231;&#227;o dele sobre a capacidade de acessar o Ensino Superior. Esse c&#237;rculo vicioso tamb&#233;m afeta os pais, pois agora eles t&#234;m menos interesse em cobrar a escola, o que, por sua vez, n&#227;o ajuda a melhorar a qualidade dela. O resultado &#233; que as aulas sobre qu&#237;mica org&#226;nica do col&#233;gio n&#227;o conseguem competir com o mercado de trabalho precoce e, portanto, o aluno acaba abandonado o Ensino M&#233;dio. </p><p><strong>S&#243; vou para a escola se me pagarem</strong></p><p>Uma forma simples de incentivar estudantes a continuarem na escola &#233; pag&#225;-los para fazerem isso. Nesses &#250;ltimos trinta anos, foi justamente isso que diversos governos fizeram quando criaram programas de transfer&#234;ncia de renda condicional. Um exemplo desse tipo de programa &#233; o Bolsa Escola, criado em 2001 pelo governo federal e que pagava um valor para as fam&#237;lias cujos filhos tivessem uma frequ&#234;ncia escolar m&#237;nima. Mais tarde, esse programa seria incorporado ao Bolsa Fam&#237;lia.</p><p>Esse tipo de programa funciona para aumentar a frequ&#234;ncia escolar, principalmente no Ensino Fundamental, quando os pais t&#234;m mais controle sobre ela. No Ensino M&#233;dio, no entanto, o estudante tem mais autonomia e o custo de oportunidade de frequentar a escola &#233; maior. Al&#233;m disso, as perspectivas de ingressar ou n&#227;o na universidade tamb&#233;m importam mais para o aluno nesse momento. Uma coisa &#233; sua motiva&#231;&#227;o para terminar o Ensino M&#233;dio sabendo que voc&#234;, muito provavelmente, ir&#225; ingressar no Ensino Superior (a realidade para a maioria dos jovens de classes mais altas), outra coisa completamente diferente &#233; uma situa&#231;&#227;o em que o ensino formal vai terminar ali mesmo. As expectativas a esse respeito importam.</p><p>Naturalmente, a expectativa de entrar na universidade depende n&#227;o s&#243; da simples conclus&#227;o do Ensino M&#233;dio. O acesso ao ensino universit&#225;rio exige dinheiro. Boas universidades p&#250;blicas s&#227;o dif&#237;ceis de entrar mesmo com a presen&#231;a de cotas para estudantes de escolas p&#250;blicas, e as boas institui&#231;&#245;es privadas s&#227;o caras. Al&#233;m disso, sem recursos financeiros, tamb&#233;m se restringem geograficamente as op&#231;&#245;es para o estudante. Por exemplo, sair de Porto Alegre para estudar em Manaus envolvem certos custos que podem ser proibitivos para os indiv&#237;duos <strong>sem uma poupan&#231;a formada</strong>. O estudante, portanto, precisa de economias, precisa de poupan&#231;a. Quem poderia fazer isso para ele s&#227;o os seus pais. O problema &#233; que, em geral, para fam&#237;lias muito pobres, formar uma poupan&#231;a &#233; um desafio grande. Se &#233; assim mesmo, ent&#227;o as pol&#237;ticas de incentivo deveriam ser modificadas no sentido de auxiliar os pais a formar essa poupan&#231;a.</p><p><strong>Colombia&#8217;s Tots</strong></p><p> O economista Felipe Barrera-Osorio e seus coautores <a href="https://www.aeaweb.org/articles?id=10.1257/app.3.2.167">investigaram</a> o que acontece quando programas tradicionais de transfer&#234;ncia de renda s&#227;o modificados para auxiliar a cria&#231;&#227;o de uma poupan&#231;a. Em 2005, a cidade de Bogot&#225; na Col&#244;mbia criou o programa chamado &#8220;Subs&#237;dios Condicionados para a Frequ&#234;ncia Escolar&#8221;. Assim como a maioria dos programa desse tipo, o objetivo era aumentar a frequ&#234;ncia escolar e reduzir a taxa de abandono. A diferen&#231;a &#233; que o idealizador do programa queria saber o que aconteceria se, ao inv&#233;s de pagar uma bolsa todo m&#234;s para as fam&#237;lias (como os programas tradicionais faziam), <strong>parte do recurso fosse destinado a uma poupan&#231;a para o aluno</strong>. Para atingir esse objetivo, ele fez um experimento. Foram criadas tr&#234;s modalidades de pagamento das bolsa de incentivo &#224; frequ&#234;ncia escolar. Uma delas era a forma &#8220;tradicional&#8221;, onde os pagamentos s&#227;o feitos na sua totalidade a cada dois meses, ou seja, eram pagamentos de curto prazo. Em outra modalidade, as fam&#237;lias receberiam dois ter&#231;os do valor da bolsa bimestralmente e o restante seria depositado em uma conta individual que rende juros. O valor dessa conta poderia ser sacado pelo aluno apenas um ano depois de ter terminado o Ensino M&#233;dio,<strong> ou assim que entrasse no ensino terci&#225;rio</strong> (o que viesse primeiro)<strong>. </strong></p><p>A import&#226;ncia do experimento &#233; clara. Existem um dilema entre pagar mais agora ou destinar parte dos recursos para uma poupan&#231;a. Na modalidade tradicional, o valor recebido no curto prazo &#233; maior do que aquele na modalidade com poupan&#231;a. A redu&#231;&#227;o no valor que &#233; pago no curto prazo pode desincentivar a frequ&#234;ncia escolar, pois os pais t&#234;m um benef&#237;cio imediato menor. Por exemplo, se o benef&#237;cio pago bimestralmente for muito pequeno, talvez o estudante saia do col&#233;gio para trabalhar. A d&#250;vida que o experimento ajudou a resolver, portanto, era saber se o problema de escassez de recursos no curto prazo dominava o problema de gera&#231;&#227;o de poupan&#231;a.</p><p>O resultado do experimento foi interessante. Os estudantes que recebiam parte do recurso no presente e parte em forma de poupan&#231;a n&#227;o tiveram uma frequ&#234;ncia escolar inferior ao do grupo tradicional. Al&#233;m disso, assim como os Scott&#8217;s Tots, os participantes da nova modalidade tamb&#233;m<strong> tiveram uma taxa de rematricula no Ensino M&#233;dio maior e, o que &#233; mais interessante, uma taxa de matr&#237;cula no ensino terci&#225;rio quase 50% maior</strong>. A cria&#231;&#227;o dessa poupan&#231;a, portanto, atingiu seus objetivos sem gerar grandes efeitos colaterais. Segundo os autores do estudo, o efeito foi mais pronunciado justamente nos alunos de renda mais baixa e naqueles cujas taxas de abandono costumavam ser maiores. </p><p><strong>Li&#231;&#245;es para o Brasil</strong></p><p>No Brasil, existem algumas tentativas de oferecer benef&#237;cios diferenciados aos estudantes do Ensino M&#233;dio. Nos anos 2000, o governo de Minas Gerais criou o &#8220;Poupan&#231;a Jovem&#8221;, que depositava R$ 3.000 na conta dos jovens da escola p&#250;blica estadual que conclu&#237;ssem o Ensino M&#233;dio. Outro programa parecido &#233; o programa &#8220;Poupan&#231;a Escola&#8221; de Niter&#243;i, no RJ. Mais recentemente, em Porto Alegre, foi aprovada a lei do programa &#8220;Bolsa Fica na Escola&#8221;, o qual cria uma bolsa de incentivo &#224; frequ&#234;ncia escolar, em que uma parte do valor &#233; poupado para ser sacado no futuro. Essa bolsa &#233; paga enquanto o aluno estiver na rede p&#250;blica municipal do Ensino Fundamental e o recurso destinado &#224; poupan&#231;a fica rendendo juros, podendo ser sacado apenas quando o aluno completa o &#250;ltimo ano do Ensino M&#233;dio.</p><p>***</p><p>A &#233;poca em que normalmente se cursa o Ensino M&#233;dio &#233; um momento cr&#237;tico na vida de todo jovem, especialmente para o jovem sem recursos, onde a margem de toler&#226;ncia para erros &#233;, infelizmente, muito menor. Suas perspectivas e percep&#231;&#245;es do futuro, equivocadas ou n&#227;o, afetam seu comportamento no presente. Elas impactam seu esfor&#231;o e dedica&#231;&#227;o nos estudos, seu comportamento com colegas e professores, e sua decis&#227;o de abandonar a escola para entrar precocemente no mercado de trabalho em tempo integral. As pol&#237;ticas p&#250;blicas de incentivo aos estudos precisam levar isso em conta para que sejam mais eficazes em atingir seus objetivos. Evidentemente, isso deve ser feito com uma responsabilidade infinitamente maior do que a de Michael Scott.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.heliumintegers.com/subscribe?"><span>Inscrever-se agora</span></a></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Mensalidades em ingl&#234;s &#233; <em>tuition</em>. Michael Scott teve tempo para pensar no trocadilho entre <em>tuition </em>e <em>intuition</em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><blockquote><p><strong>Michael:</strong> [&#8230;] <em>Eu queria pagar pela sua educa&#231;&#227;o. Eu realmente queria. Era o meu sonho. Algumas pessoas t&#234;m sonhos maus, algumas pessoas t&#234;m sonhos ego&#237;stas ou sonhos er&#243;ticos.<strong> Meu sonho estava no lugar certo.</strong></em></p></blockquote></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>O desfecho &#233; relativamente feliz, pois estamos falando do<em> The Office</em> americano e, portanto, um lugar onde ainda h&#225; esperan&#231;a (ao contr&#225;rio da vers&#227;o brit&#226;nica). No entanto, temos que nos perguntar sobre o que aconteceu com os jovens que j&#225; iriam terminar o Ensino M&#233;dio e que, contando com o aux&#237;lio da &#8220;Michael Scott Foundation&#8221;, n&#227;o se preocuparam em procurar outras formas de financiamento.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O Politicamente Correto e a Sociologia Normativa de Michael Scott]]></title><description><![CDATA[Fa&#231;a sempre a escolha mais "progressista"]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/todos-tem-uma-reputacao-a-zelar</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/todos-tem-uma-reputacao-a-zelar</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 08 Jan 2023 04:56:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/395f81c2-ca80-4366-a5b7-8381b6904b0a_700x393.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>No come&#231;o do epis&#243;dio &#8220;The Convict&#8221; do seriado <em>The Office</em>, vemos o gerente Michael Scott, a chefe da contabilidade Angela, o contador Kevin e a recepcionista Pam em uma conversa pelo telefone com a vice-presidente de vendas da empresa, Jan Levinson. Angela pergunta para a chefe de Michael a respeito de uma restitui&#231;&#227;o tribut&#225;ria recebida do &#8220;Programa Federal de Oportunidade de Trabalho&#8221;. Jan explica que esse cheque &#233; um benef&#237;cio concedido pelo governo federal para empresas que contratam ex-presidi&#225;rios. </p><p>A chefe da contabilidade n&#227;o conhecia esse benef&#237;cio, porque ele s&#243; come&#231;ou a aparecer nas informa&#231;&#245;es financeiras ap&#243;s a filial de Stanford ter sido absorvida pela filial de Scranton, gerenciada por Michael. Josh, o gerente da filial extinta, tinha se beneficiado desse programa ao contratar um ex-presidi&#225;rio. O problema para Angela e demais &#233; que eles n&#227;o sabiam qual dos novos colegas vindos de Stanford era o condenado reformado:</p><blockquote><p><strong>Angela</strong>: &#8220;<em>Jan, qual desses novos empregados &#233; um criminoso?&#8221;</em></p><p><strong>Jan</strong>: &#8220;<em>Uh, condenado reformado, e, uh, eu n&#227;o tenho certeza. Mas espere, deixe eu ver o e-mail do RH, fique na linha.&#8221;</em></p><p><strong>Pam</strong>: [cochichando] &#8220;<em>Quem ser&#225;?&#8221;</em></p><p><strong>Micheal</strong>: &#8220;<em>Hannah?&#8221;</em></p><p><strong>Kevin e Angela</strong>: &#8220;<em>Hmm</em>.&#8221;</p><p><strong>Kevin</strong>: &#8220;<em>Andy.&#8221;</em></p><p><strong>Angela</strong>: &#8220;<em>Andy?&#8221;</em></p><p><strong>Kevin</strong>: &#8220;<em>Hmm. Martin?&#8221;</em></p><p><strong>Michael</strong>: &#8220;<em>Kuuuuuh&#8230; <strong>voc&#234; &#233; t&#227;o racista</strong>.&#8221;</em></p><p>&#8212; The Convict, Epis&#243;dio 09 da 2&#170; Temporada de The Office</p></blockquote><p>Michael Scott acusou Kevin de ser racista, porque ele sugeriu que talvez Martin Nash poderia ser o ex-presidi&#225;rio contratado. Dos tr&#234;s empregados de Stanford que ainda restavam na empresa, apenas Martin era negro. Isso torna Kevin um racista? &#201; uma boa pergunta. Um racista certamente acusaria (ao menos em pensamento) Martin de ser &#8220;criminoso&#8221; pelo simples fato dele ser de uma cor diferente. As opini&#245;es de um racista tender a ser equivalentes as horas de um rel&#243;gio quebrado. Ela sempre ser&#225; a mesma e, acidentalmente, at&#233; pode estar certa, no sentido de que, em algum momento, o criminoso pode ser negro de fato, mas n&#227;o ser&#225; um &#8220;acerto&#8221; e sim puro acaso. Nesse sentido, trata-se de uma opini&#227;o que n&#227;o &#233; informativa para descrever a realidade. </p><p>O fato &#233; que os nomes de Hannah e Andy j&#225; haviam sido levantados na conversa, ou seja, restava apenas Martin. Al&#233;m disso, Kevin mencionou o nome de Andy antes de mencionar Martin. Sem informa&#231;&#245;es <em>a priori</em>, qualquer um dos tr&#234;s poderia ser quem eles procuravam, inclusive Martin. Portanto, cogit&#225;-lo seria uma possibilidade mesmo para uma pessoa que n&#227;o seja racista. Isso significa que Kevin n&#227;o &#233; racista? N&#227;o necessariamente. Na verdade, n&#243;s n&#227;o fazemos a menor ideia. O que n&#243;s sabemos &#233; que existem racistas no mundo e boa parte deles n&#227;o revela essa caracter&#237;stica publicamente. Afinal, essa &#233; uma posi&#231;&#227;o extremamente impopular. H&#225; um incentivo, portanto, em manter esse tra&#231;o individual negativo em sigilo. Um Kevin racista poderia justamente ter tentado se disfar&#231;ar de algu&#233;m sem preconceito ao falar de Martin por &#250;ltimo.</p><p>Esse problema informacional n&#227;o gera problemas apenas para o Kevin. Ela gera um problema para todos n&#243;s. Afinal, se existem racistas ocultos, ent&#227;o existe a possibilidade <strong>das pessoas acharem que voc&#234; &#233; um deles</strong>. Isso &#233; p&#233;ssimo, pois ningu&#233;m quer ser chamado de racista ou ter seu nome associado com isso. Por isso, cabe a pergunta: <strong>O que voc&#234; estaria disposto a fazer para n&#227;o pensarem que voc&#234; &#233; um racista?</strong> <strong>Voc&#234; estaria disposto a mentir? </strong></p><p><strong>O Politicamente Correto</strong></p><p>Em um <a href="https://www.journals.uchicago.edu/doi/abs/10.1086/319554">artigo</a> famoso, o economista Stephen Morris defende que esse problema informacional &#233; a origem do &#8220;Politicamente Correto&#8221;. A hist&#243;ria que ele conta &#233; mais ou menos assim: Considere uma situa&#231;&#227;o em que uma comiss&#227;o votar&#225; sobre um projeto de cotas raciais, e seus membros n&#227;o tem uma opini&#227;o formada sobre o assunto. Suponha que voc&#234; &#233; um especialista sobre programas sociais e essa comiss&#227;o quer saber a sua opini&#227;o sobre o tema. Imagine tamb&#233;m que todos os envolvidos nessa hist&#243;ria<strong> t&#234;m uma preocupa&#231;&#227;o leg&#237;tima e sincera com o bem comum</strong>, de tal sorte que s&#243; est&#227;o interessados em pol&#237;ticas que realmente funcionem. A diferen&#231;a entre voc&#234; (que &#233; especialista) e a comiss&#227;o &#233; que, como voc&#234; &#233; melhor informado sobre o assunto, a sua opini&#227;o tem maior chance de estar correta, isto &#233;, de corresponder a realidade.</p><p>Digamos que, depois de consultar os artigos cient&#237;ficos, a sua opini&#227;o t&#233;cnica &#233; que uma pol&#237;tica de cotas raciais <strong>n&#227;o &#233;</strong> a melhor maneira de combater o racismo. Voc&#234; avisa a comiss&#227;o que terminou sua pesquisa e ela o convida para falar sobre o tema. O que voc&#234; diria no seu depoimento? Assim como os membros da comiss&#227;o, voc&#234; quer que a melhor pol&#237;tica seja implementada, ent&#227;o, por um lado, voc&#234; tem um bom motivo para falar a verdade. Simples, n&#227;o? Nem tanto. Afinal, existem racistas no mundo e eles, pelo menos em tese, s&#227;o contra cotas raciais. Embora voc&#234; saiba que n&#227;o pertence a esse grupo, os membros da comiss&#227;o n&#227;o tem a mesma certeza. Para eles, existe chance de que voc&#234; seja um.</p><p>Nesse contexto de incerteza, existem dois motivos que poderiam levar voc&#234; a mentir. Ambos envolvem <strong>reputa&#231;&#227;o</strong>, mas de jeitos diferentes. O jeito mais simples e direito &#233; quando voc&#234; est&#225; preocupado com sua reputa&#231;&#227;o <em>em si mesma</em>. Expressar uma opini&#227;o que aumente a chance de voc&#234; ser um racista enrustido prejudica a sua reputa&#231;&#227;o perante um grupo espec&#237;fico. Se voc&#234; est&#225; mais preocupado com a sua reputa&#231;&#227;o, ent&#227;o voc&#234; vai mentir mesmo sabendo que uma pol&#237;tica errada ser&#225; implementada. Esse &#233; o pre&#231;o para ser bem aceito no grupo. A segunda forma que a reputa&#231;&#227;o faz voc&#234; mentir &#233; indireta. Voc&#234; n&#227;o est&#225; preocupado com a reputa&#231;&#227;o em si, mas, sim, apenas de forma<strong> instrumental</strong>, pois uma boa reputa&#231;&#227;o torna voc&#234; uma pessoa mais influente. Quanto melhor ela for, mais peso ter&#225; a sua opini&#227;o na hora das decis&#245;es. Ou seja, a sua reputa&#231;&#227;o importa para o futuro, no momento que quiserem saber novamente a sua opini&#227;o. Assim, faz sentido mentir agora sobre a pol&#237;tica de cotas dizendo que ela &#233; boa, desde que isso aumente sua reputa&#231;&#227;o, isto &#233;,  desde que isso diminua a chance de voc&#234; ser racista. Isso tem um pre&#231;o, claro. O custo de<strong> </strong>mentir hoje para construir sua reputa&#231;&#227;o de amanh&#227;<strong> </strong>&#233; que <strong>a pol&#237;tica implementada hoje ser&#225; pior</strong>.</p><p>A implica&#231;&#227;o mais interessante do artigo &#233; que o discurso politicamente correto <strong>&#233; mais frequente nos temas quem t&#234;m pouca import&#226;ncia relativa</strong>. Nesses casos, o benef&#237;cio de falar a verdade &#233; baixo, e vale mais a penas usar essa oportunidade para melhorar sua reputa&#231;&#227;o. Imagine um mundo em que todos se comportam assim. Um mundo em que se multiplicam discursos sem conte&#250;do verdadeiro algum, e que t&#234;m apenas a fun&#231;&#227;o de sinalizar uma boa reputa&#231;&#227;o de quem o profere. Tente imaginar esse mundo, leitor. Tente.</p><p><strong>A Sociologia Normativa</strong></p><p>Para a infelicidade de Michael, o segundo palpite de Kevin estava correto. Era Martin o empregado que havia cumprido pena por um crime do &#8220;colarinho branco&#8221;. Em um dos melhores depoimentos do seriado, Michael fala o seguinte para o falso documentarista:</p><blockquote><p><strong>Michael:</strong> <em>Por que o condenado tinha que ser um cara negro? &#201; t&#227;o estereotipado. Eu s&#243; desejaria que Josh tivesse feito uma escolha mais progressista. Tipo&#8230; um cara branco&#8230; que foi para a cadeia por&#8230; poluir o lago de um cara negro.</em></p></blockquote><p>Correndo o risco de explicar a piada, precisamos lembrar o contexto do seriado. <em>The Office</em> &#233; um pseudodocument&#225;rio e as cenas que assistimos seriam os registros dos &#8220;documentaristas&#8221;. Isso significa que, na maioria das ocasi&#245;es, o comportamento do Michael &#233; afetado pela presen&#231;a dos cinegrafistas. Ele sabe que os acontecimentos no escrit&#243;rio far&#227;o parte de um programa de televis&#227;o, no qual ele se coloca como protagonista. Nessa condi&#231;&#227;o, ele est&#225; constantemente preocupado com &#8220;a mensagem&#8221; que ser&#225; passada aos espectadores. </p><p>Na mente confusa do protagonista, a presen&#231;a dos documentaristas faz com que ele prefira contratar um ex-presidi&#225;rio branco e racista do que um ex-presidi&#225;rio negro, pois o primeiro refor&#231;a a mensagem correta de que racistas s&#227;o pessoas ruins, enquanto o segundo a mensagem incorreta de um estere&#243;tipo. O resultado, claro, &#233; absurdo. &#201; uma situa&#231;&#227;o extrema, na qual<strong> uma &#8220;mensagem&#8221; &#233; mais importante do que qualquer coisa</strong>. Michael Scott provavelmente n&#227;o sabia, mas sua l&#243;gica tinha nome: <strong>Sociologia Normativa</strong>.</p><p>De acordo com <a href="http://induecourse.ca/on-the-problem-of-normative-sociology/">Joseph Heath</a><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, essa express&#227;o foi originalmente utilizada por Robert Nozick em sua obra "Estado, Anarquia e Utopia". Segundo o fil&#243;sofo, a Sociologia Normativa &#233; &#8220;<em>o estudo de quais <strong>deveriam </strong>ser as causas dos problemas</em>&#8221;. Veja, um importante prop&#243;sito da ci&#234;ncia &#233; investigar a rela&#231;&#227;o causal entre objetos te&#243;ricos, os quais, por sua vez, tem correspond&#234;ncias na realidade. Ningu&#233;m nunca viu um um &#8220;ser humano m&#233;dio&#8221;, mas voc&#234; gostaria de saber o efeito causal do consumo de ovos na incid&#234;ncia de problemas card&#237;acos desse sujeito<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Note que, no caso das ci&#234;ncias normais, estamos interessados em saber a causa verdadeira de algo ou, em outras palavras, o que de fato explica a ocorr&#234;ncia de um fen&#244;meno. A Sociologia Normativa &#233; diferente. <strong>Ela se preocupa em definir quais s&#227;o as causas relevantes no momento e ent&#227;o, uma vez definidas, associ&#225;-las aos problemas do mundo</strong>. Joseph Heath explica:</p><blockquote><p><em>&#8220;Eu escuto rotineiramente extraordin&#225;rios poderes causais sendo associados ao &#8220;racismo&#8221; &#8212; afirma&#231;&#245;es que excedem em muito as evid&#234;ncias dispon&#237;veis. Algumas dessas afirma&#231;&#245;es at&#233; podem ser verdade, mas existe um claro <strong>estigma moral</strong> associado com questionamentos da conex&#227;o causal sendo postulada &#8212; o que &#233; perverso, uma vez que a quest&#227;o causal &#8220;do que causa o que&#8221; <strong>deveria ser puramente emp&#237;rica</strong>. Questionar a conex&#227;o, no entanto, provavelmente atrair&#225; acusa&#231;&#245;es de tentar &#8220;minimizar o racismo&#8221;. (&#8230;) Tamb&#233;m parece haver uma sensa&#231;&#227;o de que, como o racismo &#233; uma coisa incrivelmente ruim, ele tamb&#233;m deve causar muitas outras coisas ruins. <strong>O que est&#225; em jogo aqui &#233; basicamente uma intui&#231;&#227;o sobre como a ordem moral &#233; organizada, n&#227;o sobre a ordem causal.</strong>&#8221;</em></p></blockquote><p>Para Michael Scott, o ex-presidi&#225;rio contratado deveria ser um homem branco que poluiu o lago de um homem negro,<strong> pois o &#8220;racismo de brancos para negros&#8221; e a &#8220;polui&#231;&#227;o criminosa do meio ambiente&#8221; est&#227;o conectados n&#227;o necessariamente por um nexo causal, mas, sim, moral</strong>. Essa &#8220;escolha mais progressista&#8221;, ao ser exibida no document&#225;rio, funciona como um estudo de sociologia normativa, como se fosse uma esp&#233;cie de trabalho cient&#237;fico que valida n&#227;o s&#243; a exist&#234;ncia do racismo, mas tamb&#233;m estabelece um nexo emocional com a polui&#231;&#227;o do meio ambiente. </p><p>Nesse arcabou&#231;o pseudocient&#237;fico, onde impress&#245;es e sentimentos s&#227;o o que importam, a pior coisa que voc&#234; poderia colocar no document&#225;rio &#233; um homem negro como ex-condenado, pois, como explicou Joseph Heath, isso ser&#225; interpretado erroneamente como uma &#8220;minimiza&#231;&#227;o do racismo&#8221;. Para evitar essa falha grave, todas as a&#231;&#245;es do documentarista devem ser colocadas sob um prisma publicit&#225;rio, como se o &#8220;<a href="https://www.adamsmith.org/the-theory-of-moral-sentiments">observador ideal</a>&#8221; trabalhasse no departamento de marketing da Avon ou do Ita&#250;. Ele deve fazer perguntas do tipo: &#8220;a quem esse estudo vai servir?&#8221; ou &#8220;quem ou o que vai ser validado com ele?&#8221;.</p><p><strong>Uma crise nas ci&#234;ncias sociais aplicadas</strong></p><p>Hoje, as investiga&#231;&#245;es dos &#8220;temas que <em>deveriam </em>ser a causa dos problemas&#8221; prosperam nas ci&#234;ncias sociais. H&#225; uma preocupa&#231;&#227;o cada vez maior com estigmas morais do que com ordem causal. Veja, eu serei o &#250;ltimo a impedir algu&#233;m de fazer um estudo sobre a <a href="https://www.researchgate.net/publication/325317372_Human_reactions_to_rape_culture_and_queer_performativity_at_urban_dog_parks_in_Portland_Oregon">rea&#231;&#227;o dos humanos &#224; performance </a><em><a href="https://www.researchgate.net/publication/325317372_Human_reactions_to_rape_culture_and_queer_performativity_at_urban_dog_parks_in_Portland_Oregon">queer </a></em><a href="https://www.researchgate.net/publication/325317372_Human_reactions_to_rape_culture_and_queer_performativity_at_urban_dog_parks_in_Portland_Oregon">e cultura do estupro dos cachorros no parque</a><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>. Os adeptos da Sociologia Normativa s&#227;o livres para alocar seus esfor&#231;os como quiserem. O problema &#233; quando a febre passa a contaminar os demais pesquisadores ao gerar os incentivos errados para a pesquisa.</p><p>No contexto da Sociologia Normativa, os trabalhos que identificam as causas &#8220;erradas&#8221; s&#227;o acusados de minimizarem os &#8220;verdadeiros problemas&#8221; da sociedade (isto &#233;, aqueles problemas escolhidos pelos adeptos dessa doutrina). Sua pesquisa <a href="https://static1.squarespace.com/static/5329e895e4b09fd4786211a3/t/630fbb4e4f9bff75800df7eb/1661975378553/Guns_under_Jim_Crow_8_4_22.pdf">mostra</a> que <strong>restri&#231;&#227;o </strong>ao porte de armas no sul dos Estados Unidos <strong>aumentou </strong>a viol&#234;ncia contra a popula&#231;&#227;o afro-americana? Voc&#234; est&#225; minimizando o problema gerado pela libera&#231;&#227;o das armas de fogo! Parte do diferencial de sal&#225;rio observado entre homens e mulheres se deve a <a href="https://www.nber.org/system/files/working_papers/w21913/w21913.pdf">comportamentos diferentes</a> entre os sexos? Voc&#234; est&#225; minimizando o problema do preconceito contra a mulher e do machismo no mercado de trabalho! Essas acusa&#231;&#245;es, combinadas com o problema informacional do &#8220;politicamente correto&#8221;, acabam gerando um custo reputacional para o cientista social. Se a sua pesquisa n&#227;o ressalta a import&#226;ncia dos temas mais urgentes na ordem moral estabelecida, ent&#227;o ela n&#227;o serve para nada ou, na pior das hip&#243;teses, ela est&#225; ajudando as &#8220;causas erradas&#8221;. Ora, se a sua pesquisa est&#225; contribuindo para essas causas erradas, <em>talvez voc&#234; seja um adepto delas</em>. Pronto. Voltamos para o trabalho do Morris, <em>no qual &#233; racional mentir ou omitir para salvar sua reputa&#231;&#227;o</em>. </p><p>Al&#233;m dos incentivos negativos, tamb&#233;m existem os positivos. Estudos que reforcem causas &#8220;politicamente corretas&#8221; dos problemas s&#227;o os que ganhar&#227;o destaque. Isso &#233; especialmente problem&#225;tico quando se estabelece como &#250;nico crit&#233;rio de validade cient&#237;fica o uso de um m&#233;todo. Como diz Eric Voegelin:</p><blockquote><p><em>&#8220;O uso do m&#233;todo como crit&#233;rio das ci&#234;ncias abole sua relev&#226;ncia te&#243;rica. Como consequ&#234;ncia, todas proposi&#231;&#245;es acerca de fatos ser&#227;o promovidas a dignidade de ci&#234;ncia, independente da sua relev&#226;ncia, desde que elas sejam resultado do uso correto do m&#233;todo. Como o oceano de fatos &#233; infinito, a expans&#227;o prodigiosa da ci&#234;ncia no sentido sociol&#243;gico se torna poss&#237;vel, dando emprego a &#8220;t&#233;cnicos cientistas&#8221; e levando a uma fant&#225;stica acumula&#231;&#227;o de conhecimentos irrelevantes atrav&#233;s de enormes &#8220;projetos de pesquisa&#8221; cuja caracter&#237;stica mais interessante &#233; o gasto quantific&#225;vel que foi alocado na sua produ&#231;&#227;o.&#8221;</em></p></blockquote><p>Estudos cient&#237;ficos cujos objetos s&#227;o absolutamente irrelevante, mas que usam um m&#233;todo adequado, ganham uma relev&#226;ncia desproporcional se suas conclus&#245;es ajudam a refor&#231;ar o nexo causal politicamente correto.</p><p><strong>M&#225;s not&#237;cias</strong></p><p>Os problemas do Politicamente Correto e da Sociologia Normativa parecem ser inevit&#225;veis. Nas ci&#234;ncias sociais, a linha que divide o agente do observador &#233; t&#234;nue. A velocidade com que a ma&#231;&#227; se desloca, e a trajet&#243;ria que ela percorre quando &#233; arremessada, dificilmente podem ser extrapoladas para algum significado moral ou pol&#237;tico. O mesmo n&#227;o se pode dizer a respeito de, por exemplo, um estudo sobre &#8220; &#8220;desigualdade de renda&#8221;. O peso valorativo negativo da express&#227;o &#8220;desigualdade de renda&#8221; quase que <strong>exige </strong>que ela esteja na origem de todos os problemas sociais e econ&#244;micos. Estudos que encontrem outros culpados v&#227;o causar suspeitas, as quais precisam ser dirimidas com longas ressalvas ao longo do texto.</p><p>Embora inevit&#225;vel, acredito que esse problema possa ser minimizado. O grande problema aqui me parece a falta de confian&#231;a. Em um primeiro n&#237;vel, temos o problema da baixa confian&#231;a interpessoal, pois o artigo do Morris s&#243; faz sentido se existem d&#250;vidas sobre a reputa&#231;&#227;o do especialista. Em um n&#237;vel mais profundo, no entanto, h&#225; tamb&#233;m um grande problema de desconfian&#231;a nas pr&#243;prias ci&#234;ncias sociais. A partir da segunda metade do s&#233;culo XX, prevalece uma tese falsa de que n&#227;o existem verdades e que todo discurso (cient&#237;fico ou n&#227;o) serve para justificar uma hierarquia de poder. Quem nos contam essa novidade foram os pr&#243;prios acad&#234;micos e intelectuais, &#233; claro. Eles s&#227;o os &#8220;descontruidores&#8221; oficiais das verdades oficiais. O efeito disso <strong>&#233; que &#8212; pasmem! &#8212; eles acabaram ficando com o poder</strong>. Ou seja, a desconstru&#231;&#227;o dos supostos discursos de justifica&#231;&#227;o acabou justificando o aumento do poder de quem os desconstruiu. Talvez essa seja a origem do Politicamente Correto e da Sociologia Normativa. Para combat&#234;-las &#233; necess&#225;rio resgatar o verdadeiro prop&#243;sito da ci&#234;ncia: a busca sincera pela verdade.</p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Conheci esse conceito h&#225; tempos atr&#225;s pelo blog do <a href="https://marginalrevolution.com/marginalrevolution/2015/06/normative-sociology.html">Tyler Cowen</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>O veredito ainda n&#227;o foi anunciado nesse caso. O j&#250;ri vai e volta toda hora nesses &#250;ltimos quarenta anos.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Hil&#225;rio: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=kVk9a5Jcd1k">The Grievance Studies Affair - REVEALED</a></p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[E se Fidel Castro tivesse perdido?]]></title><description><![CDATA[(Ya se ha declarado el vencedor de la Revoluci&#243;n Cubana. Vea los resultados oficiales en la p&#225;gina web del Tribunal Supremo Popular de Cuba.)]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/e-se-fidel-castro-tivesse-perdido</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/e-se-fidel-castro-tivesse-perdido</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sat, 31 Dec 2022 08:45:50 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/8ce5db3b-76cd-4a98-9f11-d428cf111dba_790x415.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<blockquote><p>[CORTE PARA: No topo de um pr&#233;dio cubano. Um bolo de anivers&#225;rio para HYMAN ROTH &#233; levado para ele e um pequeno grupo de pessoas. O bolo tem um desenho de Cuba.]</p><p>(...)</p><p>CONVIDADOS: <em>Feliz Anivers&#225;rio!</em></p><p>MICHAEL: <em>Eu vi uma coisa interessante acontecer hoje. Um rebelde estava sendo preso pela Pol&#237;cia Militar e, para n&#227;o ser capturado com vida, explodiu uma granada que havia escondido no casaco. Ele se matou e levou um capit&#227;o do comando com ele.</em></p><p>[ROTH parece preocupado]</p><p>JOHNNY OLA: <em>Esses rebeldes, voc&#234; sabe, eles s&#227;o lun&#225;ticos.</em></p><p>MICHAEL: <em>Talvez sim &#8212; mas ocorreu-me o seguinte. Os soldados s&#227;o pagos para lutar &#8212; os rebeldes n&#227;o.</em></p><p>ROTH: <em>O que isso lhe diz?</em></p><p>MICHAEL: <em>Que eles podem vencer.</em></p><p>~ O PODEROSO CHEF&#195;O: PARTE II</p></blockquote><p>[MUSIC CUE: &#8220;Guantanamera&#8221; by Mariachi Real de San Diego]</p><p>Na noite de 31 de dezembro de 1958, as preocupa&#231;&#245;es de Michael Corleone se mostrariam justificadas. &#201; no segundo filme da trilogia de Francis Ford Coppola que o filho mais novo de Vito Corleone teve o privil&#233;gio de testemunhar um acontecimento hist&#243;rico. O mafioso fict&#237;cio estava em Cuba, e era um convidado na festa de Ano Novo em que o presidente Fulg&#234;ncio Batista anunciou que fugiria daquele pa&#237;s na madrugada do dia primeiro de janeiro. N&#227;o restava outra op&#231;&#227;o ao l&#237;der cubano, pois Santa Clara, a &#250;ltima cidade entre Havana e os revolucion&#225;rios liderados por Fidel Castro, havia se rendido para as for&#231;as combinadas de Che Guevara, Camilo Cienfuegos e outros l&#237;deres rebeldes. Com o ex&#233;rcito cubano derrotado e desmoralizado, n&#227;o demorou mais do que dois dias do novo ano para que os rebeldes entrassem em Havana sem qualquer resist&#234;ncia, e assumissem o controle do pa&#237;s. Fidel Castro, por sua vez, entraria em Havana no dia 8 de janeiro.</p><p>O regime que come&#231;ou em janeiro de 1959 foi o resultado de uma guerra de guerrilha cujos primeiros movimentos iniciaram seis anos antes, em 1953. Nesse ano, as primeiras tentativas dos rebeldes fracassam e Fidel, junto com seu irm&#227;o Ra&#250;l, foram capturados pelas for&#231;as de Batista. No entanto, alguns anos mais tarde, eles acabaram sendo inclu&#237;dos, de &#250;ltima hora, em uma lista de anistia de prisioneiros pol&#237;ticos. Uma vez soltos, eles partem para o M&#233;xico, onde come&#231;am a se preparar para voltar &#224; ilha.</p><p>Em 1956, os irm&#227;os Castro retornam para Cuba a bordo do iate <em>Granma</em>, desembarcando no extremo sul da ilha principal de Cuba, bem longe da capital. Ap&#243;s algumas dificuldades logo no desembarque, os revolucion&#225;rios criam a guerrilha nas montanhas de <em>Sierra Maestra</em>, a qual finalmente conseguiria fazer frente as for&#231;as leais ao governo. Depois de dois anos de conflitos e avan&#231;os paulatinos de cidade em cidade, Fidel, com ajuda do argentino Che Guevara, inicia em 1959 o regime ditatorial mais longo da Am&#233;rica Latina. A Cuba de Fidel &#233; reconhecida por boa parte de detratores e admiradores como a experi&#234;ncia socialista mais importante do continente.</p><p>Ao nos debru&#231;armos sobre quaisquer acontecimentos decisivos da hist&#243;ria da humanidade, da civiliza&#231;&#227;o, de um pa&#237;s ou at&#233; mesmo de biografias pessoais, &#233; natural fazermos para n&#243;s mesmos a pergunta &#8220;e se?&#8221;. E se Fidel tivesse perdido? Suponha que uma tempestade tivesse afundado o <em>Granma</em>, fazendo com que os n&#225;ufragos &#8212; Fidel Castro e seus camaradas &#8212; fossem capturados pela segunda (e &#250;ltima) vez por for&#231;as leais ao Fulg&#234;ncio Batista, destruindo completamente qualquer esperan&#231;a de uma revolu&#231;&#227;o. Se isso tivesse ocorrido, o que seria Cuba hoje? Ou, talvez mais especificamente, Cuba seria mais ou menos economicamente desenvolvida? Havana sem Castro est&#225; mais para Bedford Falls ou Pottersville?</p><p>Mesmo que os leitores saibam das <a href="https://heliumintegers.substack.com/p/as-licoes-de-bedford-falls">dificuldades envolvidas em recuperar contrafactuais</a>, certamente uma parte importante de voc&#234;s imaginam que a resposta para essa pergunta seja &#243;bvia. &#8220;Cuba &#233; um pa&#237;s pobre&#8221;, diria algu&#233;m, &#8220;veja as fotos das cidades, os barcos improvisados dos refugiados fugindo para Miami em um mar infestados de tubar&#245;es, a escassez de todo tipo de produto&#8230;&#8221;. &#201; verdade. Cuba n&#227;o &#233; um bom pa&#237;s para se morar. Mas, como diz o ditado, n&#227;o h&#225; nada t&#227;o ruim que n&#227;o possa piorar. Ou melhor dizendo, n&#227;o h&#225; nada t&#227;o ruim <strong>que n&#227;o poderia ser pior.</strong> A quest&#227;o &#233; saber se Cuba seria mais ou menos pobre sem a revolu&#231;&#227;o de 1959.</p><p><strong>Uma Cuba artificial (os anos 80 ligaram e eles querem o sintetizador de volta)</strong></p><p>[MUSIC CUE: &#8220;Axel F&#8221; by Harold Faltermeyer]</p><p>Como todo acontecimento hist&#243;rico, o mundo onde Cuba n&#227;o se tornou socialista foi aniquilado no exato momento em que as for&#231;as revolucionarias desfilaram nas ruas de Havana naquele 2 de janeiro. No entanto, suponha que, por alguma esp&#233;cie de milagre, n&#243;s pud&#233;ssemos observar a vers&#227;o da hist&#243;ria em que a revolu&#231;&#227;o n&#227;o ocorreu. Com as duas vers&#245;es na nossa frente, paralelas uma a outra, podemos compar&#225;-las e ver em qual das duas Cuba &#233; menos desenvolvida. Como crit&#233;rio de compara&#231;&#227;o, a medida de desenvolvimento mais simples que podemos utilizar &#233; <strong>o quanto cada cubano receberia se eles dividissem igualmente entre eles todos os bens e servi&#231;os finais que o pa&#237;s conseguiu produzir em um ano</strong>, ou seja, o Produto Interno Bruto per capita (PIB per capita). Observando os &#8220;PIBs&#8221; per capita de &#8220;Cuba com revolu&#231;&#227;o&#8221; e de &#8220;Cuba sem revolu&#231;&#227;o&#8221; (a Cuba que obviamente n&#227;o existe), poder&#237;amos compar&#225;-los e responder em qual dos dois mundos Cuba &#233; mais rica.</p><p>O exerc&#237;cio descrito seria o ideal, mas o problema &#233; que ele depende do tal milagre que, pelo menos at&#233; agora, n&#227;o aconteceu. A melhor alternativa ao milagre &#233; <strong>tentar produzir artificialmente uma &#8220;Cuba sem revolu&#231;&#227;o&#8221; que seja parecida o bastante com aquela que existe apenas idealmente</strong>. Existem muitas formas de fazer isso e algumas s&#227;o melhores do que outras. Uma solu&#231;&#227;o simples seria comparar Cuba real com algum outro pa&#237;s que n&#227;o tenha tido uma revolu&#231;&#227;o socialista em 1959. Esse pa&#237;s tem que ser muito parecido com Cuba em tudo que seja relevante para afetar o PIB per capita e, ao mesmo tempo, a chance de ter uma revolu&#231;&#227;o socialista ali. Embora essa seja uma solu&#231;&#227;o v&#225;lida, ela &#233; complicada de ser implementada de maneira convincente. Mesmo que exista algum pa&#237;s que se encaixe na categoria mencionada, n&#243;s sequer ter&#237;amos a capacidade de encontr&#225;-lo com certeza. Podemos sugerir um ou outro pa&#237;s<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>, mas sempre haver&#225; uma d&#250;vida razo&#225;vel sobre se &#233; leg&#237;tima essa escolha ou n&#227;o.</p><p>Veja, caro leitor, a nossa miss&#227;o &#233; produzir artificialmente uma &#8220;Cuba n&#227;o socialista&#8221;. &#201; improv&#225;vel que ela exista naturalmente por a&#237;, dando sopa no seu atlas geogr&#225;fico escolar. &#201; muito mais prov&#225;vel que a &#8220;Cuba n&#227;o socialista&#8221;<strong> esteja espalhada no atlas</strong>, com pequenas partes dela em pa&#237;ses espec&#237;ficos. Assim como voc&#234; &#233; uma mistura do seu pai e da sua m&#227;e, o PIB per capita de &#8220;Cuba sem Fidel&#8221; pode ser uma mistura da Costa Rica com o M&#233;xico e o Uruguai, por exemplo. O n&#237;vel de riqueza da Cuba contrafactual (Cuba sem revolu&#231;&#227;o), portanto,<strong> poderia ser constru&#237;da a partir de peda&#231;os de v&#225;rios pa&#237;ses</strong>. Agrupando e combinando pa&#237;ses seria poss&#237;vel sintetizar uma Cuba fict&#237;cia<strong>, </strong>uma Cuba sintetizada<strong> </strong>ou, em outras palavras,<strong> uma Cuba Sint&#233;tica. </strong></p><div><hr></div><p><strong>CUBA SINT&#201;TICA &#192; MODA <a href="https://doi.org/10.1198/jasa.2009.ap08746">ABADIE</a></strong></p><p><em>A receita para construir uma Cuba Sint&#233;tica &#233; simples. Antes de mais nada, voc&#234; vai precisar de uma base dados. Dados sobre os pa&#237;ses da Am&#233;rica Latina para um per&#237;odo que inclua anos anteriores e posteriores a revolu&#231;&#227;o de 1959. Al&#233;m do PIB per capita, essa base de dados precisa conter informa&#231;&#245;es relevantes do pa&#237;s como, por exemplo, taxa de analfabetismo, uso de energia el&#233;trica, informa&#231;&#245;es demogr&#225;ficas e etc.</em></p><p><em>Com essas informa&#231;&#245;es dispon&#237;veis, voc&#234; vai olhar os dados dos pa&#237;ses da Am&#233;rica Latina <strong>apenas para o per&#237;odo anterior a revolu&#231;&#227;o</strong>. Note que, nesse per&#237;odo, nenhum pa&#237;s, nem mesmo Cuba, era socialista<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> ou governada por Fidel Castro. Nesse recorte temporal existem Cuba e os "pa&#237;ses que n&#227;o s&#227;o Cuba". Esses pa&#237;ses s&#227;o aqueles cujas s&#233;ries de PIB per capita potencialmente ser&#227;o utilizadas para a constru&#231;&#227;o da s&#233;rie da <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong>. </em></p><p><em>Para saber quais s&#227;o os pa&#237;ses que v&#227;o contribuir  (e o quanto v&#227;o contribuir) &#8220;doando&#8221; seus PIBs per capita, voc&#234; vai precisar de uma regra. A regra &#233; simples: </em><strong>voc&#234; vai usar a combina&#231;&#227;o de pa&#237;ses nas propor&#231;&#245;es que geram a Cuba Sint&#233;tica mais parecida com a Cuba real </strong><em><strong>antes da revolu&#231;&#227;o</strong>. Por exemplo, uma combina&#231;&#227;o poss&#237;vel &#233; misturar 13% da Costa Rica, 26% do Chile, 22% de Honduras e 38% de El Salvador. O PIB per capita da <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong> ser&#225; uma combina&#231;&#227;o do PIB per capita de cada um desses cinco pa&#237;ses respeitando essas propor&#231;&#245;es. Na pr&#225;tica, quem faz essa conta para voc&#234; &#233; o computador, claro, seguindo o modelo que voc&#234; definiu previamente.</em></p><div><hr></div><p>O PIB per capita ao longo de todos anos da <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong> &#233; o de uma Cuba que n&#227;o experimentou a revolu&#231;&#227;o em 1959, <strong>pois os pa&#237;ses que doaram seus PIB per capitas para sintetiz&#225;-lo nunca passaram por essa revolu&#231;&#227;o. </strong>Por isso, antes de 1959, &#8220;Cuba real&#8221; e <strong>Cuba sint&#233;tica</strong> s&#227;o, em tese, a mesma coisa e, portanto, as trajet&#243;rias dos PIBs per capita de ambas deveriam ser parecidas (na verdade, id&#234;nticas idealmente). N&#243;s sabemos que <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong> &#233; um bom <strong>previsor </strong>do PIB per capita de &#8220;Cuba real&#8221; antes da revolu&#231;&#227;o, pois a regra usada para cri&#225;-la tinha justamente esse crit&#233;rio.  Al&#233;m disso, o que &#233; mais importante: <strong>n&#227;o existe motivo algum para imaginar que esse PIB per capita sint&#233;tico tamb&#233;m n&#227;o seja um bom previsor para o per&#237;odo p&#243;s revolu&#231;&#227;o, </strong><em><strong>exceto pelo fato de que a revolu&#231;&#227;o ocorreu na &#8220;Cuba real&#8221;</strong>.</em> Ou seja, se <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong> era muito parecida com &#8220;Cuba real&#8221; at&#233; 1959 e, a partir desse ano, elas come&#231;arem a divergir uma da outra, a explica&#231;&#227;o mais plaus&#237;vel para essa diverg&#234;ncia &#233; justamente a revolu&#231;&#227;o liderada por Fidel.</p><p><strong>Ok, ok&#8230; TLDR; Apenas mostre-me os resultados</strong></p><p>Alguns colegas e eu utilizamos essa e outras metodologias para construir Cubas contrafactuais (isto &#233;, Cubas onde a revolu&#231;&#227;o n&#227;o ocorreu). O estudo foi <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/twec.12609">publicado</a> e  existe um gr&#225;fico que resume o seu ponto central. Na figura abaixo, h&#225; um gr&#225;fico cujo eixo vertical marca os valores de PIB per capita<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a> e o eixo horizontal o tempo medido em anos. Al&#233;m disso, existem seis linhas com informa&#231;&#245;es de PIB per capita e duas retas vermelhas verticais que marcam os anos de 1959 e 1991.</p><p>A linha azul mostra a evolu&#231;&#227;o do PIB per capita da &#8220;Cuba real&#8221; ao longo dos anos. As outras linhas mostram a evolu&#231;&#227;o do PIB per capita das Cubas fict&#237;cias (contrafactuais), isto &#233;, onde nunca ocorreu revolu&#231;&#227;o, estimadas de cinco maneiras diferentes. A linha com bolinhas, por exemplo, &#233; apenas o PIB per capita da Costa Rica, ou seja, assumindo que esse pa&#237;s seria uma compara&#231;&#227;o natural para Cuba. A linha com cruzes &#233; a <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong>, constru&#237;da utilizando os seguintes pesos: 13% da Costa Rica, 25,9% do Chile, 22,5% de Honduras e 38,5% de El Salvador. As demais Cubas contrafactuais foram estimadas a partir de outros m&#233;todos, os quais o leitor interessado pode encontrar no <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/twec.12609">artigo</a>.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!73dh!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9c6e5997-7b33-48b8-b5f7-26cafb806213_909x604.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!73dh!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9c6e5997-7b33-48b8-b5f7-26cafb806213_909x604.png 424w, 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Fonte: Figura 1 de Jales, Hugo, et al. "Measuring the role of the 1959 revolution on Cuba's economic performance." <em>The World Economy</em> 41.8 (2018): 2243-2274.</figcaption></figure></div><p>Observe como at&#233; 1959 a linha azul e as outras cinco andam juntas umas com as outras. Isso significa que os PIBs per capita das Cubas contrafactuais (aquelas que nunca passaram por uma revolu&#231;&#227;o socialista) fizeram um bom trabalho em prever o PIB per capita da &#8220;Cuba real&#8221; at&#233; 1959. Se o trabalho &#8220;foi bem feito&#8221; entre 1920 e 1959, &#233; razo&#225;vel imaginar que ele continuaria assim ap&#243;s 1959,<strong> a menos que algo tenha acontecido a partir daquele momento com &#8220;Cuba real&#8221;</strong>. A diferen&#231;a entre o PIB per capita contrafactual e o real a partir de 1959 tem que ser explicada pelo que aconteceu dali para frente.<strong> </strong>Sabemos que &#233; a revolu&#231;&#227;o cubana. </p><p>Olhe agora para a linha azul e para as outras cinco linhas no per&#237;odo entre 1959 at&#233; meados de 1970. Todas as cinco linhas <strong>est&#227;o acima da linha azul</strong>. Isso significa que, nesse per&#237;odo, o n&#237;vel de renda per capita de todas Cubas contrafactuais (as que n&#227;o tiveram revolu&#231;&#227;o) s&#227;o maiores do que a &#8220;Cuba real&#8221;. Na aus&#234;ncia da revolu&#231;&#227;o, portanto, Cuba teria um n&#237;vel de renda per capita maior do que observado<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>.</p><p>Isso &#233; especialmente verdade ao longo dos anos 60. A economia cubana estagnou nesse per&#237;odo por v&#225;rios motivos. Incialmente houve uma tentativa fracassada de reduzir a depend&#234;ncia cubana em rela&#231;&#227;o ao a&#231;&#250;car, combinada com uma tentativa de &#8220;industrializar o pa&#237;s&#8221;. Isso deu errado e durou pouqu&#237;ssimo tempo. Ademais, modelo econ&#244;mico socialista cubano dessa &#233;poca foi influenciado pelas opini&#245;es de Che Guevara. Toda economia cubana, desde a produ&#231;&#227;o de cana-de-a&#231;&#250;car at&#233; a padaria da esquina, foi estatizada. Com a estatiza&#231;&#227;o total, inexoravelmente <a href="https://heliumintegers.substack.com/p/distopias-e-o-desenho-de-mecanismo">surge o problema de como alocar eficientemente os recursos</a>, pois, sem pre&#231;os refletindo escassez relativa, n&#227;o h&#225; sinais nem incentivos para guiar a produ&#231;&#227;o. Na vis&#227;o do &#8220;novo homem socialista&#8221; de Guevara, at&#233; mesmo os parcos incentivos &#8220;econ&#244;micos&#8221; que a URSS utilizava na sua economia foram rejeitados em prol de incentivos &#8220;morais&#8221;. N&#227;o deu certo.</p><p>A retomada que voc&#234; pode enxergar a partir dos anos 70  (novamente, veja a linha azul) se d&#225; por dois motivos e os dois tem rela&#231;&#227;o com a URSS. O primeiro foram os acordos comerciais com os sovi&#233;ticos, que envolviam a exporta&#231;&#227;o de a&#231;&#250;car cubano a um pre&#231;o acima da cota&#231;&#227;o internacional e a importa&#231;&#227;o de petr&#243;leo sovi&#233;tico a um pre&#231;o subsidiado. O segundo motivo foi a mudan&#231;a na organiza&#231;&#227;o econ&#244;mica em dire&#231;&#227;o de maior descentraliza&#231;&#227;o e a ado&#231;&#227;o de pr&#225;ticas sovi&#233;ticas de administra&#231;&#227;o econ&#244;mica, ou seja, o abandono do modelo de Che Guevara.</p><p><strong>Ei, ei espere... Mas e o embargo econ&#244;mico?</strong></p><p>O problema desses exerc&#237;cios contrafactuais &#233; que eles nos d&#227;o <strong>os efeitos combinados das coisas</strong>. Veja, a revolu&#231;&#227;o cubana em 1959 mudou quase todos os aspectos da realidade daquele pa&#237;s. Al&#233;m da estatiza&#231;&#227;o da economia, da mudan&#231;a no regime pol&#237;tico e outras altera&#231;&#245;es institucionais, tamb&#233;m aconteceram altera&#231;&#245;es geopol&#237;ticas significativas. Os empres&#225;rios americanos (alguns deles atuando no mesmo ramo de Michael Corleone, diga-se de passagem) tinham muitos investimentos ali. As rela&#231;&#245;es entre Cuba e os Estados Unidos se deterioraram significativamente, principalmente quando Fidel Castro come&#231;ou um alinhamento mais definido com o bloco sovi&#233;tico. A consequ&#234;ncia disso foi a implanta&#231;&#227;o de um embargo econ&#244;mico cada vez mais restritivo imposto pelos EUA, cujo &#225;pice foi atingido em 1962.</p><p>O embargo certamente prejudicou e prejudica Cuba<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a>. O com&#233;rcio internacional permite o acesso a bens e servi&#231;os que, ou s&#227;o muito caros de produzir, ou n&#227;o podem ser produzidos no pa&#237;s. A abertura comercial aumenta a efici&#234;ncia econ&#244;mica, ou seja, permite que o pa&#237;s consiga produzir e consumir mais bens e servi&#231;os usando a mesma quantidade de recursos. Economia fechada &#233; ruim. A quest&#227;o &#233; saber o qu&#227;o prejudicial foi o embargo no caso de Cuba.</p><p>Uma forma de fazer isso &#233; olhar para as exporta&#231;&#245;es de &#8220;Cuba real&#8221; ao longo do tempo e compar&#225;-las com as exporta&#231;&#245;es das Cubas contrafactuais. Fazendo isso, percebemos que &#8220;Cuba real&#8221; teve um n&#237;vel de exporta&#231;&#245;es menor do que todos os contrafactuais, principalmente na d&#233;cada de 1960 (se quiserem ver o gr&#225;fico que mostra isso, entrem nessa nota de rodap&#233;<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>). A diferen&#231;a come&#231;a a cair a partir da segunda metade dos anos 60, quando os acordos comerciais com a Uni&#227;o Sovi&#233;tica come&#231;am a surtir efeito. Assim, os ind&#237;cios sugerem que a diferen&#231;a no n&#237;vel de renda per capita entre &#8220;Cuba sem Fidel&#8221; e &#8220;Cuba com Fidel&#8221; &#233; um <strong>efeito combinado</strong> da revolu&#231;&#227;o em si e do embargo econ&#244;mico. Em outras palavras, a diferen&#231;a &#233; explicada por um efeito direto (o regime de Fidel Castro) e por um indireto (o embargo econ&#244;mico americano). </p><p>Eu tenho certeza que agora o leitor deve estar se perguntando &#8220;ok, mas qual dos dois efeitos importa mais?&#8221;. O estudo tenta responder essa pergunta de uma forma criativa<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-7" href="#footnote-7" target="_self">7</a> e resultado encontrado &#233; que, entre 1960 e 1970, os efeitos direto (revolu&#231;&#227;o) e indireto (embargo) s&#227;o de magnitudes similares, ou seja, o efeito deles na redu&#231;&#227;o da renda per capita de &#8220;Cuba real&#8221; foram parecidos. No entanto, a partir dos anos 70, quando Cuba se beneficia dos acordos com a URSS, a contribui&#231;&#227;o do embargo perde for&#231;a. Em resumo, o embargo &#233; importante, mas n&#227;o explica tudo. Na verdade, n&#227;o explica nem sequer a maior parte da diferen&#231;a. </p><p><strong>&#8220;Ningu&#233;m come PIB&#8221; (sic)</strong></p><p>Depois dessa longa resposta para a pergunta &#8220;<em>como seria Cuba se Fidel tivesse perdido?</em>&#8221;, o leitor pode chegar at&#233; aqui insatisfeito. Afinal, a pergunta &#233; ampla e, embora eu a tenha delimitado melhor, focando apenas no desenvolvimento econ&#244;mico, talvez existam dimens&#245;es importantes que n&#227;o foram contempladas at&#233; aqui. Por exemplo, &#233; poss&#237;vel que o regime cubano n&#227;o estivesse t&#227;o preocupado com o n&#237;vel de renda per capita do pa&#237;s, mas sim com o desenvolvimento social da popula&#231;&#227;o. Logo, a pergunta relevante, nesse caso, seria algo como &#8220;como seria o <strong>desenvolvimento social</strong> de Cuba se Fidel tivesse perdido?&#8221;. </p><p>Os economistas Vincent Geloso e Jamie Pavlik tentam responder essa pergunta em um <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0014498320300784">trabalho</a> no mesmo esp&#237;rito do estudo sobre o PIB per capita. A diferen&#231;a &#233; que, ao inv&#233;s de olhar para uma medida de n&#237;vel de renda,<strong> os autores olham para a mortalidade infantil</strong>. A ideia aqui &#233; investigar se a sa&#250;de cubana &#8212; na medida em que ela impacta a mortalidade infantil &#8212; teria melhorado ou piorado com a revolu&#231;&#227;o de Fidel Castro. A quest&#227;o &#233; interessante, pois, ao mesmo tempo em que a sa&#250;de cubana ap&#243;s a revolu&#231;&#227;o &#233; elogiada por admiradores do regime, h&#225; tamb&#233;m que se levar em conta que os indicadores sociais de Cuba pr&#233;-revolu&#231;&#227;o n&#227;o eram exatamente ruins, muito pelo contr&#225;rio. Logo, trata-se de uma quest&#227;o emp&#237;rica relevante: a revolu&#231;&#227;o reduziu a mortalidade infantil ou n&#227;o?</p><p>O resultado principal do trabalho de Geloso e Pavlik &#233; resumido na figura abaixo. Nela, h&#225; um gr&#225;fico que marca a mortalidade infantil no eixo vertical e os anos no eixo horizontal. No gr&#225;fico, existem duas linhas que mostram a evolu&#231;&#227;o da mortalidade infantil em um per&#237;odo que inclui o ano 1959, assinalado pela linha pontilhada vertical. A linha tracejada &#233; a evolu&#231;&#227;o da mortalidade infantil da Cuba contrafactual (sem a revolu&#231;&#227;o ter ocorrido), j&#225; a linha s&#243;lida &#233; a evolu&#231;&#227;o do mesmo indicador, mas para &#8220;Cuba real&#8221;.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ql_O!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F720458d6-8173-497c-bea2-de2c5c7b668d_954x746.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!ql_O!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F720458d6-8173-497c-bea2-de2c5c7b668d_954x746.png 424w, 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Fonte: Figura 1 de Geloso, Vincent, e Jamie Bologna Pavlik. "The Cuban revolution and infant mortality: A synthetic control approach." <em>Explorations in Economic History</em> 80 (2021): 101376.</figcaption></figure></div><p>Pelo menos tr&#234;s coisas chama aten&#231;&#227;o nesse gr&#225;fico. A primeira delas &#233; que, antes de 1959, Cuba real <strong>j&#225; apresentava uma consider&#225;vel melhora em rela&#231;&#227;o a mortalidade infantil</strong>. A tend&#234;ncia era de redu&#231;&#227;o da mortalidade entre a metade da d&#233;cada de 40 e o final da d&#233;cada de 50. A segunda coisa que chama aten&#231;&#227;o &#233; que a mortalidade infantil de Cuba contrafactual (linha tracejada) acompanha a de &#8220;Cuba real&#8221; at&#233; 1959. Isso &#233; o que se espera, afinal, antes de 1959 as duas Cubas &#8212; real e contrafactual &#8212; n&#227;o eram afetadas pela revolu&#231;&#227;o cubana. Por&#233;m, ap&#243;s 1959, a mortalidade infantil das duas Cubas tomam rumos completamente diferentes. Na &#8220;Cuba real&#8221;, impactada pela revolu&#231;&#227;o, a mortalidade come&#231;a a aumentar rapidamente ao longo dos anos 60. Por outro lado, <strong>a mortalidade infantil de Cuba contrafactual continua na mesma tend&#234;ncia de queda at&#233; os anos 70. </strong>Ou seja, pelo menos na primeira d&#233;cada da revolu&#231;&#227;o, o indicador de sa&#250;de analisado vai muito pior do que teria ido <strong>na aus&#234;ncia da revolu&#231;&#227;o</strong>. Por fim, o terceiro elemento que precisa ser destacado &#233; que, a partir de 1970 &#8212; quando o aux&#237;lio sovi&#233;tico ganha import&#226;ncia &#8212;, a mortalidade infantil de &#8220;Cuba real&#8221; come&#231;a a cair e a de <strong>Cuba Sint&#233;tica</strong> come&#231;a a subir at&#233; atingir um n&#237;vel pr&#243;ximo ao da primeira.</p><p>Bem, ent&#227;o como seria o desenvolvimento social de<strong> </strong>Cuba se Fidel tivesse perdido? Os ind&#237;cios mostram que, pelo menos no quesito mortalidade infantil, ele seria bem melhor do que o de &#8220;Cuba real&#8221; nos primeiros quinze anos da revolu&#231;&#227;o cubana. Ap&#243;s esse per&#237;odo, com o aux&#237;lio sovi&#233;tico e com piora da mortalidade infantil de Cuba contrafactual, os n&#237;veis de mortalidade se aproximam. Segundo os autores, essa diferen&#231;a entre <strong>Cuba real</strong> e <strong>Cuba contrafactual </strong>nesses quinze anos iniciais representam um excesso de mortes de 40 a 50 mil crian&#231;as<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-8" href="#footnote-8" target="_self">8</a>.</p><p><strong>**</strong></p><p><strong>De volta para 31 de dezembro. Quase meia-noite</strong></p><blockquote><p>[CORTA PARA: O Dance Hall onde todos festejam e jogam confetes para o ar. A banda toca <em>Guantanamera</em>. Todos se abra&#231;am e se beijam. MICHAEL vai at&#233; o irm&#227;o e o abra&#231;a.]</p><p>MICHAEL: (sussurrando no ouvido de FREDO) <em>Tem um avi&#227;o nos esperando para nos levar para Miami em uma hora, certo? N&#227;o fa&#231;a muito alarde."</em></p><p>[Ele pega FREDO pelos dois lados do rosto e o beija na boca]</p><p><em>Eu sei que foi voc&#234;, FREDO &#8212; voc&#234; partiu meu cora&#231;&#227;o &#8212; voc&#234; partiu meu cora&#231;&#227;o!</em></p></blockquote><p>No filme, Michael e seu irm&#227;o Fredo conseguiram fugir da ilha naquela noite, assim como Fulg&#234;ncio Batista e seus familiares na vida real. A esmagadora maioria da popula&#231;&#227;o cubana, n&#227;o entanto, n&#227;o teve a mesma sorte. Para elas, restou apenas encher c&#226;maras de ar de pneus usados, boias de piscina e praticar boxe contra tubar&#245;es no oceano atl&#226;ntico &#8212; sempre fazendo a pergunta: <em>Amigo, &#191;qu&#233; tan lejos estamos de Florida?</em></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://www.heliumintegers.com/subscribe?"><span>Inscrever-se agora</span></a></p><p></p><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p>Os economistas Marianne Ward e John Deveraux, por exemplo, <a href="https://www.jstor.org/stable/41353825">utilizaram</a> a Costa Rica para comparar com Cuba por serem pa&#237;ses pr&#243;ximos e com caracter&#237;sticas relativamente semelhantes antes de 1959. Segundo estimativas dos autores, em 2000, Cuba teria um PIB per capita equivalente a 43% de Costa Rica. Para compara&#231;&#227;o, em 1955 (antes da revolu&#231;&#227;o), as estimativas dos autores colocam o PIB de Cuba como sendo 68% maior do que o da Costa Rica. Ou seja, um caso cl&#225;ssico de <em><a href="https://economics.mit.edu/sites/default/files/publications/reversal-of-fortune.pdf">reversal of fortune</a></em>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Claro, se existir algum pa&#237;s que seja socialista, voc&#234; precisa retir&#225;-lo. Por exemplo, se a URSS estivesse na sua base de dados, ela precisaria cair fora.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p>Na verdade, o logaritmo do PIB, mas deixa pra l&#225;.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>John Devereux chega a uma conclus&#227;o parecida usando uma metodologia e crit&#233;rios distintos em seu artigo <a href="https://www.cambridge.org/core/journals/revista-de-historia-economica-journal-of-iberian-and-latin-american-economic-history/article/abs/absolution-of-history-cuban-living-standards-after-60-years-of-revolutionary-rule/67564BF51F269BD02F0555A45ED78C04">&#8220;The Absolution of History: Cuban Living Standards after 60 years of Revolutionary Rule&#8221;</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>Afinal, &#233; justamente esse o prop&#243;sito de um embargo econ&#244;mico.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1IeP!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F192cbd20-e5c1-44a0-b193-4526a192dc6e_830x545.png" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1IeP!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F192cbd20-e5c1-44a0-b193-4526a192dc6e_830x545.png 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1IeP!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F192cbd20-e5c1-44a0-b193-4526a192dc6e_830x545.png 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!1IeP!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F192cbd20-e5c1-44a0-b193-4526a192dc6e_830x545.png 1272w, 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role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a><figcaption class="image-caption">Trajet&#243;rias das Exporta&#231;&#245;es de Cuba observada e contrafactuais. Fonte: Figura 3 de Jales, Hugo, et al. "Measuring the role of the 1959 revolution on Cuba's economic performance." <em>The World Economy</em> 41.8 (2018): 2243-2274.</figcaption></figure></div><p></p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-7" href="#footnote-anchor-7" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">7</a><div class="footnote-content"><p>A ideia para separar os dois efeitos &#233; simples: Sabemos que a renda de um pa&#237;s &#233; afetada pelas exporta&#231;&#245;es dele. Para encontrar o PIB per capita das Cubas contrafactuais, foi utilizado as exporta&#231;&#245;es reais de Cuba e n&#227;o as que ela teria na aus&#234;ncia de um embargo econ&#244;mico. Logo, uma forma de tentar filtrar o efeito do embargo no PIB per capita contrafactual &#233; utilizar n&#227;o as exporta&#231;&#245;es reais, <strong>mas sim as exporta&#231;&#245;es contrafactuais, isto &#233;, as que existiriam caso Cuba n&#227;o tivesse passado pela revolu&#231;&#227;o</strong>. A diferen&#231;a entre esses dois PIB contrafactuais nos d&#227;o uma ideia do efeito direto da revolu&#231;&#227;o, sem o embargo econ&#244;mico. Mais detalhes podem ser encontrados no <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/twec.12609">artigo</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-8" href="#footnote-anchor-8" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">8</a><div class="footnote-content"><p>Ainda segundo os autores, essa &#233; uma estimativa conservadora, pois &#233; sens&#237;vel ao conjunto de pa&#237;ses &#8220;doadores&#8221;. No <a href="https://ars.els-cdn.com/content/image/1-s2.0-S0014498320300784-mmc1.pdf">ap&#234;ndice do artigo</a>, mas especificamente na Figura 2, o excesso de mortalidade &#233; muito maior quando se inclui no conjunto de pa&#237;ses doadores outros pa&#237;ses al&#233;m dos da Am&#233;rica Latina.</p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As Lições de Bedford Falls]]></title><description><![CDATA[Contrafactuais, corridas banc&#225;rias e a economia civil de Frank Capra]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/as-licoes-de-bedford-falls</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/as-licoes-de-bedford-falls</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sat, 24 Dec 2022 08:45:08 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b6639536-c59e-4c6c-94c9-128682598460_1280x720.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Como seria o mundo se voc&#234; nunca tivesse nascido? Esse &#233; o exerc&#237;cio imaginativo que o cl&#225;ssico natalino <em><a href="https://www.imdb.com/title/tt0038650/">It&#8217;s a Wonderful</a></em><a href="https://www.imdb.com/title/tt0038650/"> </a><em><a href="https://www.imdb.com/title/tt0038650/">Life</a> </em>prop&#245;e ao espectador. O filme de 1946 faz parte da hist&#243;ria do cinema mundial e talvez tenha sido o primeiro dos muitos filmes americanos que fazem especula&#231;&#245;es similares<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a>. O fasc&#237;nio que temos sobre esse assunto n&#227;o &#233; gratuito. Imaginar cen&#225;rios contrafactuais (situa&#231;&#245;es que n&#227;o aconteceram, mas que poderiam ter acontecido) &#233; o que fazemos diariamente na hora de tomar decis&#245;es. Afinal, esses cen&#225;rios est&#227;o impl&#237;citos em todas nossas cren&#231;as sobre rela&#231;&#245;es de causa e efeito no mundo em que vivemos. Sem uma intui&#231;&#227;o b&#225;sica dessa rela&#231;&#227;o ser&#237;amos incapazes de agir<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a> racionalmente.</p><p>Grosso modo, &#8220;algo&#8221; &#233; a <strong>causa </strong>de &#8220;alguma coisa&#8221; quando, se esse &#8220;algo&#8221; n&#227;o tivesse acontecido, ent&#227;o essa &#8220;alguma coisa&#8221; tamb&#233;m n&#227;o teria acontecido. Embora a defini&#231;&#227;o seja simples, encontrar rela&#231;&#245;es de causa e efeito &#233; mais dif&#237;cil do que imaginamos. Em um <a href="https://www.amazon.com/Causality-Reasoning-Inference-Judea-Pearl/dp/052189560X/ref=sr_1_1?crid=1VLBZXGCFH0JD&amp;keywords=causality&amp;qid=1671535132&amp;sprefix=causalit%2Caps%2C217&amp;sr=8-1">livro</a> do fil&#243;sofo e cientista da computa&#231;&#227;o Judea Pearl, h&#225; uma cita&#231;&#227;o atribu&#237;da a Dem&#243;crito que ilustra esse ponto:</p><div class="pullquote"><p>&#8220;Prefiro descobrir uma &#250;nica lei causal a ser rei da P&#233;rsia!&#8221;</p></div><p>O fil&#243;sofo pr&#233;-socr&#225;tico julgava que o conhecimento de uma lei causal apenas j&#225; &#233; uma raridade maior do que possuir um reino inteiro. Em outras palavras, n&#227;o &#233; todo dia que voc&#234; encontra uma &#8220;lei causal&#8221; ali na esquina. </p><p>N&#227;o &#233; apenas Dem&#243;crito que parece ter entendido a dificuldade. O filme dirigido por Frank Capra tamb&#233;m nos d&#225; essa e outras li&#231;&#245;es, como logo veremos.</p><p><strong>***</strong></p><p>Curiosamente, um dos filmes natalinos mais marcantes de todos os tempos come&#231;a com uma &#8220;for&#231;a tarefa&#8221; para impedir que o protagonista, George Bailey, tire sua pr&#243;pria vida. Seguindo a tradi&#231;&#227;o cat&#243;lica do diretor e roteirista, as primeiras cenas de <em>It&#8217;s a Wonderful Life </em>mostram amigos e familiares rezando e pedindo a Deus para que Ele ajude o pai de fam&#237;lia desesperado. As preces s&#227;o ouvidas e a &#8220;administra&#231;&#227;o celestial&#8221; atribui ao anjo da guarda de Bailey, Clarence, a miss&#227;o de salv&#225;-lo. Em seguida, o anjo e os espectadores come&#231;am a aprender um pouco mais sobre a vida desse homem que est&#225; prestes a pular de uma ponte. </p><p><strong>As frustra&#231;&#245;es da juventude</strong></p><p>George Bailey nasceu uma pequena cidade chamada Bedford Falls. Logo quando crian&#231;a, nosso protagonista teve muito azar. Seu irm&#227;o mais novo, Harry, quase teria morrido afogado ao cair em um rio congelado, se n&#227;o tivesse sido salvo pelo pr&#243;prio George. O resgate do irm&#227;o, no entanto, custou a audi&#231;&#227;o de um dos ouvidos de Bailey, devido a uma infec&#231;&#227;o contra&#237;da durante o salvamento na &#225;gua congelante. Essa perda da audi&#231;&#227;o tiraria dele o privil&#233;gio de lutar no <em>front </em>da II Guerra Mundial. Enquanto George fazia tarefas banais para o esfor&#231;o de guerra na pr&#243;pria cidadezinha, seu irm&#227;o Harry se tornaria um grande piloto da marinha e her&#243;i de guerra.</p><p>O grande sonho de George era viajar pelo mundo, estudar arquitetura na universidade e projetar pr&#233;dios e cidades modernas. No entanto, esse sonho foi postergado indefinidamente quando seu pai, Peter Bailey, teve um derrame e coube ao filho assumir administra&#231;&#227;o do neg&#243;cio da fam&#237;lia, o <em>Bailey Brothers Building and Loan</em>. O neg&#243;cio, na verdade, era uma associa&#231;&#227;o financeira t&#237;pica da &#233;poca, cuja finalidade era financiar hipotecas e constru&#231;&#227;o de casas a partir de dep&#243;sitos individuais dos moradores da cidade. Nosso protagonista fez esse sacrif&#237;cio, pois alternativa seria deixar a empresa para um dos membros da diretoria, Henry F. Potter &#8212; &#8220;o homem mais rico do condado&#8221; &#8212; e isso implicaria uma mudan&#231;a radical da pol&#237;tica da empresa. O senhor Potter, um homem frio, pressionava Peter Bailey a executar as hipotecas dos devedores com atrasos. O pai de George, por outro lado, tinha maior leni&#234;ncia com atrasos, procurando conhec&#234;-los caso a caso.</p><p><strong>As frustra&#231;&#245;es da vida adulta</strong></p><p>Condenado a uma vida provinciana na cidade em que nascera, Bailey ao menos conheceu ali o amor da sua vida, Mary Hatch, com a qual se casou. Enfim, o desejo de sair da cidade, viajar e conhecer outros lugares poderia ser parcialmente realizado na lua de mel. Infelizmente, mesmo essa pequena realiza&#231;&#227;o seria frustrada. J&#225; no t&#225;xi, literalmente prestes a iniciar a viagem com a esposa, Bailey se depara com um novo problema. O pr&#243;prio taxista e seu amigo, Ernie, que faz o alerta : &#8220;N&#227;o olhe agora, mas h&#225; algo engra&#231;ado acontecendo l&#225; no banco, George, <em>eu realmente nunca vi uma</em>, <em>mas isso tem todas as marcas</em> <strong>de uma corrida</strong>.&#8221; Isso mesmo, naquele exato momento estava acontecendo uma corrida banc&#225;ria em Bedford Falls. </p><div><hr></div><p>Caso o leitor n&#227;o saiba, bancos s&#227;o institui&#231;&#245;es que transformam ativos de longo prazo e com baixa liquidez (aquele empr&#233;stimo para um amigo seu fazer uma petshop) em recursos l&#237;quidos para seus clientes (grana na conta corrente). Como consequ&#234;ncia, bancos t&#234;m um problema fundamental: <strong>eles s&#227;o &#8220;insolventes&#8221; no curto prazo</strong>. Isto &#233;, se todos os depositantes quiserem dinheiro imediatamente, o banco quebra, pois seus ativos valem menos se s&#227;o liquidados antes da hora certa. Por exemplo, se o banco precisar transformar imediatamente o empr&#233;stimo que ele fez para a petshop do seu amigo em dinheiro, ele pode tentar transformar esse contrato de d&#237;vida em uma esp&#233;cie de &#8220;t&#237;tulo&#8221; e tentar vend&#234;-lo a algu&#233;m. O problema &#233; que dificilmente o valor que ele receber&#225; ser&#225; igual ao valor de face do ativo.  (se o leitor quiser saber mais sobre o assunto, sinta-se a vontade para ler a <em>nota de rodap&#233; mais longa do mundo</em><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-3" href="#footnote-3" target="_self">3</a>). </p><p>Por causa desse problema fundamental, <strong>s&#243; existem dois cen&#225;rios poss&#237;veis</strong>: (1) ou todas as pessoas sacam <strong>apenas o dinheiro necess&#225;rio</strong> para cumprir as obriga&#231;&#245;es do dia a dia e o banco continua solvente, administrando as entradas e sa&#237;das recorrentes de recursos; ou (2) <strong>todos sacam ao mesmo tempo a grana</strong>, o que muito provavelmente levar&#225; o banco a fal&#234;ncia e, nesse caso, &#233; melhor voc&#234; correr para chegar ao banco primeiro antes que o dinheiro dele acabe<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-4" href="#footnote-4" target="_self">4</a>. Esses dois cen&#225;rios s&#227;o os <a href="https://www.nobelprize.org/uploads/2022/11/dybvig-lecture-slides.pdf">equil&#237;brios poss&#237;veis</a> e o que determina em qual deles o banco se encontra &#233; o <strong>n&#237;vel de confian&#231;a dos clientes</strong>.</p><div><hr></div><p>E foi exatamente com o n&#237;vel de confian&#231;a que George Bailey se preocupou ao perceber que de fato se tratava de uma corrida banc&#225;ria. Ele logo imaginou que a sua pr&#243;pria associa&#231;&#227;o, <em>Bailey Brothers Building and Loan, </em>estaria em apuros e foi correndo com Mary at&#233; l&#225;. As portas estavam fechadas mesmo n&#227;o sendo feriado. Na frente, havia uma multid&#227;o de clientes ansiosos e com medo de que suas economias estivessem amea&#231;adas.</p><p>Sabendo que o jogo de corrida banc&#225;ria &#233; um jogo de confian&#231;a, Bailey abre as portas com um sorriso confiante, mas ao entrar no local v&#234; seu tio Billy sentado na frente do seu escrit&#243;rio e bebendo (provavelmente algum destilado apropriado para a ocasi&#227;o). O que aconteceu foi que o banco em apuros pediu que a associa&#231;&#227;o pagasse os empr&#233;stimos devidos imediatamente. Billy fez o pagamento e com isso n&#227;o havia mais nenhum dinheiro na associa&#231;&#227;o naquele momento. No desespero, o tio fechou o estabelecimento &#8212; um grave erro para quem quer passar confian&#231;a, principalmente quando o banco da cidade est&#225; com problemas de liquidez e as pessoas precisam de dinheiro para sobreviver.</p><p>&#8220;Quero meu dinheiro agora&#8221;, disse um dos membros da associa&#231;&#227;o. Assim como ele, a multid&#227;o queria resgatar seus recursos imediatamente, mas como bem explicou Bailey, n&#227;o &#233; assim que uma institui&#231;&#227;o financeira funciona:</p><blockquote><p>George Bailey:<em> &#8220;N&#227;o, mas voc&#234;... voc&#234;... voc&#234; est&#225; pensando tudo errado sobre este lugar. Como se eu tivesse o dinheiro l&#225; atr&#225;s em um cofre. O dinheiro n&#227;o est&#225; aqui. Seu dinheiro est&#225; na casa do Joe... </em>(dirigindo-se para um dos homens)<em> ...ao lado da sua casa. E na casa dos Kennedy, e na casa da Sra. Macklin. Porque, voc&#234; est&#225; emprestando-lhes o dinheiro para construir, e ent&#227;o, eles v&#227;o pagar de volta para voc&#234; da melhor maneira poss&#237;vel. O que voc&#234; faria agora? Executaria a hipoteca deles?&#8221;</em></p></blockquote><p>O problema do p&#226;nico banc&#225;rio &#233; que a decis&#227;o individual de exigir o resgate do dinheiro desconsidera o efeito global que ele gera. Como ilustra a fala de um dos associados:</p><blockquote><p>Tom:<em> &#8220;Eu tenho duzentos e quarenta e dois d&#243;lares aqui, e duzentos e quarenta e dois d&#243;lares n&#227;o v&#227;o quebrar ningu&#233;m.</em>&#8221;</p></blockquote><p>Sim, mas o Tom esqueceu de combinar isso com os demais que estavam na fila. &#201; justamente esse problema de coordena&#231;&#227;o que geram os dois equil&#237;brios poss&#237;veis (o bom e o ruim) para uma institui&#231;&#227;o financeira. Se apenas Tom fosse sacar o dinheiro dele, n&#227;o haveria motivo para ningu&#233;m mais sacar e a associa&#231;&#227;o estaria solvente. Mas esse n&#227;o era o caso. N&#227;o era apenas o Tom e sim boa parte dos membros da associa&#231;&#227;o. <em>Bailey Brothers Building and Loan </em>estava no equil&#237;brio da corrida banc&#225;ria. </p><p>A associa&#231;&#227;o estava prestes a falir ou pior: ser adquirida pelo Mr. Potter, que estava oferecendo comprar as participa&#231;&#245;es dos associados por metade do valor. No entanto, Mary, a esposa de George, pensa r&#225;pido e decide utilizar o dinheiro reservado para a lua de mel para honrar as obriga&#231;&#245;es. Os dois mil d&#243;lares poupados para a viagem foram exatamente o necess&#225;rio para atender todos os saques dos associados e, embora a associa&#231;&#227;o estivesse salva, George mais uma vez n&#227;o conseguiria sair de Bedford Falls<strong>.</strong></p><p><strong>Pulando da panela para o fogo</strong></p><p>Finalmente, somos levados ao tempo presente no filme, quando as atribula&#231;&#245;es de George Bailey parecem atingir o &#225;pice. Na v&#233;spera de Natal, seu tio Billy perde oito mil d&#243;lares (122 mil d&#243;lares a pre&#231;os de hoje) da associa&#231;&#227;o que precisavam ser depositados no banco. Sem esse dinheiro, a associa&#231;&#227;o seria arruinada e com isso tamb&#233;m o legado de Peter Bailey, seu pai. Al&#233;m disso, George, agora tamb&#233;m pai de quatro filhos, iria para cadeia, junto com seu tio Billy.</p><p>Desesperado, Bailey recorre ao sr. Potter e tenta pedir um empr&#233;stimo. O magnata apenas ri e exige garantias, mas Bailey n&#227;o tem nada a n&#227;o ser uma ap&#243;lice de seguro de vida que pagaria quinze mil d&#243;lares em caso de morte, mas cujo valor de venda era de apenas quinhentos d&#243;lares.</p><blockquote><p>Sr. Potter: <em>&#8220;&#8230; sem a&#231;&#245;es, sem t&#237;tulos, nada al&#233;m de miser&#225;veis quinhentos d&#243;lares em uma ap&#243;lice de seguro de vida. <strong>Voc&#234; vale mais morto do que vivo.</strong> Por que voc&#234; n&#227;o vai at&#233; essa gentalha que voc&#234; ama tanto e pe&#231;a para eles te darem oito mil d&#243;lares? Voc&#234; sabe por qu&#234;? Porque eles te expulsariam da cidade correndo&#8230; Sabe o que eu vou fazer por voc&#234;? (&#8230;) na condi&#231;&#227;o de acionista do Building and Loan, eu vou emitir um mandado de pris&#227;o contra voc&#234;.&#8221; </em></p></blockquote><p>A resposta cruel do senhor Potter deu uma ideia ao nosso protagonista. Naquele momento, George Bailey concordaria com o velho magnata: Sua miser&#225;vel vida valia menos do que vinte mil d&#243;lares e, assim, concluiu que pular da ponte de Bedford Falls era a decis&#227;o economicamente mais racional.</p><p><strong>***</strong></p><p>O que torna o filme uma hist&#243;ria natalina para toda fam&#237;lia e n&#227;o um drama depressivo, &#233; que Clarence (o anjo da guarda de George) aparece bem na hora e salva nosso her&#243;i de morrer afogado. Apesar disso, mesmo ap&#243;s ser resgatado, George n&#227;o fica feliz, pois o problema original permanecia e a matem&#225;tica macabra que o fez pular ainda estava correta. </p><blockquote><p><em>GEORGE: &#8220;S&#243; h&#225; uma maneira de voc&#234; me ajudar. Voc&#234; por acaso n&#227;o tem oito mil em dinheiro com voc&#234;?&#8221;</em></p><p><em>CLARENCE: &#8220;Oh, n&#227;o, n&#227;o. N&#227;o usamos dinheiro no C&#233;u.&#8221;</em></p><p>(&#8230;)</p><p><em>CLARENCE: </em>(para si mesmo)<em> &#8220;Hmmmm, isso n&#227;o ser&#225; f&#225;cil.&#8221; </em>(para o George)<em> &#8220;Ent&#227;o, voc&#234; ainda acha que se matar faria com que todos se sentissem mais felizes, eh?&#8221;</em></p><p><em>GEORGE: &#8220;Oh, eu n&#227;o sei. Talvez voc&#234; tenha raz&#227;o. Eu suponho que seria melhor se eu n&#227;o tivesse sequer nascido.&#8221;</em></p><p><em>CLARENCE: &#8220;O que voc&#234; disse?&#8221;</em></p><p><em>GEORGE: &#8220;Eu disse que eu desejo nunca ter nascido.&#8221;</em></p></blockquote><p>George havia se convencido que pular da ponte n&#227;o deixaria todos mais felizes, afinal, ele tinha uma fam&#237;lia. Contudo, parecia-lhe claro que seria melhor que se ele nunca tivesse existido, pois, assim, o problema seria resolvido e, como b&#244;nus, n&#227;o haveriam traumas a serem superados pelos familiares. </p><p>Percebendo uma oportunidade, Clarence decide agir concedendo a George Bailey um dos maiores privil&#233;gios que se pode agraciar um ser humano. Clarence mostra a George<em> um aut&#234;ntico e verdadeiro mundo contrafactual</em>. Uma realidade id&#234;ntica ao mundo real exceto por uma &#250;nica diferen&#231;a: nosso protagonista nunca existiu nela. </p><p>Ao perambular pela cidade contrafactual, George come&#231;a a estranhar as ruas e quadras que conhecia t&#227;o bem. Para a surpresa de Bailey, <strong> a realidade alternativa &#233; muito pior</strong>. Nesse mundo, seu irm&#227;o nunca foi um her&#243;i de guerra, pois George n&#227;o estava l&#225; para salv&#225;-lo do afogamento. Ele tamb&#233;m nunca esteve presente para salvar a empresa de seu pai. Como resultado, Bedford Falls &#233; uma cidade triste e, na verdade, nem se chama mais Bedford Falls. Ela foi inteiramente dominada pelo Sr. Potter, o qual n&#227;o est&#225; preocupado com nada al&#233;m de seu pr&#243;prio bem-estar. Pottersville, como foi rebatizada, &#233; uma cidade fria como seu dono e sem esp&#237;rito comunit&#225;rio. George tamb&#233;m nunca casou com Mary e nunca teve filhos. Sua esposa &#233; uma mulher solit&#225;ria e infeliz.</p><p>Em uma das cenas mais belas do cinema, George, desesperado, retorna at&#233; a ponte na qual renunciou &#224; vida, s&#243; que dessa vez para pedi-la de volta. Ele clama aos c&#233;us e ao seu anjo da guarda:</p><blockquote><p>[MUSIC CUE: <a href="https://youtu.be/x74QQW_Xjn0?t=315">"THE PRAYER&#8221; by Dimitri Tiomkin &amp; His Orchestra</a>]<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-5" href="#footnote-5" target="_self">5</a></p><p><em>George Bailey: &#8220;Clarence! Clarence! Ajude-me, Clarence. Traga-me de volta. Traga-me de volta. Eu n&#227;o me importo com o que acontece comigo. Apenas me leve de volta para minha esposa e filhos. Ajude-me, Clarence, por favor! Por favor! Eu quero viver de novo!&#8221;</em></p></blockquote><p><strong>Bem, voc&#234; n&#227;o &#233; o rei da P&#233;rsia e t&#227;o pouco conhece leis causais</strong></p><p>A li&#231;&#227;o principal do filme &#233; clara assim como o nome Clarence. O modo como voc&#234; e eu existimos no mundo n&#227;o nos permite fazer julgamentos de causa e efeito definitivos a respeito de vidas inteiras, seja da nossa ou da vida de outras pessoas. N&#243;s <strong>n&#227;o conhecemos contrafactuais de verdade</strong> por maior que seja nosso esfor&#231;o de tentar reproduzi-los ou estim&#225;-los cientificamente<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-6" href="#footnote-6" target="_self">6</a>. Ignorar essa limita&#231;&#227;o a respeito do conhecimento humano &#233; o que o economista F. A. Hayek chamou de "Pretens&#227;o de Conhecimento" (<em><a href="https://www.nobelprize.org/prizes/economic-sciences/1974/hayek/lecture/">Pretense of Knolwedge</a></em>). Em sua palestra, quando recebeu o Nobel de economia, ele diz o seguinte:</p><blockquote><p><em>&#8220;Se o homem n&#227;o deve fazer mais mal do que bem em seus esfor&#231;os para melhorar a ordem social, ele ter&#225; que aprender que neste, como em todos os outros campos onde a complexidade de um tipo organizado prevalece, <strong>ele n&#227;o pode adquirir o conhecimento completo que tornaria poss&#237;vel o dom&#237;nio dos eventos</strong>. Ele ter&#225;, portanto, que usar o conhecimento que puder adquirir, n&#227;o para moldar os resultados como o artes&#227;o molda sua obra, <strong>mas sim para cultivar um crescimento, fornecendo o ambiente apropriado, da maneira como o jardineiro faz isso com suas plantas.</strong>&#8221;</em></p></blockquote><p>S&#243; &#233; poss&#237;vel julgar definitivamente os acontecimentos se consegu&#237;ssemos nos colocar inteiramente &#8220;fora do mundo&#8221; ou &#8220;da hist&#243;ria&#8221;. No entanto, esse &#233; um privil&#233;gio que n&#227;o temos, exceto na fic&#231;&#227;o ou na pseudoci&#234;ncia. A &#8220;hist&#243;ria&#8221; ainda n&#227;o terminou e voc&#234; n&#227;o sabe quando ela terminar&#225;. Esse fato tem repercuss&#245;es que n&#227;o apenas frustram aspira&#231;&#245;es totalit&#225;rias de controle social &#8212; com as quais Hayek estava preocupado &#8212;, mas que tamb&#233;m s&#227;o decisivas no modo como interpretamos nossa pr&#243;pria vida. </p><p>Diante dessas limita&#231;&#245;es e apesar das dificuldades da vida, a obra de Frank Capra nos convida a agir sempre com bondade e amor ao pr&#243;ximo, assim como o protagonista do filme. Isso fica claro quando, no final, George Bailey testemunha um milagre de Natal. Contrariando a profecia do Sr. Potter, a cidade inteira, ao saber do dinheiro perdido, se une para restituir a quantia. O total arrecadado supera em muito os oito mil d&#243;lares extraviados. Bailey n&#227;o era um fracasso, afinal. N&#227;o porque tinha acumulado t&#237;tulos ou a&#231;&#245;es, mas sim porque, mesmo sem perceber, <strong>ele havia dedicado sua vida a preservar uma comunidade</strong>.</p><p>O milagre de Bedford Falls foi poss&#237;vel, pois os membros da comunidade confiavam em George e tamb&#233;m uns nos outros. Essa &#233; mais uma li&#231;&#227;o do filme: comunidades podem ser o meio mais adequado para resolver o velho dilema <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0304393207001559">&#8220;Mercado </a><em><a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0304393207001559">versus </a></em><a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0304393207001559">Estado&#8221;</a>. </p><div><hr></div><p>Sabemos que a economia de mercado, em geral, &#233; bastante eficiente na aloca&#231;&#227;o de recursos, &#233; compat&#237;vel com a liberdade e tamb&#233;m oferece as condi&#231;&#245;es para inova&#231;&#227;o e dinamismo econ&#244;mico. No entanto, sabemos tamb&#233;m que existem quest&#245;es que n&#227;o s&#227;o t&#227;o facilmente resolvidas apenas com pre&#231;os. Problemas de a&#231;&#227;o coletiva como, por exemplo, evitar o equil&#237;brio ruim de uma corrida banc&#225;ria, exigem uma coordena&#231;&#227;o entre os indiv&#237;duos e n&#227;o s&#227;o facilmente resolvidos pelo sistema de pre&#231;o. Uma ap&#243;lice de seguro contra uma mar&#233; de azar na vida (que, em tese, poderia incluir at&#233; as condi&#231;&#245;es do seu nascimento ou a presen&#231;a de um tio atrapalhado que perde seu dinheiro), por exemplo, tamb&#233;m &#233; dif&#237;cil de contratar no mercado, pois esse contrato de seguro seria muito dif&#237;cil de escrever e adimplir.</p><p>Uma sugest&#227;o &#243;bvia para tentar complementar o mercado &#233; o Estado. Com ele, &#233; at&#233; poss&#237;vel criar alguma rede de prote&#231;&#227;o social que funcionaria como um seguro. Tamb&#233;m &#233; poss&#237;vel resolver problemas de a&#231;&#227;o coletiva. O problema &#233; que isso, em geral, &#233; feito &#224;s custas de efici&#234;ncia e liberdade. Afinal, governos s&#227;o feitos dando poderes para pessoas, e <a href="https://www.econlib.org/library/Enc/PublicChoice.html">pessoas t&#234;m suas pr&#243;prias agendas</a>. As experi&#234;ncias n&#227;o s&#227;o boas.</p><p>O que Frank Capra mostra em Bedford Falls &#233; uma terceira forma &#8212; complementar &#8212; de cuidar dos recursos da sociedade. No filme, a confian&#231;a interpessoal entre os membros de uma <a href="http://cup.columbia.edu/book/civil-economy/9781911116004">comunidade civil</a> resolveu os problemas sem mercados ou governos. Bailey conseguiu mitigar parte dos efeitos da corrida banc&#225;ria apenas conversando com as pessoas. Al&#233;m disso, no final do filme, a comunidade se reuniu para ajudar algu&#233;m em apuros. A&#231;&#245;es coletivas e divis&#227;o de riscos em uma sociedade s&#227;o mais f&#225;ceis de serem realizadas na presen&#231;a de confian&#231;a m&#250;tua e de esp&#237;rito comunit&#225;rio.</p><div><hr></div><p><strong>Uma Mensagem Final</strong></p><p>Se voc&#234; sobreviveu at&#233; aqui, caro leitor, entenda: A vida de George Bailey &#233; <strong>a sua tamb&#233;m.</strong> Esse ano pode n&#227;o ter sido t&#227;o bom quanto voc&#234; imaginava e, talvez algum de voc&#234;s, assim como George, pense que sua vida at&#233; aqui n&#227;o passou de uma sucess&#227;o de frustra&#231;&#245;es. No entanto, lembre-se de Bedford Falls. Impl&#237;cito no filme, est&#225; a tese de que cada um de n&#243;s n&#227;o &#233; apenas parte de um drama individual, mas sim de uma hist&#243;ria maior, da qual o Autor, embora nos convide a colaborar, <strong>&#233; o &#250;nico que leu todo roteiro</strong>. Por isso, &#233; poss&#237;vel que voc&#234; esteja apenas no meio da hist&#243;ria cujo um dos pap&#233;is lhe cabe; e esse papel pode ser mais importante do que voc&#234; imagina.</p><p>[MUSIC CUE: <a href="https://music.youtube.com/watch?v=eGUHDeclBkA">"AULD LANG SYNE" by Glenn Miller and His Orchestra</a>]</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler mais um post de Helium Integers! Se voc&#234; gostou, por favor inscreva-se na newsletter. Um Feliz Natal a todos! </p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Type your email&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscrever-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-1" href="#footnote-anchor-1" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">1</a><div class="footnote-content"><p><em>Click</em>, <em>Um Homem de Fam&#237;lia</em>, <em>De Volta para o Futuro</em>, o epis&#243;dio &#8220;<em>The One That Could Have Been</em>&#8221; de <em>Friends</em>&#8230; O leitor certamente se lembrar&#225; de outros.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Tente usar um elevador sem compreender a rela&#231;&#227;o causal entre &#8220;apertar o bot&#227;o com um desenho de uma seta para cima que est&#225; no painel da sua frente&#8221; e o &#8220;elevador aparecer&#8221;. Impl&#237;cito nessa sua compreens&#227;o est&#227;o os cen&#225;rios contrafactuais: no mundo em que voc&#234; n&#227;o aperta o bot&#227;o, o elevador n&#227;o aparece para voc&#234;, a n&#227;o ser acidentalmente.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-3" href="#footnote-anchor-3" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">3</a><div class="footnote-content"><p><strong>Uma Digress&#227;o sobre Bancos e Corridas Banc&#225;rias</strong></p><blockquote><p><em>Imagine que voc&#234; quer construir uma petshop numa esquina movimentada do seu bairro. Voc&#234; sabe que esse empreendimento &#233; lucrativo, mas n&#227;o tem recursos necess&#225;rios para fazer os investimentos iniciais. Em um mundo onde n&#227;o existem bancos, voc&#234; poderia pedir grana emprestada para seus vizinhos. Voc&#234; explica a eles a sua ideia milion&#225;ria, advertindo-os de que, assim como quase todo grande neg&#243;cio, <strong>ele s&#243; vai dar lucro mesmo em dois ou tr&#234;s anos</strong>. Al&#233;m disso, voc&#234; tamb&#233;m os lembra de que se eles quiserem o dinheiro antes do projeto terminar (no primeiro ano, por exemplo), eles receber&#227;o apenas o que investiram e nada mais, afinal, liquidar parte do projeto, vendendo parte dos materiais, por exemplo, &#233; algo custoso.</em></p><p><em>Ap&#243;s ouvirem as explica&#231;&#245;es, os investidores fazem o seu planejamento financeiro e decidem fazer o investimento. No ano seguinte, no entanto, parte deles descobre que v&#227;o precisar <strong>gastar mais do que esperavam</strong> com consumo, seja porque a geladeira ou o carro estragaram ou porque descobriram que v&#227;o ser pais.  Por esse motivo, eles precisam liquidar seus investimentos antes da maturidade. Ou seja, eles tiveram um problema de <strong>liquidez</strong>. Infelizmente, por mais que voc&#234; se programe pelos pr&#243;ximos dois ou tr&#234;s anos sobre quanto dinheiro vai precisar utilizar, imprevistos acontecem. Os felizardos que viveram sem imprevistos, no entanto, podem desfrutar integralmente os dividendos das petshops.</em></p><p><em>Mas espera a&#237;&#8230; Esse problema &#233; facilmente contorn&#225;vel, n&#227;o? Tudo bem que &#233; imposs&#237;vel prever o futuro e, na hora em que fazemos o investimento, n&#227;o sabemos em que grupo iremos estar no futuro. No entanto, estamos numa economia de mercado, ora bolas! Voc&#234; e os investidores poderiam realizar contratos entre si para eliminar <strong>esse risco de liquidez</strong>. Ele funcionaria como uma esp&#233;cie de seguro: o investidor abre m&#227;o de um pouco dos ganhos (e do consumo) futuros que ele teria no mundo em que ele n&#227;o precisou de liquidez &#8212; e portanto conseguiu esperar at&#233; o final do projeto &#8212;, por um pouco mais renda e consumo presente no mundo em que ele se deu mal e precisou de liquidez para arrumar o carro. Assim como todo seguro, <strong>o investidor estaria tirando um pouco de consumo do mundo em que se deu bem e transferindo para o mundo em que ele se deu mal</strong>.</em></p><p><em>O problema desse contrato &#233; que a &#8220;necessidade de liquidez&#8221; n&#227;o &#233; algo que pode ser observada facilmente. Em outras palavras, a informa&#231;&#227;o sobre as suas necessidades de gastos extraordin&#225;rios &#233; privada e dificilmente verific&#225;vel. Essa <strong>assimetria de informa&#231;&#227;o</strong> entre os investidores, impede que eles realizem esse tipo de contrato uns com os outros. Ou seja, nessa economia n&#227;o &#233; poss&#237;vel transformar ativos il&#237;quidos (participa&#231;&#245;es na petshop) em liquidez imediata. Para resolver esse problema &#233; que existem bancos. <strong>Eles t&#234;m o papel de fornecer liquidez ao mesmo tempo em que fazem investimentos il&#237;quidos.</strong></em></p><p><em>A ferramenta que viabiliza isso &#233; o contrato de &#8220;dep&#243;sito &#224; vista&#8221;. Um dep&#243;sito &#224; vista nada mais &#233; do que os dep&#243;sitos que voc&#234; faz na sua conta corrente, os quais voc&#234; pode sacar imediatamente. Eles podem render juro ou n&#227;o. Evidentemente, o dinheiro que voc&#234; depositou n&#227;o fica parado. Boa parte dos recursos depositados s&#227;o emprestados para outras institui&#231;&#245;es financeiras (como a empresa do pai de George Bailey) ou empresas como a sua petshop. O que permite o banco fazer isso &#233; o fato de que, como vimos anteriormente, nem todas as pessoas precisam sacar os recursos ao mesmo tempo. Algumas sacam mais tarde, outras mais cedo. Nesse sentido, &#233; como se todos os investidores e o banco fizessem um grande contrato de seguro. O banco &#233; capaz de adiantar para alguns uma parcela maior do que eles investiram, pois ele sabe que outros sacam apenas mais tarde.</em></p><p><em>Note, os ativos do banco s&#227;o il&#237;quidos. Eles valem menos do que o valor de face se forem liquidados antes. Ou seja, todo mundo sabe que se todos fossem ao banco ao mesmo tempo para sacar todo dinheiro de suas contas, o banco n&#227;o teria como honrar todos os compromissos assumidos. Isso significa que o mecanismo banc&#225;rio funciona somente se os indiv&#237;duos forem ao banco conforme a necessidade de cada um &#8212; alguns mais cedo e outros mais tarde (em outras palavras, aleatoriamente). Isso significa que, mesmo sabendo que o banco &#233; &#8220;insolvente&#8221; no curto prazo, pode ser perfeitamente racional n&#227;o se desesperar e correr para sua ag&#234;ncia sacar todo seu dinheiro.<strong> Dado que os outros investidores s&#243; saquem o dinheiro que ir&#227;o utilizar no momento, &#233; racional que voc&#234; fa&#231;a o mesmo</strong>. O problema &#233; que existe uma outra possibilidade racional aqui: <strong>se todos forem sacar imediatamente o dinheiro do banco, &#233; racional que voc&#234; tamb&#233;m o fa&#231;a.</strong> Os dois cen&#225;rios (dois equil&#237;brios) s&#227;o plaus&#237;veis. Para o azar de George e sua esposa, eles estavam vivenciando o segundo cen&#225;rio.</em></p><p><em>Fim da digress&#227;o.</em></p></blockquote></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-4" href="#footnote-anchor-4" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">4</a><div class="footnote-content"><p>A express&#227;o &#8220;corrida banc&#225;ria&#8221; n&#227;o &#233; uma met&#225;fora.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-5" href="#footnote-anchor-5" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">5</a><div class="footnote-content"><p>&#8220;The Prayer&#8221; &#233; diretamente inspirada no canto gregoriano <em>Dies irae</em> (Dia de Ira), composto pelo Papa S&#227;o Greg&#243;rio, o Grande. A letra descreve o &#218;ltimo Julgamento, onde as a&#231;&#245;es de todos os homens ser&#227;o julgadas em definitivo, e os justos ser&#227;o salvos e os injustos n&#227;o. Naquele momento do filme, George Bailey contemplava sua aus&#234;ncia (morte) e, por contraste, as a&#231;&#245;es da sua vida&#8230; e suplicou aos c&#233;us por miseric&#243;rdia. Ali&#225;s, <em>Dies irae</em> &#233; uma can&#231;&#227;o que, apesar de antiga, est&#225; presente na nossa cultura, como mostra <a href="https://www.youtube.com/watch?v=dLgvKwOYniY&amp;t=99s">esse v&#237;deo que voc&#234; precisa obrigatoriamente assistir</a>.</p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-6" href="#footnote-anchor-6" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">6</a><div class="footnote-content"><p>Sobre esse esfor&#231;o, veja qualquer <a href="https://www.amazon.com/s?k=Angrist+e+Pischke&amp;ref=nb_sb_noss">livro</a> do Angrist e do Pischke. </p></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mercado Imobiliário e a Informação Incompleta]]></title><description><![CDATA[Todo reality show de compra e venda de casas &#233; sempre dublado]]></description><link>https://www.heliumintegers.com/p/mercado-imobiliario-e-informacao</link><guid isPermaLink="false">https://www.heliumintegers.com/p/mercado-imobiliario-e-informacao</guid><dc:creator><![CDATA[Guilherme Stein]]></dc:creator><pubDate>Sun, 18 Dec 2022 04:00:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/e206a255-1845-4eae-aafe-919ae40d753e_775x775.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Voc&#234; j&#225; notou que todos os reality shows de compra e venda de casas s&#227;o dublados? Claro, todos eles se passam nos EUA ou no Canad&#225;. N&#227;o existem realities brasileiros desse tipo de coisa. Antes de voc&#234; botar a culpa na produtividade da ind&#250;stria nacional de realities, quero lembrar o leitor de que abundam no Brasil shows de competi&#231;&#245;es culin&#225;rias. Ou seja, sabemos fazer esse tipo de coisa. N&#227;o, a aus&#234;ncia de programas de compra e venda de casas n&#227;o &#233; explicado pela nossa incompet&#234;ncia. Por incr&#237;vel que pare&#231;a, o problema &#233; outro. O mercado imobili&#225;rio brasileiro ainda &#233; <em>muito ineficiente</em>. Comparado aos EUA, por exemplo, os neg&#243;cios imobili&#225;rios s&#227;o poucos e distantes entre si e, claro, n&#227;o d&#225; para fazer um shows assim.</p><p>Inefici&#234;ncia em mercados &#233; uma especialidade brasileira e existem diversas causas para que ela aconte&#231;a no mercado de im&#243;veis. No entanto, eu gostaria de chamar a aten&#231;&#227;o para uma em particular. No Brasil, os participantes desse mercado est&#227;o muito longe de possuirem <strong>informa&#231;&#227;o completa</strong> sobre ele. E nesse post voc&#234; ver&#225; que isso faz toda a diferen&#231;a.</p><p><strong>Um conto de dois mercados</strong></p><p>O fim do ano est&#225; pr&#243;ximo. Suponha que voc&#234; queira fazer uma viagem para os EUA. Naturalmente voc&#234; precisa comprar d&#243;lares e isso significa que voc&#234; tem que vender reais. Por quantos d&#243;lares voc&#234; vender&#225; seus reais? Ali&#225;s, quanto vale um d&#243;lar? &#201; f&#225;cil descobrir. Com um smartphone e n&#227;o mais do que trinta segundos, voc&#234; tem mais ou menos uma ideia da resposta. O pr&#243;ximo passo &#233; ir at&#233; alguma casa de c&#226;mbio ou banco para comprar a moeda americana. Um dos motivos pelo qual todo esse processo n&#227;o dura mais do que algumas horas &#233; que <em>o pre&#231;o de um d&#243;lar &#233; amplamente conhecido</em>. Voc&#234; at&#233; pode tentar brincar de especulador e esperar alguns dias para comprar, na aposta que o d&#243;lar vai baixar de pre&#231;o, mas, convenhamos, se voc&#234; est&#225; determinado a viajar, isso &#233; muito mais um preciosismo do que uma necessidade. </p><p>Explicando mais detalhadamente, a verdade &#233; que esse mercado &#233; t&#227;o f&#225;cil de usar gra&#231;as a duas caracter&#237;sticas. A primeira &#233; que <em>um d&#243;lar &#233; um d&#243;lar</em>,  n&#227;o importa se voc&#234; comprou numa casa de c&#226;mbio ou do seu amigo que rec&#233;m voltou de Nova Iorque. Ou seja, todos os d&#243;lares t&#234;m exatamente a mesma qualidade e serventia. A segunda caracter&#237;stica desse mercado &#233; que poss&#237;vel ver em tempo real quais foram os pre&#231;os negociados nas &#250;ltimas transa&#231;&#245;es. Assim como as a&#231;&#245;es de grandes empresas (Petrobr&#225;s, Vale e etc.), boa parte dos &#250;ltimos pre&#231;os negociados e outras informa&#231;&#245;es relevantes est&#227;o todas dispon&#237;veis para o p&#250;blico. Ou seja, todos n&#243;s temos acesso ao <em>mesmo conjunto de informa&#231;&#227;o</em>. </p><p>Dessa forma, as negocia&#231;&#245;es s&#227;o r&#225;pidas e o pre&#231;o acordado em cada uma delas em um determinado momento do tempo <em>tendem a ser muito parecidas</em>. Isso quer dizer que dificilmente voc&#234; ver&#225; uma transa&#231;&#227;o de reais por d&#243;lar ser muito maior ou muito menor do que a cota&#231;&#227;o do d&#243;lar no site do google (somando, claro, a comiss&#227;o da casa de c&#226;mbio, taxas e custos). Enquanto eu escrevo esse texto, o d&#243;lar comercial est&#225; em 5,32. Neste momento, provavelmente est&#227;o ocorrendo milhares de transa&#231;&#245;es de reais por d&#243;lar e &#233; altamente improv&#225;vel que em alguma delas o pre&#231;o ser&#225; tr&#234;s reais ou sete reais. Nem perto disso. Elas tender&#227;o a ficar pr&#243;ximas do valor publicamente anunciado.</p><h6>***</h6><p>Agora vamos mudar de mercado. </p><p>Suponha que voc&#234; descobre que vai ser pai ou m&#227;e e, portanto, chega a hora de trocar de apartamento. A experi&#234;ncia com o mercado imobili&#225;rio ser&#225; bem diferente do mercado de c&#226;mbio. A diferen&#231;a mais &#243;bvia &#233; que a aquisi&#231;&#227;o de um im&#243;vel representa um gasto muito maior e, portanto, &#233; uma decis&#227;o que ser&#225; tomada com mais cuidado. A segunda diferen&#231;a &#233; que im&#243;veis n&#227;o s&#227;o como d&#243;lares, isto &#233;, cada um &#233; diferente do outro. Existe uma quantidade enorme de caracter&#237;sticas que afetam o seu valor como, por exemplo, localiza&#231;&#227;o, tamanho, n&#250;mero de quartos, ano de constru&#231;&#227;o, altura e etc. A terceira diferen&#231;a &#233; que, nesse mercado, <em>&#233; bem mais dif&#237;cil de coletar todas as informa&#231;&#245;es relevantes para uma decis&#227;o informada</em>.</p><p>O que voc&#234; leva em conta na hora de decidir quanto pagar por um im&#243;vel espec&#237;fico? Sua decis&#227;o se baseia em um conjunto limitado de informa&#231;&#245;es. Voc&#234; sabe o pre&#231;o anunciado de alguns im&#243;veis pr&#243;ximos da sua regi&#227;o, sabe o pre&#231;o que algum amigo seu disse que pagou por um apartamento. Voc&#234; investiga alguns sites de imobili&#225;rias, fala com seu corretor e pergunta para os porteiros dos pr&#233;dios sobre poss&#237;veis ofertas. Note que h&#225; um <strong>custo crescente</strong> para obter mais e melhores informa&#231;&#245;es. No limite, voc&#234; poderia investir tempo e dinheiro indo em cart&#243;rios para verificar o valor que consta nas matr&#237;culas de alguns im&#243;veis. De qualquer sorte, por maior que seja seu investimento em obter mais informa&#231;&#245;es, ainda assim voc&#234; estar&#225; longe de possuir todas as informa&#231;&#245;es relevantes. &#201; prov&#225;vel que existam informa&#231;&#245;es ausentes que afetem dramaticamente a sua disposi&#231;&#227;o a pagar por um determinado im&#243;vel. A mesma l&#243;gica vale para a pessoa que est&#225; vendendo o im&#243;vel.</p><p>Al&#233;m do conjunto de informa&#231;&#227;o ser incompleto, provavelmente cada pessoa ter&#225; um conjunto diferente. Isso &#233; o <em>oposto</em> do que acontece no mercado de d&#243;lares. Por isso, &#233; perfeitamente natural que existam grandes diverg&#234;ncias nos pre&#231;os pagos por apartamentos muito parecidos. A pessoa que gastou mais tempo pesquisando, por exemplo, pode ter pago um pre&#231;o muito mais baixo do que uma pessoa que n&#227;o pesquisou. Evidentemente, o mesmo fen&#244;meno pode ser compreendido pelo ponto de vista do vendedor. Dois vendedores podem ter vendido apartamentos similares por pre&#231;os bem diferentes. Basta que um estivesse melhor informado do que o outro ou tivesse tido a sorte de encontrar um comprador pouco informado.</p><p>Essa grande varia&#231;&#227;o nos pre&#231;os &#233; t&#237;pica em mercados onde as informa&#231;&#245;es a respeito dele s&#227;o <em>incompletas</em>. Nos mercados competitivos onde a informa&#231;&#227;o &#233; amplamente difundida entre compradores e vendedores, vigora a <strong>lei do pre&#231;o &#250;nico<a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-1" href="#footnote-1" target="_self">1</a></strong>. Essa lei diz que &#8212; desconsiderando custos de transporte &#8212; o pre&#231;o de um bem deveria ser <em>o mesmo em todos os lugares</em>. Ou seja, o pre&#231;o do d&#243;lar em S&#227;o Paulo deveria ser muito parecido com o pre&#231;o do d&#243;lar no Rio de Janeiro. Para o caso dos im&#243;veis &#233; um pouco diferente, pois localiza&#231;&#227;o e outras caracter&#237;sticas importam muito. No entanto, o princ&#237;pio pode ser reformulado. A lei do pre&#231;o &#250;nico para o im&#243;veis diz que, <em>ajustado pelas caracter&#237;sticas do apartamento, o pre&#231;o deveria ser igual ou muito parecido</em>.</p><p>Note que quanto mais informa&#231;&#227;o existir no mercado de im&#243;veis, mais parecido ele ser&#225; com o mercado de d&#243;lares ou de a&#231;&#245;es. Em particular, o conjunto de informa&#231;&#227;o de compradores e vendedores de im&#243;veis melhoraria muito se <strong>os pre&#231;os das &#250;ltimas transa&#231;&#245;es imobili&#225;rias fossem publicizados</strong>. Se fosse poss&#237;vel saber facilmente por quanto cada tipo de im&#243;vel foi negociado anteriormente, todos os que querem comprar ou vender apartamentos teriam conjuntos de informa&#231;&#227;o muito pr&#243;ximos e, portanto, haveria <em>uma converg&#234;ncia nos pre&#231;os</em>.</p><p><strong>O Experimento Israelense</strong></p><p>Se &#233; verdade que quanto mais completa forem as informa&#231;&#227;o sobre um mercado, menor ser&#225; a varia&#231;&#227;o de pre&#231;os observada, ent&#227;o pol&#237;ticas que aumentam a transpar&#234;ncia de um mercado contribuir&#227;o para uma redu&#231;&#227;o dessa varia&#231;&#227;o. Foi justamente essa hip&#243;tese que os economistas Ben-Shahar e Golan testaram no artigo <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0094119019300464">&#8220;</a><em><a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0094119019300464">Improved information shock and price dispersion: A natural experiment in the housing market</a></em><a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0094119019300464">&#8221;.</a> </p><p>Assim como &#233; atualmente no Brasil, antes de 2010 o mercado imobili&#225;rio israelense era pouco transparente. O pre&#231;o pelo qual um im&#243;vel foi vendido era informa&#231;&#227;o privada, reservada apenas aos compradores, vendedores e potenciais intermedi&#225;rios da transa&#231;&#227;o (corretores ou imobili&#225;rias). Cada novo comprador e vendedor entrava no mercado sem refer&#234;ncias sobre o valor dos im&#243;veis, exceto por sites de an&#250;ncios &#8212; que cont&#233;m apenas o valor que o vendedor est&#225; pedindo (<em>asking price</em>) &#8212; ou informa&#231;&#245;es esparsadas de conhecidos ou amigos. O resultado era aquele esperado em um mercado com informa&#231;&#227;o incompleta: <em>apartamentos similares sendo vendidos a pre&#231;os bem diferentes</em>.</p><p>Em abril de 2010, no entanto, a realidade do mercado imobili&#225;rio de Israel mudaria drasticamente.  Como no Brasil, o governo israelense exige que toda transa&#231;&#227;o imobili&#225;ria seja reportada para uma autoridade fazend&#225;ria espec&#237;fica. Essa informa&#231;&#227;o n&#227;o era divulgada publicamente pelo governo daquele pa&#237;s, mas, naquele ano, uma decis&#227;o judicial obrigou o fisco a tornar p&#250;blico os pre&#231;os e caracter&#237;sticas dos im&#243;veis negociados. A partir daquele momento, qualquer cidad&#227;o de Israel poderia acessar um site da autoridade fiscal e baixar informa&#231;&#245;es sobre os im&#243;veis negociados desde 1998 em diante. Ou seja, doze anos de dados imobili&#225;rios passaram a ser divulgados publicamente.</p><p>&#201; evidente que o conjunto de informa&#231;&#227;o dos compradores e vendedores se expandiu dramaticamente. A informa&#231;&#227;o do valor negociado &#233; muito mais &#250;til do que o valor anunciado, pois dificilmente o &#250;ltimo coincidir&#225; com o primeiro. &#201; muito comum, por exemplo, que o valor negociado esteja <em>abaixo</em> do valor anunciado. Al&#233;m dessas informa&#231;&#245;es serem &#250;teis para qualquer interessado em particular, elas se tornam especialmente &#250;teis para o mercado como um todo na medida em que sua exist&#234;ncia se torna <strong><a href="https://heliumintegers.substack.com/p/eles-nao-sabem-que-nos-sabemos-que">conhecimento comum</a></strong><a class="footnote-anchor" data-component-name="FootnoteAnchorToDOM" id="footnote-anchor-2" href="#footnote-2" target="_self">2</a>. Ou seja, todos os agentes envolvidos nesse mercado sabem que todos os outros agentes t&#234;m acesso e todos sabem que todos os agentes sabem que os agentes t&#234;m acesso&#8230; e assim por diante. Essas duas for&#231;as combinadas agem sobre a din&#226;mica das futuras transa&#231;&#245;es. Como resultado, a variabilidade de pre&#231;os dos im&#243;veis similares negociados deveria reduzir substancialmente.</p><p>De fato, os autores do estudo encontram <strong>uma redu&#231;&#227;o significativa na dispers&#227;o do pre&#231;o dos im&#243;veis ajustado pelas caracter&#237;sticas dos mesmos</strong>. Em outras palavras, os pre&#231;os de im&#243;veis similares convergiram para valores pr&#243;ximos entre si ao longo do tempo. Um outro resultado interessante &#233; que esse efeito foi maior nas regi&#245;es em que os agentes que participavam do mercado tinham um n&#237;vel socioecon&#244;mico mais baixo. Ou seja, as informa&#231;&#245;es p&#250;blicas t&#234;m efeito maior <strong>nos mercados em que as pessoas de baixa renda participam</strong>. Segundo os pr&#243;prios pesquisadores, esse resultado &#233; intuitivo, afinal s&#227;o essas pessoas que, muito provavelmente, t&#234;m maior dificuldade em obter informa&#231;&#245;es. Pessoas de classe media ou alta t&#234;m mais tempo e dinheiro para gastar ampliando seu conjunto de informa&#231;&#245;es.</p><p><strong>Li&#231;&#245;es para o Brasil</strong></p><p>O mercado imobili&#225;rio brasileiro sofre dos mesmos problemas que Israel sofria antes de 2010. As lacunas informacionais desse mercado tornam o processo de compra e venda de uma casa ou apartamento excessivamente demorados. &#201; muito comum os vendedores anunciarem um pre&#231;o alto demais e demorar muito para alter&#225;-lo. Em muitos casos, o que acaba corrigindo o pre&#231;o &#233; o tempo, atrav&#233;s da infla&#231;&#227;o, com o im&#243;vel sendo vendido um ou dois anos mais tarde. Como consequ&#234;ncia, o mercado acaba funcionando ineficientemente, ou seja, transa&#231;&#245;es que ocorreriam em um mercado com mais informa&#231;&#227;o acabam n&#227;o ocorrendo.</p><p>Uma das formas de corrigir isso passa pela divulga&#231;&#227;o dos pre&#231;os dos im&#243;veis negociados, assim como se fez em Israel. No Brasil, o valor de todas as transa&#231;&#245;es imobili&#225;rias devem ser reportados para que seja cobrado o ITBI. As secretarias das fazendas municipais, portanto, possuem um conjunto muito rico de informa&#231;&#245;es que se fossem divulgadas para o p&#250;blico, aumentariam em muito a efici&#234;ncia do mercado. Felizmente, j&#225; existem algumas iniciativas nesse sentido. Em Porto Alegre, por exemplo, h&#225; o <a href="https://imobindex.procempa.com.br/">Imobindex</a>. Ele &#233; uma ferramenta de visualiza&#231;&#227;o do valor dos im&#243;veis a partir dos dados de ITBI dessa cidade. &#201; poss&#237;vel acompanhar a s&#233;rie hist&#243;rica do pre&#231;o do metro quadrado por bairro e por CEP, bem como explorar um mapa contendo o valor do metro quadrado de cada pr&#233;dio onde houve alguma negocia&#231;&#227;o. Al&#233;m dessa cidade, S&#227;o Paulo tamb&#233;m divulga os dados do ITBI. Os dados de S&#227;o Paulo s&#227;o ainda melhores, pois atrav&#233;s dele &#233; poss&#237;vel identificar a unidade (n&#250;mero do apartamento) dentro de cada pr&#233;dio.</p><p>O ideal seria que todas as cidades do Brasil passassem a fornecer esses microdados do ITBI. Assim compradores e vendedores ter&#227;o informa&#231;&#245;es que atualmente s&#243; est&#227;o dispon&#237;veis parcialmente para imobili&#225;rias e construtoras. A difus&#227;o dessas informa&#231;&#245;es para os indiv&#237;duos diretamente interessados poderia aumentar a efici&#234;ncia e liquidez desse mercado, desenvolvendo ainda mais a capacidade de transformar a propriedade em um <em>ativo</em>, facilitando o destravamento de cr&#233;dito no Brasil. Esses efeitos combinados teriam como consequ&#234;ncia um aumento do bem-estar da popula&#231;&#227;o em geral. E, &#233; claro, o que &#233; mais importante<strong>:</strong> finalmente haveria uma a ind&#250;stria nacional de reality shows de casas no Brasil.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://www.heliumintegers.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscrever-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;en&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Obrigado por ler Helium Integers! 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O peixe fresco &#233;, por defini&#231;&#227;o, um produto cuja janela de negocia&#231;&#227;o &#233; curta &#8212; o mercado abre cedo e fecha r&#225;pido e se d&#225; pr&#243;ximo ao porto. Como os pescadores s&#243; tem tempo de parar em um dos v&#225;rios poss&#237;veis portos locais, o problema dele &#233; saber em qual dos mercados locais ele deve parar. A pergunta que ele faz &#233;: &#8220;Onde est&#225; faltando peixe (pre&#231;o alto) e onde est&#225; sobrando (pre&#231;o baixo)?&#8221; Sem celular isso &#233; uma aposta. Com celular, ele pode ligar para os portos. Com a informa&#231;&#227;o dispon&#237;vel aumentando consideravelmente, a lei do pre&#231;o &#250;nico passa a valer.  </p></div></div><div class="footnote" data-component-name="FootnoteToDOM"><a id="footnote-2" href="#footnote-anchor-2" class="footnote-number" contenteditable="false" target="_self">2</a><div class="footnote-content"><p>Os autores se d&#227;o ao trabalho de mostrar atrav&#233;s da ferramenta <em>Google Trends</em> que as buscas &#8220;informa&#231;&#245;es imobili&#225;rias&#8221; deu um salto ap&#243;s a divulga&#231;&#227;o do site contendo as informa&#231;&#245;es de pre&#231;os. Ou seja, n&#227;o era segredo para ningu&#233;m interessado.</p></div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>