O Guerreiro e o Sacerdote em Sangue Negro
Conan, o Bárbaro, Kickers na Premier League, Nietzsche e o que o modelo de Roy revela sobre valores morais.
ELI: Eu tive uma visão do Espírito Santo de que precisaríamos de mais espaço na Igreja da Terceira Revelação. Ele me explicou que eu deveria derrubar esta parede, pois Suas visitas seriam frequentes.
(PAUSA. Daniel observa a igreja.)
DANIEL: Eu devo confessar que só conheço duas revelações... há uma no Antigo Testamento e outra no Novo Testamento... é isso mesmo?
ELI: Isso mesmo, Daniel.
DANIEL: Qual é a terceira?
ELI: Eu... eu sou a Terceira Revelação.
Pode um grande homem ser julgado por um homem comum? Pode a castidade de um homem famoso ser julgada por um ilustre desconhecido, ou a prudência física de um lutador profissional ser julgada por um fracote? Afinal, o desconhecido nunca será tentado por mulher alguma e o fracote, incapaz de machucar quem quer que seja, nunca precisará exercer a prudência.1 Em outras palavras, um homem para o qual as restrições morais sequer chegam a ser testadas poderia opinar sobre o comportamento alheio? Mais ainda: se há algum elemento democrático na determinação das regras morais em uma comunidade, não serão os grandes limitados em suas capacidades pelos medíocres, uma vez que estes, por definição, excedem em número aqueles? Nesse caso, os valores morais e o que é considerado bom são verdadeiramente bons, ou a moralidade é apenas um instrumento de controle dos fracos sobre os fortes?
Em “Sangue Negro” o diretor e roteirista Paul Thomas Anderson aborda essas questões com grande força. A história do filme se passa no início do século XX, quando a indústria do petróleo ainda se consolidava. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um empresário que atua no setor de extração de petróleo. Ele vai até uma propriedade rural em Little Boston, no estado da Califórnia, após receber uma dica sobre a existência de uma grande reserva de combustível fóssil naquela localidade. É naquela propriedade que ele conhece Eli Sunday, um jovem pastor de uma igreja local e membro da família dona das terras cobiçadas por Daniel. A trama do filme retrata a disputa entre os dois personagens: Daniel e Eli. O conflito é uma bela representação do “modelo” Guerreiro vs. Sacerdote desenvolvido por Friedrich Nietzsche.
***
A Bíblia (com ênfase em sua empolgante conclusão — o Novo Testamento) e a Ilíada fazem parte da espinha dorsal do “Ocidente”2. Embora sejam pilares de uma mesma civilização, as obras oferecem visões distintas do que significa ser “excelente”. A glória de Aquiles estava na guerra de Tróia e no triunfo sobre os troianos. Já a glória de Cristo estava em ajudar os pobres e os doentes, perdoar os inimigos e morrer pelo próximo. Até o advento do cristianismo, o forte, o belo e o bravo eram os que estavam associados ao “bom”. Depois de Cristo, no entanto, a régua é modificada. No Sermão da Montanha, somos ensinados que os bons são os humildes, os pacificadores e os que choram. Essa mudança alterou drasticamente as concepções de virtude do mundo antigo e, com elas, diversas práticas foram abandonadas. Como explicar essa mudança?
Das possíveis explicações para esse mistério, aquela oferecida por Friedrich Nietzsche tornou-se muito influente no século XX. O filósofo dirá que a ruptura drástica entre o mundo antigo e o cristão não foi deflagrada pela real encarnação do Verbo Divino, mas, sim, pelo florescimento de uma nova moralidade baseada no ressentimento. Segundo Max Scheler, Nietzsche “caracteriza a ideia do amor cristão como a mais delicada flor do ressentimento”. Essa flor teria surgido em meio à religião judaica, que, segundo o filósofo alemão, professava a existência de um Deus vingativo. A exaltação do fraco, do humilde e a valorização do amor dirigido a ele seriam artifícios psicológicos de um povo acostumado a ser oprimido. Seria o resultado da impotência, da incapacidade de ação diante de alguém mais forte.
Para explicar como se deu essa ruptura na história, o filósofo propõe um modelo no qual o sistema de valores dominante resulta de uma luta entre castas da mesma aristocracia: a casta do Sacerdote e a casta do Guerreiro. Segundo Nietzsche, as duas castas operam sob moralidades distintas. Enquanto o Guerreiro age guiado por um sistema de valores que considera boas a conquista, a força e a excelência nas qualidades físicas, o Sacerdote promove um regime de abnegação, pacifismo e fraqueza. Ainda segundo Nietzsche, enquanto os guerreiros perseguem os valores que seriam “naturais” (o mais forte deve ser o melhor), os sacerdotes operam em um sistema lastreado no ressentimento, por não possuírem as qualidades dos guerreiros.
Daniel, o Guerreiro Americano
Guerreiros são forjados no calor da batalha. A primeira batalha do guerreiro Daniel Plainview (retratada na primeira cena do filme, como filmes sobre guerreiros costumam fazer) é contra uma rocha. Daniel está em um buraco na terra procurando ouro ou prata encrustados na pedra. A pedra era sua inimiga. Ela tinha a posse dos metais cobiçados, que, do ponto de vista de Daniel, pertenciam a ele, pois ele e a sua dinamite eram mais fortes do que a pedra. Após uma luta dura, em que Daniel quase morre, vemos nosso guerreiro ferido, segurando um pedaço da rocha brilhante, prateada. A rocha foi derrotada e Daniel obrigou-a a entregar seus tesouros.
A segunda cena do filme também é uma batalha. Daniel usou os espólios de guerra para adquirir novas máquinas de guerra. O inimigo era o mesmo, a rocha, mas o objetivo era diferente. O Plainview queria o petróleo. Novamente, após uma feroz batalha, Daniel e seus púgilos irmãos triunfam sobre a rocha. No entanto, um dos homens acaba morrendo no processo, deixando o filho órfão, que é adotado por Daniel.
A Signal Hill Petroleum prospera e se torna um negócio familiar, pois o empresário é acompanhado por H.W. Plainview, a criança que ele adotara. Após comprarem informações fornecidas por um sujeito misterioso sobre a existência de grandes reservas de petróleo num vilarejo da Califórnia, Daniel e seu filho partem para lá. Novamente, assim como guerreiros, eles chegam às terras da família Sunday como se fossem batedores ou espiões que coletam informações sobre um exército inimigo. Sob o pretexto de caçar codornas, a dupla pede permissão para acampar nas terras da família. Explorando o local enquanto caçavam, eles confirmaram que a propriedade de fato possuía petróleo.
H. W.: Pai! Pai, olha meu sapato.
DANIEL: Isso é óleo de terremoto. Solto.
(...)
DANIEL: Então, então. Se houver alguma coisa aqui, a gente leva até o mar. O que fazemos é construir um oleoduto até Port Hueneme ou Santa Paula, dá umas 100 milhas, e fechamos um acordo com a Union Oil. É isso que fazemos. Aí não precisamos mais das ferrovias e dos custos de transporte deles. Está vendo?
H. W.: Sim.
DANIEL: Está vendo isso?
H. W.: Sim.
DANIEL: Aí é que estamos ganhando dinheiro. Estamos ganhando o dinheiro de verdade. O que deveríamos estar ganhando. Não apenas… não apenas jogando fora com custos de transporte. Caso contrário, é só lama.
A furtividade de Daniel era justificada por dois motivos: o primeiro era óbvio, afinal, era possível que a família Sunday não soubesse da existência de petróleo em suas terras e, portanto, desconhecesse o valor real delas. Obviamente, o empresário e seu filho gostariam que continuassem não sabendo. O segundo motivo tem relação com a própria natureza da indústria de petróleo no começo do século XX. Mesmo que Plainview e seu filho confirmassem a existência de uma reserva nas terras daquela família e fizessem um contrato de leasing, a vitória não estaria garantida. Nos EUA, naquela época, a exploração de minerais era regida pela “regra de captura” (rule of capture). Ela dizia que o conteúdo do subsolo pertencia ao proprietário da terra. No entanto, era muito comum que propriedades de diferentes donos compartilhassem um mesmo reservatório de petróleo. Isso significava na prática que, embora a superfície fosse privatizada (cada proprietário tivesse direito exclusivo sobre ela), a reserva do subsolo poderia muito bem ser uma propriedade comum e, portanto, ser sujeita à tragédia dos comuns. A tragédia dos comuns, nesse caso, acontece da seguinte forma: A notícia de que um vizinho começará a extrair petróleo em sua propriedade deflaga uma corrida pela extração de petróleo entre os demais vizinhos. Isso era particularmente comum, pois os custos de entrada no mercado de extração e de armazenamento eram relativamente baixos na época.
(De fato, nessa época, o maior problema para um empresário do petróleo era o custo de transporte para levar o petróleo até a refinaria e ao mercado consumidor. Resolver essa questão foi o que fez Rockefeller se tornar um magnata do petróleo. Ao garantir um preço de frete mais baixo para seu produto junto às ferrovias, o empresário conseguia refinar e entregar o produto a um preço mais baixo do que o dos concorrentes. Sua condição de monopolista começou a ser quebrada com o desenvolvimento dos oleodutos, aos quais o filme faz referência no diálogo acima.)
A corrida para não deixar as reservas de suas propriedades serem drenadas pelos vizinhos gera uma extração excessiva. Esta, por sua vez, aumenta significativamente a chance de ocorrer um fenômeno chamado trapping, em que o petróleo da reserva fica preso debaixo de bolsões de gás e água, inviabilizando prematuramente a extração de petróleo naquela localidade. Para garantir a hegemonia da reserva, portanto, um empresário astuto precisa adquirir primeiro não só as terras onde o petróleo foi encontrado, mas também todas as terras vizinhas. Foi justamente isso que Daniel tentou fazer. Antes, no entanto, ele precisava fazer uma proposta aos proprietários da terra onde ele e seu filho estavam. Novamente, o espírito marcial fica evidente quando H. W. pergunta:
H. W.: Quanto vamos pagar a eles?
DANIEL: A quem?
H. W.: À família Sunday.
DANIEL: Não vou pagar a eles preço de petróleo. Vou pagar preço de codorna.
Na cena seguinte, Daniel e seu filho começam a fazer a proposta de compra da propriedade da família Sunday. Sentado à mesa, ele se dirige a Abel Sunday, o chefe da casa, e oferece preço de codorna pelas terras do humilde colono. Abel estava em vias de aceitar, quando é interrompido pelo quarto integrante da mesa, Eli Sunday, seu filho mais velho:
ELI: E o nosso petróleo?
DANIEL: O que tem ele?
ELI: Temos petróleo aqui. Isso vale alguma coisa.
DANIEL: Você tem alguém que possa perfurar? Você acha que tem petróleo aqui?
ELI: Eu sei que tem.
DANIEL: É muito caro perfurar. Tirar o petróleo do fundo da terra. Você já tentou fazer isso antes?
ELI: Quanto custa?
DANIEL: É caro.
ELI: Bem, o nosso petróleo está bem na superfície.
DANIEL: Acredito que isso se chama exsudação. Não significa necessariamente que haja algo embaixo.
ELI: Quanto você nos daria por isso?
DANIEL: Não sei.
ELI: Algo que você não sabe.
DANIEL: Isso mesmo. O que você quer, Eli?
ELI: Dez mil dólares.
DANIEL: Por quê?
ELI: Para a minha igreja.
Eli, o Pastor
Não são necessários grandes esforços de abstração para identificar Eli como o representante da casta sacerdotal, afinal, ele é literalmente um pastor de uma pequena congregação chamada “A Igreja da Terceira Revelação”. Ao contrário de Daniel, que ilustra sua casta de forma ativa, enfrentando a natureza e seus concorrentes, a caracterização do sacerdote Eli é mais sutil, pois grande parte do que o define se passa dentro dele. O ressentimento que caracteriza a classe é resultado de sentimentos como ódio, malícia e inveja, misturados à impotência. Desse jogo mental nascem os valores da casta e, a partir deles, suas atitudes. Por exemplo, a bondade para com o inimigo e o perdão vêm da impotência de derrotar alguém mais forte; já a humildade, mansidão e paciência têm origem na covardia perante um inimigo formidável, etc.
A exterioridade calma e a interioridade agitada da personagem tornam difícil selecionar uma cena que caracterize Eli Sunday como o sacerdote nietzschiano. Talvez a maneira mais fácil de enxergá-lo como sacerdote seja contrastá-lo com seu antagonista, Daniel Plainview. A primeira diferença que salta aos olhos é física. Eli é jovem, sem barba nem bigode; tem traços suaves e aparenta ser fraco fisicamente; já Daniel é mais velho e mais alto; seu rosto é bruto e ele é visivelmente mais forte. Ou seja, ambos apresentam traços físicos condizentes com suas castas. Além disso, ao contrário de Daniel, que veste trajes propícios ao trabalho no campo, o sacerdote usa uma roupa própria de pastor, preta, sóbria e limpa, que simboliza os valores de sua casta (austeridade, limpeza, modéstia). A segunda diferença diz respeito ao comportamento. Como um bom guerreiro, o empresário é franco e direto (como evoca o seu nome: “Plainview”, que pode ser traduzido como “vista clara”). Em contrapartida, seu antagonista é elusivo, dissimulado e manipulador. A performance de Paul Dano (o ator que interpreta Eli Sunday) é muito precisa nesse ponto: seu jeito modesto de caminhar, suas expressões faciais aparentemente amistosas e sua fala mansa são características exteriores que se esperam de um bom pastor. No entanto, Eli deixa escapar, em seu olhar, justamente o conflito interno entre malícia e impotência, como se fosse um lobo, não usando, mas preso em uma pele de cordeiro.
***
Após fazer negócio com a família Sunday (com a promessa de patrocinar a congregação de Eli), Daniel tratou de assegurar a propriedade das terras vizinhas ao rancho de Abel e de Eli. Com as terras garantidas, o guerreiro enfrentaria agora os velhos adversários de sempre: a natureza (tirar petróleo do chão é sempre arriscado); os concorrentes que começavam a prestar mais atenção àquela região da Califórnia; e a Standard Oil, que dominava o transporte de petróleo pela malha ferroviária e queria forçá-lo a vender suas terras. Todos os três adversários falavam a mesma língua dele. A língua da força, da vitalidade, do mais forte. Ocorre que, além desses adversários, havia Eli.
Diferentemente dos demais adversários, o jovem pastor não era forte. Inicialmente, Daniel decidiu ignorá-lo, como se fosse apenas um jovem tolo. Por exemplo, quando Eli pediu para que ele pudesse abençoar o poço que seria inaugurado, Daniel concordou, mas, quando chegou a hora, o empresário decidiu não chamá-lo para subir no poço. Em vez de protestar, Eli simplesmente fica calado. Após a inauguração do poço, tudo parecia funcionar bem até que, um dia, um acidente vitimou um dos trabalhadores. Daniel vai falar com Eli sobre o ocorrido e o jovem pastor usa o acidente para tentar manipular o empresário, acusando-o de ter deixado seus homens beberem e de ter recusado a bênção do poço. (O sentimento de culpa e o contraste entre “pureza” e “impureza” são característicos da casta sacerdotal, segundo Nietzsche.) O diálogo termina com Daniel impassível. Uma segunda tragédia ocorre em um dos poços da propriedade da família Sunday. Dessa vez, o filho de Daniel é a vítima. O garoto sobrevive, mas perde a audição e Daniel acaba mandando-o para outra cidade. Novamente, Eli aproveita a situação para manipular Daniel. Novamente, o guerreiro decide resolver o problema nos seus termos e dá uma surra em Eli.
Note, leitor, que, aos olhos da comunidade, ambos são membros da aristocracia. Daniel é o guerreiro, o homem que traz, mesmo que por autointeresse, empregos, escolas e estradas para a região. Eli, por outro lado, é quem traz, mesmo que inautenticamente, o consolo aos que sofrem, o espírito comunitário e a esperança. Daniel Plainview despreza Eli, pois não enxerga nada de excelente ou de valor no que o pastor oferece, e Eli ressente Daniel, pois não tem o que precisa para ser como ele.
Daniel é implacável. Nem a morte de um de seus funcionários, nem o grave acidente de seu filho adotivo (do qual ele realmente parece gostar) o distraem de seu objetivo, tampouco o fazem reconhecer Eli como líder espiritual. O problema é que, como já foi mencionado, Daniel precisa de um oleoduto caso não queira depender da Standard Oil. Para construir esse oleoduto, ele precisa de todas as terras que o levam até o destino final. Daniel tinha todas as terras, exceto a do Sr. Bandy, um membro devoto da Igreja da Terceira Revelação. E ele não queria dinheiro:
MR. BANDY: Agora, eu sei que o senhor gostaria de construir um oleoduto através da minha propriedade. É isso mesmo que eu ouvi?
DANIEL: Está absolutamente certo. E, bem… Um cano de oito polegadas. Ele poderia ser enterrado com o seu consentimento. Eu lhe garanto absolutamente nenhuma interrupção…
MR. BANDY: Deus. Deus me disse o que o senhor deve fazer.
DANIEL: E o que é isso?
MR. BANDY: O senhor deve ser lavado no sangue de Jesus Cristo.
DANIEL: Mas eu já fui. Eu já fui lavado, Sr. Bandy. Eu já fui.
MR. BANDY: É o seu único caminho para a salvação. E o seu único caminho para conseguir o que quer. O senhor pode fazer isso na Igreja da Terceira Revelação.
Agora não havia escapatória para Daniel. Toda a sua força física, sua sagacidade, sua vitalidade e, sobretudo, o seu dinheiro não servem de nada ao Sr. Bandy. Ali, os valores dos guerreiros pouco importavam. Eram os sacerdotes que mandavam. Sendo assim, Daniel acaba tendo que aceitar a oferta e se submeter ao “batismo” ministrado por ninguém menos do que Eli.
A cena seguinte é certamente um dos grandes momentos do cinema. Paul Thomas Anderson nos coloca novamente na Igreja da Terceira Revelação. Eli está pregando fervorosamente e tem a atenção total da congregação. Daniel está sentado ao lado de Bandy. Após concluir seu discurso, ele pergunta: “Agora, temos um pecador em busca de salvação? Um novo membro?”. A câmera corta para Daniel, que está visivelmente incomodado, mas acaba se levantando e vai até Eli para ser batizado. Apenas a transcrição do diálogo da cena do batismo não faz jus às performances de Daniel Day-Lewis e Paul Dano (eu convido o leitor a assistir), mas vale a pena transcrevê-lo, pois ele é pedagógico:
ELI: Temos aqui um pecador que deseja a salvação! Daniel, você é um pecador?
DANIEL: Sim.
ELI: O Senhor não pode ouvi-lo, Daniel. Diga isso a Ele. Vá em frente, fale com Ele. Está tudo bem.
DANIEL: Sim.
ELI: Ajoelhe-se. Ore a Ele.
(DANIEL PIGARREIA)
ELI: Olhe para o céu e diga.
DANIEL: O que você quer que eu diga?
Eli: Daniel, você veio aqui e trouxe bens e riqueza, mas também trouxe seus maus hábitos de apóstata. Você cobiçou mulheres e abandonou seu filho. Seu filho, que você criou, você o abandonou só porque ele estava doente, e você pecou. Então diga agora: eu sou um pecador.
DANIEL: Eu sou um pecador.
ELI: Diga mais alto. ‘Eu sou um pecador.’
DANIEL: Eu sou um pecador.
ELI: Mais alto, Daniel! ‘Eu sou um pecador!’
DANIEL: Eu sou um pecador.
ELI: ‘Eu sinto muito, Senhor.’
DANIEL: Eu sinto muito, Senhor.
ELI: ‘Eu quero o sangue.’
DANIEL: Eu quero o sangue.
ELI: Você abandonou seu filho.
DANIEL: Eu abandonei meu filho.
ELI: Eu nunca mais vou me desviar.
DANIEL: Eu nunca mais vou me desviar.
ELI: ‘Eu estava perdido, mas agora fui encontrado.’
DANIEL: Eu estava perdido, mas agora fui encontrado.
ELI: ‘Eu abandonei meu filho.’ Diga. Diga.
DANIEL: Eu abandonei meu filho.
ELI: Diga mais alto. Mais alto!
DANIEL (EMOCIONADO): Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu filho! Eu abandonei meu menino!
(ELI GRITANDO E GESTICULANDO COM FERVOR RELIGIOSO)
ELI: Agora implore pelo sangue!
DANIEL: Apenas me dê o sangue, Eli. Deixe-me sair daqui. Dê-me o sangue, Senhor, e deixe-me ir embora!
ELI: Você aceita Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador?
DANIEL: Sim, aceito.
ELI: Saia daqui, diabo! Fora, diabo! Fora, pecado!
(ELI ESBOFETEIA DANIEL REPETIDAMENTE)
DANIEL: Deixe-me sentir o poder do Senhor, Eli.
ELI: Você aceita a Igreja da Terceira Revelação como sua guia espiritual?
ELI: Saia daqui, espírito!
DANIEL: Onde está o seu Senhor, Eli?
ELI: Saia! Volte para onde você pertence!
DANIEL: Onde ele está? Lá está ele!
ELI: Você aceita Jesus Cristo como seu Salvador?
DANIEL: Sim, aceito.
A cena do batismo de Daniel ilustra com perfeição o que Nietzsche descreve em sua obra: a submissão do guerreiro ao sacerdote e a consequente inversão de valores. Nela, vemos o guerreiro com toda a sua força, vitalidade e riqueza de joelhos ao sacerdote, fisicamente fraco, débil e emotivo. Como Eli mesmo afirma, Daniel havia trazido prosperidade à região, tornando-a um local agitado e cheio de vida, mas esses valores não são os apreciados pela classe sacerdotal. Com o progresso, Daniel havia trazido também ‘o pecado’ e os excessos. Eli acusa o empresário de pecados e, em particular, de um pecado que o próprio Daniel aparentemente reconhece como legítimo (Daniel mandou embora seu filho adotivo para que pudesse continuar com seu plano). A acusação, no entanto, pouco tem a ver com fazer Daniel buscar o arrependimento ou a redenção. Não. Eli quer apenas se vingar de Daniel. Com o guerreiro de joelhos, o sacerdote arrisca até bater nele, algo que seria impossível em outro contexto. O ressentimento aparece claramente e se manifesta como vingança, como explica Max Scheler:
Ressentimento é um autoenvenenamento da mente que possui causas e consequências bastante definidas. Trata-se de uma atitude mental duradoura, causada pela repressão sistemática de certas emoções e afetos que, enquanto tais, são componentes normais da natureza humana. Sua repressão leva a uma tendência constante a se entregar a determinados tipos de ilusões de valor e aos correspondentes juízos de valor. As emoções e afetos principalmente envolvidos são a vingança, o ódio, a malícia, a inveja, o impulso de depreciar e o despeito. A sede de vingança é a fonte mais importante do ressentimento.
Max Scheler. Ressentiment (pp. 7–8). Edição do Kindle.
No fim, Daniel aceita a humilhação imposta por Eli. Como diria Nietzsche, a casta sacerdotal vence a casta guerreira. Os valores “naturais” são subvertidos por valores dos ressentidos, daqueles sobre quem os guerreiros são superiores.
Isso tudo é muito impressionante, mas é verdade?
Até um economista consegue admitir que Nietzsche é um ótimo escritor, capaz de transmitir ideias de forma impactante. No entanto, mesmo sob o impacto de suas palavras, ainda é necessário perguntar: o que o filósofo alemão diz é verdade? É verdade que a origem dos valores morais cristãos está no ressentimento? Evidentemente, essa pergunta já foi feita. Por exemplo, o filósofo Max Scheler, em sua obra “Ressentimento”, mostra que o Nietzsche falha ao compreender as origens dos valores cristãos. Ele começa explicando que o elemento mais central do cristianismo é o amor. Não um amor como era compreendido pelos gregos, que sempre partia do ser inferior para o superior, daquele que ama algo que o amado possui. O amor no cristianismo partia justamente da direção oposta: Deus, mesmo absolutamente perfeito, ama suas criaturas, não porque deseja ou precisa de algo delas, mas sim, diz Scheler, como uma expressão de abundância de força e nobreza. Ou seja, na origem do cristianismo, o amor ao próximo está na ideia de que o nobre, aquele que é mais completo acaba transbordando sua vitalidade para os menos completos. (O que é algo bem óbvio se formos parar para pensar que nada, nem mesmo o guerreiro mais forte, ou mesmo o próprio universo é causa de si mesmo e, portanto, apenas existem por um motivo inexplicável e misterioso. Algo ou alguém absolutamente necessário sustenta a existência de coisas não necessárias. Ou seja, a ideia do amor cristão tem correspondência com a realidade.) Aqui é talvez o ponto central da crítica ao modelo nietzschiano: o amor ao próximo é um valor não só para aqueles que são mais fortes do que eu (o que encaixaria na tese de Nietzsche), mas, sobretudo, uma exigência que recai sobre mim também. Eu também devo amar aqueles que, em alguma medida, não têm algo que eu possuo. O insight cristão, portanto, parte de uma posição de força e vitalidade, e não do contrário3.
De qualquer forma, mesmo que a tese completa sobre as origens dos valores cristãos seja problemática, a verdade é que nem todos os que se dizem cristãos o são sinceramente. Em outras palavras, mesmo que a moral cristã não tenha se originado do ressentimento dos fracos, não é absurdo pensar que os “fracos” possam adotá-la estrategicamente. Nesse caso, a teoria (modificada) de Nietzsche, portanto, vira um problema de “autoseleção”, o que torna essa uma ótima oportunidade para aprender um pouco sobre uma das maravilhas da ciência econômica: o modelo de Roy.
O Modelo de Roy ou: Os melhores Kickers não jogam futebol americano
De acordo com a inteligência artificial do Google, o salário médio anual de um jogador da NBA é 11,9 milhões de dólares, aproximadamente 2,7 vezes maior do que o salário de um jogador de futebol que joga na Premiere League4. Essa informação é curiosa e pode indicar uma porção de coisas, mas uma delas não é a de que se um jogador decidir sair da NBA para jogar na Premiere League, ele terá um aumento de salário. Afinal, os salários das duas ligas não são distribuídos aleatoriamente. Não. A distribuição de salários da NBA e da Premiere League que observamos foi resultado das escolhas dos próprios indivíduos. Enquanto um jogador médio da NBA está acostumado a jogar com as mãos (uma das 13 regras originais do jogo de basquete) de uma forma muito diferente dos goleiros de futebol, um atleta de futebol da Premiere League é bom em usar os pés e a cabeça para trocar passes e chutar na direção do gol adversário. As habilidades necessárias nos dois esportes são quase opostas. Isso significa que, partindo do pressuposto de que um excelente jogador de futebol consiga de algum jeito entrar em um time da NBA, ele provavelmente vai ter grandes dificuldades de sequer tocar na bola e, por esse motivo, ele certamente estaria entre os atletas mais mal pagos do basquete americano. Isso também significa que, dado que essas habilidades são provavelmente negativamente correlacionadas (bons jogadores de basquete são jogadores de futebol ruins), os melhores jogadores de basquete vão jogar basquete e os melhores jogadores de futebol vão jogar futebol.
Mas as coisas não precisavam ser necessariamente assim.
Considere, por exemplo, como as coisas são diferentes ao comparar dois esportes distintos cujas habilidades são positivamente correlacionadas. O futebol americano tem uma posição chamada kicker, cujo papel é chutar a bola (sic), tentando fazer com que ela passe por cima de um travessão e entre as traves de uma espécie de goleira invertida em um formato que poderia ser descrito como um ípsilon que só aceita ângulos retos em seus vértices. Existe uma correlação positiva entre as habilidades necessárias para ser um kicker e para ser um jogador de futebol. Nesse caso, será que os melhores jogadores de futebol vão jogar na Premiere League e os melhores kickers vão jogar na NFL? Aqui é que as coisas começam a ficar mais complicadas, porque a escolha de um atleta que sabe chutar uma bola deixa de ser óbvia.
Para nos ajudar a pensar sobre o problema, é útil entender como os salários dependem da habilidade em cada esporte. Por exemplo, o kicker não é exatamente o jogador mais importante em uma partida de futebol americano. Isso provavelmente significa que, mesmo que o sujeito seja um excelente chutador, ele ainda não vai ganhar muito mais do que um chutador não tão bom, pelo menos quando comparamos o salário de um jogador de futebol ruim com o de um jogador bom. Ou seja: os salários dos kickers provavelmente estão muito mais concentrados em torno do salário médio do que os de jogadores da Premier League5. Isso significa que o atleta mais habilidoso em futebol — que também seria o kicker mais habilidoso — vai preferir jogar futebol. O segundo atleta também e assim sucessivamente, até que chegue um atleta cuja habilidade o leva a preferir jogar na NFL, pois o salário vai ser maior lá. Esse sujeito está bem atrás na fila de habilidade no futebol (e como kicker), mas vai ser o salário mais alto dessa posição na NFL. Ou seja, muito provavelmente os melhores kickers não estão na NFL, e sim na Premiere League. Mas a nossa análise não para por aí, porque os piores jogadores de futebol ganham muito menos do que os piores kickers. Isso significa que a NFL não só não atrai os melhores kickers, mas também tende a atrair os piores jogadores de futebol.
A analogia esportiva pode ser resumida em poucas palavras: os humanos fazem escolhas o tempo todo e essas escolhas não são aleatórias. Ninguém joga uma moedinha para saber o momento certo de atravessar a rua ou qual profissão escolher. O modelo de Roy mostra como essas escolhas interagem entre si, gerando resultados muitas vezes não óbvios. As diferenças na distribuição de salários entre setores da economia, por exemplo, só podem ser compreendidas a partir de uma análise que leva em conta as escolhas humanas, que dependem de muitos fatores, mas principalmente de incentivos. O que nos leva de volta ao problema do filme e a mais uma analogia.
Ainda o modelo de Roy ou: Conan, o bárbaro vs. Faramir, o príncipe
Imagine que existam duas sociedades com dois sistemas morais distintos6. Vamos chamar a primeira de “Sociedade do Conan”, na qual os valores e “aquilo que é considerado como melhor”7 são a força, a conquista e a glória adquiridas em batalhas. Logicamente, “batalhas” são usadas aqui como figuras de linguagem; você pode interpretá-las de forma mais abstrata, como, por exemplo, a guerra no mundo dos negócios8. O melhor é o que ganha mais dinheiro, domina o mercado, esmaga os competidores etc. Por simetria temática, vamos chamar a segunda sociedade de “Sociedade de Faramir”. Nela, os valores mais elevados9 são a misericórdia, a modéstia, a caridade etc. O sucesso nos negócios não é necessariamente valorizado. Não é que essa sociedade despreze as conquistas empresariais, mas o valor delas é contingente a uma série de outras questões, como, por exemplo, a finalidade dessas conquistas e os meios empregados para obtê-las.
Agora, imagine os tipos de indivíduos que poderiam participar dessas sociedades. Provavelmente, existem indivíduos mais ou menos habilidosos, mais ou menos capazes de fazer grandes coisas, sejam elas no mundo do Conan ou no de Faramir. Em outras palavras, as habilidades necessárias para ser produtivo em ambas as sociedades são positivamente correlacionadas. Há, no entanto, diferenças importantes. Considere primeiro os indivíduos mais habilidosos. Esse indivíduo pode ser um monopolista, um titã da indústria valorizado pelas suas vitórias na sociedade do Conan, ou um empresário também vitorioso, mas valorizado pelo exercício da magnanimidade, da liberalidade e da caridade na sociedade de Faramir. Isso significa que, nesta última, o mais habilidoso é, de certa forma, limitado no que pode fazer, enquanto o mais forte dos empresários é um deus na primeira. Agora, considere os indivíduos na parte de baixo: aqueles que tiveram azar, os menos habilidosos. Estes indivíduos certamente estariam melhor no mundo em que o mais forte não é um deus, no mundo em que o empresário bem-sucedido olha para o mais fraco.
Com essa descrição, já é possível imaginar como seria a distribuição de resultados nessas duas sociedades. No mundo do Conan, os mais fortes se dão muito bem e os mais fracos, muito mal. Já na sociedade do Faramir, os fortes ainda se dão bem, mas nem tanto; já os fracos estão muito melhor do que nos fracos da sociedade do bárbaro, pois eles contam com a caridade e misericórdia dos fortes. Ou seja, a desigualdade é menor na sociedade do Faramir.
Agora, suponha que uma ponte seja construída ligando as duas sociedades, permitindo a migração entre elas. Quais seriam os imigrantes na sociedade de Faramir? Como as habilidades para ser bem-sucedido em ambas as sociedades são semelhantes, nenhum sujeito altamente habilidoso sairia do mundo do Conan. Por outro lado, todos os indivíduos de menor habilidade migrariam para a Sociedade de Faramir; afinal, lá contam com misericórdia. Ou seja, essa sociedade concentraria os indivíduos de baixa habilidade, não necessariamente porque eles acreditam nos valores do Príncipe de Gondor, mas sim porque eles se beneficiam de uma menor desigualdade. Essa sociedade ficaria repleta de indivíduos “fracos”, como diria Nietzsche. Nela, os fracos adquirem uma espécie de poder sobre os fortes. É uma espécie de poder, porque, na verdade, os fortes ainda são fortes, mas eles têm que seguir algumas regras, e é aqui que as coisas começam a dar problema, pois um fraco pode ser competente em manipular essas regras em seu favor. Um fraco que consiga emular valores caridosos pode subir na vida. O que nos faz voltar ao filme e sua conclusão.
Daniel, o super-homem
Em Sangue Negro, é como se Daniel, um habitante do mundo do Conan, tivesse caído inadvertidamente no mundo de Faramir. No fim, Daniel Plainview consegue construir o oleoduto e, assim, escoar sua produção sem precisar usar as ferrovias monopolizadas pela Standard Oil. O preço, no entanto, foi alto: a submissão ao sacerdote Eli. O filme retrata justamente o problema apontado por Nietzsche ou, talvez, pelo modelo de Roy inspirado pelo filósofo alemão: a moral cristã é utilizada por fracos, manipuladores e ressentidos que se valem dela para subjugar ou controlar homens excelentes sob o aspecto da força, capacidade, vitalidade etc.
De fato, a crítica é contundente e vale para o mundo em que vivemos. Valores como caridade, igualdade e justiça são frequentemente utilizados como pretexto por sociopatas para aumentar o controle sobre a sociedade. Por exemplo, pesquisas mostram que a sinalização de virtudes e de vitimização é mais frequente em indivíduos que possuem traços de personalidade conhecidos como “Dark Triad” (Maquiavelismo, Narcisismo e Psicopatia). Esse era claramente o caso de Eli. (Aliás, cenas análogas à do batismo se tornaram comuns nos tempos atuais, em que um indivíduo é forçado a pedir desculpas “para a internet” por opiniões.10)
O problema gerado por esses aproveitadores é que eles acabam deslegitimando os próprios valores civilizacionais, cuja origem está no cristianismo. O salto metonímico, que toma a parte pelo todo, faz com que cada vez mais pessoas (jovens principalmente) enxerguem nesses valores apenas aquilo que Nietzsche viu: uma moral feita por ressentidos para controlar os mais fortes. E para concluírem depois disso, assim como o filósofo, sobre a necessidade de surgirem super-homens, além do bem e do mal, que retomem as rédeas, não é preciso muito esforço. Nesse caso, os ressentidos, as tarântulas, eventualmente acabarão sendo varridos, junto com os valores civilizacionais, pela revolta dos Guerreiros. O que nos leva à última cena do filme.
Muito tempo depois, Daniel Plainview consegue sua vingança. A cena é tão boa que não me atrevo a transcrevê-la; o leitor pode (re)vê-la aqui. Vale destacar que, nessa cena final, ambos estão vestidos a caráter: Eli usa um terno de pregador com uma cruz gigante no pescoço, enquanto Daniel veste um casaco que, por diversas vezes, parece uma cota de malha, usada por guerreiros. O homem do petróleo humilha o sacerdote, forçando-o a reconhecer que ele é um mentiroso, um falso profeta e, em seguida, o assassina. O final de Sangue Negro é assustador, pois coloca o espectador diante de duas alternativas: ou um regime que advoga valores instrumentais ou o regime da força bruta.
Mas há esperança.
***
Antes da cena final entre Eli e Daniel, o filho adotivo do empresário, H.W., vai falar com o pai para se despedir. H.W. já é um homem feito, casado, e anuncia a Plainview que irá começar uma empresa própria, longe dele. Ele faz isso não com ódio nem ressentimento, mas com genuíno afeto pelo pai. O filho parece ter não só as qualidades do pai (não é um fraco), mas também os valores cristãos. Valores adotados não por conveniência instrumental, mas talvez, conforme explicou Max Scheler, como resultado de um transbordamento de vitalidade e força. Ele está mais próximo de Faramir do que de Conan. A resolução do dilema moderno passa pelo resgate das origens desses valores caros à civilização. Não há como a justiça, a igualdade e a caridade entrarem no mundo, exceto pelo reconhecimento da sua fonte. A garantia delas é a vida de Jesus Cristo, que exige de nós o que o catolicismo chama de Reta Intenção: agir com o propósito de amar a Deus. Ela é o antídoto contra os fracos que usam os valores da civilização para subverter a própria civilização. Um cristianismo heroico, como diria Henri de Lubac.
Eu terminei.
[Music cue: Johannes Brahms - Violin Concerto in D Major Op.77: 3. Vivace Non Troppo]
A tarefa de imaginar situações análogas para as mulheres é deixada como exercício para as leitoras.
Eu uso esse termo com a plena consciência de que o substantivo “Ocidente” foi alistado no serviço militar obrigatório e atualmente está na trincheira da “guerra cultural” e, assim sendo, acaba virando um signo sem referente na realidade. Seja como for, Ocidente nesse contexto significa apenas o povo que conhece a Ilíada, a Odisseia etc.
Nada demonstra mais claramente esse fato do que a vida dos santos e mártires da igreja. Por exemplo, São Maximiliano Kolbe, quando era prisioneiro em um campo de concentração nazista, entregou a sua vida colocando-se no lugar de um outro prisioneiro que fora aleatoriamente selecionado para ser executado. Kolbe amou o próximo de forma absolutamente corajosa e desinteressada, seguindo o exemplo de Cristo. Não há como encaixar o modelo nietzschiano nesse caso. De fato, apenas uma pessoa muito ressentida seria capaz de achar que a frase ‘ame ao próximo como a si mesmo’ é fruto de ressentimento.
Paridade Poder de Compra. A taxa de câmbio nominal não leva em conta o fato de que os preços entre os países são diferentes. Por exemplo, um corte de cabelo no Brasil custa muito menos do que um corte de cabelo médio na Inglaterra. Para ter uma ideia real do quanto vale uma moeda, precisamos ajustar pelas diferenças de preços entre os países.
De fato, a inteligência artificial do Google confirma isso.
Exercício inspirado em Borjas (1987).
Fala aí, Conan, o que é “o melhor” na vida?
'For myself,' said Faramir, 'I would see the White Tree in flower again in the courts of the kings, and the Silver Crown return, and Minas Tirith in peace: Minas Anor again as of old, full of light, high and fair, beautiful as a queen among other queens; not as a mistress of many slaves, nay, not even a kind mistress of willing slaves. War must be, while we defend our lives against a destroyer who would devour all; but I do not love the bright sword for its sharpness, nor the arrow for its swiftness, nor the warrior for his glory. I love only that which they defend: the city of the Men of Númenor, and I would have her loved for her memory, her ancientry, her beauty, and her present wisdom. Not feared, save as men may fear the dignity of a man, old and wise.'
—J.R.R. Tolkien, The Lord of the Rings: The Two Towers, "The Window on the West"
René Girard dizia que, após o cristianismo desvelar a farsa do bode expiatório, a violência passaria a ser feita em nome da vítima, como uma espécie de paródia demoníaca.


